sábado, 20 de novembro de 2021

Ascânio Seleme - Pastore achou Moro

O Globo

Economista nunca escondeu que seu objetivo é ajudar a construir uma terceira via, “seja ela qual for”, como disse a mulher dele

Não foi Sergio Moro que, buscando um nome peso pesado da economia para assessorá-lo na campanha presidencial, encontrou Affonso Celso Pastore. Ao contrário, era Pastore que procurava um candidato que enxergasse como viável para apoiar, eventualmente assessorar e com certeza emprestar seu prestígio para tentar impedir um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. O economista nunca escondeu que seu objetivo é ajudar a construir uma terceira via, “seja ela qual for”, como disse sua mulher, a também economista Maria Cristina Pinotti, ao colunista Merval Pereira.

O próprio Pastore, numa entrevista à “Folha de S. Paulo”, disse que o Brasil corre o risco de perpetuar erros do passado caso eleja Lula ou reeleja Bolsonaro. O economista não caiu de graça no colo de Moro, foi ele próprio que se aninhou ali. Estão enganados os que imaginam que o ex-juiz, iluminado pelo seu conhecimento em economia (do qual ignora-se a extensão), foi atrás e encontrou um economista liberal para atender o mercado. Pastore, que achou Moro, vai tentar construir um raciocínio econômico para o candidato, embora negue a pretensão de ser um novo Posto Ipiranga. Ao “Estado de S. Paulo”, o economista disse estar animado em relação a Moro “porque ele está disposto a me ouvir”.

Affonso Celso Pastore é um símbolo do mercado. Formado em Economia na USP, onde também fez mestrado e doutorado, foi aluno de Delfim Netto e acabou fazendo parte de um grupo conhecido como Delfim boys, pela proximidade com o ex-ministro. Com Delfim no Ministério do Planejamento do governo do general João Figueiredo, tornou-se presidente do Banco Central. Depois, foi professor da própria USP, do Insper e da Fundação Getulio Vargas. Hoje é consultor. Em relação à eleição presidencial do ano que vem, ele pensa e reage como o mercado, cujo primeiro objetivo é encontrar um candidato viável em quem se possa depositar suas fichas.

Carlos Góes - Instituições (de saúde) importam

O Globo

Determinante para a riqueza das nações, na pandemia, vimos que elas também importam para os indicadores de saúde

Os economistas Daron Acemoglu e James Robinson começam seu celebrado livro “Por que as nações fracassam?” com uma história sobre duas cidades homônimas: ambas se chamam Nogales. Em diversos aspectos, as duas Nogales são bem parecidas: o clima é similar; a língua predominante é o espanhol; os habitantes em geral são católicos.

Mas a Nogales do Sul dos Estados Unidos é muito rica. Já a outra Nogales, do outro lado da fronteira, no Norte do México, é muito pobre.

Eles usam esse exemplo para mostrar como as instituições são determinantes para a riqueza e a pobreza das nações. Instituições são regras escritas e não escritas em torno das quais convergem as expectativas das pessoas. E elas influem muito na economia.

Se você não sabe se sua propriedade vai ser tomada pelo governo ou por um criminoso em alguns meses, você não tem incentivo para investir. Similarmente, se alguém espera que os outros sempre o enganem, vai criar mecanismos custosos para evitar ser enganado — como um documento em três vias registrado em cartório.

Pablo Ortellado – Ultradireita sobe na América Latina

O Globo

Nas últimas semanas, a América Latina assistiu à ascensão de duas novas lideranças populistas de extrema direita: Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile. A coalizão de Milei conseguiu 17% dos votos nas eleições parlamentares em Buenos Aires, consagrando-se como a terceira força política da região. Kast desponta como favorito para vencer o primeiro turno das eleições presidenciais no Chile amanhã. Ambos tiveram um desempenho política fulminante, num movimento que lembra muito Bolsonaro em 2018.

Milei é um economista de 51 anos que se autodenomina anarcocapitalista e que concorreu pela primeira vez a um cargo público. Ele ganhou projeção nacional como comentarista e polemista em programas de TV — um pouco como Bolsonaro, que ganhou notoriedade em aparições nos programas de Luciana Gimenez, Pânico e CQC. Também como Bolsonaro, sua postura desrespeitosa e um pouco ultrajante despertou a simpatia da juventude, que o transformou num ícone politicamente incorreto e rebelde.

Ao contrário de Bolsonaro, suas convicções antiestatais são antigas, enraizadas e muito radicais. Ele defende a extinção do Banco Central, o corte de impostos e a pluralidade de moedas, levando a uma eventual dolarização da economia. Milei expressa sua postura antiestatal numa linguagem populista agressiva, prometendo expulsar a “casta” política a patadas.

Demétrio Magnoli – Flor da conciliação

Folha de S. Paulo

Com Alckmin, Lula veste a fantasia de candidato da unidade antibolsonarista

Uma flor de pré-campanha condenada a murchar sob as intempéries do verão. Foi mais ou menos assim que uma jornalista arguta definiu o ensaio de chapa Lula/Alckmin, em conversa privada. Talvez ela tenha razão. Ou não: a flor implausível seria um lance de mestre de Lula e, ainda, atenderia aos interesses de um Alckmin ousado que emerge do exílio político.

Lula selou o triunfo original, de 2002, por meio da Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia a respeitar contratos e conservar o equilíbrio macroeconômico. Capturar Alckmin, torre indefesa no tabuleiro sucessório, equivale a escrever uma segunda versão da célebre carta.

É, quase, xeque-mate. Não, obviamente, por uma suposta torrente de eleitores sob controle do ex-governador, algo que se revelou ilusório em 2018, mas pelo impacto simbólico da flor da conciliação. A missão de Lula é alcançar o Planalto pela autopista do primeiro turno, evitando as traiçoeiras estradas vicinais do segundo. A figura do vice afastaria temores de amplas parcelas do eleitorado, limando os perigosos índices de rejeição que cercam sua candidatura. Com Alckmin, o ex-presidente veste a fantasia de candidato da unidade antibolsonarista: segunda e terceira vias, ao mesmo tempo.

Alvaro Costa e Silva – A mão nervosa do bolsonarismo

Folha de S. Paulo

Os dois principais alvos são o Judiciário e a Polícia Federal

Enquanto o presidente aluga um partido para concorrer à reeleição —qualquer saco de gatos serve—, a manopla do bolsonarismo não para de se mexer por debaixo da mesa, que é sua única maneira de fazer política. No Judiciário avança o aparelhamento, com a nomeação de 75 desembargadores para os seis Tribunais Regionais Federais e com a atuação cúmplice de Kassio Nunes Marques, ministro que representa 10% do chefe dentro do STF, nas palavras não desmentidas do próprio Bolsonaro.

À frente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, Bia Kicis apresentou proposta para revogar a PEC da Bengala, que estabelece a aposentadoria compulsória de ministros dos tribunais superiores aos 75 anos. É uma jogada que abertamente favorece Bolsonaro, permitindo a troca imediata de dois ministros do STF, Rosa Weber e Ricardo Lewandowski. Pela regra atual, eles só se aposentam em 2023.

Cristina Serra - Crime contra o Enem

Folha de S. Paulo

Não é um acidente isolado; faz parte de um projeto de demolição de esperanças

Milhões de jovens brasileiros começam as provas do Enem neste fim de semana em busca de uma vaga no ensino superior, sonho que o governo Bolsonaro tem se esmerado em tornar cada vez mais difícil de alcançar.

São muitos os problemas neste ano: pedido de exoneração de 37 servidores do Inep (responsável pelo exame), denúncias de assédio moral e de censura ideológica e a quase confissão de um crime, quando Bolsonaro disse que a prova começa a ter "a cara do governo".

Tudo isso fomenta desconfianças e cria um ambiente de incertezas para os estudantes, sobretudo aqueles já tão sacrificados pelo aprofundamento de desigualdades em dois anos de pandemia e aulas remotas.

Oscar Vilhena Vieira* - Consciência branca

Folha de S. Paulo

Políticas de ação afirmativa de acesso à educação favorecem processo virtuoso de transformação da sociedade

Como boa parte da classe média branca brasileira, cresci e fui educado num ambiente predominantemente segregado. Com exceção de uma colega negra, que era filha da servente da escola onde realizei o curso primário, jamais tive colegas ou professores negros nas escolas e universidades pública ou privada que frequentei.

Apenas quando fui estudar nos Estados Unidos, em meados dos anos 1990, tive a oportunidade e o privilégio de conviver com alunos e professores negros, que muito me marcaram, como Kimberlé Crenshaw.

O fato de que apenas 1,8% dos jovens negros, entre 18 e 24 anos, se encontravam no ensino universitário em 1997, conforme dados do IBGE, indica que minha experiência pessoal não foi destoante em relação ao padrão de segregação racial que imperou por mais de um século em nosso sistema de ensino universitário.

João Gabriel de Lima* - A gente não quer só dinheiro

O Estado de S. Paulo

O que faz a diferença no combate à pobreza e à desigualdade é o conjunto de políticas públicas

Bolsa do Povo, Vale Gás, Auxílio Brasil.

Como o Estadão mostrou nesta semana, em reportagem de Adriana Ferraz e Davi Medeiros, programas de transferência de renda para a população vulnerável multiplicam-se pelo País. Eles são bem recebidos na emergência econômica em que vivemos, em que os brasileiros sofrem com a inflação e o desemprego em alta. Pelo mesmo motivo, rendem votos num ano eleitoral.

Surge a pergunta: para além de resolver carências imediatas, até que ponto tais programas são eficazes em combater pobreza e desigualdade, nossos flagelos históricos, no médio e longo prazo?

Adriana Fernandes - Novos meteoros à vista

O Estado de S. Paulo

O líder do governo e relator da PEC tenta ganhar tempo para contar votos e buscar os que faltam

Senadores envolvidos mais de perto nas negociações da PEC dos precatórios suspeitam que o governo não está sendo transparente quando fala que seria um desastre total a retirada da fixação de um limite para o pagamento anual das despesas com sentenças judiciais.

A desconfiança é de que a equipe econômica quer assustar ao dizer que a fixação do subteto para os precatórios evitaria surpresas desagradáveis no futuro. Mas não põe todas as cartas na mesa. A percepção dos senadores é a de que estão decidindo no escuro, enquanto integrantes da equipe econômica e líderes governistas jogam frases aleatórias sobre o risco de essa parte da PEC não passar.

Eduardo Leite* - Um rumo para salvar o futuro

O Estado de S. Paulo

Um país que ostenta números declinantes e ideias envelhecidas precisa de ideias novas. Temos de acolhê-las como se fossem uma safra vital

Com um gesto largo, um tanto italianado, o jornalista perguntou-me dramaticamente, escandindo as sílabas: “Ideias, o que você traz de ideias?”. Antes de construir a resposta, pensei que a pergunta tinha razão de acontecer. O Brasil, nos últimos anos, tem sido um deserto de ideias, povoado por demagogos e fanfarrões que propõem ideias arcaicas, superadas, mas edulcoradas de populismo para enganar o povo e atrair a sua atenção. Comecei a responder ao jornalista – que ideias proponho?

Minha primeira ideia é prioridade total no combate às desigualdades, e não só a de renda. Não concebo que alguém queira ser presidente da República no Brasil e não se comova com a questão da desigualdade de renda, de cidadania e de acesso aos serviços básicos. Não se comover, não se emocionar, não se engajar de coração nesta causa não é um esquecimento, é uma perversão, é um gesto de profunda alienação política. A principal bandeira do próximo presidente da República tem de ser um projeto robusto e frontal para fazer do Brasil um país mais igual na renda, nas oportunidades e na vida.

Bolívar Lamounier* - Não me decifraste, devorei-te!

O Estado de S. Paulo

O Brasil é um exemplo perfeito de país aprisionado no que se tem denominado ‘armadilha do baixo crescimento’

Desde a mais longínqua antiguidade, sempre fomos instados a nos conhecermos – nosce te ipsum, conhecete a ti mesmo. Mas essa injunção sempre foi dirigida muito mais a indivíduos que à sociedade como um todo.

No mundo atual, pelo menos do ponto de vista econômico, quem quiser conhecer a “totalidade” de um país tem a seu dispor uma quantidade astronômica de informações nos sites do IBGE e do Banco Central, e em entidades internacionais como o Banco Mundial e o FMI. Porém, se pela expressão “totalidade” quisermos designar uma sociedade consciente de si e, em tese, capaz de agir de forma coordenada, precisamos ir além da economia e indagar o que são as elites, nos seus diferentes segmentos. Nesse sentido mais amplo, no Brasil, a responsabilidade de conhecer o todo e suas elites, e de avaliar o quanto estas sabem de si mesmas, cabe basicamente à área de ciências humanas das universidades, cuja qualidade nem sempre corresponde à relevância de tal obrigação.

Marcus Pestana* - Um sopro de renovação na vida partidária brasileira

Amanhã, domingo, 21 de novembro de 2021, um fato marcante e inovador ficará na história dos partidos políticos brasileiros. Pela primeira vez na vida democrática do país, um grande partido político escolherá seu candidato à presidência da República pelo voto livre e direto de quase 45 mil inscritos entre mandatários (vereadores, prefeitos, vices, deputados, senadores, governadores) e militantes. Foram realizados quatro grandes debates em parceria com O GLOBO e VALOR, Estado de São Paulo, Globonews e CNN. Em um país onde a tradição é que os partidos tenham comando centralizado, dirigidos por verdadeiros “donos” plenipotenciários, não é um fato trivial que deva ser banalizado.  

Seguindo a larga tradição dos partidos americanos e europeus, o PSDB resolveu construir sua candidatura radicalizando a democracia interna e convocando suas bases a participar. Esperamos que esta seja uma experiência transformadora que inspire os demais partidos a renovar suas práticas.     

Em 2018, o mote central da eleição foi um suposto confronto entre a “nova política” e a “velha política”. Hoje há um consenso nacional de que “o novo pelo novo” é um conceito vazio. O próprio governo federal entregou pouco de seus compromissos de campanha. O exemplo mais acabado de frustração da população com a chamada “nova política” talvez seja a experiência no Rio de Janeiro, envolvendo o ex-magistrado, político de carreira meteórica e governador afastado, Wilson Witzel. Casos decepcionantes ocorreram também em Tocantins, Amazonas e Santa Catarina. Felizmente, em Minas, o Governador Zema faz um trabalho honesto, sério e bem-intencionado. Governar bem não depende de figurinos maniqueístas e superficiais. A medida são os resultados.

Dora Kramer - União instável

Revista Veja

A conversa entre Lula e Alckmin existe, só que por enquanto tem o formato de balão de ensaio - e ambos ganham com o gesto

Não é um factoide, mas tampouco chega a ser um fato a ideia do ex-presidente Luiz Inácio da Silva de acenar com a composição da chapa para concorrer ao Planalto em 2022 na companhia do (ainda) tucano e ex-governador Geraldo Alckmin como vice.

A conversa existe, só que por enquanto a coisa tem o formato de balão de ensaio. Um lance tático do interesse de ambos, pois os favorece no campo do simbolismo político. Sem nada a perder de imediato, tanto um quanto outro contabilizam ganhos com o gesto.

Alckmin, na sua pretensão de disputar o Palácio dos Bandeirantes, fica na condição de cortejado e ganha um reforço no cacife junto a partidos que estão de olho na filiação dele assim que se concretizar a saída do PSDB. O ex-governador ganharia musculatura nessas negociações e ainda conquistaria simpatias à esquerda.

Já Lula busca conquistar apoios ao centro do espectro político a fim de combater a pecha de líder de um dos extremos. Um deputado que esteve com ele no dia 16 de outubro último ouviu do ex-presidente que em breve faria um gesto para surpreender o mundo político. Note-se o seguinte: o petista fez isso em momento de desgaste por causa da manifestação do secretário de Relações Internacionais do PT de apoio à farsesca vitória do ditador Daniel Ortega na Nicarágua.

Embora tenha boa interlocução com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, que até agora tem dado como certa a filiação de Alckmin, o PT sabe — e Kassab confirma — que uma aliança só seria possível no segundo turno. Por isso, os petistas estão empenhados na ida do ex-governador paulista para o PSB. Assim, tirariam Alckmin da disputa pelo Bandeirantes, atrairiam os socialistas para a candidatura de Fernando Haddad e ainda abririam caminho para alianças em colégios eleitorais importantes como Rio de Janeiro e Pernambuco.

Marco Antonio Villa - Bolsonaro quer o caos social em 2022

Revista IstoÉ

A tendência é que no processo eleitoral o que menos vamos ter será a discussão de projetos para o Brasil

O Brasil caminha para o mais violento processo eleitoral da história republicana. Jair Bolsonaro, a soldo da extrema-direita mundial, vai ensanguentar o ano de 2022. Não há qualquer exagero nesta afirmação. Pelo contrário, os fatos, especialmente desde 2020, desenham um cenário marcado pela violência. O que assistimos no último Sete de Setembro será potencializado em escala nunca vista no Brasil.

Steve Bannon joga um papel fundamental neste processo. Não deve ser esquecido que ele designou como representante de sua organização extremista na América do Sul, Dudu Bananinha. Há também uma articulação com os radicais europeus e com árabes dos potentados petrolíferos. Acabou passando em branco, no Brasil, uma estranha relação entre Bananinha e xeiques bilionários do Oriente Médio. Vale recordar que ele acompanhou o pai na última visita à região, mas um mês antes tinha visitado Dubai — ficou famosa a patética fotografia com a mulher e filha, todos vestidos supostamente como árabes. Ninguém perguntou ao deputado paulista — sim, ele foi eleito para defender São Paulo, mesmo não residindo no estado, fraudando, portanto, o domicílio eleitoral — o que está fazendo na comitiva presidencial.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Desmate pedalado

Folha de S. Paulo

Com 13.235 km devastados na Amazônia, evapora-se o verniz verde exibido na COP26

Agora se entende melhor por que o governo Jair Bolsonaro evitou divulgar antes da COP26 o dado anual de desmatamento em 2021: o número continua a crescer de forma alarmante. Não combinaria com a imagem de país comportado ensaiada na recém-concluída cúpula do clima anunciar 13.235 km² de devastação na Amazônia Legal.

A estatística do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é a pior desde 2006 e implica aumento de 22% sobre o apurado um ano antes, 10.851 km². Consolida-se a volta ao patamar de cinco dígitos, por força das políticas ambientais (ou ausência delas) capitaneadas por um hoje ex-ministro de péssima lembrança, Ricardo Salles.

As taxas atuais evocam as de períodos anteriores a políticas de controle do desmate, que lograram reduzir o corte da floresta a 4.600 km² em 2012. Depois de anos de cifras moderadas, verificou-se um salto de 29% de 2018 para 2019. A superfície devastada no ano mais recente corresponde a metade do território do estado de Alagoas.

Poesia | Joaquim Cardozo - Aquarela

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela;
Cheiro de chão que amanhece.
Estavas sob a latada
Quando te abri a janela.

Cheiro de jasmim laranja
Pelos jardins anoitece;
Junto a papoulas dobradas,
Num canteiro florescendo,
A tua saia singela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Não sei se és tu, se eras outra,
Não sei se és esta ou aquela,
A que não quis nem me quer,
Fugindo sob a latada
Nessa tarde de aquarela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Música | Maria Bethânia - A flor encarnada

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Vera Magalhães - O touro, o gado e a boiada que passa

O Globo

Uma réplica cafona e dourada do Charging Bull, a escultura de bronze que desde o fim dos anos 1980 foi implantada na frente da Bolsa de Nova York, virou alvo de protestos e memes nos últimos dias. Poucas coisas poderiam ser uma síntese mais acabada do momento de completa dissonância cognitiva por que passa o Brasil.

A “obra de arte” (sic) foi “presente” de um economista que se autointitula Tourinho de Ouro. Logo não é presente, mas autopropaganda. Foi paparicada por expoentes do mercado financeiro brasileiro.

O touro, vejam só, é considerado um símbolo de pujança e confiança do mercado em ganhos e altas realizações.

Mas, no momento, os investidores estão fugindo do Brasil, ressabiados pela inflação descontrolada, pelo calote nos precatórios, pelo desemprego recalcitrante e pelo desajuste fiscal deflagrado pelo governo Bolsonaro.

Bernardo Mello Franco – A guerra dos tucanos

O Globo

O PSDB escolhe no domingo o seu candidato à Presidência. Pelo que sugerem as pesquisas, o vencedor deve conquistar o direito de perder a eleição de 2022. Fora da bolha tucana, João Doria e Eduardo Leite exibem desempenho de nanicos. Oscilam entre 2% e 4% das intenções de voto.

Durante 20 anos, PSDB e PT polarizaram a política brasileira. Os tucanos venceram duas corridas presidenciais e chegaram ao segundo turno em outras quatro. Na oposição ao petismo, caminharam para a direita e apostaram na retórica moralista. Esse discurso foi pelos ares quando Aécio Neves pediu R$ 2 milhões ao dono da JBS.

O declínio do PSDB se agravou com a ascensão de Jair Bolsonaro. O capitão roubou a bandeira do antipetismo e a preferência da elite econômica. Traído pelo próprio partido, Geraldo Alckmin recebeu míseros 4% dos votos em 2018. Ao fim da campanha, precisou pedir emprego no programa do Ronnie Von.

Luiz Carlos Azedo - Disputa autofágica entre tucanos dificultará alianças futuras

Correio Braziliense

O racha no PSDB está escrito nas estrelas, qualquer que seja o vencedor. Nem Doria nem Leite decolaram nas pesquisas eleitorais, o que acirra o conflito

As prévias do PSDB são uma novidade na política partidária brasileira, inclusive por concederem um protagonismo inédito aos filiados e mandatários da legenda, que sempre resolveu suas disputas por meio de acordos de cúpula costurados pelas suas lideranças históricas, entre as quais o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador José Serra (SP) e o senador Tasso Jereissati (CE). No domingo, serão as bases partidárias — filiados, vereadores e prefeitos, deputados estaduais e federais, senadores e governadores — que escolherão o candidato tucano à Presidência, entre os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) e o ex-prefeito de Manaus Artur Virgílio (AM). Mas é uma disputa fratricida, que dificultará sua unificação e a atração de aliados tradicionais nas eleições de 2022.

O racha no PSDB está escrito nas estrelas, qualquer que seja o vencedor. Nas últimas semanas, o governador João Doria fez uma ofensiva partidária que o levou a quase todos os estados e promoveu uma disputa, homem a homem, na qual até os vereadores de pequenas cidades foram abordados pessoalmente por seus emissários. Por isso, agora, é o favorito, mas não por larga margem. Muitas lideranças tucanas apoiam Eduardo Leite, que teria até 37% dos votos já assegurados nas prévias.

Vinicius Torres Freire - Os economistas de Lula, Moro ou 'x'

Folha de S. Paulo

À beira da ruína crônica, país necessita de acordos na campanha de 2022

Sergio Moro (Podemos) nomeou um conselheiro econômico. Assim lançou sua campanha entre as elites do poder. Também quis dar um sinal de que é mais do que mero capitão do lavajatismo ou justiceiro. Lula da Silva (PT) em breve terá de fazer lance assemelhado, não apenas para montar sua campanha. Aliás, o lance de Moro vale pouco.

Nomear um economista-mor quer dizer quase nada. Não que Affonso Celso Pastore, o escolhido de Moro, seja nada. É um economista reputado, goste-se ou não do que pensa. Por falar nisso, moristas e possíveis companheiros de viagem de Moro vão arrancar os cabelos quando Pastore começar a falar. O economista não tem papas na língua, olha o osso dos problemas e, se precisar, vai sugerir tratamentos que incluem amputações e remédios pesados. No debate vulgar, é o que se chama de ortodoxo duro e puro.

Bruno Boghossian - Cheque sem fundos

Folha de S. Paulo

Moro anuncia conselheiro, mas não dá pistas de sua agenda e de como pretende implementá-la

Numa corrida eleitoral, o anúncio de um guru econômico costuma ser uma maneira eficaz de fabricar um fato político, mas um péssimo indicador do programa de um futuro governo. Para ter uma ideia do que um candidato fará se chegar ao poder, é mais importante saber o que ele próprio pensa do que ouvir as análises de um conselheiro.

Nesta campanha antecipada, Sergio Moro sacou do bolso o nome de Affonso Celso Pastore como integrante de seu time. Em entrevista à TV Globo, o ex-juiz o descreveu como "um economista de renome, um dos melhores nomes do país, alguém que eu conheço há muito tempo".

Já se sabe o que Pastore pensa sobre diversos temas da economia. Ele diz ser favorável à abertura do mercado brasileiro ao exterior e à redução do peso do governo, sem a doutrina do Estado mínimo. O economista pode até criar um programa para Moro, mas os sinais emitidos pelo pré-candidato não dão pistas concretas de sua agenda e de como ele pretende implementá-la.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro é culpa da Lava Jato?

Folha de S. Paulo

Não penso que seja tão simples culpar a Lava Jato pelo fato

Especialmente depois da liberação judicial de Lula para concorrer na próxima eleição, voltou a circular a ideia de que foi a Operação Lava Jato que colocou Bolsonaro no poder. Não penso que seja assim tão simples.

Começo retomando um argumento que já usei para defender o PT da acusação de ter sido responsável pela eleição do atual presidente. Precisamos diferenciar causas próximas das mais remotas e devemos reservar o rótulo "culpa" às primeiras, ou acabaremos responsabilizando o Big Bang por tudo o que há de errado no mundo.

Bolsonaro foi eleito porque recebeu a maior parte dos votos válidos. O culpado, portanto, é o eleitor. Isso não nos impede de analisar os vários elementos que contribuíram para esse desfecho, mas devemos ser cuidadosos para não transformar cofatores em causa primordial, o que levaria a uma má compreensão do fenômeno.

Ruy Castro - Os que atiram pelas costas

Folha de S. Paulo

Estes são os news-fakers. Mas há também os followers, os influencers, os haters, os faria-limers

Fake news, notícia falsa, mentirosa, pode não ser a palavra do ano, mas deveria ser a da década. É a arma por excelência dos covardes, daqueles que atiram pelas costas —no caso, disparos em massa— e, flagrados, negam. Nesta quinta (18), referindo-me aos que difundem os embustes de Jair Bolsonaro, chamei-os de news-fakers e só depois me ocorreu que poderia ter usado um perfeito equivalente em português, falsificadores de notícias.

Perdão, ouvintes. Deve ser de tanto ouvir expressões em voga, como faria-limers, que define os endinheirados da avenida Faria Lima, em São Paulo, e sua variante faria-loser, perdedor, desmoralizado, referindo-se ao ex-ministro da Economia em atividade Paulo Guedes. Sem falar nos out-of-towners, que são as pessoas com quem cruzamos no Rio e vê-se logo que são de fora, nos sixty-eighters, veteranos das revoluções de 1968, e até nos anitters, fãs da cantora Anitta.

Reinaldo Azevedo - O mimimi de reaça é covardia ressentida

Folha de S. Paulo

Não se deve culpar as vítimas pelo sucesso de um fascistoide que ganha um microfone e sim quem lhe deu o microfone

Há pessoas bastante preocupadas com o que consideram "mimimi" excessivo e patrulheiro de mulheres, comunidade LGBTQIA+, negros... A militância identificada com a defesa dos direitos dessas comunidades e a adesão de meios de comunicação e empresas a seus valores constituiriam um misto de censura e exclusivismo moral, escrevendo, então, a cartilha de um novo autoritarismo, essencialmente hipócrita porque, na fórmula conhecida, seria a homenagem do vício à virtude.

Pois é... A muitos cansa, então, a reivindicação de mais direitos ou da correção da linguagem por um padrão que, ao se pretender mais inclusivo, imporia limites à liberdade de expressão. Entendo o ponto. Mas a mim, confesso, cansa mais o chororô dos que veem cassada a licença que lhes parecia tão natural, caída da árvore dos acontecimentos, para atacar os humilhados de sempre. Ou para transformá-los em alvos de riso ou escárnio. Ou para submetê-los ao enxovalho público. Seu pecado essencial? Ser quem são. O mimimi dos reaças é só manifestação da covardia ressentida.

Eliane Cantanhêde - O candidato da Lava Jato

O Estado de S. Paulo

O ‘liberal’ Moro quer os náufragos do PSDB, da esquerda e de Bolsonaro

Durante décadas o PT usou o combate à corrupção, à fome e à pobreza como sua grande bandeira e o presidente Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 com um falso personagem a favor do liberalismo econômico e contra a corrupção, a “velha política”, o “sistema”.

Lula foi condenado e preso, Bolsonaro se enrolou com rachadinhas e entregou a alma do governo ao Centrão, a Lava Jato foi enterrada sem choro nem vela e o combate à corrupção saiu de moda, da pauta, do discurso político e das manchetes.

É exatamente nesse vácuo que entra o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro na eleição de 2022. Pelo óbvio: apesar de todos os solavancos da Lava Jato, grande parte do eleitorado não esqueceu e Moro continua sendo um ícone do combate à corrupção.

Em suas “intensas trocas de mensagens” pelas madrugadas com Valdemar Costa Neto, Bolsonaro reclama que o PL é aliado de vários dos seus adversários nos Estados. Já em público, ele tenta dourar a pílula, dizendo que ele e Costa Neto querem é “acertar o discurso” sobre as pautas conservadoras, internacionais e de defesa.

João Doria* - Como o PSDB pode ajudar o Brasil

O Estado de S. Paulo

A história deu razão ao partido. Os projetos estruturantes dos governos tucanos seguem presentes na vida dos brasileiros

A inflação alcançou a casa de dois dígitos, a economia está estagnada e o desemprego cresce dia após dia. O cenário é desolador: a desconfiança que já existiu no período da hiperinflação está de volta, prejudicando os brasileiros, especialmente os mais pobres. A maior conquista da economia brasileira, o Plano Real, sofre ameaças, depois de 27 anos. Precisamos novamente de um governo responsável, que derrote a inflação e garanta uma moeda forte, com recuperação da confiança, dos empregos e do poder de compra.

A história deu razão ao PSDB. Os projetos estruturantes implantados nos governos tucanos seguem presentes na vida dos brasileiros. O Plano Real, de Fernando Henrique Cardoso, a integração do Brasil ao mundo, o fortalecimento do SUS, as campanhas de vacinação, os remédios genéricos de José Serra, as escolas técnicas de Geraldo Alckmin, a universalização do ensino básico de Paulo Renato, o combate à pobreza de Ruth Cardoso, o olhar municipalista de Franco Montoro, o Poupatempo de Mário Covas e, mais recentemente, a vacina: tudo o que o PSDB construiu permanece vivo e atual.

Celso Ming - Desemprego e treinamento

O Estado de S. Paulo

Na edição desta quinta-feira, esta Coluna tratou da destruição de postos de trabalho que vem sendo produzidas tanto pelas inovações tecnológicas quanto pelo processo de substituição de energia fóssil por fontes limpas.

O especialista em Economia do Trabalho José Pastore está de pleno acordo em que esse fechamento de postos de trabalho vem acontecendo. Só não aceita a afirmação sem a necessária confirmação de que a criação de novos empregos não se dê na mesma proporção do fechamento dos anteriores. "Tudo depende do vigor do crescimento econômico e da qualidade da educação. Japão, Estados Unidos e Alemanha são países que incorporaram um volume brutal de tecnologia e, antes da pandemia, exibiam os menores índices de desemprego do mundo."

Pastore adverte que é preciso mudar os sistemas de ensino e intensificar os projetos de qualificação e reinserção da mão de obra no mercado de trabalho.

Cristian Klein - O momento para dar as costas a Bolsonaro

Valor Econômico

‘O tempo para ficar mal com o presidente é ali na beirada da eleição’

A perda de apoio de Jair Bolsonaro em sua base de simpatizantes tem sido demonstrada em estudos sobre engajamento nas redes sociais e pesquisas de avaliação de governo. A queda ocorre em proporção menor quando o assunto é a intenção de voto para 2022, embora isso não seja garantia de que o presidente chegará a um eventual segundo turno.

Tanto no nível dos eleitores quanto no da classe política, há crescente potencial para um “estouro da boiada” que pode inviabilizar o mínimo de competitividade para a reeleição. A rápida deterioração da economia, aliada à crise de personalidade pela vinculação explícita ao Centrão, seriam erros insustentáveis até para empedernidos bolsonaristas.

Está aí a chance de uma terceira via, que busca encontrar espaço antes que Lula avance a ponto de ganhar a disputa no primeiro turno, como começam a indicar alguns institutos. Há muito chão pela frente, mas em nenhum horizonte a vida de Bolsonaro parece fácil para manter a cadeira no Planalto.

Claudia Safatle - Governo aumenta risco fiscal e reduz gasto social

Valor Econômico

Não há mobilização por reajuste salarial do servidor

As contas públicas estão melhores do que indica a percepção dos mercados. O déficit primário transformou-se em um superávit de R$ 14 bilhões no consolidado deste ano até setembro, com a ajuda do gordo superávit de Estados e municípios. A inflação tem sido de grande ajuda para essa performance e o governo tem “comprado” mais riscos para a política fiscal do que seria recomendável. É isso que atormenta os agentes econômicos. O projeto de lei do orçamento de 2022 foi enviado ao Congresso com uma subestimativa de despesas de cerca de R$ 80 bilhões seja com o Bolsa Família, com o impacto da inflação sobre os benefícios previdenciários ou com o prognóstico de gastos com vacinas. A esse montante agrega-se demanda por um lote de despesas que com certeza supera a margem de gastos permitida pela Proposta de Emenda Constitucional nº 23, conhecida como a PEC dos precatórios.

Ao levantar a hipótese de reajustar os salários do funcionalismo federal, congelados há três anos, o presidente Jair Bolsonaro acrescentou mais um risco na lista de problemas identificados no Orçamento do próximo exercício. Há o temor de que os pagamentos dos precatórios virem uma bola de neve, a partir da PEC que parcela a dívida e joga prestações para o futuro. Há, ainda, uma gama de pedidos de aumento do gasto público, do vale-gás ao auxílio dos caminhoneiros, da prorrogação da desoneração da folha de salários para 17 setores por mais dois anos a emendas do relator e o fundo eleitoral.

Maria Cristina Fernandes – Veneno para o mundo morrer sem sentir

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Rubens Ricupero diz que a demanda reprimida da pandemia impediu avanços maiores na COP26 e vaticina que mudança só virá quando perda atingir os milhões de dólares

 “Ela é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir.” É com esta estrofe de “Pela Décima Vez”, samba de 1935, que Noel Rosa define a amada. E é nele que o embaixador Rubens Ricupero se apoia para definir a 26ª COP, sigla para Conferência das Partes, que se encerrou na semana passada. Os limites esbarrados lhe mostraram que o conjunto das nações ainda escolhe matar o planeta aos poucos porque seu aquecimento ainda não lhe provoca medo de morrer. Não foi capaz de suscitar, na opinião pública mundial, o choque que se conheceu com a pandemia quando as pessoas foram obrigadas a mudar de comportamento e de vida.

Aos 85 anos, o ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) e ex-ministro do Meio Ambiente não precisou mudar seu jeito enclausurado de ser ao longo da pandemia para dimensionar a ameaça do aquecimento global resultante de seu maior encontro. E conclui que a própria pandemia pode ter sido um dos fatores a impedir avanços maiores. Como os países correm para atender à demanda reprimida ao longo da clausura, agiganta-se o custo político das decisões rumo à economia de baixo carbono. A se confirmar sua previsão, a mudança só vai acontecer, no Brasil e no mundo, quando as catástrofes chegarem aos milhões de dólares.

Não que a conferência tenha sido pura decepção. Os piores pressentimentos de Ricupero, tanto em relação à disputa entre as duas superpotências, China e Estados Unidos, quanto à participação brasileira, acabaram por não se confirmar. O pessimismo do embaixador vem da certeza de que os compromissos assumidos, por mais tímidos que sejam, não se farão cumprir e, se o forem, não evitarão o cataclisma climático.