terça-feira, 2 de setembro de 2014

Arnaldo Jabor: O bicho vai pegar em quem?

- O Globo

O Brasil se move por acaso. Os rumos da história, se é que tem rumos, tendem a se enrolar em si mesmos e só fatos, traumas inesperados disparam a mutação. Que quer dizer essa frase? Que não são apenas as 'relações de produção' que explicam nossa marcha, mas os detalhes, as ínfimas causas, as bobagens casuais e tragédias intempestivas fazem o Brasil andar.

Getúlio deu um tiro no peito e adiou a ditadura por dez anos. Jânio tomou um porre e pediu o boné, um micróbio entrou na barriga do Tancredo e mudou nossa vida, encarando o Sarney por cinco anos, o Collor foi eleito por sua pinta de galã renovador e acabou 'impichado' por suas maracutaias. Roberto Jefferson mostrou sua carteirinha de corrupto, se denunciou junto com os mensaleiros e mudou a paisagem política. E agora Marina Silva pode ser presidente, em vez da presidenta.

Com a população mal informada em sua maioria (não falo dos miseráveis e analfabetos, mas de gente de terno e gravata) sobre as complexas questões da política e da economia, a emoção e a catarse movem o País.

Agora, estamos na expectativa; somos o país do eterno suspense: Marina vai ser eleita ou não? Será que o efeito "tragédia" vai se evaporar? A grande mudança seria, claro, a social-democracia apta a desfazer as boquinhas e os pavorosos erros com que o PT nos brindou. Aécio, se eleito, pode trazer a agenda correta. Mas, se Marina ganhar, teremos um outro tipo de mudança, uma virada para um "novo" desconhecido, uma virada psicológica e cultural inesperada. Não adianta analisar Marina com os instrumentos de análise costumeiros.

Agora, em vez dos óbvios vexames do PT, estamos diante do mistério Marina.

Marina é 'sonhática'ou não? Marina é populista? Marina é de esquerda ou não? Nada. No entanto, amigo leitor, Marina pode ser o olho de um furacão que, claro, jamais conseguirá renovar a velha política sólida; mas ela pode criar um 'caos' na vida política. Talvez até um "caos progressista" pelo avesso. Que é isso que quero dizer? Marina pode vir a bagunçar mais a bagunça existente, mas poderá ser uma "bagunça crítica", que pode trazer uma espécie de "destruição criadora" nesta zorra instalada.

Para falar em termos de "contradições negativas", que eles tanto amam, o caos que Lula, Dilma e o PT criaram na vida nacional pode ter sido o gatilho para uma revisão em busca de um modelo melhor. Se Marina vencer, será sabotada continuamente pelos vagabundos que se instalaram no Estado, será confrontada pelas barreiras fisiologistas dos parlamentares, talvez quebre a cara tentando. Mas, mesmo que fracasse, teremos um "caos mais moderno", tirando do poder a velha cartilha regressista dos nossos bolivarianos. Mesmo que ela se perca na selva dos meliantes da política, não será mais irracional que os atuais governantes. O súbito surgimento inconcebível dessa moça da floresta e suas abstratas declarações são uma prova encarnada do delírio político do País. Com a queda do avião, houve uma grande reviravolta trágica que resultou em uma comédia de erros. Ninguém sabe o que vai nos acontecer.

Podemos decifrar, analisar, comprovar crimes ou roubos, mas nada se move, porque a maior realização deste governo foi justamente a desmontagem da Razão. Se bem que nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no País não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas. O caudilhismo sindicalista de Lula serviu para entendermos melhor nossa deformação. Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos como "democracia, respeito à lei, ética" viraram insuficientes raciocínios contra um cinismo impune. Lula com seu carisma de operário sofredor nos decepcionou, revelando-se um narcisista egoísta e despreparado, enquanto o melhor governo que tivemos, do FHC, ficou no imaginário da população como um fracasso, movido pela campanha de difamação sistemática e pela babaquice dos tucanos que não se defenderam. Os petistas têm mania da ideologia da contramão. Fizeram tudo ao contrario do óbvio, movidos por uma ridícula utopia revolucionária, quando na realidade só fizeram avacalhar o País.

Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades fecundas como um adubo sagrado, belas como nossas matas, cachoeiras e flores. Ao menos, estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da terra, tudo como plano de aceleração do crescimento. Fizeram tudo para a reestatização da economia, incharam a máquina pública, invadiram as Agências Reguladoras, a Lei de Responsabilidade Fiscal, em busca de um getulismo tardio, com desprezo pelas reformas, horror pela administração e amor aos mecanismos de "controle" da sociedade, esta "massa atrasada" que somos nós. A esquerda psicótica continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições. Acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional.

Os petistas têm uma visão de mundo deturpada por conceitos acusatórios: luta de classes, vitimização, culpados e inocentes, traidores e traídos. Petistas só pensam no passado como vítimas ou no futuro como salvadores e heróis. O presente é ignorado, pois eles não têm reflexão crítica para entendê-lo. Reparem que Dilma na TV só fala do que "vai fazer", se for eleita. Por que não fez antes, nos 12 anos da incompetência corrosiva? A solução é mentir: números falsos, contabilidade falsa. 

Antigamente, se mentia com bons álibis; hoje, as tramoias e as patranhas são deslavadas; não há mais respeito nem pela mentira. É isso aí, amigos, o bicho vai pegar. Em quem?

José Casado: Amargura e Preconceito

• Frustrado com ‘o povo’, Lula receitou a ‘desconstrução’ de Marina no estilo Collor. Dilma agora usa a Presidência para vaticínios apocalípticos sobre a economia

- O Globo

"Companheiros e companheiras" - ele disse ao séquito do partido que partilhava o lombo de um caminhão. Lula fez a pausa estudada e completou: "Eu acho que está na hora de vocês darem um jeito."

O político que se considera o mais popular do Brasil dava vazão à sua amargura com o eleitorado: "Eu não posso entender como é que o povo reclama tanto da educação, que o povo reclama tanto do transporte, que o povo reclama tanto da saúde, que o povo reclama tanto da segurança e o (Geraldo) Alckmin tem 50% nas pesquisas de opinião pública. Alguma coisa está errada!"

Aconteceu na noite fria de quarta-feira (28), em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, durante um comício do candidato do PT ao governo paulista, Alexandre Padilha (45 pontos abaixo de Alckmin). Com Lula no palanque, o partido esperava reunir dez mil pessoas no centro, no horário da saída do trabalho. A audiência ficou restrita a meia praça, incluídos "plaqueiros" com R$ 30 de diária.

Lula não escondia a frustração. Pesquisas, inclusive as do próprio PT, confirmavam a ameaça real de uma expressiva derrota dos seus candidatos tanto na disputa presidencial quanto na maioria dos 19 estados onde concorrem (com destaque para São Paulo), além de eventual redução da bancada no Congresso (103 cadeiras, atualmente) e nas assembleias (149).

Na noite anterior o Ibope retratara o declínio da presidente-candidata Dilma Rousseff, sua alta rejeição e a ascensão de Marina Silva. À frente da matriz de São José, Lula falou das pesquisas. E, sem citar o nome de Marina, deu a receita sobre como se "fazer alguma coisa".

Indicou a fórmula da disseminação do medo ("não deixem o Brasil voltar ao que era antes de 2002, os mais jovens não sabem o que era o Brasil antes de eu chegar à Presidência"), e da introdução da adversária na galeria dos aventureiros (definiu-a como "alguém que não é político"). Nas horas seguintes, o PT começou uma guerrilha para "desconstrução" de Marina. O estilo é idêntico àquele que Fernando Collor impôs a Lula na disputa de 1989, com uma novidade - pitadas de preconceito religioso.

Dilma, candidata cuja taxa de rejeição já supera a soma das suas intenções de votos, parece ter se esquecido de que é presidente. Abandonou o roteiro do "otimismo" e passou a usar a Presidência como tribuna para profetizar o caos. Agora emite vaticínios apocalípticos diários sobre a economia em um eventual governo adversário, embora sua administração exiba um dos três piores índices de crescimento econômico dos 125 anos da história republicana.

Na vida real, Lula e Dilma tentam dissimular um fato relevante que emergiu com as manifestações de rua do ano passado, ganhou corpo nesta campanha e, em boa medida, independe do resultado das urnas dentro de quatro semanas: sobram indícios do fim de um ciclo na política brasileira.

Além de confirmar um desejo majoritário por mudanças, as mais recentes pesquisas indicam que Marina, com apenas dez dias de campanha, ultrapassou Dilma e lidera com até 18 pontos de vantagem na fatia do eleitorado cuja renda mensal varia entre R$ 1.400 e R$ 3.600, não tem plano de saúde e trabalho assalariado. Sinalizam o ocaso da hegemonia que a máquina eleitoral petista ergueu sobre a maioria pobre.

'Uma nova política global já está aí, amorfa" diz o historiador Silvio Pons

• Em livro, professor italiano analisa a história do comunismo internacional e o fim da União Soviética

• ‘A rejeição da política como solução para a vida me preocupa’, afirma o historiador Silvio Pons

Leonardo Cazes – O Globo (1/8/2014)

RIO - Silvio Pons começou seus estudos na Universidade de Florença, na década de 1970, quando novas pesquisas sobre a experiência soviética se multiplicavam pelo continente. Aluno de Giuliano Procacci, o historiador é especialista na política externa da União Soviética e hoje ocupa o cargo de diretor da Fundação Instituto Gramsci, na Itália. Em entrevista ao GLOBO, durante passagem pelo Rio de Janeiro para lançar o livro “A revolução global: história do comunismo internacional (1917-1991)” (Contraponto/Fundação Astrojildo Pereira), ele aponta que a origem da crise da URSS foi política, mais do que econômica, e analisa o imaginário político comunista marcado pelas guerras.

Conte algo que não sei.

As guerras foram o grande fator de ascensão das revoluções comunistas no século XX, não as crises do capitalismo. A Revolução Russa está ligada à Primeira Guerra Mundial; a Revolução Chinesa, à Segunda Guerra. Nenhuma revolução surgiu a partir da Grande Depressão, em 1929, ou do choque do petróleo nos anos 1970. O avanço comunista na Indochina, nessa época, está relacionado às duas guerras anteriores na região.

Essas guerras impactaram o pensamento comunista?

A imaginação política comunista ficou muito marcada pela guerra desde o início. Houve uma combinação entre ideologia e experiência. Havia uma visão catastrófica do capitalismo. Para os comunistas, a História era violenta, o capitalismo era violento. Essa seria a origem dos conflitos e por causa deles haveria revolução. É diferente do fascismo, que via a guerra como um projeto de conquistas territoriais.

Então essa é a raiz do autoritarismo desses regimes?

Isso contribui para explicá-lo, mas não só. Havia o ethos do sacrifício, de se preparar para tempos difíceis para que houvesse dias melhores. O autoritarismo também estava ligado à ideia comunista de uma guerra civil mundial inevitável. A noção do comunismo como uma modernidade alternativa ao capitalismo não se referia apenas à construção de uma sociedade melhor, mas também a uma preparação para essa guerra que viria. Esse foi o foco da modernização soviética feita por Josef Stalin, por exemplo.

O senhor vê a principal razão do fim da União Soviética em uma crise política, mais do que econômica. Por quê?

Nos anos 1980, não havia recessão econômica na União Soviética, mas estagnação. Hoje na Europa também há estagnação, e nem por isso a União Europeia vai acabar. As raízes da desagregação estão nas muitas contradições na relação entre o Estado soviético e os partidos e os Estados comunistas. É o choque entre um projeto de revolução mundial e os interesses de um Estado. Quando há a ruptura entre a China e a União Soviética (em 1963), acaba a unidade do movimento comunista internacional. Ali, ele perde a sua legitimidade como um projeto global de alternativa ao capitalismo. Em maio de 1968, a crise do comunismo já existia, mas não foi compreendida.

A China hoje pode ser considerada um país comunista?

Sim e não. Há legado do comunismo na China, que não pode ser entendida sem a revolução. Há um partido comunista, um comitê central. Mas, a partir dos anos 1980, o país abandonou o projeto global de uma modernidade anticapitalista e fez sua transição para um autoritarismo de mercado. A China abandonou a característica básica do comunismo no século XX, sua ambição universal.

Em todo o mundo, as pessoas parecem desiludidas com a política. A utopia faz falta?

A rejeição da política como solução para a vida me preocupa, talvez porque eu esteja ficando velho (risos). Mas não devemos ser nostálgicos da era das grandes ideologias. O fim do comunismo legou uma falta de fé em qualquer transformação política, pois era uma experiência hiperpolítica que falhou. Creio que uma nova política global já está aí, amorfa e dispersa, e vai emergir em algum momento de formas que ainda não conhecemos. A Primavera Árabe foi um exemplo disso.

Daniel Aarão Reis: A necessária reconstrução da utopia socialista

Quando se desagregaram o socialismo soviético e seus clones históricos na Europa Central e na Ásia, e apesar da existência remanescente de ditaduras que se conservaram, invocando princípios revolucionários, em Cuba e na Coreia do Norte, instalaram-se tempos difíceis e pessimistas para todos os adeptos da gesta socialista, concebida no século XIX.

Mesmo os críticos mais radicais do socialismo realmente existente, muitos dos quais questionavam o próprio caráter socialista daqueles regimes, foram alcançados, por tabela, pelo desmoronamento surpreendente do colosso soviético e pelas mutações não menos inesperadas por que passava o antigo Império do Meio. Como se fossem imensas árvores, de fundas raízes, a queda de uma e a transformação da outraarrastaram consigo tudo o que fora ligado ou associado às tradições socialistas. O desmoronamento repercutiu intensa e negativamente em todo o campo da opinião simpática à, ou partidária da, ideia socialista, tanto mais porque tais processos seriam potencializados, em chave triunfalista, pelos poderosos meios de comunicação identificados com o capitalismo.

Ao mesmo tempo, contudo, como não há perdas sem ganhos, despejaram-se os horizontes daquelas pesadas hipotecas que sombreavam a proposta de construção do socialismo. Para os que mantiveram, segundo a recomendação do revolucionário sardo, o otimismo da vontade, mediado embora pelo pessimismo da razão, abriram-se perspectivas fascinantes e inovadoras, capazes de semear o terreno para a formulação da crítica do passado e de novas alternativas históricas para o futuro.

Mesmo porque, ao contrário do que imaginavam certos “cães de guarda”, não findara a história nem se havia atenuado a lógica predadora e desigual do capitalismo a suscitar continuamente contradições e oposições, desafios e espírito crítico.

É exatamente deste espírito crítico, de que tanto carece a reelaboração da utopia socialista, que este livro está permeado.

Silvio Pons, consagrado professor de História do Leste Europeu, na Universidade de Roma II (Tor Vergata), autor de numerosas obras sobre o socialismo soviético e o movimento comunista internacional, em especial no contexto da Guerra Fria, nos apresenta nas páginas que se seguem um rigoroso balanço histórico do modelo socialista soviético e do comunismo internacional no século XX, da revolução de outubro à dissolução da União Soviética.

O que impressiona, em primeiro lugar, é a diversidade e a qualidade das fontes exploradas, onde se destacam os arquivos russos (Arquivos da Internacional Comunista e do Partido Comunista da União Soviética, Arquivos de Estado para Relações Exteriores, História Contemporânea e História Política e Social), os de alguns importantes partidos comunistas da Europa Central e Ocidental e os de instituições dedicadas à história do comunismo, como a Hoover Institution, em Stanford, a Fundação Gorbachev, em Moscou, e a Fundação Feltrinelli, em Milão. Este variado corpus documental oferece sólida base empírica para as análises e interpretações do Autor. Por outro lado, Pons estabelece diálogo com atualizada bibliografia, compreendendo estudiosos contemporâneos de variados vínculos institucionais e origens nacionais, garantindo ao texto um raro padrão de excelência internacional, mesmo que, em determinados momentos, suas afirmações possam merecer reservas ou considerações críticas, o que é inevitável em debates deste nível de qualidade.

Em narrativa densa, através de seis capítulos, estendendo-se do “tempo da revolução” (1917/1923) ao “tempo da crise (1968/1991), passando pelos “tempos” do Estado (1924/1939); da guerra (1939/1945); do império (1945/1953) e do declínio (1953/1968), complementada por um prólogo e um epílogo, Silvio Pons oferece um painel amplo e penetrante de uma história de guerras e revoluções, de imensas esperanças e de grandes frustrações, de tentativas coroadas de êxito e de erros catastróficos, de análises adequadas e de equívocos insanáveis, procurando compreender, associando-se a um empreendimento iniciado já nos anos 1920 e 1930 por estudiosos de distinta orientação, como e porque puderam ter sido geradas tiranias abomináveis no ventre de uma proposta originalmente comprometida com a justiça, a liberdade e a igualdade.Como e porque uma proposta de futuro pôde se aninhar no passado de uma forma tão drástica em relativamente tão pouco tempo. Em síntese: como o socialismo fracassou no século XX.

Quatro questões parecem-me fecundas no estudo de nosso autor. Elas têm sido recorrentemente investigadas e analisadas por diferentes pesquisadores, os quais, em alguma medida, sintetizam as preocupações de Silvio Pons e com muitos dos quais, aliás, ele dialoga.

A primeira diz respeito às bases históricas e sociais do autoritarismo socialista. A segundatem a ver com as relações entre o Estado soviético e o movimento comunista internacional, asdifíceis interações entre nacionalismo e internacionalismo no contexto da história do comunismo no século XX. A terceira trata da inevitabilidade, ou não, do desmoronamento histórico do modelo soviético. E a quarta, finalmente, aborda o papel histórico que terá sido desempenhado pelo comunismo e pelo “modelo soviético” ao longo do século passado.

As considerações a respeito destes temas, evidentemente, não esgotam de modo algum, longe disso, o conteúdo do livro que você tem em mãos. Apenas as faço como uma introdução ao livro de Silvio Pons, como se fora um estímulo à reflexão sobre a obra que escreveu.
I
O autoritarismo comunista, como se sabe, tem bases múltiplas, teóricas, históricas, sociais, nacionais e internacionais. Estudá-las, em sua complexa interação, é contribuir para compreender a dinâmica ditatorial assumida por um projeto que tinha, porém, em seus inícios, a igualdade social e a liberdade política como objetivos entrelaçados.

A sublevação do povo de Petrogrado, em fevereiro de 1917, dando início ao processo da revolução russa, foi marcada por uma surpreendente – e vigorosa – afirmação da organização autônoma das gentes – plasmada nos conselhos de operários e soldados, os sovietes das cidades, dos quartéis e das trincheiras, comprometidos, como parlamentos plebeus, com a liberdade de expressão e de organização e com a disputa contraditória de ideias e de programas. Num segundo momento, este processo de auto-organização alcançaria as massas camponesas e as nações não russas,as quais multiplicariam comitês e organizações que eram resultado e fator das disputas políticas, desenvolvidas em atmosfera de grande liberdade, apesar de contratendências autoritárias, cuja existência, de resto, era inevitável, considerando-se a escassíssima – quase irrelevante – tradição democrática no solo social e político do Império russo, não fora este último conhecido como o “cárcere dos povos”.

Contudo, a atmosfera de liberdades, que tanto impressionava os contemporâneos, nativos ou visitantes, cedo esvaiu-se, esvaziou-se, transformando-se os sovietes – de parlamentos legislativos e executivos – em meras fachadas, colonizadas pelos bolcheviques, aparelhos de ratificação de vontades elaboradas em outros centros de poder.

Como isto pudera ter acontecido em tão breve tempo?

Silvio Pons aponta dois processos maiores, entrelaçados e decisivos: a cultura política da revolução catastrófica e a lógica da guerra civil, incompatíveis com os valores democráticos. As guerras, por mais comprometidas originalmente com a conquista de liberdades, não tendem, por natureza, a se coadunar com as liberdades democráticas. Na vigência destas, o adversário derrotado é preservado e, mais do que isto, garantido, para poder, em momento seguinte, tornar-se vitorioso no quadro da alternância de poder, pressuposto básico dos regimes democráticos. Nas guerras, ao contrário, o adversário se transforma em inimigo que urge destruir e aniquilar definitivamente. Daí decorrem imperativos hierárquicos, verticais, sumários. A ordem substitui a persuasão, a disciplina uniformizadora prevalece sobre a diferença, a decisão centralizada e rápida mata o debate. Num momento posterior, em outro movimento, o da revolução pelo alto em fins dos anos 1920, a perspectiva da construção de um Estado demiurgo, centralizado e ditatorial, como agente transformador das condições econômicas, sociais, políticas e culturais, selou em definitivo a sorte das liberdades e da democracia na experiência soviética.

Tais referências, trabalhadas e criticadas com acuidade pelo Autor, nos remetem para o plano das opções do partido bolchevique dominante, cedo convertido em partido único, fundido ao Estado, o partido-Estado, numa construção original que, antes de surpreender os críticos, confundiu os próprios revolucionários, muitos dos quais se viram involuntariamente arrastados na torrente estatista revolucionária, figurada na famosa metáfora de Lenin, vendo-se como o motorista de um carro rolando ladeira abaixo, sem freios, de pouco adiantando manter comandos formais que não se faziam obedecer na prática.

Na conformação do autoritarismo que se foi afirmando, haveria, talvez, que apontar mais duas dimensões.

A das tradições social-democratas – das quais, recorde-se, os bolcheviques eram apenas um ramo. Inebriados pelo cientificismo triunfante do último quartel do século XIX, os social-democratas ousaram transformar a política em ciência, uma ciência que se queria, petulantemente, certa e bem sabida, exata, como era próprio do ar do tempo. Os social-democratas não apenas transferiram estas concepções científicas para o campo imprevisível e imprevisto da política, mas também não tardaram em investir-se como seus únicos guardiões, daí decorrendo a ideia – falaciosa – de que eram os únicos representantes de trabalhadores, cujos movimentos, ao contrário, caracterizavam-se por múltiplas diferenças e identidades.

A outra dimensão refere-se às demandas sociais, históricas. O Leviatã que se formou na União Soviética revolucionária não foi obra somente da vontade do partido bolchevique dominante, ou da de Stalin, conforme o primário diagnóstico de N. Khruschev, mas igualmente, ou principalmente, expressão da vontade de amplas camadas e classes que, embora reprimidas, participaram ativa e conscientemente da construção do Estado. Em movimento inédito na história daquele país e do mundo, plebeizaram-se as principais instituições políticas, como apontou N. Werth. Combinando o messianismo religioso dos russos com o científico dos bolcheviques, chancelou-se um processo de modernização acelerada, sob ritmos demenciais, articulado com o objetivo grandioso de uma revolução mundial (M. Lewin). Ensejaram-se, assim, mudanças radicais, desmentindo uma certa historiografia liberal- conservadora, segundo a qual o Estado soviético não foi senão a repetição do mesmo, a continuação, com outras roupagens, do Estado czarista.

O que se quer dizer, em resumo, é que as chaves para a elucidação do autoritarismo comunista passam pela dupla compreensão da cultura política hegemônica – o catastrofismo revolucionário associado à ilusão purificadora e regeneradora da guerra, mais a “cientifização” da política – e das bases sociais e históricas que potencializaram esta cultura no solo histórico e nas circunstâncias conjunturais russas.
II
Acompanhando a melhor historiografia, Silvio Pons bem assinala que na insurreição de Outubro, elo essencial do processo revolucionário russo, houve uma aposta – o eventual triunfo dos bolcheviques seria complementado e, num segundo momento, liderado pelas revoluções na Europa Central e Ocidental. Fazia parte das concepções universalistas vigentes. O socialismo seria internacional ou não seria.

Aposta perdida. Esperanças, não totalmente ilusórias, ainda foram cultivadas até outubro de 1923, quando, pelo menos a curto prazo, desapareceu a hipótese de revolução na Europa.

Restaram os povos dominados pelo colonialismo ou dependentes, em outras modalidades, das grandes potências capitalistas. A Ásia e, em especial, a China, mereceram atenção particular. Para incentivar a revolta anticolonial e anti-imperialista, havia a Internacional Comunista, fundada em 1919, e o Estado soviético, consolidado em 1922. Haviam falhado em “promover” a revolução na Europa. Teriam, agora, uma segunda chance na China e na Ásia.

Num primeiro momento, para todos, e para todo o sempre, para muitos, não havia contradição antagônica entre a URSS e o Movimento Comunista Internacional. Ambos se apoiariam e, do seu mútuo agenciamento, brotaria a revolução mundial. Havia ali um compartilhamento de referências, um coerente universo, que favorecia o centralismo e a uniformidade. Assim se fez a Internacional Comunista. Incorporadas as concepções catastróficas, transformou-se logo numa máquina de guerra, e, como tal, militarizada, hierárquica.

A questão, registrou Pons lucidamente, é que, tanto na Europa como na Ásia, afloravam situações extremamente diversas, difíceis de caber em moldes pré-fabricados e de obedecer a centros hierárquicos. A II Guerra e suas exigências mascararam o processo, mas não impediram o florescimento da diversidade. A dissolução da Internacional, em 1943, apenas superficialmente reconheceu as evidências de uma crescente diferenciação. Permaneceram, ocultas, as ambições centralistas e uniformizadoras, intrinsecamente inseparáveis das concepções políticas vigentes. Com a transformação da União Soviética em superpotência e a instauração da Guerra Fria e da bipolaridade, reforçaram-se o universalismo e o centralismo. Como numa espiral, reproduziam-se, em escala ampliada, os mesmos problemas e as mesmas tendências, anteriores à II Guerra Mundial, agora exacerbados. Aspirações particulares eram travadas e sufocadas. Nesta atmosfera, alternativas transformavam-se em dissidências, logo expelidas do “mundo socialista” – foi o caso da Iugoslávia, em 1948. As demais democracias populares – que não eram democráticas nem populares – passaram por enquadramentos e expurgos que as fizeram cópias empobrecidas da matriz, garantidas pela presença do exército soviético.

Depois da morte de Stalin, no contexto das aberturas promovidas na URSS, pareceu possível ampliar aqueles horizontes. A ideia de um policentrismo, proposta pelos comunistas italianos, muito mais adequada ao processo histórico real, chegou a ser cogitada, mas não prevaleceu. Para se impor, carecia de uma revisão, pela base, de tradições arraigadas. Não havia força política suficiente para viabilizar tal objetivo.

Nesta atmosfera, a diversidade tinha dois caminhos – ocultava-se ou se tornava um cisma. A trajetória dos comunistas italianos foi emblemática da opção por um aggiornamento disfarçado –a unidade na diversidade. A dos chineses explodiu num cisma. Sintomaticamente, por não rever em profundidade as concepções historicamente compartilhadas, reproduziu, em sua área de influência, o controle e, no limite, o sufocamento das particularidades. Beijing converteu-se numa nova Moscou.

Não foi possível, no entanto, em qualquer variante, deter o processo histórico de contínua diferenciação, determinada pela dinâmica da internacionalização do capital. As múltiplas reuniões e conferências comunistas assumiam, cada vez mais, um caráter patético, no afã de estabelecer programas e denominadores comuns. Fachadas inviáveis, escondiam o sol com a peneira. Quando a Guerra Fria acabou, já o movimento comunista internacional, de fato, desaparecera como fator político relevante, como bem observou A. Tchernaiev, assessor de M. Gorbachev, citado por Pons.

Restou um paradoxo, o da incapacidade dos comunistas, campeões do internacionalismo, de apresentar propostas revolucionárias a um mundo cada vez mais internacionalizado. Ao sustentar teimosamente antigos paradigmas, tornaram-se irrelevantes.
III
Enredado em suas contradições, o socialismo soviético seria insuscetível a autorreformas? A corrente liberal conservadora, capitaneada por L. Shapiro e R. Pipes, incorporando e, em certa medida, exacerbando e deformando a crítica de H. Arendt ao totalitarismo, sempre foi muita assertiva a este propósito – o modelo soviético só se extinguiria por pressões externas, como o seu clone nazista. A própria ideia de movimento interno à sociedade soviética era tendencialmente descartada, eis que se encontrava inerme, como lobotomizada, nas mãos de um Leviatã,sem fraturas.

M. Lewin fez a crítica destes propósitos. A sociedade soviética movia-se, o que se evidenciou nas tentativas de mudança efetuadas mesmo antes da morte de J. Stalin por S. Kirov, no começo dos anos 1930, e por N. Voznessenski, no imediato pós II Guerra Mundial. Limitados e frustrados ensaios. Seriam, porém, retomados em maior escala, depois da morte do tirano, no quadro do degelo, empreendido sob liderança de N. Khruschev, entre 1956 e 1964. Mais tarde, com escopo muito mais profundo e ambicioso, viriam a perestroika (reestruturação)e a glasnost (transparência), lançadas por M. Gorbachev, a partir de 1985 e 1987. Também fracassaram. E seu fracasso precipitou o desmoronamento surpreendente do colosso.

Era inevitável o fim da União Soviética? Para o arguto G. Kenan, citado por Pons, desde fins dos anos 1940, a luz daquela estrela ainda brilhava, mas seu núcleo já se apagara. O fato, registrado também pelo nosso Autor, de que os sucessores de J. Stalin dele procuravam se demarcar e se afastar, demonizando-o, ao contrário dos herdeiros de Lenin, que sempre o reivindicaram, mesmo se batendo entre si, era indício seguro de que estava em jogo uma falência sistêmica.

O fato é que o socialismo soviético, segundo análises predominantes ao longo dos anos 1970, parecia em crescimento, cada vez mais forte, suscitando esperança entre seus aliados na África e na Ásia e temores entre as potências capitalistas e mesmo em setores importantes das esquerdas democráticas. Seu parceiro e rival, a China, consolidado o cisma, depois das convulsões da revolução cultural, em fins daquela mesma década empreendia autotransformações de vulto (a política das Quatro Modernizações, aprovada em 1978), cujo alcance global ainda não era entrevisto, mas com virtualidades já reconhecidas.

É certo, como observa Pons, que as guerras entre os comunismos asiáticos (Vietnã contra Cambodja e China contra Vietnã, sem contar o ressoar dos tambores de guerra entre a URSS e a China) evidenciavam o reforçamento da cultura catastrófica e militarista, e o mesmo se poderia dizer do expansionismo da União Soviética, de que a invasão no Afeganistão, em 1979, era a expressão mais acabada. A corda estava sendo esticada além dos limites razoáveis, tendia a arrebentar. A China o teria reconhecido – suspendeu rapidamente as hostilidades contra o Vietnã, abdicou do terceiro-mundismo militante e revolucionário, confinou o maoísmo no passado, mesmo que mantendo reverência formal ao grande timoneiro, e passou a se dedicar quase exclusivamente, em chave nacionalista, ao processo de modernização de seus imensos território e população.

O mesmo não aconteceu com a União Soviética, e isto teria representado o seu fim, sobretudo porque enveredou por um processo reformista que punha em questão as características básicas que, até então, haviam feito a sua força. Se não o tivesse feito, argumenta Pons, poderia ainda durar no tempo, embora já sem dinamismo. Ao fazê-lo, ao questionar e pôr em risco os fundamentos de sua força, soçobrou sem remédio.

Pons tem razão ao afirmar que “a propaganda antiocidental (dos soviéticos) se revelava vazia e insensata, voltada pra denunciar um capitalismo que não mais existia ou para celebrar um socialismo que quase ninguém desejava”. E o mesmo se pode dizer quando pondera que “a erosão política, cultural e simbólica do comunismo precedeu, e não sucedeu, sua crise [...] como sistema econômico”. Gorbachev o reconheceu: era preciso capturar a “alma” dos soviéticos para o socialismo, em especial a da juventude, e democratizar o sistema para reformá-lo. Não foi possível. O gigante – e as estátuas que celebravam sua glória – vieram abaixo.

Mas na afirmação do fim inevitável, “fatal”, do modelo soviético não haveria um grão de história retrospectiva? O que determinou, de fato, a desagregação do modelo? O fato de ter questionado seus fundamentos? Ou o de não ter havido a capacidade de formular políticas concretas que viabilizassem as mudanças desejadas? Talvez ainda sejam necessários muitos anos para um diagnóstico mais seguro ou consensual.
IV
O modelo soviético viveu e morreu. É possível chegar a alguma conclusão sobre o seu papel histórico?

Entre os habitantes que viveram os rigores da ditadura soviética, na matriz ou entre os clones, há controvérsias entre os que nenhuma nostalgia sentem de um tempo sem liberdades, marcado pela onipotência da polícia e pelos privilégios dos apparatchiks, e os que recordam em chave positiva um ambiente considerado por eles de ordem, paz, prosperidade relativa, direitos sociais assegurados e prestígio internacional. Entre estes juízos contraditórios, não é, e não será, possível encontrar unanimidade. Talvez eles nos deixem entrever as fraquezas e os pontos fortes de um regime que desapareceu.

E. Hobsbawm gostava de dizer que o Estado soviético tolhera as liberdades dos “seus”operários, ao mesmo tempo em que promovia, pela ameaça que encarnava, os direitos sociais e políticos na Europa Ocidental. Nesta argumentação, o warfarestate – soviético – haveria contribuído, malgré lui-même e indiretamente, para a construção e consolidação do welfare state – o Estado do bem-estar social, promovido pela social-democracia, pela democracia-cristã e pelos liberal-sociais europeus.

Silvio Pons permite-se questionar esta avaliação, formulando a hipótese, não verificável, de que seria plausível imaginar conquistas ainda mais significativas num quadro em que inexistisse o socialismo soviético. Neste raciocínio, a ameaça dos tanques soviéticos podia favorecer avanços (“entreguemos os anéis para salvar as mãos”), mas também os limitava (“não queremos aqui o modelo soviético”). Há um grão de verdade nesta assertiva, mas, como se sabe, é muito difícil formular uma históriacontrafactual.

Seria possível elaborar melhores juízos nas vastas regiões do outrora chamado “terceiro mundo”: a América Latina, a África e a Ásia? Quanto aos chineses, nem vale a pena indagar como avaliam o socialismo soviético. No Império do Meio, os soviéticos não deixaram saudades. Entretanto, do ponto de vista mais amplo das lutas de libertação nacional ou dos processos de descolonização, para além dos erros cometidos, e não apenas pelos soviéticos, mas também pelos nativos (desde que se escape de uma lógica simplista e unilateral), a União Soviética, mesmo quando não era um aliado direto, proporcionando apoio político, militar e diplomático, foi um fator de contenção e de inibição dos “velhos colonialismos”. Neste preciso sentido, representou um dado positivo nas relações internacionais. É verdade que os Estados Unidos também viram com bons olhos o desmoronamento dos impérios europeus, mas as evidências mostram como apoiaram, em diferentes conjunturas (França no Vietnã; Portugal em suas colônias), Estados e tropas coloniais. Já a URSS, desde os anos 1920, não tinha nenhum interesse na permanência do “mundo colonial e neocolonial”e por isso contribuiu, e muito, direta ou indiretamente, para o fim dos impérios. Por outro lado, seu modelo estatista impressionou diferentes lideranças do “terceiro mundo”, que adotaram muitos de seus aspectos para grande dano de uma atmosfera de liberdades civis e políticas, pois o nacionalismo estatista terceiro-mundista, para além de assegurar, em determinados momentos e espaços, direitos sociais, caracterizou-se, quase sempre, por uma lógica autoritária.

Talvez valesse ainda aduzir que o experimento socialista soviético perdeu a luta contra o nacionalismo. Ao contrário do que sonhavam, e previam, os socialistas oitocentistas, o século XX não registrou o triunfo do internacionalismo socialista. Não só isto não aconteceu, mas também ali onde o socialismo vigorou fortaleceram-se as tendências nacionalistas, e é fazendo uso do nacionalismo que ele até hoje sobrevive onde isto foi possível.

Frente a este problemático balanço crítico, Kiva Maidanik, de origem ucraniana, mas que se autoidentificava orgulhosamente como bolchevique e soviético, afirmava, amargurado, pouco antes de morrer: “Pelo menos aprendemos o que não se deve fazer”, sublinhando sempre, e enfaticamente, a partícula negativa. No futuro saberemos se o diagnóstico do velho Kiva tinha fundamento.

É verdade que se perdeu a certeza nos “amanhãs que cantam”. Se alguma coisa as experiências novecentistas demonstraram, é que, ao contrário do que muitos imaginavam, o mundo, definitivamente, “não marcha para o socialismo”.

Resta a possibilidade de ainda apostar. No quadro das contradições suscitadas por um capitalismo que reitera sua natureza de sistema predador e desigual, cabe aos que se mantêm fiéis a uma perspectiva alternativa, ensaiar, tateantes, a experiência de novos caminhos, comprometidos com a necessária reconstrução da utopia socialista.

Para este objetivo, Silvio Pons, empreendendo rigorosa análise crítica do comunismo do século passado, propõe uma valiosa contribuição


Maio, 2014.

Daniel Aarão Reis
Professor titular de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense

Caetano Veloso - Desde que o samba é samba

Mário Sá Carneiro: Rodopio

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas tôrres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sois;
Há promontórios, farois,
Upam-se estátuas de herois,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de côr,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de mêdo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segrêdo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lirios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emmaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, paúes, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Opinião do dia: Aécio Neves

O atual governo fracassou. Essa é a questão central. E não vencerá as eleições o grupo que hoje está no poder. Das duas alternativas competitivas que aí estão, nós apresentamos uma, coerente com nosso passado e o que queremos fazer pelo Brasil.

Aécio Neves, senador (PSDB-MG) e candidato a presidente da República, na entrevista no Rio. O Globo, 1 de setembro de 2014.

Dilma associa fala de Marina ao regime militar

• Presidente diz que renegar partidos é 'flertar com o autoritarismo' e afirma que plano de Marina põe em risco o Minha Casa Minha Vida

Mateus Coutinho - O Estado de S. Paulo

Em evento do diretório do PMDB de São Paulo em Jales, a presidente Dilma Rousseff partiu para o ataque à candidata do PSB, Marina Silva. Em um discurso focado na "defesa das instituições", a presidente relembrou o período ditatorial para criticar o discursos da ex-senadora de que não governa com partidos, mas sim com pessoas.

"Em uma democracia, quem não governa com partidos está flertando com o autoritarismo", afirmou a presidente, fazendo referência a uma recente declaração de Marina segundo a qual governará, se eleita, com os "melhores" de cada partido.

Ela procurou, também, associar o discurso de Marina à ditadura militar que, segundo ela, foi o período em que "poucos e bons" governavam. "Eu me lembro da ditadura, onde o que se dizia era o seguinte: empresário é para fazer negócio, estudante é só para estudar, todas as pessoas têm que trabalhar. Uns poucos, uns bons, governarão", disse. "Poucos e bons governaram, essa era a visão mais atrasada, que nós na época chamávamos a visão da tecnocracia, de que tinha no Brasil (sic) escolhidos que não eram escolhidos pelo povo e que eram os mais capazes", acrescentou a petista.

A fala da presidente ocorre um dia após a divulgação de nova pesquisa que mostrou Dilma empatada com Marina Silva no primeiro turno da disputa presidencial com 34% das intenções de voto e, no segundo turno, uma vitória de Marina com 10 pontos de vantagem.

Dilma também atacou o programa de governo de Marina, que prevê uma redução da participação do Estado na economia e uma menor intervenção de bancos estatais. "Se diminuírem o crédito do banco público, acaba o Minha Casa Minha Vida", afirmou a presidente, referindo-se ao principal programa habitacional do governo e bandeira de sua campanha à reeleição. Ela explicou ainda que somente os bancos públicos conseguem financiar o programa. "A política de subsídio garante que a gente complete o dinheiro das pessoas que ganham até 1600 reais para que elas possam comprar uma casa", afirmou. "Os bancos privados colocariam esse dinheiro? Certamente que não", desafiou.

Ela também lembrou que o agronegócio, por meio do plano Safra, e até a agricultura familiar são financiados por bancos públicos. "Hoje todo o dinheiro do plano Safra e da agricultura, tanto a grande quanto a média e a pequena, é financiado pelo governo federal por meio de bancos públicos", disse a presidente. "Não é só o Minha Casa Minha Vida que vai acabar, o mais grave é que também não vai ter plano Safra do agronegócio."

Questionado sobre as pesquisas de intenção de voto, o vice-presidente Michel Temer desconversou. "Não preocupa não, nós temos um mês e quatro dias de campanha", disse. Neste mesmo período, em 2010, o Datafolha apontava a presidente com 47% das intenções de voto contra 29% de José Serra (PSDB) e 9% de Marina. Mas, naquela época, as pesquisas apontavam a vitória de Dilma no 2.º turno.

Tentando não deixar transparecer preocupação com os novos números do Datafolha, Temer deixou claro que a campanha precisa "politizar" e reforçou o discurso da "preocupação com as instituições". "Temos que mostrar o que o governo fez, mostrando mais mudanças para o futuro e, do outro lado, a política, nosso governo é obediente às instituições", disse.

Redes sociais. O perfil de Dilma no Facebook divulgou ontem um texto que comenta a exclusão de temas caros aos homossexuais do programa de governo de Marina. O texto afirma que Marina é "um grande ponto de interrogação", chama a ex-ministra do Meio Ambiente de "evangélica fervorosa" e diz que ela, assim como o PSB, apesar do discurso da "nova política", se utilizam de "velhas práticas". / Colaborou Lucas de Abreu Maia

Dilma convoca imprensa para atacar Marina

• Presidente diz que programa do PSB significa redução do emprego no país

Fernanda Krakovics – O Globo

BRASÍLIA — A presidente Dilma Rousseff, que disputa a reeleição, convocou a imprensa neste domingo para dizer que a proposta de governo de sua principal adversária no momento, a candidata do PSB à Presidência da República, Marina Silva, significa redução de emprego e é prejudicial à indústria nacional.

— Hoje eu li o programa de governo da candidata e vi propostas que me deram muita preocupação em relação ao emprego e à indústria nacional — afirmou a presidente, que não respondeu a perguntas.

Dilma ressaltou a política de conteúdo nacional de seu governo, principalmente para a indústria naval, e disse que os empregos no setor subiram de 2.500 vagas no ano 2000 para 81 mil em julho deste ano, com a previsão, segundo ela, de alcançar 100 mil postos no ano que vem. A presidente afirmou ainda que a indústria automobilística ganhou relevância em seu governo, atraindo 12 unidades, como da Nissan, Audi, Hyundai e Land Rover.

— Eu não fui eleita para desempregar ou reduzir a importância da indústria. Não serei eleita para isso. Minha proposta sempre será criar empregos cada vez mais qualificados — disse Dilma.

Aécio diz que Dilma já perdeu a eleição

• Candidato tucano ao Planalto participou de jogo com artistas e políticos no centro de futebol do ex-jogador Zico, no Rio de Janeiro

Tiago Rogero - O Estado de S. Paulo

RIO - Candidato do PSDB à presidência da República, o senador Aécio Neves afirmou no início da tarde deste domingo, 31, que já é certa a derrota de Dilma Rousseff (PT) na eleição. "O atual governo fracassou, essa é a questão central, e não vencerá as eleições o grupo que está hoje no poder", cravou o tucano, que voltou a criticar o programa de governo da adversária Marina Silva, do PSB. Segundo Aécio, que participou de jogo com artistas e políticos no centro de futebol do ex-jogador Zico na zona oeste do Rio de Janeiro, o PSB traz em seu programa temas defendidos historicamente pelo PSDB, e já criticados num passado recente por Marina e pela presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT.

Depois de dizer que Dilma não vencerá, Aécio afirmou que das "duas alternativas competitivas que aí estão", uma é a do PSDB (a outra, a do PSB). "Apresentamos uma alternativa absolutamente coerente com nosso passado, com aquilo que pensamos lá atrás, e com o que queremos fazer pelo Brasil. E a população brasileira terá a oportunidade de avaliar entre essas propostas, até porque não há nada mais velho na política do que o discurso adaptado às circunstâncias do momento", disse, em referência às corriqueiras críticas que Marina Silva faz ao que tem chamado de "velha política".

Aécio rebateu as críticas do candidato a vice de Marina, Beto Albuquerque. Ontem à noite, em evento no Rio, Albuquerque afirmou que, para criticar o programa de Marina, Aécio deveria primeiro lançar o seu. "As diretrizes foram lançadas. Talvez o candidato Beto não esteja acompanhando de perto as discussões que fizemos ao longo dos últimos anos. Será lançado nos próximos dias, em data pré-estabelecida, mas não é pra se ofender", disse Aécio.

"Eu apenas encontrei no programa do PSB as defesas das mesmas posições que nós defendemos historicamente, no ponto de vista da macroeconomia, da transformação do Bolsa Família em um programa de estado, a meritocracia no setor público. Lamento apenas que, no momento em que implementamos essas medidas, nenhum deles estava ao nosso lado para ajudar", afirmou.

Participam do jogo, além de Zico e Aécio, os ex-atletas Bebeto (campeão mundial de futebol em 1994 e candidato à reeleição como deputado estadual no Rio) e Giovanni (ex-jogador de vôlei, candidato a deputado federal pelo PSDB em Minas Gerais) e artistas como o ator e cineasta Márcio Garcia. Aécio jogou com a camisa 45 no mesmo time de Zico, que vestiu a 10.

Aécio mira críticas a Dilma e diz que o PT deixará o poder

• Presidenciável deu declaração a jornalistas antes de participar de jogo com ex-atletas em clube do Zico

Alexandre Rodrigues – O Globo

RIO - Em busca de uma reviravolta nas pesquisas, o senador Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, passou a tarde de domingo no centro de futebol do ex-jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira Zico, na Zona Oeste do Rio. Aécio participou de um jogo de futebol com ex-atletas e artistas que apóiam a sua candidatura e assinou uma carta com compromissos com políticas de popularização e profissionalização do esporte.

Antes de entrar no gramado, Aécio disse que a principal interpretação das pesquisas de intenção de voto é a de que o governo da presidente Dilma Rousseff não será reeleito e o PT deixará o poder. Sobre a sua posição em terceiro lugar nas sondagens, atrás de Marina Silva (PSB), empatada com Dilma em primeiro, ele disse que ainda há tempo de os brasileiros compararem os projetos políticos alternativos antes da escolha definitiva.

— O atual governo fracassou. Essa é a questão central. E não vencerá as eleições o grupo que hoje está no poder. Das duas alternativas competitivas que aí estão, nós apresentamos uma, coerente com nosso passado e o que queremos fazer pelo Brasil. A população vai ter oportunidade de avaliar essas propostas, até porque não há nada de mais velho na política do que o discurso adaptado às circunstâncias do momento — afirmou.

Sobre o tom das críticas que tem feito à Marina, disse que isso não o afasta de um apoio dela se chegar ao segundo turno.

— Ao contrário, eu tenho sempre ressaltado que respeito todas as candidatas, especialmente Marina. Cobro que cada candidato diga com clareza o que pretende fazer adiante — disse Aécio.

Pênalti mal marcado
O candidato chegou pouco depois das 14h e foi aplaudido pelos convidados de Zico que o aguardavam numa área ao lado do campo onde eram vendidos churrasco no espeto e bebidas. Havia ex-atletas como Bebeto, Dada Maravilha e o ex-integrante da seleção de vôlei Giovane, e artistas como Marcio Garcia, Mauro Mendonça, Eri Johnson, Fagner e Paula Burlamaqui.

Aécio jogou cerca de vinte minutos nos dois tempos da partida e marcou dois dos cinco gols da vitoria do seu time, liderado por Zico. Um dos gols foi de pênalti, claramente favorecido pelo juiz e pelo goleiro, tudo compatível com o clima de descontração do evento.

— Está chegando a hora da virada! — gritava um locutor para a pequena plateia de militantes com bandeiras, repetindo a frase que estampava um cartaz no fundo do campo.

O time dos adversários fez três gols. Entre o primeiro e o segundo tempos, Aecio ficou na beirada do campo com gelo aplicado no joelho esquerdo, que demostrava sentir, mas não economizou fôlego correndo em campo. A equipe de comunicação do candidato fez imagens e colheu depoimentos para o programa eleitoral gratuito na TV.

Aécio diz que governo fracassou

• "Eu tenho um projeto para o país e o Brasil não é para amadores", diz o candidato do PSDB à Presidência

Alessandra Mello – Estado de Minas

O candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, disse ver contradições nas atuais propostas da candidata do PSB, Marina Silva, em relação a posições adotadas por ela quando era passada filiada ao PT. Marina deixou a legenda em 2008. Segundo ele, o PSDB não contou com o apoio dessas forças políticas na aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal e na defesa do agronegócio, considerada por ele fundamental para a economia e geração de empregos. "Eu vejo na proposta do PSB um número muito grande de contradições em relação àquilo que se propõe hoje e que se praticou no passado, em todas as áreas. Lamento que, no momento em que lançamos essas medidas, nenhum deles estava ao nosso lado para ajudar", disse.

Ele também mencionou o lançamento do Plano Real, em 1994, durante o governo Itamar Franco, e a valorização da meritocracia no setor público, que segundo ele, ainda enfrentam contrariedades dos adversários. "Mas acho que durante a campanha eleitoral vai ficar muito claro quais são as propostas de cada candidato. Eu tenho um projeto para o país e o Brasil não é para amadores", afirmou Aécio, que participou hoje no Rio de Janeiro de uma partida de futebol promovida por Zico e apoio à candidatura do tucano.

Questionado sobre o desempenho de Marina, Aécio disse que respeita a adversária. "Ela é uma candidata competitiva e agora terá a oportunidade de externar as suas propostas, terá a oportunidade de dizer no que acredita de verdade", afirmou. "O que é importante neste momento, que vamos tomar uma decisão desta dimensão para o futuro do Brasil, é que cada candidato diga com absoluta clareza o que pretende fazer em relação à política econômica, em relação à nossa política externa", disse.

Aécio reforçou que, caso eleito, promoverá uma política fiscal transparente. Para isso, disse que vai contar com um time dos melhores especialistas para conduzir a economia e fazer o Brasil voltar a crescer. "É de emprego que os brasileiros precisam para viverem melhor. O atual governo fracassou e não vencerá as eleições o grupo que está no poder. Das duas alternativas competitivas que aí estão, nós apresentamos uma completamente coerente", ressaltou Aécio.

No evento promovido por Zico para Aécio, participaram atletas e artistas como Alexandre Torres, Bebeto, Giovani, Helton Leite, Marcio Garcia, Bruno Coimbra, Maurinho, Ricardo Cruz, Fagner, Eri Johnson, Claudio Adão, Robson Caetano, Maciel e Ricardo Rocha. De uniforme verde amarelo, Aécio jogou com a camisa 45, número do PSDB, e Zico com a 10, mesmo número que usava quando jogou no Flamengo.

Durante o evento, Aécio assinou uma “Carta Compromisso pelo Esporte Brasileiro”. Nela, o candidato se compromete a estimular a prática esportiva e torná-la uma ação de estado para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. O documento tem nove pontos, entre eles a desburocratização da legislação e a criação de um comitê para promover parcerias entre os entes públicos, com o objetivo de estimular o esporte no país. (com agências)

PMDB já acena para candidata do PSB

• 'Temos condições de dar governabilidade a Marina', diz vice-líder na Câmara, Danilo Forte

Caio Junqueira e Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - As chances efetivas de vitória de Marina Silva na eleição presidencial já levam a ala do PMDB que apoia a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB) a dar como certa a adesão da legenda a um eventual governo seu. A avaliação desse grupo é a de que as chances de recuperação do tucano são difíceis e a perspectiva de poder hoje está com Marina.

Isso faz com que a histórica divisão do PMDB ganhe novos contornos. Se antes da campanha o debate era levar ou não o partido a apoiar a reeleição de Dilma Rousseff, agora ele começa a se dar entre compor ou não com Marina e o momento em que essa sinalização deve ser feita.

A cúpula peemedebista, responsável pelo apoio pró-Dilma e que tem em Michel Temer, Renan Calheiros e José Sarney seus expoentes, quer colocar a máquina do partido para derrotar Marina no 2.º turno. Em caso de vitória de Marina, esse grupo fala em dar os tradicionais 100 primeiros dias de trégua ao seu governo para, nesse período, aguardar os sinais da ex-ministra. Prevê, porém, uma relação hostil. Justamente por onde a outra ala planeja crescer. Geddel Vieira Lima, candidato ao Senado pela Bahia, tem interesse em liderar esse movimento.

Os aecistas do PMDB, em processo de transfiguração para neo-marineiros, querem começar a emitir os sinais da adesão ao fechar das urnas do primeiro turno. Estão espalhados por Estados como Bahia, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, prontos para deflagrar esse processo. "Marina já sinalizou que abrirá o diálogo com os políticos. Temos plenas condições de dar sustentabilidade e governabilidade a ela", disse o vice-líder da bancada da Câmara, Danilo Forte (CE).

Até mesmo peemedebistas egressos de Estados que apoiam Dilma avaliam que o PMDB estará com Marina se ela vencer. "O PMDB é um partido pragmático. Não teria problemas em se reposicionar e integrar a base de Marina", disse Saraiva Felipe (MG), ex-ministro da Saúde do governo Lula.

Além de derrotar Dilma, essa ala do PMDB pretende aproveitar o embalo para contestar Temer no comando da sigla. Afinal, é ele o maior avalista do acordo com o PT. Assim, a eleição de Marina resultaria em um reposicionamento interno de forças políticas na legenda.

Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS) seriam os interlocutores naturais, uma vez que próximos a Marina. Mas o problema é que eles não têm força interna para, sozinhos, conduzirem o partido rumo a ela.

Uma aposta é que os governadores eleitos pelo partido possam fazer essa intermediação, uma vez que há uma dependência financeira grande dos Estados em relação à União, o que torna a aproximação necessária.

Nomes como os senadores Eduardo Braga (AM) e Eunício Oliveira (CE) e o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), que lideram as pesquisas eleitorais em seus Estados, são algumas opções. Entretanto, por motivos óbvios, a relação também terá necessariamente de passar pelo Congresso Nacional, onde o cenário hoje colocado para comandar as duas Casas é de dois peemedebistas conhecidos por jogar duro com o Palácio do Planalto: o senador Renan Calheiros (AL) e o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ). Uma vez eleitos, o jogo terá de passar por eles.

Não uso minha fé com fins políticos, afirma Marina

- Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A candidata Marina Silva afirmou à Folha, por meio de sua assessoria de imprensa, que nunca instrumentalizou sua fé com fins políticos.

"Não faço de palanques púlpitos nem de púlpitos, palanques. Minhas decisões políticas são elaboradas, discutidas e implementadas nos espaços da institucionalidade da política. [...] Nunca instrumentalizei minha crença religiosa para um fim político."

Marina afirmou ainda que, para as pessoas de fé, "a vida é uma oração, um processo constante e intenso de relacionamento com Deus".

Acrescentou: "Para os cristãos de qualquer corrente teológica, a Bíblia é a base de sua fé. O exercício da fé é um direito de ordem pessoal, assegurado pela Constituição do Brasil. Apenas aqueles que se pautam pela intolerância religiosa encaram esse direito como elemento que conspira contra o Estado laico e o Estado de Direito".

Ela também argumenta que mesmo "o presidente tem direito de vivenciar espaços de sua vida num ambiente restrito à sua pessoalidade sem a obrigatoriedade de compartilhar essa experiência com a chamada opinião pública".

Ela ressaltou que Eduardo Campos também era um homem de fé. "Esse elemento de sua persona era mais um dos tantos dos quais tínhamos grande identidade. Atribuir-lhe agora a autoria de uma declaração sobre nosso relacionamento, sem que ele tenha o direito de confirmá-la ou refutá-la, é um desrespeito à sua memória."

Aliados de Marina afirmam ainda que foi Lula quem chamou pastores evangélicos para orar por ele no Planalto, durante a crise do mensalão.

'Política não deve mandar na religião, nem religião na política', afirma vice de Marina

• Campanha do PSB intensifica esforço para desvincular imagem da candidata de grupos religiosos mais conservadores em meio à polêmica exclusão de temas caros à causa gay do plano de governo menos de 24 horas após o lançamento

Roldão Arruda e Lucas Azevedo - O Estado de S. Paulo

A campanha da candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, vem intensificando esforços para desvincular a sua imagem de grupos religiosos mais conservadores da área evangélica. Ontem, durante ato de campanha no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, o candidato a vice na chapa, deputado Beto Albuquerque, defendeu a laicidade do Estado e disse que o governo do PSB não vai privilegiar nenhuma religião. "Não podemos fazer um governo desta ou daquela religião. Precisamos fazer um governo para os brasileiros", afirmou. "Nem a política deve mandar na religião, nem a religião na política. Temos que ser laicos."

As críticas ao que seria uma excessiva dependência da candidata em relação a grupos mais conservadores se intensificaram após ela ter prometido em seu programa a defesa de reivindicações do movimento gay e, menos de 24 horas depois, divulgar uma errata na qual recuava nas questões principais daquele capítulo. A decisão da candidata ocorreu após alguns pastores e políticos da bancada evangélica terem exigido que ela se retratasse, sob pena de perder os votos da comunidade evangélica.

Em sua conta do Twitter, o pastor Silas Malafaia, destacado ativista contra as reivindicações do movimento de defesa dos direitos de gays, lésbicas, travestis e transexuais, afirmou que Marina, "a candidata membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus", estava fazendo "uma defesa vergonhosa da agenda gay". Em seguida, ameaçou: "Se Marina não se posicionar até segunda, na terça será a mais dura e contundente fala que já dei até hoje sobre um candidato a presidente".
Preocupação. Marina divulgou a errata no sábado, atribuindo o que havia sido publicado - defesa clara do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização da homofobia - a uma "falha processual na editoração do texto". A mudança provocou críticas de ativistas do movimento gay e fora dele.

"A errata foi um banho de água fria, mas nós já sabíamos que, dos três candidatos que se destacam nas pesquisas, ela é a que sempre se manteve mais distante da população LGBT", disse ontem o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Carlos Magno. "O mais preocupante , porém, é ver a candidata se distanciando de uma das grandes conquistas da democracia, o Estado laico."

O escritor Milton Hatoum, um dos mais importantes ficcionistas brasileiros da atualidade, traduzido em várias línguas, anunciou publicamente ontem a retirada de seu nome de uma lista de personalidades, intelectuais e artistas que haviam declarado apoio a Marina. "Não acredito em falha processual na editoração do texto. Foi uma falha moral. Uma falha de princípios éticos. Uma falha com os compromissos republicanos de um Estado laico", disse o escritor ao Estado. "Não quero eleger um presidente da República que seja refém de bancadas religiosas. Tenho pavor disso."

A campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) usou o episódio para definir Marina como "uma evangélica fervorosa" em post publicado no Facebook no fim de semana. Para o ex-governador tucano Alberto Goldman, um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves, a "errata" da campanha do PSB "é uma agressão à nossa inteligência".

Ele disse em seu blog que, ao excluir o apoio às propostas em defesa do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e de criminalização da homofobia, a ex-ministra do Meio Ambiente demonstrou "clara submissão a grupos que a apoiam, na linha da velha política".

Ação conjunta. Enquanto o vice de Marina tentava desvincular a candidata de grupos religiosos mais conservadores, o comitê LGBT da campanha divulgava uma nota na qual confirma a versão de que houve um erro na editoração do capítulo que trata dos direitos dos homossexuais.

Segundo o comitê, o que saiu publicado foi a pauta integral reivindicada pela base do PSB e representantes da Rede de Marina - e não o que havia sido aprovado pela coordenação política da campanha. "Não vamos aceitar que uma falha de diagramação desqualifique nosso debate pela construção de uma nova política", diz o texto. "Nossa luta é pela defesa do Estado laico e por um Brasil que respeite a todos."

A nota foi produzida após um longo e ruidoso processo de consultas internas, ao final do qual vários dos participantes disseram que não dariam entrevistas por orientação da campanha.

Campanha do PSB espera mais ataques e reforça atuação no Rio

Renata Batista – Valor Econômico

RIO - Apesar do discurso de que é preciso manter a humildade, a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, abriu com agenda e discurso de favorita sua campanha de rua no Rio de Janeiro, mas sem material de campanha. O Estado, onde alcançou o segundo lugar em 2010, é considerado prioritário por seus estrategistas. Nem mesmo a necessidade de esclarecer às dúvidas geradas pela retificação de dois itens do programa de governo divulgado na véspera arrefeceu uma Marina que no sábado percorreu - sorridente - uma das principais vias da Rocinha, acompanhada de aliados e dezenas de jornalistas, inclusive de emissoras de TV estrangeiras. Predominou a tese de ataque à candidatura em decorrência de seu crescimento.

Em discurso para militantes, reunidos pelo PSB em uma casa de shows na Lapa, Marina chamou de "movimento" o crescimento de sua candidatura e pediu uma campanha limpa. Antes, porém, o candidato a vice-presidente, Beto Albuquerque, e aliados de vários partidos conclamaram a plateia a responder as críticas e sinalizaram para o acirramento da disputa.

"Vamos fazer a campanha de limpeza da campanha. Vamos ser coerentes", disse Marina, que mais cedo havia atribuído as correções no programa a um engano. "Não é que seja uma revisão. O texto que foi publicado não é o texto que havia sido mediado. Foi apenas retornado o texto da mediação, porque havia sido cometido o engano", afirmou, questionada sobre as mudanças nos itens sobre união civil de homossexuais e sobre energia nuclear. Mediação, segundo a candidata, foi o esforço de reunir e avaliar diversas contribuições recebidas da sociedade civil.

A expectativa de candidatos e dirigentes partidários, salientada para os militantes no encontro da tarde de sábado, é que a campanha deve ficar mais dura para Marina a partir de agora. Ontem, o PSB divulgou nota sobre dois ataques ao site oficial da campanha, que ficou fora do ar por cerca de uma hora no sábado e por 20 minutos ontem. "Não tenho dúvida de que os ataques serão feitos com intensidade no tempo que resta de campanha", resumiu o presidente do PSB no Rio, o deputado federal Glauber Braga.

Sem referências diretas às suspeitas de irregularidades no uso do jatinho que transportava Eduardo Campos, Albuquerque voltou a dizer, em tom crítico, que as circunstâncias do acidente permanecem desconhecidas. Frisou também que Marina e ele serão "alvo de injustiças e agressões", mas acenou para a defesa das instituições. "Eu e Marina não seremos eleitos para fazer o que dê na cabeça, mas para fazer o que está na lei, na Constituição", disse.

Entre os aliados, o discurso já é de vitória, pelo menos no Rio, apesar do noticiário recente sobre o possível impacto negativo da política da candidata para exploração de petróleo no pré-sal e, consequentemente, para a economia fluminense. O Estado é considerado prioritário não apenas pelo histórico de votação da candidata, mas também porque foi um dos mais ativos nas manifestações de 2013. Historicamente, o eleitor fluminense tende a se posicionar majoritariamente na oposição.

Participaram da agenda nomes como o deputado federal e líder na corrida para o Senado, Romário Farias, o deputado Alfredo Sirkis e o ex-secretário de segurança, Luiz Eduardo Soares. Após acompanhar Marina durante todo o sábado, o deputado federal, Miro Teixeira (Pros), se despediu, na abertura do encontro com militantes, anunciando para ela e para a plateia, de cerca de 200 pessoas: "Tenho que ir embora. Mas já está eleita".

Outro aliado, o ex-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) e candidato a deputado federal pelo PPL, Fernando Siqueira, foi mais incisivo e disse que o discurso de Marina para o pré-sal "converge" com o dele. Para Siqueira, o pré-sal deve ser usado para viabilizar as energias sustentáveis. "Tentam intrigá-la com a sociedade brasileira. Quem está falando isso não quer a Marina porque quer manter o status quo", disse, e conclamou: "Vocês estão convidados a continuar nas ruas para dar suporte a Marina e ao Beto para governar o povo brasileiro".

A participação popular foi exaltada em vários momentos dos discursos, sem deixar de lado a defesa da institucionalidade. "A gente não pode sair das ruas, mas esse ano também temos que ir para as urnas porque só nas ruas não mudamos nada", disse Albuquerque.

Em Porto Alegre, ontem, Beto Albuquerque procurou atenuar a possível interferência de líderes religiosos na campanha e na retificação do programa de governo sobre os direitos homossexuais: "Nem a política deve mandar na religião nem a religião na política".

Em sua avaliação, os compromissos previstos no programa são "mais avançados" e "mais claros" que aqueles dos adversários Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) para a mesma questão. Albuquerque disse que havia "exagero" em assumir no programa algo que cabe ao Parlamento, em referência a projetos relacionados ao tema - entre eles está o projeto 122/06 que criminaliza a homofobia e cuja defesa constava na primeira versão divulgada pela campanha de Marina, depois retificada. (Colaborou Sandra Hahn, de Porto Alegre)

Recessão pode gerar demissões, diz Aécio

Rodrigo Polito e Luiz Henrique Mendes – Valor Econômico

RIO e RIBEIRÃO PRETO (SP) - Terceiro colocado nas pesquisas para a eleição presidencial e abastecido pelo recuo de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, Aécio Neves (PSDB) adotou o tema econômico como principal arma para atacar a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Segundo o senador, se o cenário econômico permanecer ruim, haverá queda do número de empregos no país.

"O Brasil vive hoje um processo de recessão técnica que significa para as pessoas que os empregos que estão sendo gerados hoje deixarão de ser gerados mais adiante. Não existe emprego, sobretudo de boa qualidade, quando não existe crescimento" afirmou ontem Aécio, antes de participar de uma partida de futebol promovida em parceria com o ex-jogador Zico, no Rio.

Diante do quadro econômico atual, Aécio sentenciou que o PT deixará o governo em 2015. "O atual governo fracassou. Essa é a questão central. E não vencerá as eleições o grupo que está hoje no poder", completou o tucano.

Com relação à ascensão de Marina Silva (PSB) nas pesquisas, Aécio reconheceu que ela é uma "candidata competitiva", mas cobrou clareza com relação às propostas da ex-senadora. "O Brasil não é para amadores. Vejo na proposta do PSB muitas contradições entre o que propõe e o que praticou no passado. Não há nada mais velho na política do que o discurso adaptado às circunstâncias do momento", afirmou.

Ainda com relação à nova concorrente, Aécio comentou, sábado, durante campanha em Ribeirão Preto (SP), que o programa de governo apresentado pelo PSB, que defende a revalorização do tripé econômico, "é a maior homenagem" que ele poderia receber. Para o senador, o programa de Marina Silva "consagra as teses" que o PSDB defende ao longo de sua história.

Sobre o programa de governo do PSDB, Aécio contou ontem que o partido lançará o documento nos próximos dias. O texto, segundo ele, será coerente com a história do partido.

Questionado sobre investigação do Ministério Público de Minas Gerais, de supostas irregularidades no programa Poupança Jovem, criado por ele quando era governador do Estado, Aécio disse que não foi citado no caso.

"Tem que perguntar para o promotor, que abriu [a investigação] em 2009, e eu nem fui citado com relação a isso. Tem que tomar muito cuidado com essas notícias que vêm em vésperas de eleição. Eu faria uma pergunta: alguém que abriu a investigação em 2009 e não citou o Estado até hoje? Fica para você a pergunta", disse o senador a jornalistas.

Aécio: eleitor escolherá melhor alternativa

• Ultrapassado por Marina, tucano afirma que leitura principal das pesquisas é a saída do PT do poder

Alexandre Rodrigues – O Globo

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse ontem que a principal interpretação das pesquisas de intenção de voto é a de que a presidente Dilma Rousseff (PT) já perdeu a reeleição e o PT deixará o poder. Para o senador, a eleição deste ano será decidida entre a candidatura dele e a de Marina Silva (PSB), que o ultrapassou nas sondagens e empatou com Dilma em primeiro lugar, de acordo com pesquisa do Datafolha divulgada na semana passada. Sobre a sua posição em terceiro lugar, ele afirmou que ainda há tempo para sua campanha levar as propostas aos eleitores para que eles possam comparar os dois projetos políticos alternativos ao PT antes de fazer a escolha definitiva nas urnas.

- O atual governo fracassou. Essa é a questão central. E não vencerá as eleições o grupo que hoje está no poder. Das duas alternativas competitivas que aí estão, nós apresentamos uma, coerente com o nosso passado e com o que queremos fazer pelo Brasil. A população vai ter oportunidade de avaliar essas propostas, até porque não há nada de mais velho na política do que o discurso adaptado às circunstâncias do momento - afirmou Aécio, que voltou a apontar inconsistências e contradições no discurso de Marina.

Semelhança de programas
O tucano negou que tenha classificado o crescimento de Marina nas pesquisas como "uma onda", embora tenha usado a expressão sem citá-la diretamente há uma semana, em visita ao comércio popular da Saara, no Rio. Na ocasião, ele disse que política e eleições muitas vezes funcionam como o mar, "as ondas vêm". Agora, o tucano reconhece a candidata do PSB como "competitiva", mas se disse "animado" para levar sua campanha até o fim, cobrando mais clareza de Marina.

- Nunca disse que era uma onda. Respeito a posição de Marina, uma candidata competitiva. Ela agora terá a oportunidade de dizer ao Brasil no que acredita de verdade - disse Aécio, pouco antes de entrar em campo para um jogo de futebol com ex-atletas e artistas que o apoiam no complexo esportivo do ex-jogador Zico, na zona oeste do Rio. - Vamos até o último dia, defendendo o que acreditamos ser melhor para o Brasil. O atual modelo fracassou por improviso, por inexperiência. Não queremos que o Brasil fracasse novamente.

Aécio repetiu que viu muitas semelhanças entre o programa de governo apresentado por Marina na última sexta-feira e as ideias que ele e seu partido defendem, embora tenha sido cobrado pelo vice na chapa de Marina, Beto Albuquerque (PSB), por ainda não ter lançado o seu. O tucano não quis dar uma data, disse apenas que já apresentou as diretrizes e que seu plano será divulgado "nos próximos dias". Sobre as críticas que tem feito a Marina, Aécio afirmou que não o afastam de um apoio dela se chegar ao segundo turno.

- Ao contrário, eu tenho sempre ressaltado que respeito todas as candidatas, especialmente Marina. Cobro que cada candidato diga com clareza o que pretende fazer adiante - amenizou. - Boas intenções todas as candidaturas trazem, mas o Brasil precisa de mais do que isso.

Aécio classificou a estagnação econômica do governo Dilma de "grave crise". E disse que tem condições de escalar "os melhores" para comandar a economia, não o "segundo ou terceiro time":

- Não existe emprego, sobretudo de boa qualidade, quando não existe crescimento. As próprias negociações salariais serão feitas em prejuízo do trabalhador. O Brasil precisa rapidamente encerrar esse ciclo de governo que fracassou para iniciar um outro, de retomada do crescimento a partir da credibilidade daqueles que vão assumir o o governo.

Analistas cortam previsão para o PIB a 0,52% em 2014

• Na semana passada, dados do IBGE, que mostraram contração de 0,6% no 2º trimestre

- O Globo

RIO - Analistas do mercado financeiro reduziram, pela 14ª vez consecutiva, a previsão para o crescimento da economia brasileira neste ano. Segundo o boletim Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central, a nova projeção é de alta de apenas 0,52% em 2014, bem menor que a expectativa de 0,70% da semana passada.

O relatório é o primeiro a sair após o IBGE divulgar o resultado do PIB do segundo trimestre, que não só mostrou contração de 0,6% no segundo trimestre, mas também revisou o dado relativo aos primeiro trimestre, que ficou negativo em 0,2%. As duas quedas seguidas caracterizaram a chamada recessão técnica.

Os números decepcionaram ainda mais os analistas, que já estavam pessimistas em relação à economia do país. Na quinta-feira, antes da divulgação dos dados do IBGE, a mediana das projeções indicava alta de 0,69%. Na sexta-feira, a estimativa caiu para os 0,52% reveleados nesta segunda. O resultado ruim também influenciou as projeções dos economistas para o ano que vem. Agora, a previsão é de alta de 1,1% (frente a 1,2% apontada na semana passada).

Em relação à inflação, a estimativa dos economistas permaneceu a mesma. A previsão é que o IPCA feche o ano em 6,27%. Para 2014, a mediana das projeções subiu levemente, de 6,28% para 6,29%.

Também não houve alteração da projeção para a taxa de juros deste ano, que foi mantida em 11% ao ano. Já para o ano que vem, a mediana das previsões subiu para 12% ao ano. Nas últimas semanas, as estimativas para a Selic de 2015 têm oscilado entre 11,75% e 12% ao ano, influenciadas principalmente pelas projeções para a alta de preços do ano que vem.