sábado, 4 de fevereiro de 2023

Pablo Ortellado – Bolsonaro na articulação do golpe

O Globo

Discutir golpe é gravíssimo, não importa a versão

O senador Marcos do Val concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja acusando o ex-presidente Jair Bolsonaro de incitá-lo a participar de um golpe de Estado.

Segundo o senador, Bolsonaro o contatou por meio do deputado Daniel Silveira. Do Val disse que, em reunião secreta no Palácio da Alvorada, o ex-presidente pediu que ele agendasse uma conversa com o ministro Alexandre de Moraes, com quem mantinha relações. A conversa seria gravada com equipamentos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) que, segundo ele, estava a par do plano. Do Val tentaria arrancar do ministro uma inconfidência, dizendo que estava se excedendo nas decisões eleitorais, sem observar a Constituição. Na entrevista, Do Val foi categórico ao afirmar que o presidente fez diretamente a solicitação para que gravasse a conversa. Numa live com o MBL, no dia anterior à publicação da entrevista, foi ainda mais enfático e disse ter sido “coagido” pelo presidente a participar de uma tentativa de golpe.

Eduardo Affonso - Críticas, só amanhã

O Globo

Quantos anos serão necessários para que se possa questionar a complacência com os primeiros escândalos do novo governo?

Com quanto tempo de mandato será possível começar a criticar o governo Lula, sem que isso levante um tsunami de repulsa? Pelo que se viu até agora, ainda não é oportuno mexer nesse vespeiro. Talvez por estarem frescas na memória as cenas de barbárie dos ataques à democracia. Ou para não dar munição a inimigo tão insidioso, é melhor relevar pequenos, médios e grandes deslizes e focar no que interessa: nos livramos do fascismo; o que vier é lucro.

Não há, por enquanto, censura formal — o Ministério da Verdade continua embrionário (o óvulo da Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia e o espermatozoide do Departamento de Promoção da Liberdade de Expressão ainda estão nas preliminares). A tropa de choque da militância é que se encarrega de desqualificar as críticas e buscar motivações escusas para os críticos.

Alvaro Gribel - Lula contra os moinhos de vento

O Globo

A cruzada de Lula contra o Banco Central lembra a cena clássica do livro “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Após fugir de casa em busca de aventuras, Quixote confunde 30 moinhos de vento com terríveis gigantes e parte para o confronto, ignorando os apelos de seu fiel escudeiro Sancho Pança, que o alerta sobre o engano, em vão. O BC, neste momento, pode ser tudo para Lula, menos um inimigo. Ao contrário, a confiança que Roberto Campos Neto e sua diretoria passam aos agentes econômicos — não só ao mercado financeiro — vem ajudando a manter o dólar e as expectativas de inflação sob controle, a despeito dos equívocos de discurso que Lula tem cometido na área.

Se existe um problema na economia, ele não está na política monetária. Os juros altos são a consequência dos desequilíbrios, e não a sua causa. A inflação subiu porque houve dois choques externos de oferta, um pela pandemia, outro pela guerra na Ucrânia, mas no Brasil eles são agravados pela forte indexação e pela crise fiscal crônica que permanece no país desde o segundo governo Dilma.

Carlos Alberto Sardenberg - Contraponto a Lula

O Globo

O fato de Lemann cometer um enorme erro na Americanas não tira o mérito de outras coisas que faz

Do presidente Lula, em entrevista à Rede TV!:

— Qualquer palavra que você fale na área social, “Vou aumentar o salário mínimo em R$ 0,10”, “Vamos corrigir o Imposto de Renda”, “Precisamos melhorar (a vida dos pobres)”, o mercado fica muito irritado.

E mais:

— Agora, um deles (Jorge Paulo Lemann, acionista principal das Lojas Americanas) joga fora R$ 40 bilhões de uma empresa que parecia ser a mais saudável do planeta Terra, e esse mercado não fala nada, ele fica em silêncio.

O mercado falou, presidente. E protestou do modo mais firme que conhece: derrubou o preço da ação de R$ 12 para perto de zero, o que impõe perda enorme aos acionistas, inclusive Lemann. Além disso, todos os grandes bancos privados, credores das Americanas, manifestaram claramente seu desagrado, acionando na Justiça a empresa e seus acionistas principais. Claro que há, digamos, acionistas inocentes — aqueles que não exercem controle sobre a empresa e compram o papel para poupança. Esses minoritários, parte do mercado, também estão na Justiça cobrando atitudes mais responsáveis dos controladores, inclusive aporte substancial de capital.

Alvaro Costa e Silva - Os golpistas continuam

Folha de S. Paulo

Rogério Marinho concorreu à presidência do Senado de olho no impeachment de ministros do STF

A eleição para a presidência do Senado mostrou como a extrema direita irá se comportar ao fazer oposição ao governo Lula. A ideia é criar artificialmente um clima de radicalização, de terceiro turno interminável no país. Bate-bocas, ameaças, cartazes com provocações de moleque da quarta série, barulho, agitação e, claro, um chorrilho de mentiras nas redes sociais.

Um dia antes da votação, Bolsonaro aproveitou um evento público num restaurante da Flórida (cuja entrada custava de US$10 a US$50, dependendo da proximidade em relação ao palco) para mandar um recado aos cupinchas. Como de praxe, mais uma declaração golpista: "Pode ter certeza, em pouco tempo teremos notícias. Se esse governo continuar na linha que demonstrou nesses primeiros 30 dias, não vai durar muito tempo". Só faltou dar o prazo de 72 horas, como faziam os terroristas acampados em frente aos quartéis.

Hélio Schwartsman - Sigilo espúrio

Folha de S. Paulo

Voto secreto de parlamentar é curto-circuito da democracia representativa

Arthur Lira foi reeleito presidente da Câmara com 464 de 508 votos, e Rodrigo Pacheco foi reconduzido ao comando do Senado após derrotar o candidato bolsonarista pelo placar de 49 a 32. Cidadãos podemos apenas intuir como votou cada parlamentar, já que as eleições para a Mesa das Casas Legislativas são, por força dos regimentos, secretas.

Se há algo que tenho dificuldades em aceitar nas democracias representativas modernas é o voto sigiloso de parlamentares. Cada vez que um deputado ou senador toma uma decisão sem revelá-la a seus eleitores, cria-se um curto-circuito democrático, já que fica impossível para os representados aferir se seus representantes estão correspondendo a suas expectativas.

Demétrio Magnoli - Floyd, mas diferente

Folha de S. Paulo

O caso em 2020 nos EUA abriu uma janela de oportunidade que foi frustrada

O assassinato via sufocamento do negro George Floyd, em maio de 2020, por policiais brancos de Minneapolis deflagrou uma onda de manifestações que varreu os EUA. Há pouco, o assassinato do negro Tyre Nichols, via espancamento, por policiais de Memphis, detonou protestos menores – e uma indisfarçável perplexidade. A diferença é que os assassinos foram cinco policiais negros, numa cidade cuja polícia é chefiada por uma negra defensora da reforma policial.

"O sistema usa negros para matar negros" –o dogma, baseado na varinha mágica do "racismo estrutural", não obteve consenso. Cerelyn Davis, a chefe de polícia, sugeriu excluir o "fator racial" do debate. Os familiares da vítima não o excluíram, mas apontaram a complexidade do cenário.

João Gabriel de Lima* - Os crimes contra os Yanomamis

O Estado de S. Paulo.

Urge fazer um esforço consistente no resgate da cidadania e integridade dos Yanomamis

A tribo Yanomami foi tema de reportagem de capa da revista Veja em setembro de 1990. No texto, o jornalista Eurípedes Alcântara discorre sobre a riqueza cultural dos indígenas brasileiros, ao mesmo tempo que alerta sobre as doenças e mortes provocadas pelo garimpo ilegal. A legenda sob o retrato de uma família Yanomami enumera: “75% de anêmicos, 50% com infecção respiratória e 90% com doenças na epiderme”. O subtítulo da matéria resume o enredo: “A febre do ouro está dizimando velozmente os yanomami”.

Em três décadas o enredo Yanomami se transformou em tragédia. Uma reportagem assinada por Ana Maria Machado, Talita Bedinelli e Eliane Brum, publicada em 20 de janeiro deste ano no site Sumaúma, contabiliza 570 mortes de crianças Yanomamis por causas evitáveis. As fotos que acompanham o texto chocaram o mundo.

Adriana Fernandes - Os recados de Lira

O Estado de S. Paulo.

Sinalização de que a reforma vem antes da âncora fiscal é perigosa para a equipe econômica

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deixou dois recados importantes para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na entrevista coletiva dada na noite do dia da sua reeleição, quando o famoso Salão Negro já estava esvaziado.

O primeiro: a reforma tributária será votada antes do projeto de um novo arcabouço fiscal para substituir o teto de gastos. Lira confirmou a informação antecipada pelo Estadão de que o texto da reforma vai direto para o plenário da Casa. “A reforma está pronta para ir ao plenário”, disse sem meio-tom.

Miguel Reale Jr* - Genocídio

O Estado de S. Paulo.

Brota das condutas de Bolsonaro e de seu governo a revelação da intencionalidade comandada pelo desprezo à vida dos indígenas

O governo Bolsonaro deixou um rastro de destruição, da qual a barbárie de 8 de janeiro é exemplo. Porém chocam ainda mais as imagens do extermínio de centenas de crianças Yanomamis, reveladas pelo jornal Sumaúma, fruto da exploração ilegal de minérios nas terras indígenas.

Conforme a Hutukara Associação Yanomami, o monitoramento do garimpo em terra indígena indica que em 2018 havia a ocupação de 1.200 hectares, que em dezembro de 2021 quase triplicara, passando a 3.272 hectares.

No ano passado foi maior a invasão por garimpeiros, causando desmatamento, destruição de habitat e contaminação da água e dos solos. Houve a disseminação de doenças infectocontagiosas (em especial a malária), a contaminação pelo metilmercúrio e a subnutrição atingindo metade da população Yanomami, dando azo à pneumonia.

Marcus Pestana - O Congresso Nacional e a Agenda Nacional

O Congresso Nacional é o coração da democracia. Ali se expressam a pluralidade e a diversidade de interesses e opiniões. Dada posse aos eleitos e reeleitos, Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, cabe agora baixar a poeira da polarização extremada que tomou conta da política nacional nos últimos anos. Os presidentes eleitos são políticos experientes e habilidosos com todas as condições de dirigir o parlamento brasileiro na discussão das questões essenciais que efetivamente interessam à população.

Dentro do desafio de reestabelecer os canais de diálogo e construir uma agenda produtiva é preciso reconhecer a total legitimidade da candidatura do senador Rogério Marinho, que representou o bolsonarismo na eleição interna do Senado, e frisar que é um quadro de altíssima qualidade intelectual e política e, como ele mesmo se autodefine, um “conservador clássico” a lá Edmund Burke e Roger Scruton. Assim também as candidaturas de dois excelentes deputados: Chico Alencar, representando as posições mais à esquerda, e Marcelo Van Hattem, expoente do liberalismo defendido pelo Partido Novo. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Sem surpresas

Folha de S. Paulo

Pacheco e Lira vencem disputa, mas isso não significa tranquilidade para Lula

Terminou sem surpresas a eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, com Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) reconduzidos aos respectivos postos de comando.

Prevaleceu o pragmatismo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que optou por uma estratégia de baixo risco. Escaldado com fracassos do passado, o presidente da República abriu mão de apoiar candidaturas petistas em ambas as Casas legislativas e aderiu aos dois favoritos.

Por motivos distintos, contudo, o resultado não garante a Lula vida tranquila no Congresso: não se dará de forma automática a aprovação de pautas relevantes para o Executivo, assim como o presidente não pode se considerar a salvo de surpresas oriundas do Legislativo.

Não que tenha sido uma vitória de Pirro. Mas a reeleição de Pacheco, obtida por 49 a 32, mostra que subsiste no Senado uma parcela expressiva interessada em atrapalhar os projetos do Planalto.

Sobretudo porque o segundo colocado, Rogério Marinho (PL-RN), apoiado pelo bolsonarismo, só não amealhou mais simpatizantes porque o governo Lula atuou para estancar a sangria, com tradicionais promessas de espaço —cargos e verbas— na administração.

Poesia | Fernando Pessoa - A Aranha do meu destino

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Solidão

 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fernando Abrucio* - Pactuação é melhor que polarização

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Conselho da Federação pode ser canal para experimentar uma forma de governar que saia tanto do belicismo bolsonarista como dos conchavos patrimonialistas

A palavra federal deriva do latim foedus, que significa pacto. Foi esse sentido que guiou a criação, em maior ou menor medida, de boa parte das federações que nasceram como uma forma de distribuir o poder político territorial, mas também de salvaguardar a diversidade sociocultural dessas nações. O Brasil republicano optou pelo federalismo, mas na maior parte do tempo não conseguiu transformar a pactuação no estilo predominante de se governar o país. A reunião entre os governadores e o presidente Lula gerou a proposta de se criar um Conselho da Federação, instituição que pode incentivar e fortalecer uma lógica mais pactual de governança.

Não se pode confundir a ideia de pactuação com conciliação, que muitas vezes imperou na história brasileira. Conciliar, aqui, significou evitar o conflito e, geralmente, a cooptação de parte dos parceiros por elites que concentravam o poder. Um pacto democrático, ao contrário, supõe alianças que não tirem os direitos e identidades dos pactuantes. Esse é o sentido almejado pelo federalismo: criar uma nação que depende da interdependência das partes territoriais, mas que seja capaz de garantir a diversidade e a autonomia dos entes federativos.

Essa discussão é estratégica para o sucesso do governo Lula e, muito mais importante, para a reconstrução do Brasil, após a tragédia do bolsonarismo. A centralidade dessa questão se deve a dois fatores. Um é a força da polarização e da fragmentação no sistema político atual. E o outro tem a ver com o fato de o federalismo ser um dos principais eixos organizadores do Estado brasileiro.

Ricardo Mendonça - Novas vias para formar maioria no Congresso

Valor Econômico

Coordenação política e queda do número de partidos com representação no Congresso favorecem Lula

No longínquo março de 1995, quando o então recém-eleito Fernando Henrique Cardoso começava a exercer seu primeiro mandato como presidente da República, o sociólogo e cientista político Leôncio Martins Rodrigues publicou um artigo na revista “Novos Estudos”, do Cebrap, chamando a atenção para o preocupante aumento do número de partidos com representação no Congresso e seus potenciais efeitos nocivos sobre a governabilidade.

Professor Leôncio, como muitos o chamavam, discutia o risco de comprometimento de uma maioria parlamentar estável de sustentação ao Executivo, situação que, na sua avaliação, poderia prejudicar ou impedir a realização do programa de governo vencedor das eleições de 1994.

Ele lembrava que a situação política brasileira pós-ditadura foi marcada por presidentes minoritários diante de um Congresso partidariamente fragmentado. E que o resultado disso era uma situação em que o Executivo, “amplamente dependente de maiorias ad hoc” era levado a negociar pontualmente com grupos de partidos ou de parlamentares “cujo papel de situação ou oposição é muito instável e não muito claro”.

José de Souza Martins* - O triunfo da vítima

Eu & Fim de Semana  / Valor Econômico

O brasileiro que vem ganhando visibilidade tem raízes profundas e sofridas do encontro da pátria consigo mesma contra as fantasias manipuláveis de uma pátria de ficção

A mulher de meia-idade, enrolada na bandeira nacional, filmava com o celular a multidão espalhada pela Praça dos Três Poderes, subindo rampas, invadindo o STF, o Palácio do Planalto. Ela já estava dentro do Senado e berrava ao mundo: “Tomamos o poder!”.

A cena me lembrou um fato ocorrido na Faculdade de Filosofia da USP, em 1962, quando eu era aluno. Havia uma greve estudantil e o prédio fora tomado pelos grevistas. O professor Fernando Henrique Cardoso foi visitar os invasores. Paciente, hábil político e professor do diálogo, perguntou a eles: “Agora, que vocês tomaram o prédio, o que pretendem fazer com ele?”.

Calmamente, deu alguns esclarecimentos: é preciso preparar a folha de pagamentos e providenciar o depósito bancário da verba, pois no dia tal funcionários e professores devem receber seus salários.

Tomar o poder não é invadir recintos do poder. O poder não se confunde com edifícios. Além do que, o poder não se toma. O acesso a ele tem mecanismos legais e legítimos próprios de modo que só se está no poder no cumprimento de uma missão de representação. Sem isso, ninguém toma nada.

Luiz Carlos Azedo - Entre o mito do super-herói e a fama de traidor

Correio Braziliense

Do Val pode ser o elo perdido da conspiração para impedir a posse do Lula e, depois, para destituí-lo. A sua reunião com o presidente Bolsonaro e Daniel Silveira se encaixa perfeitamente na trama golpista

Autor do best-seller O Nome da Rosa, o escritor italiano Umberto Eco nasceu em 1932, em Alessandria, no noroeste da Itália, e cresceu à sombra do fascismo. Aos 10 anos, venceu um concurso de redação sobre o tema “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?”. Muitos anos mais tarde, num ensaio publicado no The New York Review of Books, relembrou o episódio para explicar as muitas faces do fascismo: “Minha resposta foi positiva. Eu era um garoto esperto”, escreveu, ironicamente.

Para ele, uma das características do fascismo é a obsessão pela trama, segundo a qual todos os eventos da história são resultados de conluios secretos. Obviamente, essa é uma das características de seus livros, entre os quais O pêndulo de Foucault, Cemitério de Praga e Seis passeios pelos bosques da ficção. Número Zero, o último romance de Eco, põe em cena um jornalista italiano que tenta provar a tese de que Mussolini não foi morto em 1945. Umberto Eco era um estudioso da cultura de massas, em particular dos heróis das histórias em quadrinhos.

Vera Magalhães - O golpe chinelão

O Globo

Não será possível conter o extremismo se Bolsonaro seguir protegido de prestar contas à Justiça pelo que urdiu

Em pouco mais de um mês, o Brasil assistiu a dois ataques terroristas, à tentativa de um terceiro, à descoberta de uma minuta de golpe de Estado na casa de um ex-ministro da Justiça e, agora, à confissão de um senador de que foi levado ao encontro do então presidente da República, por um deputado federal, e de que discutiram a três uma conspiração para prender um ministro da Suprema Corte e anular o resultado das eleições. E há quem, diante de um conjunto de acontecimentos dessa gravidade inimaginável, tente encontrar atenuantes. Elas não existem.

É preciso que em algum momento se dê um “basta” à permanente mania de colocar Jair Bolsonaro como um personagem coadjuvante ao golpismo bolsonarista. É dele que partem todas as investidas contra as instituições democráticas desde que foi eleito.

Bernardo Mello Franco - Pior semana do Bolsonarismo

O Globo

Fiasco no Senado, acusações de Marcos do Val e prisão de Daniel Silveira complicam ex-presidente

O bolsonarismo viveu sua pior semana desde a derrota para Lula na corrida presidencial. Na quarta-feira, o capitão foi dormir com o fracasso de Rogério Marinho na eleição do Senado. Na quinta, acordou com as acusações do senador Marcos do Val e a prisão do ex-deputado Daniel Silveira.

A extrema direita queria capturar o Senado para emparedar o governo e torpedear o Judiciário. Pelo roteiro, Marinho abriria um processo de impeachment contra Alexandre de Moraes. Seria o fim do pacto entre os Poderes em defesa da democracia, selado após a intentona fascista do 8 de janeiro.

Minutos antes da votação, Michelle Bolsonaro despontou no tapete azul e irrompeu no plenário do Senado. Esperava festejar uma zebra, mas testemunhou a reeleição do favorito, Rodrigo Pacheco.

O fiasco de Marinho ajudará a isolar a extrema direita no Congresso. Num ato falho, a estreante Damares Alves se referiu ao ex-presidente como uma figura do passado. "Não vou deixar o Brasil esquecer por um minuto quem foi Jair Bolsonaro", disse. A solidão da pastora, evitada pelos novos colegas, sugere que ela pode ser esquecida antes do chefe.

Pedro Doria - As redes bolsonaristas perderam

O Globo

Quem tomasse o termômetro pelas redes sociais teria clara impressão de que Pacheco seria derrotado na disputa pela presidência da Casa

Os discursos que os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Rogério Marinho (PL-RN) fizeram imediatamente antes da votação para a presidência da Casa revelam muito sobre como os parlamentares se dividem quando o assunto é desinformação no meio digital. A vitória de Pacheco, ao final, também diz muito sobre para que lado o Senado se inclina.

Marinho, que teve como principal cabo eleitoral o ex-presidente Jair Bolsonaro, já vinha falando faz algum tempo que o Supremo Tribunal Federal (STF) pratica “censura prévia” contra parlamentares.

— Não há Parlamento livre e representativo quando há desequilíbrio entre os Poderes — ele afirmou no discurso. — A omissão diminui o Parlamento e ameaça a democracia e o Estado de Direito.

Discursando para os senadores que deveriam decidir se votavam nele ou em Pacheco, fez da briga com o STF seu principal mote.

Pacheco foi no sentido contrário.

Claudia Safatle - Volta o debate: inflação versus crescimento

Valor Econômico

Marcos Bonomo diz que meta de inflação maior para ter em troca menor taxa de desemprego é ‘falácia’

Trata-se de uma péssima ideia a de aumentar a meta de inflação dos atuais 3,25% neste ano ou de 3% nos próximos anos para 4,5%, segundo cogitou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Quem defende uma meta maior de inflação para ter, em troca, uma menor taxa de desemprego ainda alimenta a ilusão de que esse é um trade-off que existe. “Isto é uma falácia. Não acontece. Desde os anos de 1970 que se sabe que, se existe esse trade-off (curva de Phillips), ele é temporário, de muito curto prazo”, aponta Marcos Bonomo, professor de macroeconomia do Insper, que foi convidado para se incorporar à equipe do Ministério da Fazenda sob o comando de Fernando Haddad, mas declinou do convite por motivos pessoais.

Fernando Gabeira - Uma extrema direita à espera de estudo

O Estado de S. Paulo

Será difícil enfrentar uma direita digital com reflexos analógicos. E mais difícil ainda se houver subestimação e um olhar fixado só nos seus aspectos folclóricos

As invasões golpistas do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) já foram intensamente condenadas. No entanto, passado quase um mês, a sensação que tenho é de que foram pobremente analisadas.

Para dizer a verdade, a tentativa de golpe foi um fracasso, o esquema de segurança foi um fracasso, mas a interpretação não precisa também ser um fracasso.

Poucos se aventuraram a explicar por que os invasores foram a Brasília. A revista Crusoé contou uma história interessante: uma lavradora paranaense, com uma baixa renda mensal, participou da manifestação porque tinha medo de que o comunismo levasse um trator que ganhou de herança, sua única posse.

Por sugestão de Michele Prado, tenho lido, entre outros, uma autora americana que criou um laboratório para pesquisar a extrema direita, Cynthia Miller-Idriss. Como estão mais adiantados nas pesquisas, estou aprendendo muito, sempre preocupado com não aplicar mecanicamente o aprendizado no exame da extrema direita brasileira.

Eliane Cantanhêde - Do drama à comédia

O Estado de S. Paulo

Nunca, em tempo algum, um golpe foi tão ridículo, com personagens tão absurdos

Direção, roteiro, personagens, locais e até o figurino ainda têm lacunas e o que era para ser um drama está desaguando numa comédia de quinta categoria sobre tentativas de golpe numa “Republiqueta de Bananas”. Os protagonistas são o presidente, familiares, políticos malfalados e militares, em palácios. Os coadjuvantes são ingênuos bem financiados e embolados com gente bem treinada, nas ruas.

Que roteirista imaginaria um presidente desfilando de jet ski com os primeiros 10 mil mortos de covid, nadando nos mares afrodisíacos com centenas de famílias afundando em enchentes, rodando em motociatas com tantos problemas a resolver? Contra vacinas e o sistema eleitoral do País, um sucesso internacional? E que tal um presidente ameaçando golpe por quatro anos?

Reinaldo Azevedo - História do futuro do governo Lula é ficção

Folha de S. Paulo

Cuidado para que realismo reacionário não suplante o idealismo progressista

A única "História do Futuro" que leio com gosto é a de Padre Vieira. Logo à partida, ele observa: "Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros (...). As outras histórias contam as cousas passadas; esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento" (Nota: o sujeito de "chega" é "entendimento).

Essa obra de Vieira é uma vertigem sebastianista sobre o surgimento do Quinto Império, quando Portugal representaria, então, o sumo e o vértice da civilização. Não aconteceu, mas prefiro a imaginação que prodigaliza o triunfo àquela que barateia o caos.

Vinicius Torres Freire – O golpe no lixão bolsonarista

Folha de S. Paulo

Além de bagrinhos, falta pegar tubarões políticos, militares, empresariais e religiosos

Basta remexer a superfície do lixão bolsonarista para se encontrar um cadáver fresco do golpismo. Como várias ofensivas do golpe eram ou ainda são planejadas e implementadas por gente miúda reles e lunática, pode ficar a impressão de que muito dessas iniciativas era mambembe e de ineficácia ridícula.

Essas mesmas palavras poderiam descrever o projeto de Jair Bolsonaro de se tornar presidente, lançado de modo explícito em comício de 2014 na escola de oficiais do Exército. Meros três anos depois, no final de 2017, o defensor da ditadura militar, da tortura, de genocídios, da guerra civil e apregoador do estupro estava normalizado, aceito por elites econômicas e políticas.

É verdade que muitos golpistas, vândalos e terroristas, em geral menores, estão sendo investigados e processados. A carreira de crimes de Bolsonaro, antes e depois de eleito presidente, pôde prosseguir sem sobressaltos. No entanto, tudo se passa como se o país pudesse "seguir em frente".

Não pode, se não houver um processo maior. Há o risco de se acreditar que punições pontuais, no grosso para gente pequena, possam dar conta de conter uma ofensiva golpista que era ou é muito ampla, com financiadores, apoiadores e articuladores graúdos, no mundo político, militar, empresarial e religioso. É bem possível que se condenem até mil bagrinhos e se arrume um acordão para algumas dúzias de tubarões do bolsonarismo.

O bolsonarismo é essa mistura de rachadinha com ditadura, de seita lunática com propaganda experta em tecnologia, de vaquinha para marmitas com o dinheiro grosso ou apoio de gente de "institutos liberais". O golpe faz parte do cotidiano muita vez aloprado dos lambaris ditatoriais e dos políticos graúdos do bolsonarismo. É micro e macro.

Bruno Boghossian - Bolsonaro e a operação araponga

Folha de S. Paulo

Relato de Marcos do Val reforça investigações sobre participação do ex-presidente em trama golpista

Há três semanas, uma minuta encontrada no armário de um auxiliar confirmou a existência de uma conspiração golpista na antessala de Jair Bolsonaro. Agora, o relato de um parlamentar aliado oferece os indícios de que o ex-presidente integrava a trama dentro de casa.

A operação araponga para anular a eleição e garantir a permanência de Bolsonaro no cargo foi descrita pelo senador Marcos do Val. Ele disse que foi chamado em dezembro para uma reunião com o então presidente e recebeu um pedido para gravar uma conversa que comprometesse o ministro Alexandre de Moraes.

Ruy Castro - 'Heil Bolsonaro!'

Folha de S. Paulo

Os militares que ainda o apoiam deviam ir ao Monumento aos Pracinhas para cuspir nas urnas

Reportagem de Isabella Menon na Folha ("Ideias nazistas em escolas acendem alerta", 3/1) traz um retrato alarmante: a naturalidade com que o Brasil tem convivido com atos de apoio ao nazismo, até mesmo em colégios e universidades. Esses atos vão desde suásticas pichadas em muros, grupos autoproclamados neonazistas, professores defendendo Hitler em aula e jovens que se fantasiam de Hitler e fazem seus gestos. Em dezembro, um adolescente em Aracruz (ES), portando uma braçadeira de suástica, matou a tiros quatro pessoas e feriu 13.

Hélio Schwartsman - Conspirador serial

Folha de S. Paulo

Ouvir Marcos do Val num inquérito para apurar tudo se torna obrigatório

As revelações do senador Marcos do Val (Podemos-ES) sobre mais um plano golpista de Jair Bolsonaro podem surpreender pelo enredo, mas não pela disposição. A essa altura, está mais do que claro que Bolsonaro passou, se não os últimos quatro anos, ao menos os últimos três meses conspirando contra a democracia.

Os detalhes da nova trama podem afetar a situação jurídico-policial do ex-presidente. Se, no caso da minuta de decreto golpista encontrada na casa de Anderson Torres, ainda era logicamente plausível afirmar que Bolsonaro jamais tomou conhecimento do plano, agora o capitão reformado seria, pelo menos numa das versões apresentadas pelo senador, articulador do conciliábulo. Ouvi-lo num inquérito para apurar tudo se torna obrigatório. A PF já pode marcá-lo como "person of interest".

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Rever cadastros é essencial para deter a farra dos auxílios

O Globo

Suspeita-se que, às vésperas da eleição, 4,1 milhões foram incluídos entre os beneficiários sem filtros

A cada dia fica mais evidente o descontrole que impera nos cadastros de programas sociais. Os escassos recursos públicos chegam ao bolso de quem não precisa e faltam no de quem passa necessidade. O governo informou que um apagão nos sistemas em agosto “impactou negativamente” a prestação de serviços como Auxílio Brasil (atual Bolsa Família). Suspeita-se que 4,1 milhões de beneficiários tenham sido incluídos no cadastro entre julho e dezembro quase sem filtro.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou em dezembro que a ajuda fora paga a 3,5 milhões de famílias que não se encaixavam nas regras do programa. A maior distorção estava no Nordeste, com 6,76 milhões de famílias elegíveis e 9,75 milhões de benefícios. O descontrole pode ser ainda maior, já que a análise do TCU considerou apenas os trabalhadores com carteira assinada.

Poesia | Fernando Pessoa - Mar Português (X)

 

Música | Coqueiros (Geraldo Azevedo e Marcus Vinícus)

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Vera Magalhães - Nova vitória sobre Bolsonaro não garante vida fácil a Lula

O Globo

Vitória de Pacheco no Senado confirma reação ao 8 de Janeiro, mas governabilidade não está assegurada nem na Casa nem na Câmara sob um anabolizado Arthur Lira

Não foi uma goleada como a de Arthur Lira, mas, depois de uma certa tensão, Rodrigo Pacheco conseguiu uma vitória ampla sobre o bolsonarista Rogério Marinho.

E da mesma forma como Jair Bolsonaro, direto de seu exílio autoimposto, tentou vender a competitividade de Marinho como prova de sua força, há que aceitar a volta da roda da fortuna: com seu ex-ministro, o bolsonarismo colhe uma resposta em alto e bom som, e em voto impresso e auditável, contra a radicalização política fomentada por ele e que resultou no 8 de Janeiro.

O risco de que houvesse um enclave bolsonarista numa Praça dos Três Poderes ainda não totalmente recuperada da barbárie fez com que até a sempre discreta Rosa Weber entoasse, na manhã da reabertura dos trabalhos judiciários e legislativos, um potente libelo em defesa da democracia.

Malu Gaspar – A fatura está a caminho

O Globo

As escolhas dos presidentes da Câmara e do Senado trouxeram alguns recados importantes para Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro foi que o apelo do governo, com seus cargos e verbas, é forte, mas não infalível.

Lula, com a experiência de dois mandatos e o trauma do impeachment de Dilma, desde o começo decidiu que não pagaria para ver se tinha bala para derrotar o poderoso Arthur Lira na Câmara dos Deputados.

Num Congresso formado majoritariamente por parlamentares de direita e do Centrão, seria de fato temerário querer bancar um confronto dessa natureza — até porque Lira ainda colhe os resultados da distribuição dos recursos do orçamento secreto nos últimos anos.

No Senado, Rodrigo Pacheco saiu da disputa com o candidato da oposição, o bolsonarista Rogério Marinho, com uma vitória incontestável, mas mais apertada do que se previa há poucos dias.

Os 32 apoios que Marinho reuniu são suficientes para abrir uma CPI no Senado — coisa que Lula não quer de jeito nenhum. E isso apesar do intenso esforço que o governo teve de fazer na reta final, empenhando seus ministros numa negociação de cargos e verbas para garantir a vitória de Pacheco.

Carlos Andreazza - Sobre a votação em Rogério Marinho

O Globo

Rogério Marinho, senador estreante, teve muitos votos. Uma massa de 32 senadores que, em rápida análise, daria margem, por exemplo, à aprovação de CPIs - são 27 as assinaturas necessárias.

Mas a coisa não é tão simples assim. O tempo fará assentar a consistência - ou exporá a fragilidade - do conjunto. Veremos, então, se se trata mesmo de grupo; de um capaz de se articular para votar conjunta e consistentemente.

Há razões para se projetar que a coisa mingue. A primeira delas é que o Planalto virá firme; e a sedução tende a ser mais fácil quando frente a corações vadios. Há ali, entre os 32, corações carentes.

Luiz Carlos Azedo - Com Pacheco e Lira, haverá mais diálogo entre os Poderes

Correio Braziliense

No mesmo dia em que foram reconduzidos, o Supremo reiniciou seus trabalhos, sob a presidência da ministra Rosa Weber, que reiterou seu empenho na defesa da Constituição e da democracia 

A reeleição de Rodrigo Pacheco (PSD) à presidência do Senado, por 49 votos a 32, ontem, foi uma grande derrota imposta ao ex-presidente Jair Bolsonaro, cujo candidato era Rogério Marinho, senador potiguar eleito pelo PL. O resultado da eleição mostrou que forças políticas que deram sustentação ao ex-chefe do Executivo permanecem ativas e organizadas, com grande poder de influência e contam com apoio dos grupos bolsonaristas de extrema direita, organizados em redes sociais, que protagonizaram a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro.

O principal significado da eleição de Pacheco, que presidirá o Congresso, é a garantia de um clima de mais harmonia entre os Poderes, sinalizada também pela postura de diálogo e negociação do presidente da Câmara, o deputado alagoano Arthur Lira (PP), que foi reeleito com 464 votos, recorde para uma votação na Câmara. Lira superou os 434 votos dos ex-presidentes da Câmara João Paulo Cunha (PT), em 2003, e Ibsen Pinheiro (PMDB), em 1991, que foram candidatos únicos. Votaram 509 dos 513 deputados. Chico Alencar (PSol-RJ) obteve 21 votos e Marcel Van Hattem (Novo-RS), 19. Houve cinco votos em branco.

Fernando Exman - Lula não terá vida fácil no Senado

Valor Econômico

Eleição na Casa mostra que o bolsonarismo continua bem articulado

Seis mil quilômetros separam Brasília e Kissimmee, cidade localizada na Flórida, Estados Unidos, onde o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) expatriou-se após ser derrotado no pleito de outubro. Mas a distância eleitoral entre a frente ampla liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o bolsonarismo permanece muito menor.

A eleição para a presidência ao Senado demonstrou ao governo que, embora o chefe do Poder Executivo e as instituições republicanas tenham saído fortalecidos da tentativa de golpe do dia 8 de janeiro, o bolsonarismo continua bem articulado. E não dará vida fácil ao Executivo na Casa.

Lula venceu Bolsonaro em outubro, no segundo turno, com 50,9% dos votos válidos contra 49,1%. Foi diplomado e tomou posse, mas uma espécie de terceiro turno ocorreu nesta quarta-feira no Senado. Após ver a candidatura bolsonarista ganhar corpo, o Palácio do Planalto precisou entrar em campo para, junto com os demais partidos aliados, assegurar a vitória de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) contra Rogério Marinho (PL-RN).

Cláudio Gonçalves Couto* - Instituições importam, indivíduos idem

Valor Econômico

Disputa pelo Senado é exemplo de que instituições importam, mas dependem das lideranças que as fazem funcionar

A eleição para as duas Casas do Congresso, neste início de legislatura, mobilizou a atenção pública como poucas vezes visto antes na nossa história democrática - principalmente no caso da disputa para o Senado.

Decerto, a presidência das duas casas é importante para governos em virtude do poder de agenda detido por quem as chefia. No caso da Câmara, isso é particularmente relevante porque todas as propostas legislativas do Executivo iniciam sua tramitação por ela. Assim, se quem dirige a Casa é antagonista do chefe do Executivo, pode impor obstáculos significativos à apreciação de sua pauta.

Ademais, como hoje se sabe bem, o comandante da Câmara detém um poder especial: permitir o avanço ou engavetar pedidos de impeachment contra o presidente da República. Segundo o jurista Rafael Maffei, autor do livro “Como remover um presidente: teoria, história e prática do impeachment no Brasil”, tal poder discricionário decorre de uma prática, não da letra fria da lei. Contudo, importou para o impedimento de Dilma Rousseff e para que hibernassem todas as ações contra Jair Bolsonaro.