quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Vera Magalhães - A lógica é a do painel

O Globo

Números do PP e do Republicanos justifica mudança que vai deixando descontentes aliados históricos menos expressivos

Feita de forma confusa e demorada, a primeira reforma ministerial de Lula vai deixando descontentes, mortos e feridos pelo caminho, sobretudo nas hostes que foram mais leais ao petista na campanha e na “travessia do deserto” do PT fora do poder.

Talvez não precisasse ser tão doloroso se o presidente, ainda muito beneficiado pela condescendência dos setores mais progressistas, como venho apontando, tivesse dito no primeiro momento, aos aliados que agora desalojará, que precisava dos cargos para construir uma governabilidade necessária ao avanço justamente das pautas sociais com que se elegeu para o terceiro mandato. Mas não foi assim que ele conduziu as conversas.

Basta dizer que ainda ontem, com o prazo da reforma mais que estourado, Lula não disse com todas as letras a Ana Moser que precisará do Ministério do Esporte, devidamente turbinado pelas apostas esportivas, para contemplar o PP de Arthur Lira. Praticamente disse à ex-atleta que o gato dela subiu no telhado, mas não foi taxativo. E presidentes podem e devem ser claros quando estão operando mudanças na equipe de primeiro escalão, até para mitigar os desgastes.

Elio Gaspari - Tarcísio deve varrer a estupidez

O Globo

O que parecia ser um debate sério era coisa muito feia

No início de agosto, o secretário de Educação de São Paulo, Renato Feder, anunciou que as escolas públicas do estado abririam mão dos livros didáticos impressos do programa federal, entrando na modernidade do material eletrônico.

O doutor deu-se ao luxo de criticar os livros do Ministério da Educação, chamando-os de “rasos e superficiais”. Faltava dizer quem analisou as obras. Faltava dizer também:

1) Que a empresa da qual Feder é acionista tinha negócios com a secretaria.

2) Que dezenas de milhares de alunos não têm dispositivos capazes de acessar a internet.

3) Que mais da metade das escolas da rede pública não tem equipamento para imprimir as apostilas eletrônicas.

Parecia que Feder abria de forma truculenta e inepta um debate que algum dia haverá de chegar: o uso de livros eletrônicos na rede pública. Parecia, mas era ilusão. A modernidade de Feder, endossada por Tarcísio, era apenas uma cobertura para a estupidez.

O repórter Gabriel Mansur revelou que um slide de aulas para alunos do 9º ano informava que Dom Pedro II assinou a Lei Áurea e que “em 1961, quando ele era prefeito de São Paulo”, Jânio Quadros assinou “um decreto vetando o uso de biquínis nas praias da cidade”.

Em 1961 Jânio era presidente, ele nunca proibiu o biquíni, e São Paulo não tem praia.

Quem assinou a Lei Áurea foi a Princesa Isabel. Em maio de 1888, Dom Pedro II estava em Milão, entre a vida e a morte.

Erros desse tipo não deveriam ser cometidos pelos autores patrocinados pela Secretaria de Educação. Admita-se que um autor jejuno enganou-se, o que não é pouca coisa. Ninguém leu os textos errados, coisa que não acontece com os livros do MEC. Rasa e superficial é a gestão de Feder.

Bernardo Mello Franco – Bola fora no Esporte

O Globo

Barganha com Ministério do Esporte decepciona atletas e contradiz discurso do presidente

Na campanha de 2022, Lula anunciou um plano imodesto para o esporte brasileiro. “O que nós precisamos fazer é uma revolução”, declarou. A cinco dias do primeiro turno, o petista disse que o setor ganharia destaque inédito se ele voltasse ao poder. “Vocês nunca tiveram na história deste país um presidente comprometido com o esporte como eu vou ser daqui para a frente”, prometeu.

O discurso empolgou celebridades que participavam do ato público, como o ex-jogador Casagrande, o técnico Vanderlei Luxemburgo e a ex-craque do vôlei Isabel Salgado. Eleito, Lula colheu novos aplausos ao anunciar a recriação do Ministério do Esporte, extinto por Jair Bolsonaro. Confiou a nova pasta a Ana Moser, medalhista nas Olimpíadas de Atlanta.

Luiz Carlos Azedo - A antropologia explica a resiliência de Bolsonaro

Correio Braziliense

Bolsonaro capturou o apoio dos evangélicos ao se opor às pautas identitárias da esquerda, que são vistas como uma ameaça à preservação da família unicelular patriarcal

Teólogo católico maldito, Leonardo Boff é um crítico dos fundamentalismos. Segundo ele, todos os sistemas culturais, científicos, políticos, econômicos e artísticos que se apresentam como portadores exclusivos da verdade e da solução única para os problemas são fundamentalistas. Ex-frade franciscano, considerado um dos fundadores da chamada Teologia da Libertação, suas críticas aos dogmas religiosos o levaram ao confronto com Roma. Nascido em Santa Catarina, seu nome de batismo é Genézio Darci Boff.

Os conceitos de Boff no livro Igreja, Carisma e Poder provocaram forte reação da Congregação para a Doutrina da Fé, então dirigida por Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa Bento XVI. Condenado ao “silêncio obsequioso”, Boff foi proibido de difundir suas ideias renovadoras sobre a relação da Igreja Católica com o povo, por colocar “em perigo a sã doutrina da fé”.

Fernando Exman - O dilema do prisioneiro aplicado no caso das joias

Valor Econômico

Segundo os estudiosos, o pior resultado individual ocorre quando um jogador torna-se cooperativo enquanto outro trai

Formulado na década de 1950 em meio à busca de modelos para entender o comportamento humano, o “dilema do prisioneiro” deixou as páginas dos livros na semana passada e pode alterar o rumo das investigações sobre as joias recebidas pelo Brasil durante o governo Jair Bolsonaro (PL).

Raridade vê-lo aplicado na prática. É justo, portanto, o apelido de “Superquinta” dado ao dia 31 de agosto.

Foi quando a Polícia Federal coletou, simultaneamente, os depoimentos do ex-presidente e de outras sete pessoas, entre elas a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e assessores do casal. Alguns deles optaram por ficar em silêncio, mas já surgem rumores, aqui e ali, de que podem mudar de comportamento quando tiverem a oportunidade de retornar à PF.

Zeina Latif - Testando os limites da irresponsabilidade

O Globo

Efeitos colaterais de excessos fiscais geram sensação de bem-estar no início, mas depois vem o gosto amargo, até pela baixa qualidade do gasto público

Um padrão recorrente no Brasil é o descuido com a política econômica em tempos de bonança, como se as boas condições fossem permanentes e permitissem atender às muitas demandas por mais gastos e benesses. Pior, muitas vezes as medidas têm efeito duradouro ou permanente, constrangendo os orçamentos futuros.

O sistema político não ajuda, pois não há praticamente incentivos para o Congresso frear a gastança. O custo político de fazê-lo pode ser alto, enquanto o custo do erro, pela inflação teimosa e pelos juros mais altos, cai no colo do presidente de plantão.

Em meio aos bons ventos na economia, no PIB e na inflação, caímos novamente em uma armadilha de leniência fiscal.

Simon Johnson* - A competição das grandes potências

Valor Econômico

A fase mais recente da competição tem muito mais a ver com tecnologia do que com comércio

A cúpula recente do Brics na África do Sul marca o início de uma nova fase da competição de grandes potências. Aparentemente a pedido da China, o grupo Brics (que também inclui Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) convidou seis outros países a se juntarem ao bloco: Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Dependendo do critério usado, a produção econômica desse grupo ampliado rivalizará com a do G-7 (os principais países desenvolvidos: Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Alemanha e Itália).

Segundo declarações públicas do presidente russo, Vladimir Putin, e, mais importante, do presidente chinês, Xi Jinping, o objetivo é construir um grupo que possa fazer frente à influência ocidental e criar os pilares de uma ordem mundial alternativa, com menos dependência do dólar americano.

Sem dúvida, esse esforço chamará mais atenção no ano que vem, especialmente quando o bloco expandido se encontrar pela primeira vez em outubro de 2024 (em Cazã, na Rússia). Contudo, é improvável que o Brics+ redefina o mundo, por três motivos.

Lu Aiko Otta - Novidades no Orçamento de 2024

Valor Econômico

Mudanças que pretendem dar mais elementos para se discutir como, e com quais resultados, é gasto o dinheiro do contribuinte

Independentemente da pancadaria que o aguarda no Congresso Nacional e das dúvidas que especialistas levantam sobre sua factibilidade, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2024 traz novidades que o colocam no estado da arte do que se discute no mundo sobre governança de recursos públicos. São mudanças que pretendem dar mais elementos para se discutir como, e com quais resultados, é gasto o dinheiro do contribuinte brasileiro.

O Brasil está atrasado uns 15 anos nesse debate, comentou o secretário de Orçamento Federal, Paulo Roberto Simão Bijos, em entrevista a este jornal. As principais economias do mundo implementaram mudanças após a crise de 2008.

Vinicius Torres Freire - Brasil, país petroleiro

Folha de S. Paulo

Receita de exportação de petróleo e derivados é recorde; alta do barril pode bater em combustíveis

O Brasil nunca exportou tanto petróleo quanto neste 2023. De janeiro até julho, dado mais recente, o país vendeu para o exterior 1,526 milhão de barris por dia, em média. O saldo, diferença entre exportações e importações, até agora foi de 1,216 milhão de barris —menor que o recorde anterior, de 2020, 1,332 milhão de barris. No entanto, o saldo do valor de vendas e compras externas de petróleo, derivados e gás é neste ano a maior da história, cerca de US$ 12 bilhões até julho, ante os US$ 9,8 bilhões do mesmo período do ano passado.

Até o início do mês, não havia perspectiva de que o preço do barril do tipo Brent fosse além de uns US$ 85. Nesta terça-feira (5), porém, Arábia Saudita e Rússia disseram que vão prorrogar seus cortes de produção até dezembro. Os cortes de produção mais recentes dos dois países somam 1,3 milhão de barris por dia.

Wilson Gomes* - A batalha pelo STF

Folha de S. Paulo

Não fosse a Corte, não se teria avançado nada na agenda de direitos na última década

Parece estranho, mas o brasileiro agora se preocupa mais com a escalação do Supremo Tribunal Federal do que com a composição da seleção de futebol. Exagero, claro, pois a massa está mais preocupada com coisas menos sublimes, tais como sobreviver todo dia à pandemia de homicídios que infesta o país ou como fazer caber em um salário infame um longo mês de despesas e aflições.

Mas as redações, os setores intelectuais médios, os hiperpolitizados que junho de 2013 nos deixou como legado, a classe política, o governo, os neoconservadores, a chamada "opinião pública", enfim, não pensa em outra coisa a não ser em quem Lula indicará para a próxima vaga no STF. E o efeito Zanin certamente tornou a coisa ainda mais candente.

Hélio Schwartsman - Cheque em branco

Folha de S. Paulo

Ex-presidente pode ficar impune em sua falta mais grave

As investigações sobre Jair Bolsonaro e seu entorno estão avançando. A mais adiantada delas é a relativa às joias das Arábias, que foram indevidamente surrupiadas ao patrimônio público ao qual deveriam ter sido incorporadas e submetidas a descaminhos variados. O ex-presidente já foi até chamado a depor nesse inquérito e, por orientação de seus advogados, manteve-se num embaraçoso silêncio.

E o caso das joias está longe de ser a única encrenca judicial de Bolsonaro. Consideradas todas as instâncias, ele está metido em cerca de duas dezenas de inquéritos. Dos que estão sob o tacão do STF, destacam-se o inquérito das fake news, da interferência na PF, do vazamento de documentos sigilosos e dos atos de 8 de janeiro. Há ainda investigações no âmbito da Justiça Eleitoral, da Justiça Federal e de Justiças estaduais.

Bruno Boghossian - ‘Ninguém precisa saber’

Folha de S. Paulo

Voto sigiloso removeria tribunal de Fla-Flu raivoso para atirá-lo na suspeição de uma sala secreta

Lula acredita que os ministros do STF deveriam se esconder um pouco. Para reduzir a animosidade contra os magistrados, o presidente defendeu que os votos de cada integrante da corte sejam sigilosos. Bastaria divulgar o placar final dos julgamentos. "Eu acho que o cara tem que votar, e ninguém precisa saber", disse.

Se o plano de manter votos em segredo for um palpite descompromissado, o petista precisa pisar com mais cuidado na tribuna que ocupa. Se a proposta é para valer, o presidente encontrou um remédio errado e ainda ignorou os efeitos colaterais.

Mariliz Pereira Jorge - Lula, nós queremos saber

Folha de S. Paulo

Protagonistas na vitória da eleição, queremos ser ouvidos

Subir a rampa do Planalto com representantes de uma sociedade mais diversa é fácil. Difícil é transformar o discurso em ações para aumentar a participação dessas pessoas em setores variados do Estado. Pela segunda vez, Lula terá a chance de deixar o STF um pouquinho menos branco, menos masculino, menos hetero, mas principalmente, mais progressista.

O cenário deve permanecer o mesmo e Lula parece zero constrangido por garantir a presença de um conservador como Cristiano Zanin durante as três próximas décadas no Supremo. Agora defende a falta de transparência no Tribunal ao dizer que ninguém precisa saber como vota um ministro. O reaça do Bolsonaro não faria melhor.

Vera Rosa - Ministros em pé de guerra

O Estado de S. Paulo

Lula perguntou a um auxiliar quem tinha inventado o slogan ‘União e Reconstrução’

Enquanto todos os holofotes estão voltados para a dança das cadeiras no primeiro escalão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros de várias pastas até agora “imexíveis” dão cotoveladas entre si, nos bastidores. Sob o slogan “União e Reconstrução”, o governo tem, na prática, várias frentes de batalha.

A Advocacia-Geral da União (AGU), por exemplo, estuda acionar a Comissão de Ética Pública contra o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho. Motivo: há duas semanas, Agostinho fez comparação considerada desrespeitosa pela AGU ao usar de ironia para dizer que não existia “acordo” em licenciamento ambiental por se tratar de decisão técnica. “Não é Casas Bahia”, provocou ele.

Fábio Alves - O ministro decorativo

O Estado de S. Paulo

Haddad venceu a primeira disputa, mas as pressões para mudar a meta fiscal vão continuar

O divisor de águas na gestão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já assoma no horizonte: terá ele força suficiente para fazer o contingenciamento de despesas no Orçamento de 2024, assim que essa medida se torne absolutamente necessária, ou será forçado a mudar a meta de resultado primário do ano que vem, permitindo um déficit maior do que o originalmente fixado, mas enterrando a credibilidade do arcabouço fiscal no seu nascimento?

É praticamente unânime o sentimento do mercado de que o Congresso não irá entregar a Haddad, via medidas de cunho arrecadatório, o aumento necessário em receitas tributárias, de R$ 168 bilhões, para que a meta de déficit primário zero seja cumprida em 2024. Nesse caso, além de contingenciar despesas a nova regra fiscal prevê outros gatilhos, como a redução no ritmo de expansão de gastos de 70% para 50% das receitas registradas no ano anterior.

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

Transparência nas decisões do STF é inegociável

O Globo

Sugestão de sigilo feita por Lula é incompatível com o papel dos tribunais numa democracia

Recém-empossado no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Cristiano Zanin se tornou alvo de críticas do PT e de setores da esquerda em razão de seus primeiros votos na Corte. Em pelo menos quatro casos, ele adotou posições contrárias à agenda tida como progressista. É curioso notar que, antes da sabatina no Senado, opositores do governo diziam que Zanin faria o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandasse. Para o bem da Corte, nem uma coisa nem outra. Certo ou errado, ele agiu segundo o que as suas convicções apontavam como ditames da Constituição. Em vez de críticas, os votos de Zanin merecem no mínimo elogios pela independência.

Cobrado por aliados pela indicação de Zanin, Lula chegou a defender votos sigilosos no Supremo, como forma de deter a “animosidade” contra a Corte. “Se eu pudesse dar um conselho, é o seguinte: a sociedade não tem que saber como é que vota um ministro da Suprema Corte”, disse Lula. “Eu acho que o cara tem que votar, e ninguém precisa saber.”

Poesia | "El crimen fue en Granada" a Federico García Lorca - Antonio Machado

 

Música | El País que soñamos - Inti Illimani

 

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O Rio

 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Joseph Stiglitz* - Desigualdade e democracia

Valor Econômico

O sentimento generalizado de que a democracia produziu resultados injustos, minou a confiança na democracia

Nos últimos anos, tem havido muita preocupação com o retrocesso da democracia e a ascensão do autoritarismo - e por uma boa razão. Do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o ex-presidente americano Donald Trump, temos uma lista crescente de autoritários e aspirantes a autocratas que canalizam uma forma curiosa de populismo de direita. Embora prometam proteger os cidadãos comuns e preservar os valores nacionais, eles perseguem políticas que protegem os poderosos e destroem normas há muito estabelecidas - e deixam o resto de nós tentando explicar o apelo que eles exercem.

As explicações são muitas, mas uma que se destaca é o aumento da desigualdade, um problema decorrente do capitalismo neoliberal, que também pode estar ligado de muitas maneiras à corrosão da democracia. A desigualdade econômica inevitavelmente leva à desigualdade política, embora em graus variados entre os países. Em um país como os Estados Unidos, que praticamente não impõe restrições às contribuições de campanha, “uma pessoa, um voto” se transformou em “um dólar, um voto”.

Essa desigualdade política está se autoalimentando, levando a políticas que consolidam ainda mais a desigualdade econômica. As políticas fiscais favorecem os ricos, o sistema educacional favorece os já privilegiados e a regulamentação antitruste inadequadamente concebida e aplicada tende a dar às corporações liberdade para acumular e explorar poder de mercado. Além disso, como a mídia é dominada por empresas privadas controladas por plutocratas como Rupert Murdoch, grande parte do discurso dominante tende a consolidar as mesmas tendências. Assim, há muito se diz aos consumidores de notícias que tributar os ricos prejudica o crescimento econômico, que os impostos sobre heranças são impostos sobre a morte e assim por diante.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - O Tempo e a Lógica

Valor Econômico

Keynes sugeriu que, ao contrário do que procurava demonstrar a bela arquitetura dos modelos de equilíbrio geral, a reprodução das sociedades não estava garantida

No livro “Epistemics and Economics”, George Shackle cuida de encarar a questão da racionalidade, tão cara aos economistas. “O tempo e a lógica”, comenta Shackle, “são estranhos um ao outro. O primeiro implica a incerteza, o segundo demanda um sistema de axiomas, um sistema envolvendo tudo o que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”.

George Shackle afirma que a economia é uma área do conhecimento submetida às incertezas da vida humana em sociedade. Ela procura estudar o comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, nos marcos de um quadro social e político determinado temporalmente, isto é, cada nova decisão de acumular riqueza tem um caráter crucial, porquanto tem o poder de reconfigurar as circunstâncias em que foi concebida.

Shackle está se referindo às decisões empresariais de investimento - introduzir novas tecnologias ou mudar a localização de seu empreendimentos. São decisões cruciais, na medida em que “criam o futuro”. Esta criação do futuro é, para ele, um ato originário e irredutível dos que controlam a criação de riqueza no capitalismo. Este ato é irreversível e praticado em condições de incerteza radical.

Sir Isaiah Berlin valeu-se de Arquíloco para distinguir dois tipos de sabedoria e de ciência: “A raposa sabe muitas coisas, o ouriço sabe uma grande coisa”. Shackle usou a frase de Berlin (que, aliás, gostava de garimpar frases no rico veio da poesia clássica) para definir Keynes e a Teoria Geral, diante do desencontro de ideias que assolou a chamada teoria econômica durante os anos 30.

Miguel Caballero* - A retomada da normalidade

O Globo

A ameaça à estabilidade não deveria servir de pretexto para uma recusa a apurações mais profundas

O Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar na semana que vem os primeiros réus da intentona golpista do 8 de Janeiro. É um evento traumático, que abalou nossa democracia, por isso necessita de punição profilática dos envolvidos. Desde que o Brasil se viu sob a ameaça autoritária do bolsonarismo, inclusive, e sobretudo, durante o processo eleitoral e as primeiras semanas do novo governo, a recuperação da normalidade virou discurso prioritário das ditas instituições nacionais.

É justo e obrigatório. Mas a ameaça à estabilidade não deveria servir de pretexto para uma recusa a apurações mais profundas das responsabilidades sobre as próprias investidas antidemocráticas, num paradoxo apenas aparente.

Míriam Leitão - O que celebrar no Dia da Amazônia

O Globo

Agora de fato há um esforço de combate ao crime na Amazônia e para reverter a situação dramática dos últimos tempos

O Dia da Amazônia hoje será comemorado com bons números e criação de novas unidades de conservação — uma delas estadual, a Estação Ecológica Mamuru, no Pará, de 126 mil hectares de proteção integral — , além de demarcação de terra indígena. Nesses primeiros meses do governo já se viu uma mudança de taxa de desmatamento, de reação contra os diversos crimes ambientais e um aumento dos aportes ao Fundo Amazônia, por países doadores. O Brasil ainda está longe do ideal, muito distante da meta de desmatamento zero e é possível que o primeiro número a ser anunciado, de 2023, nem tenha queda significativa de desmatamento. Mas os meses recentes são animadores. Em julho, a queda foi de 66%, em agosto pode ter sido de 60%.

Carlos Andreazza - O futuro a Deus pertence

O Globo

Gastos públicos aumentarão; com eles, a tentação dos puxadinhos

‘Recebi, pelo sistema oficial do governo, receitas suficientes para zerar o déficit fiscal, sejam já realizadas, sejam as que estão por vir. O futuro a Deus pertence. Nós não sabemos, diante do imponderável. Mas tem de ser algo imponderável.’

A declaração é de Simone Tebet, ministra do Planejamento. Que planeja com fé. Faz sentido, se olharmos para o Orçamento apresentado e considerarmos tudo quanto se lhe promete pendurar até dezembro. As “receitas que estão por vir” terão de ser divinais. Disso sabemos. Haja Deus na causa.

Imponderável, tendo a ver com peso, é aquilo que ora não se pode medir. Um elemento — de carga indefinível — que influenciará; que talvez condene.

Imponderável é o imprevisível. Certo sendo que o governo remeteu ao Congresso o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2024 sem que a LDO tenha sido votada e dependente de que nela se embuta a previsão de teto solar para despesas condicionadas de pelo menos R$ 30 bilhões — há quem as estime em R$ 40 bilhões. Sabe-se como começa. E como termina.

Do imponderável, a multiplicação dos mensuráveis. O imponderável como certeza. Gastos aumentarão; com eles, a tentação das exceções-puxadinhos. A carne é fraca. Assim vai desafiado, de largada, o arcabouço fiscal. Carcaça cujo voo curto talvez seja ainda menor.

Andrea Jubé - Crise das joias testa resiliência bolsonarista

Valor Econômico

Cúpula do PL comemora que a popularidade do ex-mandatário se mantém em patamar elevado

Com seis meses de noticiário frequente, quase diário, sobre a investigação da Polícia Federal (PF) de um suposto esquema de venda de joias e outros presentes destinados ao Estado brasileiro em missões no exterior, que tem como alvo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu entorno, a cúpula do PL comemora que a popularidade do ex-mandatário se mantém em patamar elevado.

Pesquisas recentes mostram que a aprovação de Bolsonaro caiu pouco em relação ao apoio obtido no segundo turno do pleito presidencial, quando ele alcançou 49,1% dos votos válidos. Essa resiliência é essencial aos planos do partido de colocar Bolsonaro, mesmo inelegível, em campo nas eleições de 2024 e 2026, atuando como principal cabo eleitoral e líder da oposição.

A resiliência do bolsonarismo diante da ofensiva midiática, da cobrança sistemática por esclarecimentos, do envolvimento de oficiais de alta patente do Exército, dos inúmeros depoimentos de Bolsonaro à Polícia Federal impressiona até mesmo políticos com muitas horas de voo.

Luiz Carlos Azedo - Fufuca e Costa Filho podem sair do purgatório e virar ministros

Correio Braziliense

Os dois indicados são parlamentares que apoiaram Lula nas eleições passadas, mas foram apresentados como uma imposição do Centrão para garantir a governabilidade. Vem daí a demora.

Há mais de um mês, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha (PT), anunciou que os deputados André Fufuca (PP-MA) e Sílvio Costa Filho (Republicanos-PE) seriam os novos ministros do Centrão no governo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assim, passaria a contar com o apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e da ala evangélica representada pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), que é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo.

Os dois indicados são parlamentares que apoiaram Lula nas eleições passadas, mas foram apresentados como uma imposição do Centrão para garantir a governabilidade. Vem daí a demora para consolidar as indicações, o que deixou os dois parlamentares num constrangimento tremendo junto aos pares e às suas bases eleitorais. Sem que tivessem cometido qualquer pecado, foram parar no purgatório, de molho.

Dora Kramer - Processo (in)decisório

Folha de S. Paulo

Lula se enreda num processo de indecisão inaceitável para quem está no terceiro mandato

Janeiro de 2023 ainda não havia acabado quando os ministros Daniela Carneiro e Juscelino Filho, do União Brasil, começaram a se enrolar em ocorrências desonrosas.

Ela, numa esquisita relação eleitoral com milícias da Baixada Fluminense; ele, com o uso do dinheiro de emendas parlamentares para beneficiar fazenda da família no Maranhão.

Daniela saiu da pasta do Turismo em julho. Juscelino seguia até ontem no comando das Comunicações, apesar de novos enroscos revelados nos últimos sete meses: recebimento de diárias e uso de avião da FAB em agenda pessoal, emprego de funcionário fantasma e autorização para "despacho" informal do sogro no gabinete ministerial.

Hélio Schwartsman - Como se livrar de um tirano

Folha de S. Paulo

Americanos discutem se cláusula constitucional contra insurreições torna Trump inelegível

A democracia sai fortalecida sempre que um governante com tendências autoritárias e pouco respeito pela institucionalidade é apeado do poder pelo voto. Foi o que aconteceu com as derrotas eleitorais de Donald Trump em 2020 e de Jair Bolsonaro em 2022. Mas Trump, ao contrário de Bolsonaro, tem chances de disputar o próximo pleito. Ele é o favorito inconteste para obter a indicação republicana e, dadas as inconstâncias do eleitorado, teria chance de voltar à Casa Branca.

Alvaro Costa e Silva - O patriotismo seletivo

Folha de S. Paulo

Eles sentem-se traídos pelo Exército e desistem do 7 de Setembro

Tal e qual acontece no Carnaval, este Sete de Setembro não será igual àqueles que passaram. Não haverá, como em 2021, o discurso presidencial com ameaças à democracia, promessas de desobediência à Justiça e o aviltamento das eleições, chamadas de "farsa". Ou, como no ano passado, o espetáculo circense, com um homem vestido de periquito e o crânio rapado, ocupando a tribuna de honra e constrangendo o presidente de Portugal.

De semelhante, só as cores verde e amarela, que continuarão em alta, mas utilizadas para mostrar que não foram capturadas em definitivo pelo bolsonarismo. O desfile de tanques e aviões fumacentos continua, embora o governo aposte num ambiente menos poluído. Com o slogan Democracia, Soberania e União, vai usar a data como tentativa de reverter a partidarização das Forças Armadas. Resta saber se elas estão de acordo.

Joel Pinheiro da Fonseca - A crise chinesa e o Brasil

Folha de S. Paulo

Com reformas e estabilidade, estaremos prontos para receber investimentos em larga escala

Em todas as vezes em que analistas econômicos previram uma grande crise chinesa, a China riu por último. Mas dessa vez só não está preocupado quem não está prestando atenção. O setor imobiliário, que responde por cerca de 30% da economia, está à beira do colapso, e pode levar o setor financeiro com ele.

Essa crise vem de longe. É caríssimo ter filhos e educá-los. O Estado não provê uma rede de bem-estar que dê o mínimo de segurança para as pessoas. A saída para a população cada vez mais envelhecida é ter poucos filhos (mesmo sem uma política de controle populacional) e poupar muito. Com poucas opções de investimento, e estimulada pelo governo, essa poupança vira majoritariamente investimento em imóveis.

Uma economia que poupa compulsivamente e que investe 70% de sua poupança em imóveis, ao mesmo tempo em que sua população envelhece e diminui —a população economicamente ativa vem caindo desde 2015, e a população total desde 2022— no mínimo levanta suspeitas. De que adiantam tantas casas se não tem ninguém para morar nelas?

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira* - Dar um teto é dever de todos

O Estado de S. Paulo

Toda a sociedade brasileira precisa estar imbuída de solidariedade e amor ao próximo para que se possa dar um teto a cada brasileiro

Neste estágio que estamos de agravamento de alguns problemas sociais, é fundamental – eu diria ser uma questão de humanidade – nós não nos deixarmos tomar pela inércia. Aliás, ela é um dos fatores responsáveis pelo crescimento dessas mazelas que nos acompanham parece que desde sempre. Quero me referir à inércia que nos levou e leva a conviver com tragédias que atingem milhões de brasileiros, sem esboçarmos respostas eficazes e efetivas.

Claro que quando falo nós eu me escuso pela generalização. Há na sociedade brasileira – e não são poucos – os que se sensibilizam e agem. Ações meritórias, porém insuficientes. A grande parcela dessa responsabilidade nós devemos atribuir ao Estado. Não nos isentemos, mas o chamemos às falas.

Paulo Hartung* - A arte da liderança

O Estado de S. Paulo

Agenda atual coleciona desafios e oportunidades ímpares, demandando o protagonismo de líderes estratégicos na tarefa de construção de uma nova era histórica

Oportunidades e desafios de alta intensidade constituem tempos que ensejam a ação de lideranças estrategistas. Aprendi essa máxima no dia a dia de trabalho, seja nos oito mandatos eletivos que exerci, seja na iniciativa privada. São encruzilhadas temporais que demandam performances de indivíduos que consigam perceber com nitidez a realidade e suas contingências e que, a partir daí, sejam capazes de vislumbrar um horizonte comum, cujo alcance se viabilize pelo desenho de um mapa de caminhada. E tanto o destino que se projeta quanto o caminho a percorrer precisam ser objetos de comunicação e mobilização constantes, além de se ajustarem às intercorrências do percurso sem que se perca o rumo.

Cristovam Buarque* - Algema ideológica

Correio Braziliense

O paradoxo da brasilidade é que para eliminar a brutal desigualdade social é preciso oferecer educação com a mesma qualidade para todos: implantar em todo o país um sistema único público

Os gregos chamavam de paideia a educação que seus cidadãos recebiam desde a infância para formar a mente de seu povo. A paideia brasileira forma nossas mentes para se acostumarem e conviver com a desigualdade social e para não perceberem que ela decorre da inequidade como a qualidade da escola é distribuída, conforme a classe social do brasileiro. O paradoxo da brasilidade é que para eliminar a brutal desigualdade social é preciso oferecer educação com a mesma qualidade para todos: implantar em todo o país um sistema único público. Para tanto, será necessário mudar o sentimento geral de aceitação da desigualdade que dribla as leis que tentam superá-la.

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

No 7 de setembro, apartar a política dos quartéis

Correio Braziliense

Por suas vicissitudes de formação, Exército, Marinha e Aeronáutica são muito mais voltados para as questões internas do que para a projeção geopolítica de poder nacional, cujo protagonismo é da nossa diplomacia, desde o Barão do Rio Branco

O Dia da Independência traduz por tradição o protagonismo dos militares na vida nacional. Por suas vicissitudes de formação, Exército, Marinha e Aeronáutica são muito mais voltados para as questões internas do que para a projeção geopolítica de poder nacional, cujo protagonismo é da nossa diplomacia, desde o Barão do Rio Branco. Com exceção da Guerra do Paraguai e da participação da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, as Forças Armadas sempre atuaram no sentido de manter a segurança interna e a integridade territorial, como na Confederação do Equador, na Balaiada, na Cabanagem e na Revolução Farroupilha, ou impor a ordem política pela força, como na Revolução de 1930 e ou no golpe militar de 1964.

Por essa razão, apesar do apelo dos desfiles, o Dia da Independência é uma festa cívico-militar. Não é uma comemoração predominantemente civil, como deveria ser, pois é o sentimento de brasilidade o maior sustentáculo da identidade nacional. Durante o governo Bolsonaro, porém, as comemorações foram partidarizadas com intenções claramente golpistas. Predominavam o saudosismo do regime militar e a radicalização política de extrema-direita, sob liderança do próprio presidente da República, sob hegemonia dos que veem na democracia os males do Brasil e não o seu maior patrimônio institucional.

Poesia | Sonhe - Clarice Lispector

 

Música | Samba de Orly - Chico Buarque

 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Opinião do dia – Friedrich Engels* (Democracia)

A ironia da história mundial vira tudo de cabeça para baixo. Nós os “revolucionários”, os “sublevadores”, medramos muito melhor sob os meios legais do que sob os ilegais e a sublevação. Os partidos da ordem, como eles próprios se chamam, decaem no estado legal criado por eles mesmos. Clamam desesperados, valendo-se das palavras de Odilon Barrot: la legalitê nous tue, a legalidade nos mata, ao passo que, sob essa legalidade, ganhamos músculos rijos e faces rosadas e temos a aparência da própria vida eterna. E se nós não formos loucos a ponto de nos deixar levar para as ruas só para agradá-los, acabará não lhes restando outra saída senão violar pessoalmente essa legalidade que lhes é tão fatal.

*Friedrich Engels (1820-1895), Prefácio {As lutas de classes na França de 1848 a 1850, de Karl Marx}. p.29. Boitempo Editorial, 2012.Texto escrito em 1895.

Marcus André Melo* - Agendas e alianças

Folha de S. Paulo

Coalizão governativa é condição necessária mas não suficiente

Governabilidade, em uma definição minimalista, denota a capacidade do Executivo de aprovar a sua agenda. Arranjos institucionais e as preferências dos atores influenciam essa capacidade. Cria-se um impasse, por exemplo, se uma maioria legislativa não aprova uma iniciativa legal, mas não é ampla o suficiente para derrubar o veto presidencial (EUA). Em regimes parlamentaristas, pode-se permanecer sem governo por 589 dias pela incapacidade de os partidos chegarem a um consenso (Bélgica, 2011)

Sim, agenda é endógena: o Executivo apenas propõe o que espera ser aprovado. Ou não. O Executivo pode tentar impor sua agenda. Ocorreu com Allende faz 50 anos nesta semana. O mandatário chileno contava com 1/3 dos votos no Congresso, mas renegou a aliança com os democratas cristãos, que viabilizara sua eleição indireta pelo Congresso. Resolveu "avanzar sin transar", em típico cesarismo plebiscitário, como mostrei aqui .

Camila Rocha* - Quem é o prefeito de São Paulo?

Folha de S. Paulo

Resta saber como Nunes, sem marca de gestão, irá dialogar com eleitorado que rejeitou bolsonarismo

Quem é o prefeito de São Paulo? Poucos habitantes da cidade conseguem responder a tal pergunta prontamente e sem erros.

Ricardo Nunes, o desconhecido prefeito da maior cidade do país, é empresário, reside na zona sul e foi diretor da Associação Empresarial da Região Sul de São Paulo (Aesul). Eleito vereador pelo MDB em 2012 com 30 mil votos, e reeleito em 2016 com 55 mil votos, fez parte das bases tucana e petista na Câmara Municipal.

Vice de Bruno Covas nas eleições de 2020, Nunes afirmava à época que seguiria a mesma linha do então prefeito, que veio a falecer em maio de 2021. Contudo, Nunes se localiza bem mais à direita do prefeito tucano.