sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Fernando Abrucio* - Alimentar o ódio é minar a nação

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

A frente ampla é a única forma de salvar a nação da doença que cresce no país, e ela será feita de grandes decisões e de pequenos atos

A construção de nações foi uma das tarefas mais complexas da história da humanidade. O primeiro passo é estabelecer os limites territoriais dos países, algo ainda inacabado em parte do mundo, tendo muitas vezes a guerra como solução. Mas o aspecto mais complicado está na produção da identidade nacional. Constituir um povo que conviva com suas diferenças não é nada trivial. Mesmo sendo escandalosamente desigual, o Brasil conseguiu edificar uma sociedade razoavelmente tolerante, com espaços de convívio e respeito mútuo. Só que o ódio entre brasileiros tem sido alimentado cotidianamente. Isso pode afetar o destino de curto e longo prazo da nação.

O ódio social nunca foi uma bússola para construir civilizações. Nos casos mais extremos, produziu-se a barbárie. Assim foi na Alemanha nazista, com a perseguição de vários grupos sociais, especialmente os judeus, com 6 milhões de mortos. O Brasil atual está longe disso, mas o crescimento do neonazismo nas redes sociais e manifestações declaradamente nazistas em universidades e até em escolas particulares de educação básica revelam que há sementes totalitárias sendo plantadas em nossa nação.

Mas o ódio pode ter uma forma mais branda e duradoura, com divisões sociais marcadas pelo rechaço completo entre as forças políticas, transformando a atividade da política em um jogo de mágoas perpétuas. A Argentina tem trilhado essa história desde a Segunda Guerra Mundial, com períodos autoritários muito violentos e com momentos democráticos em que o diálogo tem pouco espaço entre os diferentes. O fato é que o desenvolvimento econômico e social argentino foi barrado por um grau de polarização que dificulta qualquer decisão que resulte da negociação e do respeito mútuo. Esse é o efeito Orloff que o Brasil mais deveria temer.

José de Souza Martins* - Infiltrações autoritárias na democracia brasileira

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Os diferentes grupos organizados de referência na reprodução da intolerância com o outro, política ou religiosa, desenvolveram uma sociabilidade autoimune

O curto regime bolsonarista fez e continua fazendo muitas revelações do que é o Brasil político. Mostrou-nos que o que imaginávamos ser o país utopicamente democrático da Constituição de 1988 é, na verdade, um país de democracia híbrida infiltrada por estruturas autoritárias e por uma cultura acentuadamente intolerante.

O descuido pós-ditatorial, dos que lutaram pela democracia contra a ditadura de 1964, em relação a essa infiltração, permitiu que o autoritarismo crescesse e se multiplicasse nutrido pelos direitos do regime democrático. E criasse as bases sociais do que Theodor Adorno, em famoso estudo por ele coordenado nos EUA, chamou de personalidade autoritária. Bolsonaro a expressa e aglutina os dela dotados.

A mudança de governo não mudará essa realidade, a menos que leve em conta que é preciso identificar e neutralizar os focos dessa vulnerabilidade.

César Felício - O verdadeiro risco para Lula não está nas ruas

Valor Econômico

Ofensiva contra teto pode fazer mercado mudar premissas

As duas primeiras semanas pós-eleição já deixaram claro que a oposição a ser forjada contra o governo Lula, em um primeiro momento, estará longe do Congresso, da cúpula do Poder Judiciário e da comunidade internacional.

Os primeiros contatos de Lula em Brasília e na conferência de Sharm el-Sheikh mostraram que, no mínimo, deverá haver disposição nestas três searas de não se emparedar o petista.

O clima entre Lula e os presidentes das casas legislativas é de cooperação. É muito possível que o presidente eleito não consiga do Congresso toda a licença para gastar livremente acima do teto em transferência de renda, como pleiteou nesta quarta-feira, mas desde a redemocratização há uma tradição no Brasil, quebrada apenas no governo Dilma Rousseff em 2015, do Legislativo não criar problemas para o chefe do Executivo no primeiro ano de seu governo.

Luiz Carlos Azedo - A transição de Lula parece a Democracia Corinthiana

Correio Braziliense

A equipe de transição conta com 31 grupos temáticos, cada um empenhado em ter o seu próprio ministério, e mais de 300 pessoas indicadas para esses grupos de trabalho

Uma das páginas mais interessantes da história do futebol brasileiro foi o surgimento da Democracia Corinthiana na década de 1980, um movimento que marcou a história do Timão paulista e representou, àquela época, o engajamento de um clube de futebol na luta pela redemocratização do país, com a participação dos craques do time, principalmente Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, na campanha das Diretas, Já.

Internamente, o futebol do Corinthians passou a ser administrado de forma revolucionária, num modelo de autogestão no qual todas as decisões importantes do dia a dia, inclusive contratações e escalações, eram tomadas por toda a equipe, na base do "cada cabeça um voto", do roupeiro do time ao técnico Mário Travaglini. O sociólogo Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol do clube na época, foi o pai dessa criança. O filho dele, Duílio Monteiro Alves, ocupa o mesmo cargo atualmente e pode ser candidato à Presidência do clube.

Vera Magalhães - Cargos e Orçamento não são ilimitados

O Globo

É perigosa a ideia de que o caminho é contar com uma Esplanada dos Ministérios inchada e com uma gastança desenfreada

O Brasil precisará ser reconstruído a partir de escombros deixados pelo período Jair Bolsonaro em praticamente todas as áreas da administração pública, nas relações entre os Poderes e nos marcos básicos civilizatórios que pautam a convivência entre os diferentes na sociedade. Mas, para isso, é ilusória e perigosa a ideia de que o caminho é contar com uma Esplanada dos Ministérios inchada e com uma gastança desenfreada que não se preocupe em cortar gastos e mostrar de onde virão as receitas. Esses são dois vetores preocupantes da transição até aqui.

É muito difícil encontrar propósito técnico nas 300 nomeações para uma passagem de bastão de 60 dias, dos quais quase 20 foram gastos só com listas de nomes que não terminam jamais.

Garantir representatividade, diversidade e pluralismo de ideias é uma meta desejável em se tratando da formação do futuro governo. Mas é uma tarefa espinhosa, que requer liderança e autoridade para dizer muitos “nãos” e desagradar interesses conflitantes.

Bernardo Mello Franco - As vivandeiras e o agrogolpismo

O Globo

Investigação da PF lista empresas suspeitas de bancar atos contra resultado das urnas

Quando os bolsonaristas começaram a fechar rodovias, o procurador Mário Sarrubbo avisou que havia uma organização criminosa por trás dos protestos contra o resultado das urnas. Investigações da Polícia Federal mostram que o chefe do Ministério Público paulista tinha razão.

Em ofício enviado ao Supremo, a PF identificou dezenas de suspeitos de financiar os atos golpistas. Com base no relatório, o ministro Alexandre de Moraes mandou bloquear as contas bancárias de 43 pessoas físicas e jurídicas.

A lista é dominada por empresários e empresas agrícolas e de transporte de cargas. Uma delas tem nome sugestivo: Berrante de Ouro Transportes Ltda. Sua sede fica em Sorriso (MT), que reivindica o título de capital nacional do agronegócio.

Vinicius Torres Freire - Como Lula 3 ainda pode dar muito certo

Folha de S. Paulo

Transição verde e conjuntura mundial são estradas abertas; dívida ilimitada é desastre

Luiz Inácio Lula da Silva fez grande sucesso de público na COP27, a conferência do clima da ONU. Também pode fazer grande sucesso de crítica.

mudança necessária para conter o desastre climático é uma rara oportunidade para o Brasil embarcar em um trem avançado da economia mundial. Por acasos da conjuntura internacional, há outras estradas abertas, no comércio e no investimento.

Para começar, o mero fato de dar cabo da era de trevas (2019-2022) pode trazer de volta investimentos que estavam travados porque empresas interessadas têm, por qualquer motivo, compromissos ambientais. A coisa vai além.

Um programa bem pensado de "transição verde" pode ser um plano de progresso social e tecnológico. Do que se trata?

Reinaldo Azevedo - Lula enfrenta a real herança maldita

Folha de S. Paulo

Gritaria sobre responsabilidade fiscal é histérica, precoce e infundada

Fosse a Presidência da República uma distinção apenas pessoal, Lula poderia estar a flanar de felicidade, não é? A forma como foi recebido na COP27, o seu discurso impecável, a reação do mundo à sua fala... "Exuberante", "rockstar", "herói".

Herói? Pois é. A resposta "Duzmercáduz", como se percebe, não é boa. E já que se empregou aqui a palavra "herói", a imprensa antevê o pior e decide atuar como o coro a comentar o desfecho trágico daquele que há de ser punido por sua "húbris", que é a soberba de afrontar os deuses olímpicos. Ocorre que Lula só está confrontando a herança maldita de Jair Bolsonaro e um Orçamento de mentira.

Como sabem os especialistas da área, ninguém consegue parar o sistema punitivo do drama trágico. O subgênero tem um propósito didático. A catarse existe para restaurar a ordem. E convenham: esse tal Lula está aí há muito tempo a arrostar com a máquina do mundo. Seu último feito foi ficar 580 dias preso em razão de uma condenação sem prova e saltar da cela para a Presidência.

Ruy Castro - A cultura estará de volta

Folha de S. Paulo

Os quatro anos de massacre, sabotagem ou asfixia podem ter chegado ao fim

Começou, sem exagero, um minuto depois do fim da apuração e dos primeiros fogos: uma explosão coletiva, comparável à notícia do fim de uma guerra — e foi mesmo uma guerra. Os telefones dispararam, e não apenas para a troca de gritos eufóricos, suspiros de alívio e desabafos comovidos.

As vozes do outro lado já falavam de projetos reprimidos, sabotados ou asfixiados e que talvez possam agora se materializar. Palavras como edital, concorrência, bilheteria, elenco, ensaio, estreia, que se temia extintas da língua, reapareceram nas frases empolgadas de pessoas loucas para trabalhar. Era o teatro, o cinema, a música, as artes plásticas, a literatura, a poesia e tantas formas de expressão voltando à vida.

Bruno Boghossian - Duas semanas a menos

Folha de S. Paulo

Novo governo tem pressa, mas articulação para votar PEC anda a passos lentos

Na primeira passagem por Brasília, no início do mês, a equipe de transição avisou que tinha pressa. Geraldo Alckmin afirmou que era preciso aprovar até 15 de dezembro uma proposta para contornar o teto de gastos e garantir o pagamento do Bolsa Família em 2023. Aloizio Mercadante foi mais ambicioso: disse que o limite era o fim de novembro.

Desde então, o time de Lula perdeu duas semanas. Enquanto o calendário corria, as articulações para votar a PEC da Transição andavam a passos lentos. Anunciada no dia 3, a proposta só teve uma minuta apresentada no dia 16, e a primeira reunião com partidos aliados para discutir o texto foi marcada para o dia 23.

Hélio Schwartsman – A sabedoria de César

Folha de S. Paulo

Embora Lula não deva mais nada à Justiça, ele tem uma história que enseja dúvidas

Gaius Julius Caesar tinha o coração duro. Em 63 a.C. ele se tornou "pontifex maximus", sumo-sacerdote da religião de Estado de Roma, posto que atribuía algumas incumbências também para Pompeia, sua segunda ou terceira esposa. No ano seguinte ela organizou em sua residência um festival em honra a Bona Dea (boa deusa), no qual a presença de homens era terminantemente proibida. Mas um jovem patrício de nome Publius Clodius Pulcher se vestiu de mulher e conseguiu acesso à casa. Seu objetivo era seduzir Pompeia.

Clodius foi descoberto por uma criada e acusado do crime de sacrilégio. Num julgamento conturbado, o jovem acabou inocentado, e César, que não se esforçou muito por sua condenação, pediu divórcio de Pompeia dizendo "minha mulher nem deveria ter ficado sob suspeita".

Eliane Cantanhêde - Bateção de cabeça

O Estado de S. Paulo

Na Defesa, tensão. Na Economia, suspense. Na Articulação Política, confusão

O tempo corre e o burburinho da transição, as disputas por espaço e a ansiedade do mercado e da sociedade crescem e atingem as áreas mais sensíveis. O melhor que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva tem a fazer é anunciar, ao menos sinalizar, os rumos na economia, defesa e articulação política. Se ele não apresentou um programa de governo e pretende uma união nacional, com muitas frentes e divergências, precisa reduzir a pressão e amenizar o clima.

Na defesa, tensão. Na economia, suspense. Na articulação política, confusão. Não há nomes para o comitê de defesa na transição, os da economia não palpitaram na PEC do Bolsa Família e a articulação política está fracionada, com a velha “bateção de cabeça”.

Laura Karpuska* – A realidade

O Estado de S. Paulo

Esquerda tem de parar de pensar que responsabilidade fiscal é uma questão de direita

Ampliar gastos com transferências sociais deixou de ser uma bandeira exclusiva da esquerda brasileira. O Congresso, com políticos posicionados em todo o espectro ideológico, criou o auxílio emergencial no começo da crise sanitária. Este foi posteriormente apropriado pelo governo Bolsonaro na forma do Auxílio Brasil. O gasto com programas sociais saiu de R$ 33 bilhões com o Bolsa Família para R$ 150 bilhões estimados para 2023 – dos quais, R$ 105 bilhões estão orçados.

Isso seria inimaginável há alguns anos. A ampliação de programas sociais era recebida com resistência por diversos setores políticos e econômicos. A pandemia, portanto, normalizou o gasto com o social, um desejo latente da esquerda.

Alckmin diz que governo Lula terá responsabilidade fiscal e que novo arcabouço será discutido

Vice-presidente eleito afirma que futuro governo terá responsabilidade fiscal e que corte de gastos e reforma tributária serão prioridade

Por Fabio Murakawa, Valor Econômico

BRASÍLIA - O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin classificou nesta quinta-feira como “momentânea” a reação do mercado à PEC da Transição e às declarações do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva sobre responsabilidade fiscal e com críticas ao teto de gastos. O vice eleito afirmou também que corte de gastos e reforma tributária estarão entre as prioridades da gestão econômica.

Em conversa com jornalistas nesta noite, Alckmin disse ainda que um novo arcabouço fiscal será discutido ao longo do governo, mas que a prioridade é assegurar o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600, com R$ 150 adicionais por criança de até seis anos, contemplados na PEC – o que implica gasto extrateto de R$ 175 bilhões.

Alckmin chamou um grupo de jornalistas para conversar após a reação negativa do mercado. Ele disse não ver razão para tanto “estresse”. “Eu acho que é uma reação momentânea [do mercado]. Isso vai ser esclarecido e superado. O presidente Lula já foi presidente da República por oito anos, dois mandatos. Teve responsabilidade fiscal absoluta”, afirmou.

“É bom deixar claro que o governo do presidente Lula tem compromisso com a responsabilidade fiscal. Isso não pode ser argumento para não atender o social.”

Ao comentar sobre o novo arcabouço fiscal a ser implementado em lugar do teto de gastos, Alckmin disse que a prioridade agora é aprovar a PEC. Para o vice, retirar o Auxílio Brasil do teto neste momento não "exclui" responsabilidade fiscal e a expectativa é que "no médio prazo" menos pessoas precisem receber o auxílio. "Mas isso não é em 24 horas."

Flávia Oliveira - Teto de gastos é cloroquina fiscal

O Globo

A âncora proposta meia década atrás sucumbiu

O teto de gastos é uma ficção fiscal comparável à cloroquina no enfrentamento à Covid-19. Instituído em 2017, não atravessou um solitário ano sem gotejar. Nas contas da economista Vilma da Conceição Pinto, diretora na Instituição Fiscal Independente (IFI), já no biênio inicial, ainda no governo de Michel Temer, foi arrombado em R$ 45,7 bilhões. Na dobradinha Jair Bolsonaro-Paulo Guedes, desmoronou. Em 2019, foram R$ 77 bi fora da regra estabelecida pela Emenda Constitucional 95/2016. No ano seguinte, o primeiro da pandemia, meio trilhão de reais (R$ 538 bi); em 2021, R$ 146,6 bi. Neste 2022, até setembro, as despesas extras alcançaram R$ 95,9 bilhões.

É espantoso que, diante de tamanha desmoralização, o mercado e boa parte da opinião pública ainda entrem em modo histeria quando o Orçamento, igualmente fictício, apresentado pelo presidente derrotado não comporta o teto. A âncora fiscal proposta meia década atrás sucumbiu tal qual a do navio São Luiz, que, negligenciado pela Marinha, ficou à deriva e foi dar num dos pilares da Ponte Rio-Niterói.

— O teto é disfuncional. Desde 2019, tem sido submetido a excepcionalidades — diz Vilma.

Em nome de um mecanismo fracassado de controle das contas públicas, o mercado, o país e o futuro governo desperdiçam a oportunidade de travar um debate de alto nível sobre como conjugar responsabilidade social com previsibilidade fiscal. O presidente eleito dá sinais de que não se renderá à queda de braço imposta pelos agentes financeiros, expressa em queda na Bolsa e disparada do dólar.

Pedro Doria – Equilíbrio de contas

O Globo

Inflação.  Esse é o problema, puro e simples. E, sim, pessoas perdem seus empregos, a economia se contrai

Os sinais vindos do Vale do Silício não são bons e apontam para a pior crise do mundo da tecnologia desde o estouro da bolha das ponto-com em 2000. A esta altura, já fizeram grandes demissões Snpachat, Netflix, Twitter e Meta (Facebook). A elas se juntaram a Stripe, de pagamentos, a Salesforce e a Lyft, concorrente da Uber. Nesta semana, foi a vez da Amazon. Todas demitiram mais de 10% da tropa. No início do ano, já havia entrado em colapso a WeWork. Agora foi a FTX, terceira maior corretora de criptomoedas — que, aliás, no fim agia menos como corretora e mais como esquema de pirâmide. Não é só. Mesmo empresas que não sinalizaram demissões, como Apple e Google, pararam de contratar.

A comparação com a bolha de 2000 não é referência gratuita. Quem estava no Vale naquele tempo e lá continua repete com frequência: a sensação é a mesma.

Ruth de Aquino - A Isabel fora das quadras

O Globo

Você foi uma inspiração para todas nós, mulheres

O texto de hoje não será meu. Mas de Isabel Salgado. Não a Isabel do vôlei. E sim a carioca passional que se jogou sem medo em todos os lances da vida. Ela adorava escrever, foi minha colunista uns anos e sua avó foi jornalista. Isabel era uma inspiração para nós, mulheres. Ela se posicionava. Por liberdade, igualdade e justiça. Contra o racismo e o machismo. Aos 27 anos, já era mãe de quatro filhos, de três homens diferentes. Teve cinco netos, todos meninos. Seu idioma favorito era o francês.

A única coisa que ela me pediu, na entrevista em 2020 para a revista Ela, foi. “Ruth, ao me apresentar não diga que adotei ‘um adolescente negro’ . Diga apenas que adotei um adolescente, o Alison”. Esse cuidado diz muito da Isabel de fora das quadras. Ela tentava não parecer o máximo, mas era. Quando a entrevista saiu, Isabel me mandou vários áudios, que escutei ontem aos prantos, naquela voz potente. “Ruth, você é foda. Encheu minha bola. Valeu. Você é generosa, qualidade rara nos dias de hoje. Minha amiga, foi muito bom dividir um pouco da minha vida com você. Como se batêssemos um papo, diante da praia”.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula testa a paciência ao ignorar críticas

O Globo

Em vez de ouvir os aduladores, ele deveria prestar atenção à bomba fiscal prestes a ser lançada sobre o país

Faltando seis semanas para a troca de poder em Brasília, tem sido decepcionante a reação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva às críticas. Animado pela vitória, ele tem preferido ouvir as vozes dos aduladores a encarar a realidade da bomba fiscal prestes a cair sobre o país. Ao comentar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Transição, que amplia de forma irresponsável o gasto do governo a partir de 2023, Lula se saiu mais uma vez com um despropósito: “Se eu falar isso, vai cair a Bolsa, o dólar vai aumentar? Paciência”.

Paciência, o novo governo tem testado não apenas a dos mercados, mas a de todos os brasileiros que sabem fazer contas. Aumentar gastos sem amparo de receitas nem gestão do passivo levará a um ciclo bem conhecido no Brasil: aumento descontrolado do endividamento, juros elevados, dólar mais caro, inflação alta e menos crescimento econômico. Como sabe qualquer um que já tenha contraído dívidas, países que gastam sem limites têm mais dificuldades para rolar seus compromissos.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Os Velhos

 

Música | Roberta Sá - Nosso Plano

 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Merval Pereira - De volta ao futuro

O Globo

Querer exercer uma liderança global em meio ambiente é uma ambição saudável de Lula, mas é um péssimo sinal a volta da megalomania lulista de querer ser um negociador internacional

A presença do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27, no Egito, antes mesmo de ele assumir o cargo para o qual foi eleito em outubro, contrasta com a primeira decisão do atual presidente brasileiro, que cancelou a reunião do clima que seria realizada no Brasil em 2019.

A reivindicação de que uma reunião seja na Amazônia ainda durante o mandato de Lula tem uma simbologia óbvia. Informa o interesse do futuro governo brasileiro de dar um cavalo de pau na diretriz do país para retomar o protagonismo que sempre foi nosso nesse campo.

Querer exercer uma liderança global em meio ambiente é uma ambição saudável de Lula, já que, efetivamente, o mundo depende do que fará o Brasil nesse tema, depois de ter sido governado por quatro anos por um negacionista das mudanças climáticas.

Mas é um péssimo sinal a volta da megalomania lulista de querer ser um negociador internacional — na imaginação de alguns petistas mais afoitos, até na guerra da Ucrânia. Não deu certo na negociação nuclear com o Irã e provavelmente não daria certo no atual momento.

Malu Gaspar - Está na hora de soltar o Cabral

O Globo

Na última sexta-feira, Sérgio Cabral quase saiu da cadeia. O Tribunal de Justiça do Rio lhe concedeu um habeas corpus no processo em que é acusado de cobrar propinas de empreiteiras que construíram o Complexo Petroquímico do Rio pela Petrobras. Segundo a decisão, Cabral podia passar para a prisão domiciliar, desde que não houvesse mais nenhuma ordem de prisão válida contra ele.

O oficial de Justiça fez uma pesquisa, não achou nada e foi para o Batalhão Especial Prisional (BEP) soltar o ex-governador. Nesse meio tempo, alguém lembrou que havia ordens de prisão assinadas por Sergio Moro, contra as quais a defesa ainda está recorrendo ao STF.

Só que, com o sistema da Justiça fora do ar, elas não apareciam na busca. Cabral, portanto, não podia ser liberado. Já era noite quando o oficial de Justiça foi embora levando o documento sem serventia.

Ricardo Mendonça - Lula, o jato e potenciais conflitos de interesse

Valor Econômico

Membros do STF, do BC e do TCU foram à NY às custas do Lide

A viagem do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva ao Egito no jato de um bem sucedido empresário do ramo da saúde suscitou uma relevante discussão sobre conflitos de interesse.

Lula venceu a eleição, mas ainda não exerce o cargo de presidente e nem sequer foi diplomado. A rigor, portanto, ele não foi à COP27, a Conferência do Clima, como representante do governo brasileiro. Pelo prestígio e pelo cargo que irá assumir em janeiro, o petista cumpre uma agenda típica de chefe de Estado em Sharm el-Sheikh, a cidade sede do encontro. Mas chefe de Estado ele não é.

Não há dúvida de que teria sido melhor evitar a aeronave do empresário. Mas só uma cabeça muito obtusa pode defender que, no atual patamar de polarização, o petista, em nome da impessoalidade, deveria se arriscar num voo comercial. O PT poderia financiar via Fundo Partidário, mas não tem essa obrigação e alega não dispor dos recursos. Caberia ao governo brasileiro fornecer o transporte ao presidente eleito?

Ninguém enxergaria problema nisso se Lula estivesse prestes a suceder um presidente que, em elevado clima de transição, tivesse tido a inteligência política de convidá-lo para uma participação conjunta na importante conferência.

Luiz Carlos Azedo - Lula propõe aliança estratégica com o agronegócio

Correio Braziliense

Emerge da COP27 uma nova institucionalidade ambiental, na qual o Brasil precisa se inserir, pois ditará os rumos das relações comerciais e das cadeias globais de produção

A reforma agrária, a velha bandeira da esquerda brasileira, que remonta ao debate sobre a industrialização na década de 1930, partia da premissa de que monocultura agrícola, inclusive a agromanufatura açucareira, era uma das causas do nosso subdesenvolvimento. Havia até então a concepção de que somente a eliminação dos grandes latifúndios poderia desenvolver o capitalismo no campo, o que na verdade já existia desde o fim da escravidão. Achava-se que éramos um país de agricultura feudal.

Essa compreensão, por exemplo, ignorava o fato de que o Convênio de Taubaté havia mudado completamente a relação do Brasil com o mercado mundial de café, sendo um fator decisivo para a própria industrialização, principalmente em São Paulo, cujos cafeicultores acumularam muito capital e priorizaram os investimentos em atividades produtivas, em vez do patrimonialismo que predominou em outras regiões do país.

William Waack - O muro ficou estreito

O Estado de S. Paulo

Lula ainda não decidiu entre velha e nova política externa para seu governo

No domingo, dia 30, Lula tinha acabado de ganhar a eleição, mas era essencial que governos dos países centrais reconhecessem a vitória o mais rápido possível, ajudando a torná-la um fato consumado incontestável. Foi então que o presidente francês ligou.

Passava das duas da manhã de segunda-feira, 31 de outubro, em Paris e era o próprio Macron que estava do outro lado da linha. Mas Lula nem ficou sabendo. Integrantes da velha-guarda do PT, Celso Amorim à frente, controlaram as demandas internacionais pelo presidente eleito. Deram preferência a Cuba, Bolívia e Argentina. E o secretário-geral da ONU recebeu o mesmo tratamento dispensado a Macron, ou seja, ficou para o dia seguinte.

Eugênio Bucci* - O lábaro estiolado

O Estado de S. Paulo

Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem

No feriado de 15 de novembro, data da Proclamação da República, subiu um pouco o número de pedestres que se concentram em frente a quartéis de algumas cidades brasileiras para requisitar um golpe de Estado. Tem sido assim desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou o resultado das urnas, dando a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva. A turma que não se conforma exige que as baionetas anulem a eleição. Uma das faixas desfraldadas em São Paulo, diante da sede do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa, anteontem, resumiu bem o espírito do pessoal: “Nação brasileira implora por socorro – SOS Forças Armadas”.

Míriam Leitão – Acertos na COP e problemas aqui

O Globo

Lula envia o recado certo na Egito. No Brasil, problemas o esperam Na volta, vai enfrentará o xadrez na montagem do ministério e delírios golpistas

O presidente eleito Lula demonstrou no forte discurso na COP27 que amadureceu sua compreensão sobre o tema. Ele já havia sido um bom governante no combate ao desmatamento, mas desta vez chegou falando em “emergência climática”, em como o clima passou a ser central. Lula disse que não medirá esforços para combater o desmatamento, defendeu indígenas, propôs aliança mundial contra a fome, uma parceria com o agronegócio, fez cobranças aos países ricos, convidou a COP para vir para o Brasil e indicou que pode vir a criar uma coordenação “do mais alto perfil” para o tema, referindo-se talvez à Autoridade Climática.

— Em dez minutos de discurso fez mais pelo meio ambiente do que Bolsonaro em toda a vida. Falou de forma direta, sem rodeios, ao ponto. Falou o que interessava na questão interna, e também foi direto ao ponto ao se dirigir aos países ricos. Ele cobrou promessa dos outros, mas fez suas próprias promessas — afirmou Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Maria Hermínia Tavares* - Uma voz nova no planeta

Folha de S. Paulo

Na esfera climática, o país é crucial para o destino da vida na Terra

Dois Brasis fazem parte da numerosa delegação que foi a Sharm El-Sheikh, no Egito, para a COP27 (27ª Conferência das Partes). Patrocinado pela ONU, o encontro reúne lideranças dos quatro cantos do mundo para discutir o desafio comum das mudanças climáticas. O Brasil do presidente vencido nas urnas, nos estertores de seu desgoverno, foi cumprir tabela, encerrando, com um murmúrio, quatro anos de desmantelamento da imagem da nação.

O outro Brasil, representado por governadores e demais autoridades subnacionais; personalidades ligadas à defesa do meio ambiente; organizações da sociedade civil; empresários e — sobretudo — pelo presidente eleito, compareceu para mostrar o quanto se avançou na percepção dos inúmeros riscos ambientais aqui presentes e nas propostas para enfrentá-los. Desde 2019, amadureceu a consciência da importância da defesa do patrimônio ambiental para o desenvolvimento e a projeção externa do país.

Bruno Boghossian - Lula faz política interna no Egito

Folha de S. Paulo

Passagem pela COP27 dá impulso antecipado ao petista em meio a incertezas domésticas

Lula viajou 10.000 km para fazer política interna. Dias antes de embarcar para o Egito, o presidente eleito explicou a um aliado que a ideia de um giro internacional no período de transição e no início do mandato seria importante para reposicionar o país no mundo. O petista indicou, no entanto, que sua principal aposta está nos efeitos domésticos que pode colher nesse prazo.

Uma pista já havia aparecido no discurso após a vitória nas urnas. Ao lançar o slogan da política externa de seu terceiro mandato ("o Brasil está de volta"), Lula apontou que pretendia recuperar credibilidade internacional para obter a confiança de investidores estrangeiros.

Thiago Amparo - Clima além da COP no Brasil

Folha de S. Paulo

Presidente eleito precisa mostrar que não é só de discursos que a sua política climática será feita

A fala do presidente eleito Lula na COP27 é nada menos do que uma aula de política externa estadista cujo primor resta cristalino em suas linhas e entrelinhas — é um discurso marcado pelo equilíbrio de opostos, que evita o confronto, mas mantém a contundência. Nada disso poderia ser feito, aliás, sem a liderança de Marina Silva. Pena que o grupo de transição na área internacional não reflita a pluralidade que fez possível este momento na COP.

Vinicius Torres Freire - Governo paga caro pela transição

Folha de S. Paulo

Juros na praça do mercado dão salto grande; Senado diz que PEC não passa como está

Se o governo quisesse tomar dinheiro emprestado nesta quarta-feira (16), pagaria muito mais do que na quarta passada, um dia antes do "Lula Day", como dizem os povos dos mercados. As taxas de juros deram um salto no mercado de títulos da dívida pública. Foram ao pico recente, de julho passado, e estão no nível mais alto desde o início do desastroso 2016.

O governo, o Tesouro Nacional, não precisa tomar dinheiro emprestado durante esses tumultos. Pode (ainda) esperar por uns dias, por um preço melhor. Se o caldo engrossar por mais tempo, o Tesouro acaba tendo de engolir a coisa. Isto é, pagar taxas de juros mais altas para cobrir a despesa para a qual não há receita e para rolar a dívida que vence, grosso modo.

Ruy Castro - Os novos subversivos

Folha de S. Paulo

Em 1964, a subversão foi pretexto para um golpe; em 2022, pode ser de novo

É tocante: homens, mulheres e crianças fantasiados de verde-amarelo e enrolados em bandeiras, ajoelhados e de mãos postas diante dos quartéis, implorando que os militares salvem o Brasil. Esta salvação consiste em impedir, a sabre e cavalo, a posse do presidente eleito e manter no poder o derrotado, parece que ainda em exercício. Como a alternância do poder pelo voto direto é uma condição da democracia e, segundo a Constituição, o Brasil é um estado democrático de direito, é acintoso que se pregue aberta e impunemente um golpe de Estado. Mas o que espanta é que os quartéis ouçam toda essa subversão e fiquem em silêncio.

Celso Lafer* - Goldfajn é boa opção para Lula

O Globo

Sua indicação pelo governo Bolsonaro foi por mérito, e não compadrio político

Há assuntos que têm natureza de Estado, não de governos. É o caso da candidatura de Ilan Goldfajn à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Faço a observação na condição de quem foi persistente crítico do atual governo e declarou publicamente voto em Lula na eleição presidencial, em conjunto com muitos outros que não integram a família petista, mas entenderam que ele era a melhor alternativa para superar os desastres da era Bolsonaro.

A indicação de Goldfajn pelo governo Bolsonaro foi por mérito, e não compadrio político. Muito poucos possuem as qualificações comprovadas de Goldfajn como economista, exercidas com grande competência na presidência do Banco Central.

Solapar sua candidatura, que tem grande potencial de viabilidade, em função de seus méritos e de seu percurso, não é do interesse do Brasil. É, no entanto, o que ocorreu com a manifestação de prócer da família petista. Pode significar que o Brasil corre o risco de perder a oportunidade de exercer a presidência do BID, na lógica da alternância dos compromissos dos integrantes de um banco em cuja criação o país teve papel decisivo — uma expressão da diplomacia econômica de desenvolvimento do governo JK.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Discurso de Lula na COP27 resgata papel do Brasil

O Globo

Presidente eleito errou feio ao aceitar carona em jatinho de empresário, mas falou o que se esperava dele

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva errou feio ao aceitar a carona no avião de um empresário envolvido na Operação Lava-Jato para Sharm el-Sheikh, no Egito, onde acontece a conferência do clima das Nações Unidas, a COP 27. A atitude mostra que não apenas a extrema direita acampada diante dos quartéis vive numa realidade alternativa. As amizades do PT com empresários estão na raiz de escândalos de corrupção que o Brasil não esqueceu — e nem deveria.

É uma pena, pois a presença de Lula na COP27, além de bem-vinda, é essencial para resgatar o Brasil dos escombros a que foi lançado pela diplomacia errática e pela política ambiental devastadora do governo Jair Bolsonaro. Em seu discurso, Lula falou o que se esperava. Prometeu lutar contra o desmatamento ilegal, cuidar dos povos indígenas e dar cidadania aos habitantes da região. Em tempos normais, seria um discurso previsível. Depois de quatro anos de destruição da Amazônia sob Bolsonaro, foi um alívio.

Poesia | Manuel Bandeira - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Joyce Cândido e Luanda Cozetti em Lisboa - Samba em prelúdio (Vinícius de Moraes e Baden Powel)

 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Sergio Fausto* - Desintoxicação política

O Estado de S. Paulo

Extensa e complexa, a agenda de normalização do País deve ser enfrentada com serenidade, mas com firmeza

Levará tempo para dissipar o veneno que impregnou a atmosfera política brasileira nos últimos anos. A boa gestão da economia pelo futuro governo é condição necessária para que isso ocorra. Mas não é condição suficiente.

A impregnação vem de longe, ao menos desde 2014, quando se fez “o diabo” para reeleger Dilma e, em seguida, para apeá-la do poder. O processo ganhou intensidade e escala sem precedentes nos últimos quatro anos e atingiu seu ponto de saturação máximo nesta campanha eleitoral. As cenas vistas nos últimos dias mostram aonde chegou o delírio promovido pelo autoritarismo bolsonarista.

O ovo da serpente começou a ser chocado quando a disputa normal entre as forças democráticas se tornou uma luta destrutiva entre “nós” e “eles” e se acirrou a competição por mais recursos privados para o financiamento da atividade política, com as consequências conhecidas. A Lava Jato saiu dos trilhos, mas os esquemas de corrupção eram reais. A dura travessia do mandato presidencial que agora se encerra deve servir de lição definitiva para que o erro e o pecado não se repitam.