segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Fernando Gabeira: Papai Noel no Congresso

O Globo

Orçamento é um tema muito pesado para o período de festas de fim de ano. Vamos traduzir assim: Papai Noel passou pelo Congresso e foi muito generoso, deixando um presente de R$ 37 bilhões em emendas parlamentares, das quais R$ 16,5 bilhões naquele famoso orçamento secreto. Aliás ficou apenas meio secreto para ganhar autorização do Supremo Tribunal Federal, que o havia bloqueado. Meio secreto, como as meio grávidas, ele é arma da reeleição de deputados.

Papai Noel foi muito generoso com os partidos e deixou para eles um fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. Será uma rica campanha num país empobrecido e faminto.

Papai Noel contemplou os policiais federais com um aumento e deixou de fora o restante do funcionalismo.Não cabia presente para todos no seu famoso saco vermelho, ou talvez as renas não aguentassem o peso.

Carlos Pereira*: Como eles pretendem governar?

O Estado de S. Paulo.

Candidatos à Presidência precisam esclarecer como vão montar e gerenciar coalizões

Um dos problemas cruciais em qualquer sistema político é como gerar governabilidade para que um governo eleito tenha condições de implementar sua plataforma. Se tiver maioria no Legislativo, essa tarefa é facilitada. Mas, em sistemas multipartidários, chefes do Executivo necessitam governar por meio de coalizão por não desfrutarem de maioria.

A forma como se gerencia a coalizão impacta decisivamente na performance do governo.

Não sabemos ainda como alguns candidatos à Presidência pretendem lidar com tais restrições, mas já sabemos que os modelos e estratégias de gerência implementados tanto pelo petismo como pelo bolsonarismo fracassaram.

Demétrio Magnoli: Como o Ocidente perdeu a Rússia

O Globo

Trinta anos atrás, em 25 de dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev renunciou à Presidência da URSS e, no dia seguinte, o Estado Soviético cessou de existir. A Rússia renasceu, fora do envelope comunista, querendo ser Europa. Contudo, na década seguinte, o Ocidente perdeu a Rússia. Vladimir Putin, ou seja, a reversão russa a uma autocracia belicista, é o fruto do maior erro cometido pelos EUA e pela União Europeia no pós-Guerra Fria.

O erro estratégico derivou de algo que o Ocidente não fez, nos domínios da economia, e de algo que fez, nos domínios da geopolítica. Em síntese: a ausência de um “Plano Marshall para a Rússia” e a expansão da Otan.

Casa Comum Europeia — a expressão, de Gorbachev, cartografava um rumo histórico para a URSS. Depois da implosão, a Rússia continuou sonhando ser Europa. Sob a Presidência de Boris Yeltsin, na primeira metade da década de 1990, Yegor Gaidar conduziu a controversa “terapia de choque” que transformou a arruinada economia estatal numa precária economia de mercado.

Ariel Dorfman*: Ascensão de Boric ocorre em boa época

O Estado de S. Paulo.

Ascensão de Boric ocorre em um momento auspicioso para a esquerda latino-americana

Há muitas razões pelas quais a retumbante vitória de Gabriel Boric, um congressista millennial de esquerda, nas eleições presidenciais do Chile ecoa muito além das fronteiras desse país andino.

Nesses tempos que têm testemunhado a alarmante ascensão do autoritarismo em todo o mundo, é motivo de celebração que os eleitores chilenos tenham rejeitado não apenas o oponente de Boric, o ultraconservador e falso populista José Antonio Kast, que é admirador do ex-ditador do país, o general Augusto Pinochet, mas também as mensagens de medo e intolerância transmitidas por suas posições contra a imigração, o aborto e em defesa da tradição, da lei e da ordem.

Tão significativo globalmente foi o fato de meus compatriotas escolherem um líder de 35 anos, que será o mais jovem presidente chileno da história, um indivíduo que encarna os anseios da nova geração de nosso conturbado planeta. As causas em que Boric acredita são as mesmas que jovens de todos os cantos têm defendido cada vez mais nas ruas de cada vez mais países: igualdade de gênero, empoderamento de mulheres e povos indígenas, fim da brutalidade policial e das políticas neoliberais, aprofundamento da democracia e dos direitos civis e, acima de tudo, uma ação urgente a respeito do meio ambiente.

Bruno Carazza*: A elite e seu próprio umbigo

Valor Econômico

Pressão por reajuste de servidores evidencia distorções

Jair Bolsonaro abriu a caixa de Pandora. Ao decidir conceder um reajuste salarial para policiais federais, despertou a inveja, a cobiça e o ciúme das demais carreiras do topo do serviço público brasileiro. Imediatamente, auditores da Receita entregaram seus cargos comissionados, assim como associações de servidores anunciam para janeiro uma paralisação dos trabalhos.

Existem inúmeras razões para se pagar bem aos empregados do Estado. Altos salários atraem bons profissionais, o que em tese melhora a qualidade dos serviços prestados. Um corpo técnico bem remunerado, também na teoria, é menos propenso a ser capturado pelos interesses do setor privado ou por políticos poderosos, protegendo as políticas públicas dos vícios do patrimonialismo, do lobby ou da corrupção pura e simples.

No Brasil, porém, bons princípios são sempre distorcidos pelo corporativismo e utilizados para justificar o injustificável.

Sergio Lamucci: A situação da economia e as contas públicas

Valor Econômico

Para que uma retomada mais firme da atividade em 2023 seja viável, será necessário que o eleito em 2022 tenha uma proposta crível para a sustentabilidade fiscal

O ano termina com inflação na casa de 10%, juros que se encaminham para superar os dois dígitos e um PIB que patina desde o segundo trimestre. Para 2022, o cenário que se desenha tampouco é animador. As fortes altas da Selic, que estava em 2% até março deste ano, vão afetar a economia ao longo do ano que vem, minando uma atividade que já está fraca. Isso deve levar à queda da inflação, mas não a ponto de trazer o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para a meta perseguida pelo Banco Central (BC) em 2022, de 3,5%. As incertezas fiscais e políticas num ano de eleições presidenciais tendem a manter o câmbio num nível desvalorizado, dificultando a tarefa do BC de combater as pressões inflacionárias.

Esse quadro delicado deverá colocar a economia como um das principais preocupações dos eleitores. Pesquisa do Datafolha divulgada neste mês mostra que 14% apontam o desemprego como principal problema do país, enquanto 12% citam a economia, 8%, a fome ou miséria e 7%, a inflação, empatada com educação. Ficaram atrás apenas da saúde, com 24%, que tradicionalmente é apontada como a grande questão a ser resolvida no país. A corrupção foi mencionada por 4%. Nesse ambiente, tende a ganhar a eleição quem for percebido como o mais capaz de reverter a situação negativa na economia.

Tony Volpon*: Ambiguidade estratégica

Valor Econômico

O impulso fiscal, que já decaiu bastante em 2021, deve ser negativo em 2022, apesar dos gastos adicionais com a aprovação da PEC dos precatórios

A última ata do Copom foi lida pelo mercado como bastante “dura”. Sobre a economia, apesar das seguidas frustrações dos últimos dados, o BC alega que isso mostra somente um nível de atividade “ligeiramente abaixo do esperado”. A inflação “segue elevada”, e “questionamentos” e “desenvolvimentos” sobre o arcabouço fiscal fizeram o Copom assimilar esses riscos em suas projeções, que agora se encontram acima da meta, tanto em 2022, como em 2023. Assim, o Banco Central deve “perseverar” em avançar “significativamente em território contracionista” na sua postura monetária.

Com a inflação rompendo dois dígitos, a postura do Copom parece ser muito justificada, e foi muito elogiada no mercado, que também, reflexivamente, aumentou suas projeções para a taxa Selic.

O único problema é que a inflação de hoje é uma janela no passado. Fora a questão da inércia, o que vale para a inflação futura são seus fatores condicionantes de hoje.

Celso Rocha de Barros: Os livros de política de 2021

Folha de S. Paulo

'Casta: as Origens de Nosso Mal-Estar', de Isabel Wilkerson, é o livro do ano

Antes de mais nada, um aviso: a partir deste ano, livros publicados no fim do ano anterior concorrem no ano seguinte. O motivo é simples: posso demorar para descobrir que um livro existe. Dito isto, aqui vai minha lista de melhores livros de política de 2021.

"Portas Fechadas", do historiador Adam Tooze, é a primeira grande obra sobre a reação dos governos à crise econômica da pandemia. Vale acompanhar se as mudanças que identificou nas ideias subjacentes às políticas implementadas serão duradouras.

Depois da eleição brasileira de 2018, a resposta deveria ser óbvia, mas "Por que Eleições Importam?", de Adam Przeworski, oferece uma defesa da democracia especialmente boa se você não acredita nos argumentos idealistas normalmente utilizados em sua defesa.

Em "O Brasil contra a Democracia", Roberto Simon reconta, com base em novos documentos, o apoio da ditadura brasileira ao golpe contra Allende e à ditadura de Pinochet. "O Ano da Cólera", de Sylvia Colombo, discute a turbulência na América Latina após o fim do ciclo das commodities. Espero que as duas obras nos ajudem a discutir nossos problemas com mais atenção à dinâmica do continente.

Catarina Rochamonte*: Lula e o manto da impunidade

Folha de S. Paulo

Jantar promovido pelo grupo Prerrogativas comemorou o êxito da destruição da operação Lava Jato

No jantar promovido pelo grupo Prerrogativas (braço jurídico de Lula e seu entorno) houve jubilosa confraternização na exposição da possível chapa presidencial Lula-Alckmin. Porém, para além de uma aliança política heterodoxa, o que ali se comemorava era o êxito da destruição da operação Lava Jato, o sucesso da campanha difamatória e de retaliação contra seus integrantes e o retrocesso cívico-moral que consolidou no STF a jurisprudência do garantismo do colarinho branco: era a celebração da impunidade.

Olhando para Geraldo Alckmin, que em 2018 o acusou de querer se eleger para voltar à cena do crime, Lula perorou: "Não importa se no passado fomos adversários [...], o tamanho do desafio que temos pela frente faz de nós aliados de primeira ordem". O enorme desafio é manter o sistema de corrupção funcionando a pleno vapor, é manter as prerrogativas de impunidade da casta de políticos que se acredita acima da lei e que não quer ser importunada por aqueles que acreditam que a lei se aplica a todos.

Mirtes Cordeiro*: Meu Conto de Natal

“Jesus nasce perto dos esquecidos das periferias. Ele vem para enobrecer os excluídos e primeiro se revela a eles, não a pessoas instruídas e importantes, mas aos pastores e aos trabalhadores pobres.”

(Papa Francisco)

Tenho uma lembrança nítida da noite do Natal desde os meus sete anos até os catorze anos de idade, quando conclui o curso Ginasial, que corresponde hoje da quinta à nona série do Ensino Fundamental. Após o Ginásio fui estudar em Fortaleza, a capital do estado, num colégio interno, porque na minha cidade, Ipu, no Ceará, ainda não existia o Ensino Médio.

O colégio pertencente à Congregação de São Vicente de Paulo, uma ordem religiosa católica francesa, era dirigido por freiras Irmãs de Caridade, aquelas que usavam um chapéu chamado corneta, muito usado pelas senhoras parisienses em 1801 (The Times) mantidas como parte de suas vestimentas, o hábito, até a idade contemporânea. Estudara em colégios dirigidos pelas irmãs de caridade desde o Jardim de Infância até o terceiro ano do Magistério, o curso que formava professores para o Ensino Primário.

Então, vivenciei o Natal como uma festa tradicionalmente religiosa e mágica, o que penso contribuiu para moldar a minha personalidade no que chamo hoje um longo processo de resiliência vivenciado durante 77 anos, completados amanhã, 28.

A cidade inteira se preparava para a festa de Natal que acontecia nas Igrejas católicas e nas residências.

Ruy Castro: Em busca do tempo perdido

Folha de S. Paulo

As madeleines de Proust não nos livram da intolerável atualidade brasileira. Mas pode estar por pouco

Há tempos, folheando livros ao acaso, abri "O Caminho de Swann", de Marcel Proust, bem no trecho em que o personagem mergulha no chá uma madeleine —um bolinho amanteigado, em forma de concha. Ao levar à boca um gole com migalhas do confeito, o narrador recua à infância e isso dispara o processo de pensamento que compõe os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido", um dos poucos monumentos indiscutíveis da humanidade.

Neste fim de ano, numa reunião, fui servido de uma madeleine. Empolgado, mordisquei-a e, discretamente, escondi-me num canto para esperar que o bolinho desencadeasse em mim um fluxo de memória como o que assomou Proust. Mas, apesar do esforço, não consegui recuar mais que algumas semanas. Estamos prisioneiros da intolerável atualidade brasileira e só voltaremos a sentir prazer em pensar quando nos livrarmos dela.

Cacá Diegues: O jardim dos homens

O Globo

Queremos mais amor e um bom comportamento pessoal e político para com o país em que vivemos

Nos jardins de Deus nascem e cabem todas as flores. Menos as que Jair Bolsonaro e seus cupinchas não querem. E como eles ainda não sabem com certeza o que não querem, tentam nos fazer prisioneiros de seus delírios, como esse agora das vacinas pediátricas. Meninos e meninas de 5 a 11 anos não poderão se proteger do vírus, devem se tornar suas vítimas compulsórias. Porque, ninguém sabe.

Como também ninguém sabia, quando o homem começou a pensar melhor, a refletir sobre o mundo diante dele, incompleto e imperfeito. Era preciso mexer aqui e ali, separar as coisas de modo a evitar feras e males, tudo o que pudesse vir a ser obstáculo para a construção de uma civilização, nosso papel por aqui. Depois de um certo tempo de muito esforço, acreditamos que era possível ir mais longe — mais do que construir uma civilização que andasse junto com o resto, podíamos conquistar os jardins de Deus por nossa própria conta e risco, estabelecer as regras novas e definitivas sem negociá-las com a complexa personalidade da Natureza, transformando-a no Jardim dos Homens. Deu no que deu.

Ignácio de Loyola Brandão: Feliz final dos tempos

O Estado de S. Paulo

O moral está baixo, a moral mais baixa ainda. Entre as coisas totalmente liberadas está a escrotidão total

Todos escrevem textos para levantar o astral no fim de ano. Tentei, travei. Chavões, clichês, um Natal cheio de alegrias, amor, solidariedade, mundo novo, nova vida, tempo de esperança? Qual é? Com o que está aí? E com ELE lá! Escrevia, deletava tudo soava falso. Como provocar alento? 

Percebo como me faz mal a avalanche de comerciais com panetones, chocotones, chester, perus, tênder, cordeiros assados, filés amaciados com massagens orientais, rabanadas. Orgia. Veio-me à mente aquela série em que um gordo jornalista percorre lanchonetes americanas devorando sanduíches, a gordura escorrendo pelo queixo. Não, não me venha com gordofobia, é que tenho medo do dia em que, durante um programa, eu veja o sujeito explodir. 

Por que não mudo de canal, se as imagens me incomodam? Porque sofro da síndrome de fascínio pelo tenebroso, expressão de Otto Lara Resende, em um júri de concurso de contos, em que todos liam e reliam, treliam, os piores contos, atraídos pela indigência, mau gosto. O tenebroso é uma doença que emana de cada célula daquele que nos preside e cujo nome não se deve pronunciar.

Leandro Karnal: A sedução do Arlequim

O Estado de S. Paulo

O divertido encenador de pantomima necessita do palco compartilhado com algum Pierrot

Malandro, preguiçoso, astuto e dado a ser fanfarrão: eis a figura do Arlequim. Ele surge com sua roupa de losangos no teatro popular italiano (commedia dell’arte). Sedutor, ele tenta roubar a namorada do Pierrot, a Colombina. Vejo que meu texto começa a parecer marchinha saudosista de carnaval...

Há certa dignidade na personagem. Cézanne e Picasso usaram seu talento para representá-lo. O espanhol foi mais longe: retratou seu filho Paulo em pose cândida e roupa arlequinesca. Joan Miró criou um ambiente surrealista com o título Carnaval do Arlequim. 

Ele seduz porque é esperto (mais do que inteligente), ressentido (como quase todos nós), cheio de alegria (como desejamos) e repleto de uma vivacidade que aprendemos a admirar na ficção, ainda que um pouco cansativa na vida real. Como em todas as festas, admiramos o palhaço e, nem por isso, desejamos tê-lo sempre em casa. 

Toda escola tem arlequim entre alunos e professores. Todo escritório tem o grande “clown”. Há, ao menos, um tio arlequinal por família. Pense: virá a sua cabeça aquele homem ou mulher sempre divertido, apto a explorar as contradições do sistema a seu favor e, por fim, repleto de piadas maliciosas e ligeiramente canalhas. São sempre ricos em gestos de mímica, grandes contadores de causos e, a rigor, personagens permanentes. Importante: o divertido encenador de pantomimas necessita do palco compartilhado com algum Pierrot. Sem a figura triste deste último, inexiste a alegria do primeiro. Em toda cena doméstica, ocorrem diálogos de personagens polarizadas, isso faz parte da dinâmica da peça mais clássica que você vive toda semana: “almoço em família”. 

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

A degradação do processo legislativo

O Estado de S. Paulo.

Desde o início de 2021, nota-se a deterioração do processo legislativo, com situações inusitadas que desrespeitam os mais básicos princípios democráticos

Nota-se deterioração que desrespeita princípios básicos da democracia.

No mundo inteiro, notam-se casos de deterioração democrática. São governos que, sem romper formalmente os limites constitucionais, se rebelam contra os controles institucionais para impor suas pretensões autoritárias. Valem-se, entre outros meios, do ressentimento e da desinformação. Infelizmente, o Brasil não é exceção. Por exemplo, em descarada imitação do que Donald Trump fez nos Estados Unidos, o governo Bolsonaro promoveu em 2021 forte campanha de desmoralização do sistema eleitoral, com a acusação, sem provas, de supostas fraudes nas urnas eletrônicas.

Deve-se advertir, no entanto, que o regime democrático brasileiro tem sofrido também um outro tipo de ataque. Trata-se da deterioração do processo legislativo observada ao longo de 2021, com situações absolutamente inusitadas, que desrespeitam os mais básicos princípios democráticos. Gravíssimo, o tema exige especial cuidado do Judiciário para defender a Constituição e assegurar o funcionamento do Legislativo.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Música | Casuarina/Pedro Miranda e Ana Costa: Beija-me

 

domingo, 26 de dezembro de 2021

Merval Pereira: Desobediência civil

O Globo

A decisão de vários governadores e prefeitos pelo país de não acatar a decisão do governo federal de exigir prescrição médica para vacinar contra a COVID-19 crianças de 5 a 11 anos pode ser considerada uma variante da desobediência civil, desenvolvida pelo ativista norte-americano do século XIX Henry David Thoreau, que se insurgiu contra com os impostos cobrados para financiar a Guerra dos Estados Unidos contra o México, e comandou uma reação pública.  

Não se trata de uma ação individual com objetivos políticos, mas reação à lei percebida como injusta por um grupo de cidadãos. As pesquisas de opinião mostram que cerca de 80% da população brasileira é favorável à vacinação, o que permite fazer a ilação de que a maioria também pretende vacinar seus filhos e netos, mesmo o governo se recusando a acatar as determinações da Anvisa que, a exemplo de vários países da Europa e os Estados Unidos, autorizou a vacinação infantil.

Bernardo Mello Franco: Dois desejos para 2022

O Globo

Uma presença emocionou os convidados do jantar que produziu a foto de Lula e Geraldo Alckmin no domingo passado. Aos 92 anos, o advogado Almino Affonso subiu no palco, fez discurso e recebeu uma medalha. Representava a geração de políticos que viram a democracia desmoronar no golpe de 1964.

Ministro do Trabalho em parte do governo João Goulart, Affonso foi incluído pelos militares na primeira lista de cassados. Refugiou-se na embaixada da Iugoslávia, passou 12 anos no exílio e voltou ao país a tempo de participar da campanha pela Anistia. Aproximou-se de Lula nas greves dos metalúrgicos, mas nunca quis se filiar ao PT. Depois se elegeu vice-governador de São Paulo pelo PMDB e deputado pelo PSDB.

“Na minha juventude, não participo mais da política no sentido eleitoral”, brinca o ex-ministro, hoje sem filiação partidária. “Mas acho que precisamos unir quem for possível para proteger e restaurar a democracia”, defende.

Amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Affonso considera que a aproximação entre Lula e Alckmin “espanta e não espanta” ao mesmo tempo. “Nas últimas eleições, PT e PSDB expressaram visões opostas. Mas os dois partidos já estiveram bem próximos no passado”, lembra.

Elio Gaspari: Bolsonaro desafiou os servidores

O Globo / Folha de S. Paulo

Só um inimigo de Bolsonaro seria capaz de propor que, às vésperas do fim do ano, ele entrasse em campo para obter um reajuste salarial dos policiais federais, e só deles. Colheu a devolução de mais de 500 cargos de confiança da Receita Federal e uma ameaça de greve. O presidente que prometeu acabar com o ativismo, fabricou-o mobilizando contra o governo funcionários concursados, nada a ver com a cumbuca de nomeações dos políticos amigos.

O que o Planalto pode dizer a um servidor cuja categoria tem um pleito funcional e chegou em casa tendo que explicar à família que ficou de fora da generosidade presidencial?

O estilo Bolsonaro de gestão já encrencou com o Inep, o Iphan, o Inmetro e a Anvisa. Cada encrenca deixou cicatrizes, até que explodiu a crise da Receita.

O doutor Paulo Guedes, parceiro da manobra, talvez possa contar ao capitão o que é o “efeito do túnel”, descrito pelo economista Albert Hirschman (1915-2012). Ele celebrizou-se explicando de maneira simples problemas que seus colegas expõem de forma complicada.

O “efeito do túnel” relaciona-se com a distribuição de renda. Se duas fileiras de carros estão engarrafadas num túnel e ambas se movem lentamente, os motoristas aceitam o contratempo. Se uma fileira começa a andar mais rápido, quem está parado acha que o jogo está trapaceado. Bolsonaro gosta de arriscar, mas mesmo sabendo-se que Hirschman talvez não seja flor do orquidário de Guedes, pouco custaria ao doutor pela universidade de Chicago explicá-lo ao capitão.

Bruno Boghossian: Os termômetros do centrão

Folha de S. Paulo

Políticos podem acordar com Bolsonaro, liberar verba em seus redutos e dormir com novo presidente

Às portas de mais um ano eleitoral, o líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara afirmou que Lula foi "um bom presidente". Operador político da aliança centrão-Planalto, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) disse à Folha que o petista tinha "uma perspicácia muito grande". "Tivemos uma boa parceria, nosso partido com ele", declarou.

Os agentes do centrão costumam ser um termômetro do poder. A fluidez desbragada desses políticos permite que eles durmam com Bolsonaro, acordem distribuindo tratores para prefeitos de oposição, passem a tarde em campanha pela reeleição do presidente e corram para a cama com um novo inquilino no Palácio da Alvorada.

Hélio Schwartsman: Um animal irracional

Folha de S. Paulo

Para cada avanço do pensamento racional, surgem reações bem pouco racionais, que às vezes triunfam

Há vários modos de ser irracional. Alguns fazem mais sentido do que outros. É conhecida a máxima atribuída ao apologista cristão Tertuliano (c. 160-c. 220), segundo a qual a crença religiosa precisa ser absurda —"Credo quia absurdum", "creio porque é absurdo". Kierkegaard, no século 19, retoma essa tradição, ao postular que a fé é um ato de vontade, que prescinde de provas e considerações racionais.

Nem todos são capazes de aceitar tal nível de abstração. É o caso de Ken Ham, que, na tentativa de conciliar evidências fósseis com uma leitura literal da Bíblia, fundou, no Kentucky, o Museu da Criação. O resultado é risível. Para que a Terra possa ter apenas 6.000 anos, como quer a Bíblia, Ham precisa pôr dinossauros para conviver com humanos. Se tivesse estudado mais filosofia, saberia que não é necessário forjar provas para salvar a religião.

Janio de Freitas: Golpe no seu rumo

Folha de S. Paulo

Comprar a aliança dos armados faz retorno aos preparativos contra esmagador resultado eleitoral

aumento salarial restrito à Polícia Federal e demais servidores civis armados, como os policiais rodoviários, relaciona-se à eleição de 2022, claro. Mas não com fim eleitoral. É o que sobressai nesse privilégio prometido por Bolsonaro, e já antecipado aos militares, quando todo o restante do serviço público federal está há cinco anos sem reposição alguma das perdas salariais.

Comprar a aliança dos armados faz um retorno aos agrados preparatórios do golpe frustrado. Logo, retorno também aos preparativos contra o esmagador resultado eleitoral antevisto nas atuais pesquisas.

É a estratégia formulada por Steve Bannon. Provocar, irritar, manter inquietação. Acusar o sistema eleitoral, atrair os bandos arruaceiros e erguer a situação para o golpe. O programa que Trump praticou, fracassado na etapa final porque a invasão do Congresso não teve o desdobramento esperado.

Dorrit Harazim: Uma pausa

O Globo

Aproveita-se aqui a janela dupla Festas/Ano-Novo, quando tudo se atropela e ao mesmo tempo vai parando, para dar folga ao noticiário que tanto nos atormentou em 2021. Hoje nenhum fato ou figura política frequentará esta coluna, que nem sequer roteiro tem, coitada. Ela é uma mera pausa — cheia de interrogações sobre o que somos, o que é sempre saudável.

Se a biologia deu ao ser humano um cérebro, quem transforma o cérebro em mente é a vida — e a vida, aprendemos cedo, é danada de difícil de mapear. Do cérebro e de seus 86 milhões de neurônios, cada um conectado a outros milhares que se entrecruzam numa centena de trilhões de sinapses, já se sabem montes. A ciência, a medicina, a biotecnologia e a saúde universal agradecem a essa exploração instigante. Em contrapartida, há mais de 5 mil anos poetas e filósofos, doutores do divino e das ciências procuram destrinchar todos os mistérios da mente humana. Em vão. O que também não deixa de ser apaixonante.

Vinicius Torres Freire: Como pode ser a desbozificação do Brasil

Folha de S. Paulo

É preciso conter manipulação e crimes de Estado, mentira e política negocista

Um procurador-geral da República sério pode criar problemas sérios para um presidente da República delinquente. Um procurador venal da República pode vender sua alma para um presidente que o seduza com a promessa de uma cadeira no Supremo.

Qualquer presidente pode oferecer essa mamata. Existe a oportunidade de mutreta judicial também por meio da manipulação de ministros da Justiça, diretores da Polícia Federal ou ministros de tribunal superior.

Jair Bolsonaro expôs de vez essas vergonhas. Talvez seja o caso de proibir por lei que chefes da procuradoria, da polícia ou da Justiça possam ser indicados para tribunal superior pelo mesmo presidente que os nomeou para aqueles cargos.

Míriam Leitão: Receita Federal no plano de demolição

O Globo

O clima na Receita Federal era, na véspera do Natal, de “indignação coletiva”, na definição de uma fonte. “Essa é a maior crise da história”, completou. Mas o que acontece lá não é fato isolado. O governo Bolsonaro tem feito um ataque sistemático ao Estado usando um arsenal conhecido. Corta cabeças de lideranças com alguma autonomia, aparelha e, depois, seca recursos. Assim ele fez com Ibama, ICMbio, IPHAN, Funai, Fundação Palmares, Ministério da Educação, Ministério da Saúde.

Na Receita, o governo cortou dinheiro da manutenção da máquina para ter recursos para aumentar salários da Polícia Federal. Ela mesma, a PF, enfrentou um vistoso caso de intervenção do presidente para retirar sua autonomia e colocá-la a serviço da sua família, como o próprio presidente confessou com palavras chulas naquela famosa reunião ministerial.

Rolf Kuntz: O risco Bolsonaro em 2022

O Estado de S. Paulo.

O presidente que emperra a vacinação de crianças é o mesmo do desemprego, da inflação e do empobrecimento

Mais do que nunca, apesar de Bolsonaro, Queiroga e seus assemelhados, é preciso insistir nos votos de feliz ano novo, mesmo diante da perspectiva de mais 12 meses de irresponsabilidade, incompetência e desmandos. É preciso manter a esperança e fazer o possível para dificultar o avanço da perversão e da barbárie. O pior presidente da história brasileira encerrou 2021 emperrando a vacinação de crianças contra a covid19. Já havia retardado, em 2020, a vacinação de adultos, num jogo sinistro com centenas de milhares de vidas. Desta vez, além de questionar a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cobrou os nomes de quem participou da decisão. Com seu exemplo, incitou militantes do ódio a ameaçar diretores da agência. Obediente a seu amo, o ministro da Saúde – sim, da Saúde – anunciou uma consulta pública sobre a imunização das crianças, como se esse fosse o meio de resolver uma questão técnica e científica.

Cristovam Buarque: As lições do Chile

Blog do Noblat / Metrópoles

A maior lição chilena é o enterro do populismo

A eleição de Gabriel Boric para Presidente do Chile nos passa algumas lições.

A primeira, de que a política está polarizada, a “terceira via” não chega ao segundo turno, e vence a eleição o extremo que conseguir apoio do centro.

A segunda lição, para chegar ao segundo turno é preciso ter propostas diferentes das ideias obsoletas herdadas do passado. É preciso: incorporar o desenvolvimento sustentável como propósito da economia casada com o meio ambiente; perceber o papel da educação como vetor do progresso; há um desejo de renovação, nem a velha direita nem a esquerda velha; é preciso incorporar nas propostas as mudanças nos costumes e nos direitos humanos; ter a percepção de que justiça social não caminha sobre economia ineficiente, nem sob moeda com inflação. Foram estas novidades ideológicas que derrotaram os partidos e lideranças tradicionais no primeiro turno e derrotaram o candidato de direita no segundo. Estamos atrasados: os “nem nem” do Centro não entenderam a força dos extremos neste momento da história. Nem foram capazes de modernizar seus discursos, a direita ainda menos, ficando cada vez mais atrasada.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

A consolidação da queda de homicídios no Rio

O Globo

O ano acaba com uma boa notícia para o Rio. O estado registrou, de janeiro a novembro, o menor número de homicídios dolosos em toda a série histórica, iniciada em 1991. Foram 3.008 assassinatos, redução de 8% na comparação com igual período de 2020. Não se trata de um ponto fora da curva. Está evidente que é uma tendência. Pelo terceiro ano consecutivo, há quebra do recorde registrado anteriormente.

O número de roubos de rua (incluindo celulares e outros pertences de pedestres ou usuários de transporte público) também caiu ao menor patamar desde 2012. O mesmo aconteceu com o total de roubos de veículos, ao nível mais baixo em uma década. Enquanto se festejam as mortes evitadas, é crucial tentar entender as causas da melhora.

Múltiplos fatores têm exercido influência. É inegável que houve, nos últimos anos, maior investimento do governo estadual nas polícias militar e civil. Também houve renovação na frota de veículos e compra de novos fuzis e pistolas. O atraso contumaz nos salários dos agentes de segurança também cessou. Melhores condições materiais permitiram a ampliação do policiamento preventivo e ostensivo, assim como a implementação de projetos focalizados, com uso mais inteligente dos dados.

Poesia | Manuel Bandeira: Poemeto irônico

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

 

Curiosidade sentimental

Do seu aroma, da sua pele.

Sonhas um ventre de alvura tal,

Que escuro o linho fique ao pé dele.

 

Dentre os perfumes sutis que vêm

Das suas charpas, dos seus vestidos,

Isolar tentas o odor que tem

A trama rara dos seus tecidos.

 

Encanto a encanto, toda a prevês.

Afagos longos, carinhos sábios,

Carícias lentas, de uma maciez

Que se diriam feitas por lábios...

 

Tu te perguntas, curioso, quais

Serão seus gestos, balbuciamento,

Quando descerdes na espirais

Deslumbradoras do esquecimento...

 

E acima disso, buscas saber

Os seus instintos, suas tendências...

Espiar-lhe na alma por conhecer

O que há de sincero nas aparências.

 

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

Música | Orquesta joven de la Sinfónica de Galicia: Bolero de Ravel

 

sábado, 25 de dezembro de 2021

Marco Aurélio Nogueira*: Tempo de assimilações e luta

O Estado de S. Paulo

Agenda do futuro terá de destacar as pautas ambientais, a sustentabilidade econômica e a eliminação das desigualdades obscenas

Não se deve forçar a ideia, pois há processos de longa duração em curso, mas se pode dizer que 2021 foi um ano de assimilações: incorporamos novos processos aos nossos cálculos existenciais. Recuperamos convicções que pareciam esquecidas. Com mais informação e melhor entendimento, distanciamo-nos da aceitação passiva dos problemas que nos desafiam.

A pandemia nos obrigou a retomar cuidados básicos e a lutar por uma vacinação que se projetou como principal via de escape, mas que foi rejeitada, banalizada e desprezada pelo governo federal. O sistema de saúde, com isso, perdeu articulação. Mas o SUS resistiu bravamente, as vacinas chegaram à população, juntamente com o uso de máscaras e a percepção da necessidade de uma vida social menos aglomerada. Ficamos cientes da importância de mecanismos de controle e vigilância sanitária, base de sistemas de proteção e combate a vírus e patógenos.

A assimilação não atingiu a todos. Houve quem seguiu a vida como se não houvesse amanhã. Negacionistas mantiveram-se ativos, a começar pelo presidente da República. 

João Gabriel de Lima: A lição da sociedade chilena

O Estado de S. Paulo

As democracias se fortalecem quando os movimentos da sociedade civil buscam a via institucional

Em 2011, no Chile, estudantes saíram às ruas para reivindicar melhorias no sistema de ensino. A dimensão do movimento foi comparável à das manifestações que se espalharam pelo Brasil em 2013. O dado mais interessante do levante chileno é que, para conseguir seus objetivos, os jovens que saíram às ruas entraram, posteriormente, para a política. 

A presidente da Federação dos Estudantes e líder das manifestações de 2011, Camila Vallejo, elegeu-se deputada em 2014 e está no Congresso até hoje. Seu sucessor na presidência da Federação, Gabriel Boric, acaba de se tornar presidente do Chile. Depois de eleito, Boric se reuniu com seu antecessor, Sebastián Piñera, para combinar uma transição civilizada. 

Boric é de esquerda, Piñera – presidente que se notabilizou por fazer do Chile um exemplo de vacinação na pandemia – é de direita. A alternância entre os dois lados do espectro ideológico é normal e saudável nas democracias. A batalha eleitoral mais importante, atualmente, não é entre direita e esquerda. É entre candidatos democratas e autoritários.