quarta-feira, 20 de maio de 2020

Entrevista | Giuseppe Vacca - A crise econômica mundial não decorre só da pandemia

Site Gramsci e o Brasil, Maio 2020

Deixemos de pensar que a espantosa recessão que nos acometeu é só o fruto da pandemia e do Cisne Negro que atormenta este infeliz 2020. Não é assim: a queda do ciclo econômico é, antes de tudo, o resultado da inadequação com que foi enfrentada a crise mundial anterior, a de 2007-2008, quando se evitou discutir as origens da crise e as incoerências do modelo de desenvolvimento, que agora novamente apresentam a conta. É o que afirma com paixão, nesta entrevista a FIRSTonline, Beppe Vacca, que não é economista, mas filósofo da política, ex-deputado do PCI e ex-presidente do Instituto Gramsci, e que, como intelectual de primeira linha que é, está acostumado a pensar alto e a buscar o sentido geral dos diversos aspectos que compõem a realidade e, sobretudo, a não encerrá-la nos estreitos limites domésticos. A pandemia e a crise econômica não podem ser interpretadas só segundo esquemas nacionais, assim como é ilusório pensar num novo “milagre econômico” em termos só italianos. Para compreender o que está realmente acontecendo, é preciso abrir as janelas sobre o mundo, compreender que a Itália enfrenta o verdadeiro desafio na Europa e que é inútil colocar objetivos excessivamente ambiciosos, porque o governo Conte 2 é “uma coalizão de emergência, não uma aliança reformadora”. Refundar o nosso sistema econômico é certamente necessário, mas não agora. Mas eis como Vacca vê a situação que estamos vivendo, ecoando o que escreveu há alguns meses no seu novo livro O desafio de Gorbachev. Guerra e paz na era global (Ed. Salerno).

• Professor Vacca, se a Fase 1 da situação de emergência coronavírus e a Fase 2 do recomeço foram muito difíceis, não menos problemática se anuncia a Fase 3 da retomada econômica: há quem fale de reconstrução da Itália diante de uma recessão epocal, mas, visto que não crescemos há mais de vinte anos, não acredita que seja o momento de elevar as expectativas e visar a uma verdadeira refundação do nosso sistema econômico? Mas em que bases?

Esta pandemia tem um caráter global e, portanto, não consigo imaginar a retomada da economia italiana prescindindo da evolução da pandemia em escala mundial. Aprendendo com a experiência chinesa, em todos os países atingidos as medidas adotadas até agora são medidas de contenção da infecção, não de neutralização do vírus, como se prevê que acontecerá com a descoberta de uma vacina apropriada e sua aplicação na população mundial. Um período de alguns anos, dizem os especialistas. Se a contenção da epidemia na Itália se revelar eficaz, serão mitigadas e a seguir eliminadas as medidas de isolamento, bloqueio das atividades, da circulação, etc. A economia, como se costuma dizer, será desbloqueada; mas não poderemos relançar e muito menos “refundar” o sistema econômico sem considerar a evolução da crise econômica mundial. O tema é amplo demais para abordá-lo aqui. Para mim, bastaria que se deixasse de atribuir a crise econômica mundial à pandemia. Os 25% de desempregos a mais nos Estados Unidos, em um mês, não são só o efeito da pandemia, da ignorância e da demora com que foi enfrentada por Trump. Desde quando houve a “retomada” da economia americana graças às medidas financeiras adotadas em 2008, esperava-se para a primavera deste ano uma nova queda do ciclo econômico mundial devido, antes de tudo, ao fato de que os meios com os quais se deteve a crise de 2007-2008 repropunham o mesmo modelo de desenvolvimento da década precedente, que gerara a grande crise do subprime.

• Franco Amatori, o historiador da economia, escreveu recentemente aqui mesmo em FIRSTonline, que a Itália precisaria do seu terceiro milagre econômico depois daqueles do início do século XX e do boom entre os anos 1950 e 1960, mas, para ter a expectativa de um novo milagre, seria preciso um New Deal ou, pelo menos, uma ideia geral do futuro da Itália cuja sombra não se vê: na sua opinião, como se pode preencher um déficit cultural e político deste tipo?

Concordo com o professor Amatori na invocação de um New Deal e vejo com uma ponta de otimismo que, na reconstrução da coalizão Democrática para as próximas eleições presidenciais americanas de novembro, despontem sinais rooseveltianos. Além disso, o impacto da pandemia e da crise global está relegitimando, quase por toda parte, os modelos da economia mista demonizados nos últimos 40 anos. Mas pensar num novo “milagre econômico” não me parece realista em termos puramente nacionais. O “milagre italiano” há 60 anos se verificou no contexto da regulação da economia mundial baseada no padrão dólar, no Plano Marshall e no compromisso dos Estados Unidos de recolocar em pé a Itália, com o fim de conter a presença das potências coloniais europeias, França e Grã-Bretanha, no Mediterrâneo. Nada deste tipo está à vista hoje. A narrativa global proposta pelos Estados Unidos é a de uma nova guerra fria com a China. É uma narrativa enganadora. A guerra fria dos anos 1950 nasceu da convergência das duas maiores potências pós-bélicas (USA e URSS) para tentar reduzir a uma regulação bipolar um sistema mundial de relações internacionais já então tendencialmente multipolar. No mundo multipolar e interdependente de hoje, o esquema da guerra fria não pode ser proposto. Os desafios entre os grandes players globais devem ser encarados por meio da cooperação multilateral, senão cresce a tentação de uma guerra mundial, que talvez a Covid-19 tenha por ora afastado. De todo modo, antes de falar do mundo, deveríamos olhar para a União Europeia, quando menos porque é a dimensão em que a Itália pode renascer, com seus parceiros iniciais, ou afundar com eles e mais do que com eles.

Merval Pereira - Militares no poder

- O Globo

Não é sério um país que põe leigo em Ministério da Saúde para fazer o que dois técnicos se recusaram por motivos éticos

No mesmo dia em que chegamos ao trágico recorde de mil mortes por dia devido à Covid-19, nada mais exemplar da militarização do governo Bolsonaro do que o General Eduardo Pazuello, exercendo a função de ministro interino da Saúde, ter assinado o novo protocolo que autoriza a utilização da cloroquina no tratamento inicial da doença.

Uma decisão polêmica, que não possui suporte técnico de credibilidade para ser adotada. A cloroquina provoca efeitos colaterais graves, como arritmias que podem ser fatais, e não se mostrou eficaz em vários testes já realizados em diversas partes do mundo.

O General Pazuello assumir a responsabilidade de autorizar prescrições médicas temerárias demonstra que as vontades do presidente Bolsonaro já não têm barreiras para contê-las, mesmo perigosas.

Por mais competente que o General seja na questão de logística, o que justificou sua chegada ao ministério na gestão de Nelson Teich, não é sério um país que coloca um leigo em seu ministério da Saúde para fazer o que dois ministros técnicos da área se recusaram a fazer por motivos éticos, no momento em que vivemos a maior pandemia em um século.

Zuenir Ventura - Nebulosas transações

- O Globo

Queiroz andou sumido, ou fugido, do noticiário

Os mais de 55 milhões de brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro acreditando em sua promessa de acabar com as velhas práticas políticas certamente não suspeitavam que pouco mais de um ano depois iriam vê-lo associado a vários rolos e escândalos.

O mais vistoso deles tem como origem a denúncia do ex-ministro Sergio Moro, que deixou o governo acusando o presidente de tentar interferir na Polícia Federal para preservar a família. Um inquérito foi aberto pelo ministro do STF Celso de Mello, e o clímax desse enredo com suspense de novela está anunciado para ocorrer até depois de amanhã (ou antes), quando pode ou não ser autorizada pelo ministro a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, que ameaça ser uma bomba, pelo conteúdo e pela forma. Parece que houve mais xingamentos e palavrões do que discussões relevantes.

Enquanto se aguardava, surgiu a entrevista a Mônica Bergamo do empresário Paulo Marinho, suplente do senador Flávio e peça fundamental na campanha eleitoral do capitão — chegou a transformar a casa em estúdio e escritório do candidato.

Bernardo Mello Franco - WW, mais uma máscara que cai

- O Globo

Eleito com discurso moralista, Witzel virou alvo de uma investigação por fraudes na Saúde. A exemplo do antecessor Sérgio Cabral, ele se diz vítima de perseguição

Wilson Witzel era um ilustre desconhecido quando despiu a toga para concorrer ao governo do Rio. Aliado à família Bolsonaro, ele usou o título de ex-juiz para se vender como um caçador de corruptos. O discurso colou, e o azarão chegou ao Palácio Guanabara.

A pose de moralista durou pouco. No quinto mês de governo, Witzel criou uma secretaria para abrigar o notório André Moura. Agora o que ainda restava da máscara foi ao chão. O governador foi incluído em investigação no Superior Tribunal de Justiça sobre suspeita de fraude na compra de respiradores. Ontem o estado ultrapassou os três mil mortos pelo coronavírus.

Além de atrasar a entrega dos hospitais de campanha, a Secretaria de Saúde voltou às páginas policiais. Dois subsecretários já foram presos, acusados de superfaturar contratos emergenciais durante a pandemia. No domingo, Witzel demitiu o titular da pasta, Edmar Santos. No dia seguinte, voltou a contratá-lo como chefe de uma secretaria extraordinária.

Míriam Leitão - O que Bolsonaro deu ao centrão

- O Globo

O FNDE tem dinheiro, obras, relação com prefeitos, licitações. Bolsonaro o coloca no balcão de negócios para ficar no cargo

O pote de dinheiro do Ministério da Educação fica no FNDE. O Fundo tem mais do que dinheiro, tem capilaridade. Através dele se fala com prefeitos do país inteiro, porque de lá é que saem as obras para a construção de creches e escolas, as compras de ônibus para o transporte escolar, a distribuição de material escolar e o fornecimento de merenda. É isso que o presidente Bolsonaro está entregando aos indicados de Valdemar Costa Neto, do PL, e Ciro Nogueira, do Progressistas.

— Dos R$ 140 bi a R$ 150 bilhões do orçamento do Ministério da Educação, dois terços são carimbados. Dinheiro para as universidades federais, os institutos federais, os hospitais universitários. Dos R$ 50 bilhões do FNDE, uns R$ 14 bilhões vão para o Fundeb. O resto — uns R$ 36 bilhões — é o dinheiro almejado. Por isso, todos os prefeitos quando chegam a Brasília vão lá falar com diretores e presidente do FNDE — explica o catedrático da Universidade de São Paulo Mozart Neves Ramos, especialista em educação, e ex-secretário de Pernambuco.

Binho Marques, ex-governador do Acre, e também especializado em educação, acompanha o trabalho do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação desde 1993, quando na gestão Murílio Hingel, no governo Itamar Franco, o fundo, criado no governo militar, começou a ser aperfeiçoado. Esse fundo é formado com o dinheiro do salário educação, mas, conta Binho, Hingel passou a adotar critérios para liberação dos recursos. Depois, houve novas mudanças na gestão Paulo Renato e nos governos do PT. O papel do FNDE foi ficando mais técnico. A tal ponto que Binho acha que existe menos espaço para desvios.

Ricardo Noblat - Enquanto o coronavírus mata, Bolsonaro conta piada

- Blog do Noblat | Veja

O mundo olha assombrado para o Brasil
No dia em que pela primeira vez o número de mortos com Covid-19 no Brasil passou de mil em 24 horas, o presidente da República, em entrevista virtual concedida a partir da biblioteca do Palácio da Alvorada, resolveu contar uma piada e ele mesmo riu muito dela: “Quem for de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”.

Cloroquina é a droga receitada pelo presidente para tratar doentes com coronavírus. Não há comprovação científica de que ela funcione, mas ele mandou que o Exército a produzisse em larga escala. Tubaína é um refrigerante de baixo custo à base de guaraná. Jair Bolsonaro é o presidente mais estúpido e ignorante da história do Brasil.

O mundo em que ele vive não gira em torno do Sol. Não tem vida inteligente nem seres sensíveis. As espécies são as mais rudimentares. Chafurdam em pântanos que exalam odores apodrecidos e venenosos. Não sobrevivem por muito tempo. Mas enquanto duram, tentam capturar e destruir os seus semelhantes. O planeta da morte.

Em menos de dois meses, o número de brasileiros vítimas fatais do coronavírus ultrapassará, hoje, a casa dos 18 mil. E o de infectados poderá chegar a 300 mil. A soma dos mortos já é maior do que a população de mais da metade dos municípios do país. O Brasil é o terceiro país com mais casos confirmados da doença e avança célere para a vice-liderança.

Rosângela Bittar - Fase 2, sobrevivência

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro entregou, sem hesitar, a chave do cofre bilionário do FNDE ao Centrão

É imperativa a compreensão do alcance da firme reação humanista com que homens públicos de diferentes tendências e origens estão respondendo ao surto de barbarismo do governo Jair Bolsonaro. As manifestações ponderadas de ex-ministros de Estado chamam à realidade muitos dos seus sucessores, em áreas sensíveis como Direitos Humanos, Relações Exteriores e, nesta semana, Defesa. A exortação enfática à razão visa o presidente.

Duas vantagens com as quais Bolsonaro ainda conta, porém, impõem cautela na tradução dos manifestos em ação concreta: o apoio de parte da opinião pública, que se reduziu, mas não acabou; e a sua ínfima, porém real, capacidade de, mesmo cambaleando, ainda conseguir obter o apoio de um grupo político como o Centrão. Às feras da barganha entregou, sem hesitar, a chave do cofre bilionário do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Uma prova de que Bolsonaro ingressou, definitivamente, na fase 2 do seu governo, a da sobrevivência.

Para isso, precisou recuar de promessas e remodelar o teatro. Além do Centrão, quer a seu lado os egressos da carreira militar, da ativa ou da reserva. Se há uma distorção do conceito de poder que habita Bolsonaro esta é a que simplifica a conjugação do verbo mandar. A lógica é: ele manda, todos obedecem. Os militares, como têm na disciplina um norte, se estão no governo, defendem o governo.

Vera Magalhães - Rebuliço!

- O Estado de S.Paulo

O 'garoto' Felipe Neto, assim estigmatizado por analistas de todos os lados, deu um banho de humildade e maturidade em políticos e analistas no 'Roda Viva'

Confesso que me causou espanto o nó que o convite a um influenciador digital com milhões de seguidores, Felipe Neto, para uma entrevista, provocou na cabeça de pessoas de várias faixas etárias e de diferentes cortes ideológicos. A reação, um verdadeiro rebuliço, para usar uma palavra que o próprio Felipe transformou em bordão nos seus vídeos, é sintomática do grau de infantilismo do debate político brasileiro.

O “garoto” Felipe, assim estigmatizado por analistas de todos os lados, deu um banho de humildade e maturidade em políticos, analistas políticos, cientistas sociais e outros que torceram o nariz para sua presença no centro do Roda Vida.

Dizendo de cara que não era especialista e que seu “lugar de fala” era o de um empresário, especialista em comunicação e cidadão interessado em política, falou com propriedade sobre autoritarismo, negacionismo científico, estratégias de comunicação via redes sociais e necessidade de união de esforços para preservar a democracia.

Admitiu erros do passado, propôs caminhos de convergência com a propriedade de quem sabe que influencia um imenso público jovem e se dispôs a ouvir.

Monica De Bolle* - A queda

- O Estado de S.Paulo

Brevemente, estaremos disputando com os EUA o primeiro lugar entre os países mais afetados pela pandemia

Era 10 de março de 2020. Naquele dia, as bolsas desabaram, os circuit breakers foram acionados: no Brasil, mais de uma vez. Era a semana em que os mercados internacionais – e o brasileiro, em parte – começaram a se dar conta da dimensão da crise econômica que resultaria da pandemia. Lembro de ter dito, quando as perspectivas ainda eram de crescimento do Brasil em 2020, que o País provavelmente sofreria a maior recessão da história. De lá para cá, passaram-se dois meses. Foram dois meses em que as projeções para o PIB brasileiro rapidamente convergiram para o quadro recessivo com o qual hoje nos debatemos. Dois meses é muito pouco tempo para uma virada tão abrupta, o que revela o tamanho do precipício.

Esta semana, Kristalina Georgieva, a diretora-gerente do FMI, afirmou já estarem desatualizadas as projeções para o encolhimento do PIB global feitas há pouco mais de um mês. Na ocasião, em meados de abril, o FMI afirmou que a economia mundial sofreria retração inédita de 3% esse ano. Já será pior. Recentemente, o Congressional Budget Office, instituição fiscal independente que funciona no Congresso americano, destacou que o PIB dos EUA deverá sofrer queda de 11% no segundo semestre. Tal queda é de uma ordem de magnitude superior a tudo o que aconteceu durante a crise financeira de 2008, o que dá a dimensão dessa crise. A destruição já é evidente nos empregos perdidos e nas portas que se fecham. Livrarias, restaurantes, lojas de rua. De súbito, bairros na região onde moro ficaram irreconhecíveis, assim como o ritmo da vida.

Almir Pazzianotto Pinto* - A reconstrução

- O Estado de S.Paulo

As perspectivas são desfavoráveis, mas a missão não é impossível

A pandemia de covid-19 surgiu na China em dezembro. Fez as primeiras vítimas em janeiro. Espalhou-se pelo mundo e chegou ao Brasil entre fevereiro e março. Quando aqui aportou encontrou o País em crise, com milhões de desempregados.

Há esperanças de deixarmos o isolamento até o início de junho. Hipóteses otimistas acenam com a possibilidade de refluxo no segundo semestre. O colapso das atividades econômicas só não é mais assustador do que o número de mortos e infectados. Milhares de empresas quebraram. Outras sobrevivem com graves dificuldades. A economia interna retrocederá uma década. O produto interno bruto cairá fortemente, na pior recessão em mais de cem anos. O desemprego poderá alcançar 20 milhões até dezembro.

É tempo de planejar a reconstrução. Joaquim Levy, ex-presidente do BNDES e ex-ministro da Fazenda, entrevistado pelo Estadão (15/4), advertiu sobre a necessidade de se organizar a “saída ordenada da crise”. Alertou, porém, que “tentar reconstruir a economia como era não vai funcionar”.

A reconstrução será possível, porém sobre novos fundamentos. O “custo Brasil” é o primeiro obstáculo que exige demolição. Para o nosso tamanho, é pífia a participação no cenário econômico internacional. Produtos industriais, de tecidos a automóveis, devem se tornar competitivos além do Mercosul, graças à qualidade e ao preço. Além de reduzir a burocracia e a carga tributária, as relações entre capital e trabalho deverão desenvolver-se em ambiente pautado pela busca do entendimento. Em vez do conflito crônico, o diálogo e a negociação.

Ruy Castro* - Quando ele tiver de se explicar

- Folha de S. Paulo

Um dia, diante do tribunal, Bolsonaro não poderá dizer Caso encerrado!

No dia ainda incerto, mas infalível, em que Jair Bolsonaro se sentar no banco dos réus, veremos se usará a tática a que se habituou no poder para se impor numa discussão —silenciar seus interlocutores cortando-lhes a palavra e repetindo aos gritos seus bordões, como “Chance zero!”, “Ponto final!”, “Caso encerrado!”, “Próxima pergunta!”, “O recado está dado!”, “Cala a boca!” e “E daí?”.

A Justiça não se contentará com uma argumentação tão lacônica. Bolsonaro terá de responder extensivamente sobre os episódios em que violou a Constituição, estuprou as instituições, acusou sem provas, jogou o povo contra o Congresso e o STF, botou órgãos de Estado a seu serviço, encobriu sujeiras dos filhos e dos asseclas, mentiu compulsivamente, agrediu minorias e promoveu o desmoronamento da nação com seu ministério de celerados. O crime de mandar os humildes para a morte, exortando-os a sair de casa em plena pandemia, talvez tenha de ser julgado por um tribunal com sede na Holanda.

Elio Gaspari – O mistério da demissão de Queiroz

- Folha de S. Paulo / O Globo

Ex-assessor foi exonerado após encontro cinematográfico de auxiliares de Flávio com delegado da PF

A entrevista do empresário Paulo Marinho à colunista Mônica Bergamo recolocou no centro da mesa a mesma pergunta: por que o presidente Jair Bolsonaro demitiu seu chevalier servant, o ex-PM Fabrício Queiroz, no dia 15 de outubro de 2018, uma semana depois do primeiro turno da eleição e duas semanas antes do segundo?

No mesmo lance, dispensou também a filha de Queiroz. Se eles fizeram algo de errado, nunca se soube. Ela ganhava R$ 10 mil mensais no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro e ele recebia R$ 9.000 servindo ao seu filho Flávio, que acabara de ser eleito senador.

Desde os primeiros dias do governo de Bolsonaro conhecem-se as movimentações financeiras de Queiroz.

Ele nunca explicou suas operações, limitando-se a dizer que "fazia dinheiro" comprando e vendendo carros. Queiroz empregou no gabinete de Flávio Bolsonaro a mãe do ex-PM e miliciano da ativa Adriano da Nóbrega, foragido da Justiça por quase dois anos até que foi morto pela polícia baiana em fevereiro passado.

Hélio Schwartsman - Solução para o Enem

- Folha de S. Paulo

Sem a redação, a prova poderia ser adiada até março ou mesmo abril

O Enem deve ser adiado devido à pandemia? Acho que sim, dentro de certos limites. O argumento é conhecido: como os alunos mais pobres têm mais dificuldades para seguir estudando neste momento de reclusão, a manutenção do calendário reforçaria ainda mais a desigualdade no acesso ao ensino superior.

Não vejo como discordar. O ponto, me parece, é que há um limite para quanto a prova pode ser adiada e ele é dado pelo ano letivo de 2021. O sistema de ensino é um fluxo. Para cada turma que sai, precisa entrar uma nova. Não faria sentido que as universidades ficassem um período sem alunos. Também não podem condensar demais os conteúdos do primeiro ano.

Num cenário de excepcionalidade, como será 2021, as aulas, que costumam ter início em meados de fevereiro, poderiam, sem prejuízo irrecuperável, começar em abril, talvez maio, se suprimirmos as férias de julho. Isso significa que o Enem poderia ser transferido de novembro para janeiro.

Bruno Boghossian – Tiros no escuro

- Folha de S. Paulo

Experiência de São Paulo pode reduzir confiança da população em práticas rigorosas

O prefeito Bruno Covas (PSDB) levou seis dias para reconhecer o fiasco do rodízio ampliado de veículos implantado na capital paulista na semana passada. A ideia era reduzir a circulação durante a crise do coronavírus, mas a medida não ampliou o isolamento e ainda concentrou mais passageiros em terminais de ônibus e estações de metrô.

"Não tem sentido a gente exigir esse esforço sobrenatural das pessoas se a única razão pela qual o rodízio foi feito, que é aumentar o isolamento social, não foi cumprida", afirmou, no domingo (17).

O tucano falava como se a prefeitura não tivesse nenhuma responsabilidade pelo fracasso do plano. A medida, ao contrário, foi um exemplo de mau planejamento e falta de coordenação no momento em que São Paulo se aproxima do ponto de colapso em sua rede hospitalar.

Antonio Delfim Netto* - Chega de guerra

- Folha de S. Paulo

Para ajudar o Brasil a sair da tríplice crise, Bolsonaro precisa fazer as pazes com as instituições

Estamos enfrentando uma crise de proporções inusitadas: 1º) a Covid-19, uma daquelas zoonoses que acompanham o homem no seu processo civilizatório, encontrou-nos despreparados, a despeito do excelente seguro-saúde que construímos em 1988 —o SUS; 2º) uma crise fiscal da qual estávamos apenas saindo; 3º) uma crise política agudizada pelo comportamento errático do presidente Bolsonaro, que, infelizmente, nunca entendeu os limites do poder que o povo lhe deu na eleição e negou-se a fazer o que deveria em novembro de 2018: negociar uma maioria estável capaz de apoiá-lo no governo e dividir com ela, republicanamente, o poder para governar, como ocorre em todas os presidencialismos do mundo.

O comportamento da União, dos estados e dos municípios são coordenados pela Constituição, sob o controle do Supremo Tribunal Federal. A “coordenação” é exigência constitucional. A pretendida tentativa de “submissão” é violação constitucional! O “bate cabeças” entre o presidente e os governadores e prefeitos transformou tudo em “preto” ou “branco”: ou deixar a solução natural darwiniana funcionar (Bolsonaro, “E daí?”), ou o “lockdown” de alguns governadores (deixa tudo para amanhã).

Vinicius Torres Freire – Sem auxílio emergencial, resta um buraco

- Folha de S. Paulo

Compensações chegam ao menos 25% do total da renda do trabalho, mas acabam em 3 meses

Os auxílios emergenciais de R$ 600 e o gasto estimado pelo governo com seguro-desemprego extra devem somar uma despesa de R$ 52,3 bilhões por mês, em uma hipótese conservadora. É o equivalente a 25% de toda a massa de rendimentos mensais do trabalho de março de 2020, segundo dados da Pnad, do IBGE.

Estão incluídos aí também os rendimentos de servidores públicos, que devem perder pouca renda, e de empregadores, muitos deles pequenos, muitos dos quais estão vendo seus rendimentos desaparecerem.

Na mera hipótese de que as perdas fossem exatamente de 25% da massa de rendimentos do trabalho, haveria uma compensação de um por um. As perdas se concentrariam, além do mais, nos indivíduos de renda mais alta (desconsidera-se aqui que os rendimentos dos mais ricos são subestimados).
E daí?

Primeiro, é razoável especular que haveria algum aumento relativo de despesas com bens essenciais, comida e remédio. As despesas com bens mais caros, bens duráveis (de eletrodomésticos a carros, por exemplo), sofreriam impacto relativo maior.

Fernando Exman - Serviços de inteligência são alvejados na crise

- Valor Econômico

Setor é essencial no processo decisório governamental

Psiquiatras bolsonaristas certamente contestariam o diagnóstico. Tem-se a impressão, contudo, de que o governo vive um transtorno bipolar. Oscila entre momentos de grande euforia, como nas cada vez mais frequentes manifestações realizadas em frente à rampa do Palácio do Planalto, lances de agressividade e átimos de lamentação e depressão. No afã de se livrar dos problemas, o governo joga aliados para o centro das crises e ataca instituições de Estado.

Foi assim que os serviços de inteligência, sempre prestigiados pelos chefes de governo e também pelo meio militar, passaram a figurar na desconfortável lista de danos colaterais da guerra travada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sergio Moro.

A relativização da violência sempre foi uma marca do grupo político que chegou ao poder. Novo é o uso da rampa do Planalto como plataforma de filmagem e acesso do presidente para o congraçamento com manifestantes que atacam os demais Poderes, governadores e prefeitos.

Já as lamúrias das autoridades federais têm como motivação os dissabores provocados por aliados que se transformaram em adversários. Elas também passam pelas adversidades impostas pela pandemia de covid-19 aos planos de uma administração que chega aos 500 dias com a missão de evitar que o país entre na rota de uma prolongada depressão.

Cristiano Romero - Somos uma sociedade fundada no ódio não às minorias, mas à maioria

- Valor Econômico

Sem nos reconhecermos no outro, jamais vamos superar a desigualdade que nos define como país

Uma medida da dificuldade que o Brasil tem para modernizar sua economia é o fato de nunca termos concluído as chamadas "reformas" estruturais. Com exceção dos períodos de bonança, o tema sempre esteve presente na agenda nacional desde a década de 1950. No plano simbólico, a imagem é a de um país cuja sociedade, de tão desigual na origem e no caminhar da história, não chega a consensos mínimos, o que dificulta sobremaneira a construção de uma nação. E, sem que nos reconheçamos no outro, característica fundamental de qualquer nação, jamais vamos superar as desigualdades que nos definem desde sempre e nos prendem a um binômio perverso - o de ser um país rico, porém, pobre.

Quando, em outubro de 1979, o senador Ted Kennedy decidiu disputar as eleições primárias do partido Democrata para ter o direito de se candidatar à Presidência dos Estados Unidos, ele justificou desta maneira, em entrevista à rede CBS, seu interesse em comandar o país mais rico do mundo: "As razões que me fariam concorrer são porque eu acredito neste país. Isto é, há aqui mais recursos naturais do que em qualquer nação do mundo; temos a população mais educada, a melhor tecnologia, a maior capacidade de inovação e o melhor sistema político no mundo".

A história não foi generosa com o irmão mais novo de John Kennedy. Ted perdeu as primárias para o incumbente, o então presidente Jimmy Carter, e este perdeu a eleição para o desafiante do partido Republicano, Ronald Reagan.

O que a mídia pensa - Editoriais

• Bolsonaro constrói o seu estelionato eleitoral – Editorial | O Globo

A distribuição de cargos e orçamentos ao centrão começa a definir o destino deste governo

Para quem se elegeu com um discurso visceral contrário à “velha política”, a perspectiva para Jair Bolsonaro é se constituir num estrondoso estelionato eleitoral. O presidente construiu uma imagem muito diferente do que ele é de fato, e isso cobra um preço. As primeiras faturas enviadas a Bolsonaro se devem à queda do disfarce de liberal, deixando aparecer as feições ideológicas de um defensor de corporações, e contrário, portanto, a mudanças incluídas na reforma da Previdência para reduzir a injusta distância entre segmentos privilegiados do funcionalismo público e a grande maioria de assalariados do setor privado. Esta distância entre o verdadeiro capitão e o candidato deve ter sido percebida por uma minoria dos recém-convertidos bolonaristas, preocupados com nuances ideológicas em torno do liberalismo. Se desembarcaram do projeto do novo presidente, devem ter sido compensados com sobras pela adesão de corporações do funcionalismo.

Música | Teresa Cristina - Para ver as meninas

Poesia | Graziela Melo - Poemeto do “que”

Tantas vidas
se passaram
tantas águas
desabaram...

Barcos que
navegaram e
naufragaram!!!

Sonhos
que engendrei
se esfumaram

e os ressonhei!

Por quantas ruas
vaguei!
nos bares por onde
andei

botecos
aonde entrei
te busquei!!!

Esquinas
onde espreitei
teus olhos
nunca encontrei

sempre que
os procurei!!

Mas nunca
os esquecerei!!!

terça-feira, 19 de maio de 2020

Sérgio Abranches* - Bolsonaro em modo defesa

- O Globo

Presidente já perdeu a capacidade de governança

A aproximação de Bolsonaro com o centrão é uma mudança de modo de governo. Ele não quis formar uma coalizão majoritária, quando tinha condições políticas e poder de barganha para tanto. Agora não tem, nem uma, nem outra. O desgaste precoce, o conflito com o Legislativo, o Judiciário e os governadores, as trapalhadas na pandemia e o caso Moro lhe tiram as condições objetivas de negociar a maioria. Escolheu ser um presidente minoritário e o será até o fim. Então, o que ele e o centrão negociam?

Certamente nada parecido com uma coalizão programática, ou o mais próximo disso, como imagina o vice-presidente, general Mourão. Bolsonaro está em modo defesa. Este modo tem precedente na história recente do presidencialismo brasileiro. Foi o que paralisou de vez o governo Michel Temer, depois do “caso JBS”. A presidente Dilma Rousseff até ensaiou algumas tentativas nesse modo, mas não teve sucesso.

Bolsonaro cometeu dois erros políticos importantes. O primeiro foi demitir o ministro da Saúde. Ao fazê-lo, perdeu a possibilidade de ter pelo menos esta parte do governo atuando de forma positiva na pandemia. Agora ficou claro que o governo federal é parte do problema no avanço da Covid-19, o que enfraquece seu apoio social. O outro foi forçar a saída de Sergio Moro. Perdeu o apoio de parte dos que votaram nele para combater a corrupção e expôs-se num caso rumoroso de comportamento irregular. Este pode se agravar com a revelação do vídeo da reunião ministerial em que pressionou o ministro da Justiça a intervir na Polícia Federal. Teve que entrar em modo defesa. Um sacrifício para quem vive do confronto.

Merval Pereira - O cerco se fecha

- O Globo

Denúncia de Marinho reforça relato de Moro, de que governo estava querendo usar PF do Rio para receber informações

Os indícios de que o então senador eleito Flavio Bolsonaro recebeu mesmo um aviso de um delegado de que uma operação da Polícia Federal alcançaria seu chefe de gabinete Fabricio Queiroz e parentes dele parecem confirmados quando se nota a data da exoneração dele e de sua irmã, justamente entre o primeiro e segundo turno da eleição geral de 2018, quando teria acontecido o aviso.

O suplente de Flávio no Senado e candidato a Prefeito do Rio Paulo Marinho, que foi um dos principais apoiadores de Bolsonaro na campanha presidencial, deu detalhes e nomes do enredo, e diz ter como provar toda a sequência da trama, como passagens de avião, reserva de uma sala no hotel Emiliano em São Paulo, e talvez até conversas de WhatsApp.

A investigação do Ministério Público não é difícil com essas indicações. O hotel deve ter em vídeo a entrada dos participantes da reunião em que a estratégia para salvar Flavio foi traçada, e é simples confirmar se no dia indicado o chefe de gabinete de Flavio, e ele próprio, estavam em São Paulo, onde teriam se encontrado com advogados.

Um deles, que Paulo Marinho teria indicado, Ralph Hage Vianna, confirmou que foi procurado para defender Queiroz, mas não assumiu o caso. Segundo Marinho, porque Flavio Bolsonaro conseguiu outro advogado. A confirmação dos detalhes da reunião não pode ser feita por advogados, que são proibidos de revelar suas reuniões com clientes, mas basta fazer como Hage Vianna, ou dizer que não pode comentar, que a confirmação está implícita.

Carlos Andreazza - Programa de Aceleração do Radicalismo

- O Globo

Bolsonaro é instabilidade. Se há crise, ele será o multiplicador

A saída de Teich informa que até a inexistência individual tem limites; e que mesmo um inexistente — cujo contrato para ser ministro consistia em não ser sujeito —pode ter alguma espinha dorsal.

Teich teve, afinal. Alguém se deve ter orgulhado. Não os que percebem que seus dias na pasta se somam aos outros tantos, consumidos pela batalha que resultaria na queda de Mandetta, no curso dos quais o ministério esteve paralisado; isto em meio ao totalitarismo de um vírus cuja sanha configura a peste.

A contribuição de Teich ao país seria nenhuma se o papel que aceitou cumprir não tivesse ampliado o campo a que o chefe expusesse o autoritarismo por meio do qual exerce a atividade executiva na República: o presidente que quer e que, porque quer, terá; no caso, o protocolo para utilização da hidroxicloroquina expandido a pacientes sob infecção leve.

A lacuna Teich comunica que somente Bolsonaro pode ser ministro da Saúde de Bolsonaro. A ver apenas quem — explorando nova fronteira para flexibilização de vértebras morais — lhe será o cavalo. Não é muito diferente da vontade que se move para interferir na PF. A saída de Moro comunicou que somente Bolsonaro poderia ser a polícia política de Bolsonaro.

Repito: o presidente está trocando de pele, inaugurando um governo que se liberta da carcaça narrativa eleitoral, num processo de radicalização acelerado pela janela de oportunidades escancarada pela Covid-19. Há também, insisto, a mudança de base social: a aposta bolsonarista em compensar a perda de apoio na classe média com a conquista das camadas populares.

Bernardo Mello Franco - Em busca de um fantoche

- O Globo

Bolsonaro busca um fantoche para mandar sozinho no Ministério da Saúde. A disputa está entre militares treinados para obedecer e médicos dispostos a distribuir cloroquina

O Brasil começou a semana sem ministro da Saúde. A julgar pelas opções na praça, pode ser melhor continuar assim. A saída de Nelson Teich abriu uma corrida desenfreada pelo cargo. Há gente disposta a rasgar o diploma de medicina para chegar lá.

Jair Bolsonaro já definiu o perfil do novo ministro. Quer alguém que sorria na foto enquanto ele dá as ordens. A busca por um fantoche afunilou a disputa entre dois grupos de candidatos. Os militares, treinados para obedecer, e os cloroquinistas, que topam receitar pílulas mágicas na pandemia.

Há quatro dias, o general Eduardo Pazuello despacha como ministro interino. Ontem ele passou no primeiro teste de fidelidade. Em reunião da OMS, omitiu a gravidade da crise no Brasil e disse que o governo federal busca o diálogo com estados e municípios. Seria bom se fosse verdade, mas não é.

José Casado - A crise em câmera lenta

- O Globo

Construção do impedimento está se tornando fato político

Quem assistiu ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril pôde confirmar: o governo resolveu preencher com palavras o vazio de ideias sobre a crise humanitária.

Morreram mais de 16 mil pessoas até ontem. São 1.105% mais vítimas do que o país possuía apenas um mês atrás. É como se, em quatro semanas, houvesse desaparecido a população inteira de cidades do tamanho de Sumidouro, no Rio, Pindorama, em São Paulo, ou Canudos, na Bahia.

As cenas gravadas são de inusual crueza. O Planalto surge como centro de um pandemônio político na pandemia. Bolsonaro e alguns ministros se desqualificam em atmosfera de vulgaridades, incapazes de discernir entre a realidade e a fantasia autoritária. Confirmam a ironia do vice Hamilton Mourão: “Está tudo sob controle... só não se sabe de quem.”

O vídeo contém fragmentos de um processo de suicídio político, em câmera lenta. É parte do mosaico de autoflagelo que justifica pressões crescentes, hoje materializadas em três dezenas de pedidos de impeachment. Elas aguardam decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Míriam Leitão - A politização da economia

- O Globo

Guedes tem politizado o seu ministério ao se lançar contra adversários do presidente. Deveria ser o ponto de equilíbrio

O pior que pode acontecer no meio de uma crise é a politização do Ministério da Economia. E é o que está acontecendo na gestão de Paulo Guedes. Quando o ministro dispara sua retórica cheia de ofensas aos supostos adversários do presidente, ele está sendo parte do problema e não da solução. A demora na sanção do projeto de socorro aos estados decorre do fato de que o programa passou a ser parte do arsenal na briga contra o isolamento social. Não faz sentido usar isso na queda de braço com os governadores.

As suas frases de imagens fortes e sempre com sujeito indeterminado são feitas sob medida para fortalecer o presidente Jair Bolsonaro na guerra perigosa que ele trava com os estados. “Vamos nos aproveitar de um momento de gravidade, uma crise na saúde, e vamos subir em cadáveres para fazer palanque? Vamos subir em cadáveres para arrancar recursos do governo? ”, disparou ele na sexta-feira, no balanço dos 500 dias de governo.

Ele ajudaria se dissesse de quem está falando. Quem está transformando tudo em palanque, desde o início? Se ele olhasse para o presidente Jair Bolsonaro, acertaria a resposta. O dinheiro não é do governo federal, é dos contribuintes. A dívida, se for contraída, será em nome dos brasileiros. Este é o momento em que necessariamente teria que haver uma solidariedade entre a União e os entes federados que estão na frente de combate contra a pandemia. O Ministério da Economia nestes momentos de crise precisa ser um ponto de equilíbrio comprometido principalmente com seus princípios e pontos inegociáveis.

Ricardo Noblat - Para os bolsonaristas, o melhor é já irem se acostumando

- Blog do Noblat | Veja

Filhos acima de tudo, só abaixo do pai

O presidente Jair Bolsonaro tem mais o que fazer do que se preocupar com o coronavírus que já matou quase 17 mil pessoas e infectou 254 mil; o índice de desmatamento na Amazônia, o maior registrado nos últimos 10 anos no mês de abril; a dificuldade enfrentada por donos de pequenos negócios de acesso a linhas de crédito especiais. Mesmo a escolha de um novo ministro da Saúde, o terceiro em pouco mais de 500 dias de governo, pode esperar.

No momento, são duas as prioridades de Bolsonaro: preparar-se para defender seu mandato ameaçado por um processo de impeachment; e salvar a pele do seu filho Flávio, investigado sob a suspeita de que embolsou parte do salário dos funcionários de seu gabinete à época em que era deputado estadual no Rio. Foi para ajudar a carreira política dos filhos que ele se lançou candidato a presidente. Uma vez eleito, imaginou que o futuro deles estava garantido.

Um amigo de Bolsonaro, que ele chama de Fred, ouviu seu desabafo na noite da vitória, em 28 de outubro de 2018: “Estou fodido”. Em seguida, o presidente começou a chorar. Fred não sabe dizer se o desabafo e o choro tinham a ver com a situação de Flávio, avisado por um delegado da Polícia Federal de que em breve viria a público a história do esquema da rachadinha comandado por ele e Queiroz. Ou se tinham a ver com o despreparo de Bolsonaro para governar.

Ana Carla Abrão* - De boas intenções...

- O Estado de S.Paulo

Temos que ter mais do que boas intenções para desenhar políticas públicas corretas e eficazes para o mercado de crédito

O mercado de crédito responde a riscos. Maior o risco, em particular o de inadimplência, mais caro e mais escasso o crédito. Esse é o mecanismo que garante que os recursos – captados do público pelos bancos ou de investidores pelas fintechs – sejam aplicados de forma segura e sejam canalizados para investimentos com maiores chances de vingar. Vem daí a contribuição do mercado de crédito para o desenvolvimento econômico e para o aumento do bem-estar das pessoas.

No Brasil, há episódios recentes em que se tentou desvirtuar esse mecanismo, forçando a desconexão entre risco, preço e volume de crédito e impondo redução de juros via bancos públicos ou financiando projetos e empresas a juros subsidiados. Esses, na melhor das hipóteses, poderiam ter sido financiados a juros de mercado. Na pior, nem deveriam ter sido financiados. Nessa ilusão de que intervenções diretas no mercado de crédito funcionam, o que se conseguiu ao final foi: i) transferência da inadimplência do sistema para os bancos públicos (e portanto para o Tesouro Nacional) e ii) uma contração maior do mercado de crédito do que seria esperado em condições normais de funcionamento. Vivemos hoje a maior crise da nossa história.

Pedro Fernando Nery* - Edaíquistão

- O Estado de S.Paulo

Não será possível instituir uma renda básica melhor que o Bolsa Família depois da crise, sem combatermos os nossos 'e daís'

“Perigo de dano irreparável ou de difícil reparação”. Diante disso, a liminar foi concedida no meio da pandemia, realocando milhões de reais do orçamento da Seguridade Social. Mais dinheiro para a Saúde comprar respiradores? Não, tampouco para a Assistência pagar o auxílio emergencial. Ao contrário, a decisão diminui o dinheiro disponível para as duas áreas. O juiz federal decidiu que os juízes federais não precisam pagar as novas alíquotas progressivas da reforma da Previdência.

Confisco foi a razão para considerar inconstitucional trecho da Emenda Constitucional discutida pelos constituintes ao longo do ano passado. O tema espera julgamento no STF. A liminar do juiz dada neste mês no processo 1009622-08.2020.4.01.3400 é em favor da sua própria categoria – embora seja verdade que o mesmo tratamento foi dado a outras categorias em outras ações.

O argumento é simples: como a alíquota progressiva exige contribuições maiores de quem ganha mais, aqueles no teto remuneratório terão uma alíquota efetiva de quase 17% para a Previdência. Somada ao imposto de renda, a tributação total sobre o salário superaria 40%.

Hélio Schwartsman- O dever do impeachment

- Folha de S. Paulo

Temos a obrigação moral de deflagrar o processo, mesmo que não tenha êxito

Não sei se um impeachment contra Jair Bolsonaro tem condições de prosperar. Numa avaliação política, eu diria que, hoje, não. Mas acredito que temos a obrigação moral de deflagrar o processo, mesmo que não tenha êxito. Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes.

O impeachment tem dupla natureza. Ele é ao mesmo tempo um instituto político e judicial. Se o bom articulador só deve levar sua proposta a votação quando sabe que vai ganhar, o policial é em tese obrigado a entrar em ação sempre que flagra uma ilegalidade.

Ranier Bragon – Mato no peito

- Folha de S. Paulo

Escolhido por Bolsonaro após cortejá-lo, procurador-geral chega à sua hora decisiva

Augusto Aras foi alçado à chefia do Ministério Público desprezando o apoio dos colegas e optando por algo que se mostrou bem mais eficaz, um vergonhoso beija-mão. Agora, o procurador-geral da República chega ao seu teste de fogo.

Desenvolve-se em Brasília um teatro. Jair Bolsonaro tenta emplacar a versão de que na reunião ministerial de 22 de abril não manifestou intenção de interferir na Polícia Federal para proteger a ninhada. Contra suas próprias palavras, ações, regras palacianas e a lógica em geral, fala que queria interferir era na sua segurança pessoal. Uma história que faz a Operação Uruguai de Collor, de quase 30 anos atrás, parecer ter sido bolada em Harvard.

O teatro dos parlapatões é completado por generais —oriundos de uma corporação que tanto preza a verdade e a honra— se prestando ao patético papel de sustentar o que sabem ser uma mentira. E em prol de uma família cuja palavra não vale absolutamente nada.

Caberá a Augusto Aras decidir entre a denúncia e o arquivamento.

Pablo Ortellado* - Regular as mídias sociais

- Folha de S. Paulo

Conter desinformação exige enfrentar os paradoxos da colisão de direitos e os riscos da regulação estatal

À medida que o problema da desinformação nas mídias sociais se agrava, em meio à pandemia, propostas legislativas apressadas e mal formuladas têm ganhado impulso —inclusive sendo aprovadas em assembleias estaduais.

Por isso, é um alento ver o projeto de lei de regulação das plataformas de mídia social dos deputados Felipe Rigoni e Tabata Amaral. Apesar de imperfeições pontuais, o projeto tem uma abordagem adequada, ampliando a transparência e aperfeiçoando medidas já adotadas.

Assim que foi apresentado, o projeto despertou um apaixonado debate entre plataformas, ativistas dos direitos humanos e empresas de comunicação. Um dos pontos centrais do debate são possíveis ameaças à liberdade de expressão.

Embora as mídias sociais ofereçam um serviço privado, elas se tornaram o meio padrão de comunicação da sociedade, de maneira que é perfeitamente razoável entender que limitar a expressão nesse serviço efetivamente limita a liberdade de expressão.

Mas a liberdade de expressão não é o único direito humano em questão na regulação das plataformas. Outros direitos, como o direito à não discriminação e o direito à vida, têm sido fortemente ameaçados, caracterizando uma colisão de direitos que precisam ser ponderados.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Quando as redes invadem as Redações

- Folha de S. Paulo

A luta para não dar visibilidade é perdida e não adianta lutar contra ela

Antes das redes sociais, era muito fácil manter uma ideia ou um personagem fora do debate público: bastava que não lhe fosse dado espaço na imprensa. Na impossibilidade de chegar a um número relevante de pessoas, a ideia ou pessoa dificilmente teria notoriedade ou fama. O sistema podia excluir pessoas de mérito genuíno, mas também barrava muitos malucos e desinformantes.

Isso mudou. As figuras mais bizarras não precisam dos holofotes da mídia tradicional para fazer fama, fortuna e até chegar ao poder. A estratégia de negar espaço não funciona mais; Facebook e WhatsApp estão abertos a todos.

Supondo que seja um objetivo da sociedade e da imprensa reduzir a quantidade de oportunistas, malucos e charlatães que vendem desinformação para o grande público, qual deveria ser a postura da imprensa profissional neste novo contexto?

Uma crítica comum ao trabalho da imprensa é a de que, quando noticia as aberrações ditas e feitas por figuras em busca de fama, isso só lhes ajuda a ficarem ainda mais famosas. Vemos isso, por exemplo, no triste espetáculo dos manifestantes pró-Bolsonaro em Brasília. Ao mesmo tempo, é importante que o público conheça o que está acontecendo no país. E o horror gera cliques.

Yascha Mounk* - Um mundo diferente, mas nem tanto

- Folha de S. Paulo

É preciso evitar tentação de que atuais acontecimentos acarretarão mudanças sem precedentes

Nas últimas semanas, todo intelectual que se preze tem dado declarações abrangentes e generalizadas sobre as grandes transformações que a pandemia vai inaugurar.

Alguns dizem que a era da globalização já acabou, inequivocamente. Para outros, nossa vida social ficará irreconhecível. Cafés, festas, restaurantes e reuniões em massa vão virar coisa do passado.

Eu me arrisco a duvidar disso.

Um vírus novo se espalhou rapidamente por todo o mundo nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial, matando milhões de pessoas. No meio daquela pandemia também deve ter parecido que algumas coisas jamais poderiam voltar ao normal.

Muitos milhares de jovens estavam morrendo em hospitais de campanha simplesmente por terem por acaso topado com alguém que era portador do vírus.

Por que as pessoas quereriam algum dia voltar a correr o risco de contrair uma doença tão assustadora, apenas pelo prazer de dividir um drinque com amigos ou ouvir um pouco de música?

No entanto, a devastação da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola foi seguida rapidamente por um mergulho delirante na sociabilidade. Os chamados "Roaring Twenties" (os loucos anos 1920) testemunharam uma explosão de cafés, festas, concertos e reuniões de massa.

Isso está longe de ser uma aberração. Ao longo da história, a humanidade já passou por muitas fases de pestilência (ou criminalidade, ou terrorismo, ou vários outros tipos de perigos à vida e à integridade física de foliões).

E, embora todos esses surtos de doenças contagiosas tenham tido consequências de longa duração, a única coisa que nunca conseguiram foi impedir as pessoas de buscar a companhia umas das outras. Afinal, somos animais sociais.

Andrea Jubé - E vai colocar quem no lugar?

- Valor Econômico

PEC impede vice de assumir Presidência em definitivo

Parlamentares que transitam na cúpula das duas Casas legislativas afastam um eventual impeachment alegando que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro ainda é alta, não tem ambiente político, a economia claudica, mas ainda não tombou, e não tem povo na rua - até porque a pandemia da covid-19 impede aglomerações. Essas lideranças insistem que “precisa de povo na [Avenida] Paulista para derrubar presidente”.

Do rol de justificativas, o argumento cabal é a ausência de uma liderança nacional que traga estabilidade ao país. “Vamos tirar o Bolsonaro para colocar quem no lugar?” É a pergunta que todos se fazem e, invariavelmente, vem acompanhada de um silêncio e um suspiro. Um dirigente partidário observa, em tom pragmático, que “Bolsonaro é o que temos para o jantar”.

A leitura predominante entre parlamentares influentes nas duas Casas é a de que um impeachment neste momento só favorece o vice-presidente Hamilton Mourão e mais dois atores: o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

“E ninguém no Congresso gosta deles”, sublinha um senador experiente, sobre Moro e Doria. A menção a Mourão sugere outro verbo: não é gostar ou desgostar, trata-se de desconfiar.

Embora Moro tenha feito gestos de aproximação com o mundo político na passagem pelo governo, a maioria dos parlamentares ainda o vê como o “xerife” da Lava-Jato, que levou dezenas de deputados e senadores ao banco de réus.

Armando Castelar Pinheiro* - Covid-19, inflacionária ou deflacionária?

- Valor Econômico

Há um certo consenso de que, no curto prazo, a pandemia será desinflacionária, mas o debate sobre para onde vai a inflação no pós-pandemia segue acalorado

No início do choque da covid-19, havia dúvidas se esse levaria a inflação para cima ou para baixo. Os inflacionistas enfatizavam a forte queda da oferta provocada pelas medidas de combate à pandemia e, no caso das economias emergentes, a desvalorização cambial. Já os deflacionistas entendiam ser o choque deflacionário, por entender ser o efeito dominante a grande retração da demanda trazida pelo choque, não só pela queda do consumo, por as pessoas ficarem em casa, e do investimento, com a alta da incerteza.

A evolução da inflação nas últimas semanas favorece os deflacionistas. Nos EUA, o índice de preços ao consumidor, com ajuste sazonal, apresentou deflação tanto em março (-0,4%) como em abril (-0,8%), levando a alta dos preços acumulada em 12 meses para apenas 0,3%. No Brasil, a inflação foi na mesma linha, com o IPCA subindo 0,07% em março e caindo 0,31% em abril.

Mas a pandemia é só parte dessa história. Em especial, a queda do preço do petróleo também ajudou a derrubar a inflação. Basta ver que, no Brasil, o preço da gasolina ao consumidor caiu 1,8% em março e 9,3% em abril. Como esta tem peso de 5,1% no IPCA, se o preço da gasolina não tivesse caído, não teria havido deflação em abril. Assim, a alta de mais de 40% no preço do petróleo este mês pode mudar um pouco esse quadro.

Assis Moreira - EUA querem a China fora da OMC

- Valor Econômico

Anúncio da saída de Roberto Azevêdo da direção da OMC provoca especulações sobre um futuro político no Brasil

A sucessão de Roberto Azevêdo na direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), nos próximos meses, vai ser marcada pela competição geopolítica entre os Estados Unidos e a China. Sem surpresa, porque todos os assuntos hoje na cena multilateral de comércio estão dominados pela polarização entre Washington e Pequim.

A administração de Donald Trump quer isolar os chineses. Uma opinião crescente em Washington é de que ou a China é empurrada para fora da OMC ou a OMC terá de mudar muito para os EUA continuarem na entidade.

Uma grande frustração americana, porém, é que sua intenção de colocar a China fora da OMC não tem o eco esperado nem entre seus aliados mais próximos. Nenhum país quer comprar, abertamente pelo menos, uma briga feia dos EUA com Pequim. Como parceiros não encampam os planos americanos, restará a Washington continuar asfixiando a entidade, até que os outros países se submetam a uma reforma profunda.

A principal queixa americana na OMC é de que os chineses têm status de país em desenvolvimento, o que significa prazos e concessões mais flexíveis. Washington acha isso um absurdo e fez propostas para enquadrar o Tratamento Especial e Diferenciado (TED). China, Brasil e outros grandes emergentes não terão essa vantagem nas futuras negociações.

Além disso, os EUA alegam que as regras da OMC não são capazes de enquadrar a economia chinesa, porque elas foram feitas para disciplinar economias de mercado de maneira geral. E a economia chinesa, com o grau de intervenção tão alto do Estado, distorce o campo de competição em favor das suas empresas.