quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Novos padrões e métricas para a diplomacia, por Fernando Exman

Valor Econômico

Regras do jogo nas relações internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições

Está evidente, para autoridades do governo Lula e diplomatas de carreira, que as regras do jogo nas relações internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições. Os próximos anos também já são dados como um período turbulento e de eventual transição, a depender do destino político de alguns dos líderes estrangeiros responsáveis pelas atuais crises e que já enfrentam problemas de popularidade em seus respectivos países.

Não será uma adaptação trivial para uma tradicional instituição de Estado como o Itamaraty. Seu patrono, o barão do Rio Branco, cunhou conceitos, premissas e condutas até hoje seguidas no Ministério das Relações Exteriores. Práticas que sempre funcionaram, aqui e no exterior, em um ambiente marcado em geral pela cordialidade mesmo em momentos de maior tensão.

De autoria do diplomata aposentado Affonso José Santos, o livro “O barão e a gastronomia” recupera um pouco dessa história. Mostra os bastidores de como José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão Rio Branco, colocou em prática a hoje conhecida estratégia de usar o entretenimento e a gastronomia como instrumentos de trabalho.

A história se dá em Berna, para onde o diplomata brasileiro foi enviado pelo presidente Rodrigues Alves com a missão de defender os interesses brasileiros durante fase decisiva do contencioso com a França em razão da fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. As partes haviam escolhido o governo suíço como autoridade arbitral, responsável pela coleta das defesas de cada lado e o julgamento que acabou sendo determinante para a formação do território nacional.

Novo na cidade, Rio Branco precisou desdobrar-se para conhecer as opiniões dos diversos peritos que estudavam a questão para auxiliar a autoridade arbitral. A saída foi estabelecer-se socialmente e sua residência foi transformada em um disputado local de recepção. Quem frequenta os almoços e jantares oferecidos a autoridades estrangeiras no Itamaraty pode identificar semelhanças no cuidado com os detalhes, na distribuição de lugares à mesa e no cerimonial. Tudo pensando para que a conversa flua. É nesse ambiente que os diplomatas brasileiros têm intensificado seus contatos, por exemplo, com interlocutores de México e Canadá - países que também enfrentam problemas com os Estados Unidos.

Do ponto de vista formal, a referência continua sendo a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, principal tratado que rege a atuação de embaixadores e disciplina as relações entre países. Um longo texto com mais de 50 artigos, entre eles o que tenta impedir interferências em assuntos internos de outros países, que alguns parecem ignorar.

É verdade que em relação à Argentina e aos Estados Unidos o presidente Lula dá razão àqueles que o criticam por ter tomado partido dos adversários dos presidentes Javier Milei e Donald Trump. Os dois, no entanto, avançaram muito mais o sinal.

Ao participar da convenção que formalizou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, Milei partiu para ataques pessoais, chamando Lula de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista”.

Seguindo o manual, o Itamaraty rebaixou as relações diplomáticas com Buenos Aires enquanto persistissem os ataques de Milei. Acabou assistindo a mais um lance fora dos padrões, com o chanceler do país vizinho dizendo esperar que o Brasil se una em outubro à onda conservadora pela qual passa a América do Sul.

Já Trump manteve as relações bilaterais em “banho-maria”, sem indicar um embaixador para representá-lo em Brasília por meses a fio, até que colocou o Brasil entre os alvos prioritários do tarifaço e demais ações políticas do Departamento de Estado.

Fugindo da tradição consolidada pela Convenção de Viena, anunciou um embaixador sem que o escolhido tivesse recebido o sinal verde do Ministério das Relações Exteriores. Em retaliação à demora para a concessão do agrément a seu indicado, rebaixou o status da credencial da embaixadora do Brasil em Washington. Na prática, apresentou ao Brasil um dilema: manter sua representante com possíveis limitações de atuação ou chamá-la para Brasília para consultas, o que lhe impediria de retornar à capital americana.

Dessa forma, o Departamento de Estado pode evitar o constrangimento de aparecer no noticiário internacional como responsável pela rara crise numa relação bicentenária. Por outro lado, caso opte por assumir o risco de convocar a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti para uma reunião no Palácio do Planalto, o presidente Lula ainda pode acabar acusado por seus adversários de ter sido o responsável pela interrupção do diálogo com os EUA.

“O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente com base em métricas e padrões do passado”, escreveu o chanceler Mauro Vieira em um recente artigo publicado no Correio Braziliense, no qual também explicita um outro livro que tem circulado em importantes gabinetes em Brasília: “Hora dos predadores”, de Giuliano da Empoli.

Já na capa o autor adianta que visa mostrar como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado. Ou seja, como o equilíbrio geopolítico está cedendo para um cenário onde volta a prevalecer a força, em um campo de batalha impactado pelo uso de inteligência artificial, a guerra de narrativas e a manipulação de dados. É com essa visão que a diplomacia brasileira tenta se reposicionar, diante de uma campanha eleitoral que tem como um de seus temas principais a “defesa da soberania”.

 

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