Valor Econômico
Regras do jogo nas relações internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições
Está evidente, para autoridades do governo
Lula e diplomatas de carreira, que as regras do jogo nas relações
internacionais mudaram e os desafios neste campo irão aumentar até as eleições.
Os próximos anos também já são dados como um período turbulento e de eventual
transição, a depender do destino político de alguns dos líderes estrangeiros
responsáveis pelas atuais crises e que já enfrentam problemas de popularidade
em seus respectivos países.
Não será uma adaptação trivial para uma tradicional instituição de Estado como o Itamaraty. Seu patrono, o barão do Rio Branco, cunhou conceitos, premissas e condutas até hoje seguidas no Ministério das Relações Exteriores. Práticas que sempre funcionaram, aqui e no exterior, em um ambiente marcado em geral pela cordialidade mesmo em momentos de maior tensão.
De autoria do diplomata aposentado Affonso
José Santos, o livro “O barão e a gastronomia” recupera um pouco dessa
história. Mostra os bastidores de como José Maria da Silva Paranhos Júnior, o
barão Rio Branco, colocou em prática a hoje conhecida estratégia de usar o
entretenimento e a gastronomia como instrumentos de trabalho.
A história se dá em Berna, para onde o
diplomata brasileiro foi enviado pelo presidente Rodrigues Alves com a missão
de defender os interesses brasileiros durante fase decisiva do contencioso com
a França em razão da fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. As partes
haviam escolhido o governo suíço como autoridade arbitral, responsável pela
coleta das defesas de cada lado e o julgamento que acabou sendo determinante
para a formação do território nacional.
Novo na cidade, Rio Branco precisou
desdobrar-se para conhecer as opiniões dos diversos peritos que estudavam a
questão para auxiliar a autoridade arbitral. A saída foi estabelecer-se
socialmente e sua residência foi transformada em um disputado local de
recepção. Quem frequenta os almoços e jantares oferecidos a autoridades
estrangeiras no Itamaraty pode identificar semelhanças no cuidado com os
detalhes, na distribuição de lugares à mesa e no cerimonial. Tudo pensando para
que a conversa flua. É nesse ambiente que os diplomatas brasileiros têm
intensificado seus contatos, por exemplo, com interlocutores de México e Canadá
- países que também enfrentam problemas com os Estados Unidos.
Do ponto de vista formal, a referência
continua sendo a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, principal
tratado que rege a atuação de embaixadores e disciplina as relações entre
países. Um longo texto com mais de 50 artigos, entre eles o que tenta impedir
interferências em assuntos internos de outros países, que alguns parecem
ignorar.
É verdade que em relação à Argentina e aos
Estados Unidos o presidente Lula dá razão àqueles que o criticam por ter tomado
partido dos adversários dos presidentes Javier Milei e Donald Trump. Os dois,
no entanto, avançaram muito mais o sinal.
Ao participar da convenção que formalizou a
candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, Milei partiu para ataques
pessoais, chamando Lula de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista”.
Seguindo o manual, o Itamaraty rebaixou as
relações diplomáticas com Buenos Aires enquanto persistissem os ataques de
Milei. Acabou assistindo a mais um lance fora dos padrões, com o chanceler do
país vizinho dizendo esperar que o Brasil se una em outubro à onda conservadora
pela qual passa a América do Sul.
Já Trump manteve as relações bilaterais em
“banho-maria”, sem indicar um embaixador para representá-lo em Brasília por
meses a fio, até que colocou o Brasil entre os alvos prioritários do tarifaço e
demais ações políticas do Departamento de Estado.
Fugindo da tradição consolidada pela
Convenção de Viena, anunciou um embaixador sem que o escolhido tivesse recebido
o sinal verde do Ministério das Relações Exteriores. Em retaliação à demora
para a concessão do agrément a seu indicado, rebaixou o status da credencial da
embaixadora do Brasil em Washington. Na prática, apresentou ao Brasil um
dilema: manter sua representante com possíveis limitações de atuação ou
chamá-la para Brasília para consultas, o que lhe impediria de retornar à
capital americana.
Dessa forma, o Departamento de Estado pode
evitar o constrangimento de aparecer no noticiário internacional como
responsável pela rara crise numa relação bicentenária. Por outro lado, caso
opte por assumir o risco de convocar a embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti
para uma reunião no Palácio do Planalto, o presidente Lula ainda pode acabar
acusado por seus adversários de ter sido o responsável pela interrupção do
diálogo com os EUA.
“O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas
relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir
unicamente com base em métricas e padrões do passado”, escreveu o chanceler
Mauro Vieira em um recente artigo publicado no Correio Braziliense, no qual
também explicita um outro livro que tem circulado em importantes gabinetes em
Brasília: “Hora dos predadores”, de Giuliano da Empoli.
Já na capa o autor adianta que visa mostrar
como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso
orquestrado. Ou seja, como o equilíbrio geopolítico está cedendo para um
cenário onde volta a prevalecer a força, em um campo de batalha impactado pelo
uso de inteligência artificial, a guerra de narrativas e a manipulação de
dados. É com essa visão que a diplomacia brasileira tenta se reposicionar,
diante de uma campanha eleitoral que tem como um de seus temas principais a
“defesa da soberania”.

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