Folha de S. Paulo
Escândalos chegam a uma disputa polarizada
Ambiente digital multiplica impactos públicos
Um espectro ronda a eleição presidencial de
2026. Aliás, não um, dois. O primeiro vem do escândalo dos descontos ilegais
do INSS. O
segundo, das investigações sobre Daniel
Vorcaro e o Banco Master.
Ambos continuam em desenvolvimento e já alcançaram as duas principais
candidaturas. Num país em que a prova de corrupção continua a ser uma arma
letal na disputa pelo Executivo, todos sabem que, a qualquer momento, um dos
dois escândalos pode desferir o golpe fatal.
A circunstância torna-se especialmente explosiva porque esta não é uma eleição normal de conquistar. O país chega à disputa partido ao meio, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em levantamentos recentes de segundo turno e rejeitados por parcelas enormes do eleitorado. Numa eleição assim, o veto pode importar mais do que o voto. Na impossibilidade de ampliar o próprio eleitorado, as campanhas passam a torcer —e, quando podem, a trabalhar— para que o outro lado seja o mais rejeitado. Uma revelação devastadora de última hora, a associação ao personagem errado e a vaca vai para o brejo.
É nesse terreno que entram os dois
escândalos. O dos descontos ilegais do INSS já alcançou o entorno de Lula, com
investigações envolvendo Lulinha e
integrantes do governo e da campanha. O Banco Master, por sua vez, aproximou-se
diretamente de Flávio Bolsonaro, que confirmou ter solicitado a Vorcaro
financiamento para um filme sobre o pai. Ambos possuem ramificações que
atravessam partidos e campos políticos. Para a eleição, porém, importa menos
reconstituir aqui cada episódio do que perceber que os dois casos já chegaram
suficientemente perto das candidaturas para permanecerem como ameaças reais até
outubro.
Nenhum de nós, cidadãos comuns, é capaz de
saber o que ainda falta aparecer, embora alimentemos a suspeita de que tem
gente que não só sabe o que ignoramos como está cuidadosamente reservando
coisas para revelar no momento que considerar conveniente. É este o suspense
que as campanhas e os candidatos adorariam evitar e que vai tornar essa disputa
presidencial tensa até o último minuto.
Ocorre que, na política digital
contemporânea, aquilo que não apareceu também circula. Basta alguém anunciar
que viu um vídeo, ouviu um áudio ou conhece mensagens comprometedoras para que
um conteúdo ainda inexistente para o público comece a produzir efeitos
políticos reais. Foi o que ocorreu com boatos sobre gravações das festas de
Vorcaro. Planta-se a promessa de que há registro de malfeitos para que se gerem
cortes, comentários, buscas, memes, acusações e desmentidos, o que obriga o
alvo a responder a uma prova que ninguém pode sequer examinar. Agora imaginem
isso num debate ou na propaganda eleitoral.
Há, depois, a questão do timing. Uma
revelação verdadeira divulgada a dois dias da votação pode ser eleitoralmente
tão difícil de desmentir de forma convincente quanto uma falsificação. A
campanha atingida terá poucas horas para responder. O jornalismo terá poucas
horas para verificar contexto, origem e autenticidade. Notem, além disso, que
2026 é a primeira eleição presidencial brasileira realizada sob condições de
inteligência artificial generativa madura, em que fabricar áudio, imagem,
vídeo, documentos visuais e dezenas de versões adaptadas da mesma acusação se
tornou muito mais barato e rápido. Na era do sintético, o desmentido pode
chegar quando a urna já estiver fechada.
Existe, ainda, o carimbo institucional. Uma
busca da Polícia
Federal, a abertura de um inquérito pelo Supremo, um indiciamento ou um
relatório de quebra de sigilo têm natureza e peso jurídicos muito diferentes.
Na arena eleitoral, porém, essas distinções tendem a desaparecer. PF e STF não
fazem campanha quando cumprem suas funções, mas o que ocorrer nesta seara de
agora até outubro, queiram ou não as autoridades, entra imediatamente na
campanha. E, se trechos de investigações, mensagens ou depoimentos continuarem
sendo vazados seletivamente e revelados deliberadamente em momentos-chave da
corrida eleitoral, o efeito sobre uma candidatura pode ser decisivo.
Nada disso significa que os escândalos do
INSS e do Master decidirão a eleição, mas, sim, que ambos permanecerão como
reservas de imprevisibilidade até o fim. Significa também que um vídeo, um
print ou um áudio com uma revelação decisiva de última hora, se viralizar, pode
ser o empurrão que basta para destruir uma campanha inteira. Por enquanto, os
dois espectros rondam como uma ameaça à eleição, mas, até outubro, não será
surpresa se um deles acabar abatendo uma candidatura.

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