terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Milei dá lição de disciplina fiscal para o continente

O Globo

Argentina terá superávit pela primeira vez em 16 anos. Inflação está em queda e popularidade dele se mantém

Quando completar o primeiro ano na Presidência da Argentina na semana que vem, Javier Milei terá muito o que comemorar. Apesar do perfil provocador, seu governo tem sido até o momento uma força de estabilização. Ao assumir, a economia flertava com a hiperinflação. De 25% em dezembro de 2023, o índice mensal caiu a 2,7% em outubro. O ano de 2024 fechará em recessão, mas o PIB tem se recuperado e deverá voltar a crescer em 2025. Apesar de o choque ter levado a pobreza ao pior nível em 20 anos, Milei conta com a paciência dos argentinos. Tem aprovação de 49% dos eleitores— acima dos dois antecessores a esta altura do mandato.

A busca do equilíbrio - Merval Pereira

O Globo

É uma vitória o Congresso assumir a obrigação de ser transparente e de explicar a origem e a destinação das verbas liberadas

A reação dos parlamentares às exigências do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino para o pagamento das emendas a que têm direito mostra que o interesse deles é particular, e não coletivo, como deveriam ser seus projetos. O ministro nada mais fez do que detalhar o que já era exigido quando mandou parar de pagar as emendas: a transparência do envio dos recursos do Tesouro Nacional a que cada parlamentar tem direito.

Incomodaram-se os senhores deputados e senadores com critérios técnicos exigidos pelo ministro do Supremo, como identificação do deputado que endereçou a emenda e de quem a recebeu, prefeitura ou organização não governamental. Também uma boa inovação foi exigir que as emendas para Saúde sejam aprovadas pelo ministério seguindo “orientações e critérios técnicos” estabelecidos por ele e por comissões de gestores estaduais e municipais.

A lógica política e a econômica - Míriam Leitão

O Globo

Governo continua explicando as medidas fiscais, mas dólar sobe de novo puxado também pela ameaça de Trump contra os Brics

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, tentou explicar a lógica da negociação interna no governo para dar legitimidade política às medidas fiscais, ao falar a um banco em São Paulo. Pode ter pregado no deserto. Explicou que a demora na divulgação devido à negociação com os ministérios atingidos não é ruim nem enfraquece o ministro da Fazenda. Ruim seria anunciar tudo, exatamente como a Fazenda elaborou, e no dia seguinte receber críticas de todos os ministérios. “Até para que fique claro, a resposta política bem articulada significa que a gente não vai ter problema no governo”, disse, acrescentando que Casa Civil e a Fazenda estão mais alinhadas do que nunca.

Supremo decide o futuro das redes - Pedro Doria

O Globo

Quando uma plataforma escolhe impulsionar alguma informação, deveria ser responsável

O Supremo Tribunal Federal volta nesta semana ao julgamento do artigo 19 do Marco Civil da Internet. A primeira frase, assim posta, parece coisa em burocratês do tipo muito difícil de entender. Mas não é difícil de entender que a decisão pode mudar radicalmente a maneira como entendemos internet no Brasil. O que está em jogo é o debate que temos todos, coletivamente, tido insistentemente nos últimos anos: qual a responsabilidade das plataformas digitais pelo que é publicado nelas.

A interpretação habitual do artigo 19 diz que é nenhuma:

— O provedor somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências.

É o que diz o texto da lei. Quer dizer, a não ser que venha uma ordem de juiz, devidamente assinada e com todos os carimbos, as redes sociais não são obrigadas a fazer nada.

A Marinha vai à luta pela defesa de privilégios - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Vídeo em homenagem ao dia do marinheiro retrata brasileiros na vida boa enquanto os oficiais da Força dão duro na defesa do país

A comemoração do dia do marinheiro, 13 de dezembro, foi antecipada para domingo, quando a Marinha fez troca da bandeira no Pavilhão Nacional. A cerimônia foi marcada pela exibição de vídeo de 1min16s na Praça dos Três Poderes.

Neste vídeo, cuja música de fundo é Cisne Branco, hino da Marinha, marinheiros tentam evitar que um navio afunde, fazem exercícios de sobrevivência no mar, salvam vidas nas enchentes e sobrevivem à selva. No que parece ser um requinte da inteligência artificial, um rosto assemelhado ao do ministro Fernando Haddad, rasteja na lama. Neste momento, sobre a música de fundo, aparece uma voz de comando “vocês terão que se acostumar”.

As cenas são intercaladas com as de um surfista na crista da onda, a praia cheia na zona sul do Rio, a prática de ioga numa praça, jovens no videogame, brinde com cerveja, uma criança soprando velinhas e uma torcida de estádio de futebol. Na cena final, enquanto puxa uma corda com uma cara de poucos amigos, uma marinheira pergunta: “Privilégios? Vem pra Marinha”.

O acaso brinca comigo (Albert Einstein) - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

Valor Econômico

Derivativos passaram a “comandar” os movimentos dos ativos subjacentes, como as taxas de câmbio, e esta “inversão” submete as políticas econômicas a constrangimentos e conflitos nada triviais

“Em 1719, Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé, perpetrou um panfleto, ‘The Anatomy of Exchange Alley’. Aí, Defoe tratou dos mercados financeiros que surgem e avançam sob o patrocínio do recém-criado Banco da Inglaterra (1694). Suas considerações denunciam o risco de as instituições políticas do país se tornarem ‘vítimas’ dos jobbers”. (O significado desse significante flutua entre especulador e agiota).

“A capacidade destes últimos de manipular os preços dos mercados financeiros sugere o risco de lhes ser atribuído o poder de influenciar os interesses de toda a nação”.

No livro “A violência da moeda”, Michel Aglietta e André Orlean avaliam o comportamento dos agentes do mercado. “... A ideia de uma ordem natural é apenas um mito. Mesmo que no curso de uma fantástica catarse coletiva um desses relatos se eleve à soberania e se cubra com seus atributos, que repentinamente apague as paixões e pareça realizar seu desejo de universalidade, não se deve ver nessa brutal transformação a prova de uma adequação entre sua mensagem e uma naturalidade qualquer. Atrás dessa vitória de um grupo de interesses sobre os outros, há apenas o jogo da violência e essa é a maneira bem própria de se exercer um desejo particular e arbitrário para fazer convergir a ele todas as frustrações, todos os rancores privados...”.

A mãe de todas as bolhas - Ruchir Sharma

Financial Times / Valor Econômico

Os EUA agora atraem mais de 70% dos fluxos para o mercado global de investimentos privados

A ideia dos Estados Unidos como uma nação excepcional, superior aos seus rivais e, portanto, destinada a liderar o mundo, parece ultrapassada para a maioria dos observadores. Nos círculos políticos, diplomáticos e militares fala-se de uma superpotência disfuncional, isolacionista no exterior e polarizada em casa. Mas no mundo dos investimentos, o termo “excepcionalismo americano” está mais em alta do que nunca.

Unidos pela fé na força dos mercados financeiros dos EUA e sua capacidade de continuar superando todas as outras economias, investidores globais estão mandando mais capital para um único país do que nunca na história moderna. O mercado de ações dos EUA agora flutua acima do resto. Os preços relativos estão nos níveis mais altos desde que os dados começaram, há mais de um século, e as avaliações relativas estão no pico desde que os dados começaram há meio século.

Tudo pra última hora - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Natal e o recesso estão bem aí, mas só agora Congresso, governo e STF acordam

No apagar das luzes de 2024, Brasília tem pressa para votar, julgar e decidir tudo o que foi empurrado com a barriga ao longo de um ano concentrado nas eleições municipais e nas revelações aterrorizantes sobre o golpe de Estado no governo anterior. As pautas de Câmara, Senado, Supremo e governo são extensas, mas o tempo é curto.

Você nem notou, mas a regulamentação da fundamental Reforma Tributária, em duas etapas, era a prioridade do ano, mas o primeiro semestre passou, a eleição acabou e ninguém mais fala nisso. A corrida do governo agora é pela aprovação dos projetos do pacote de gastos, inclusive uma proposta de emenda constitucional. E em condições adversas.

Quem pagará a conta do ajuste? - Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Querer que um governo liderado pelo PT rompa com seus compromissos históricos é querer mudar o governo. Ainda que sem golpe explícito

Cortar R$ 1 trilhão em gastos do governo federal em cinco anos? Ou R$ 3 trilhões em dez anos? O anúncio de um programa com esse feitio provocaria celebrações com champanhe em certas áreas de São Paulo cujos frequentadores veem o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não como responsável por enfrentar os imensos desafios econômicos e sociais que retardam o progresso, mas como o maior problema do País.

Se ainda não podem comemorar, pois tal programa não existe, os que convivem nessa região especial da cidade podem alimentar alguma esperança. Um grupo de deputados começou, há dias, a coletar assinaturas para apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com essa meta. São necessárias assinaturas de 171 deputados para que a PEC seja protocolada, primeiro ato formal para o início de sua tramitação. Ainda não há garantia de que esse número seja alcançado. Mas o anúncio da proposta reforçou a preocupação com o ajuste das contas públicas. Por seu conteúdo, a PEC mostra também como se fazem as escolhas políticas que apontam quem vai pagar a conta.

A iniciativa dos deputados – Kim Kataguiri (União-SP), Julio Lopes (PP-RJ) e Pedro Paulo (PSD-RJ) – contém basicamente oito medidas. Parte delas coincide, pelo menos nas intenções, com as que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou na semana passada e causou tanta revolta em certos meios financeiros, o que empurrou a cotação do dólar para seus recordes históricos.

Silêncio da direita sobre trama golpista remete a alerta para retrocesso democrático - Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Cientistas políticos afirmam há décadas que tolerância das elites com práticas autoritárias coloca democracia em risco

Foram poucos os representantes da direita e da centro-direita que alertaram para a gravidade dos indícios revelados pela Polícia Federal que apontam para uma trama golpista que tentou manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no cargo após a derrota em 2022.

Também foi pouco comentada por esse campo político a revelação de que um grupo de militares, segundo a investigação, planejou o assassinato do presidente Lula (PT), do vice Geraldo Alckmin (PSB) e do ministro Alexandre de Moraes (STF).

Já se esperava que aliados de primeira hora de Bolsonaro tentassem descredibilizar as conclusões da investigação. Mas a maioria das figuras de direita que não têm uma ligação umbilical com o bolsonarismo também escolheu permanecer em silêncio.

Outros buscaram minimizar as revelações, ressaltando a resiliência das instituições e da democracia brasileira. A PF concluiu, porém, que o golpe não foi à frente apenas porque o Alto Comando das Forças Armadas se negou a abraçar a tentativa —tenha isso ocorrido por convicção democrática ou por falta de condições de sustentar um governo autoritário sem apoio internacional ou popular.

A fraca reação de uma direita não intrinsecamente associada a alas radicais liga um alerta, já que cientistas políticos falam há décadas sobre a importância do rechaço das elites políticas a iniciativas autoritárias.

Churrascada na terra das milícias - Alvaro Costa e Silva

 

Folha de S. Paulo

Com o Rio sem segurança e sem água, o governador faz churrascada para Bolsonaro

Cláudio Castro está ameaçado de ter o mandato cassado por uso da máquina nas eleições de 2022. Em outra frente, Eduardo Paes não lhe dá trégua. Reeleito em primeiro turno, o prefeito segue em campanha para minar o grupo bolsonarista liderado pelo governador, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e o interminável Eduardo Cunha, contra o qual irá concorrer ao Palácio Guanabara em 2026.

Paes sabe que, entre outros, o ponto sensível na gestão Castro é a segurança. Uma bala de fuzil atingiu uma janela do condomínio de alto padrão, na Barra da Tijuca, onde mora o governador. Uma viatura da PM, trafegando na contramão da pista exclusiva do BRT como uma barata tonta, colidiu com um ônibus articulado. Os dois episódios recentes ilustram o fracasso e a anarquia de quem se elegeu com o discurso de combate à violência, mas perdeu o controle das polícias e atualmente é incapaz de entrar em áreas controladas pelo crime organizado.

O risco de fazer o mínimo - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A escolha do governo é empurrar com a barriga o problema estrutural

Mercado financeiro e economia real parecem realidades discrepantes: de um lado, dólar passando de R$ 6, inflação fora da meta e juros futuros chegando a 15% ao ano; do outro, desemprego na mínima da série histórica a 6,2% e crescimento do PIB fechando 2024 perto de 3,2%.

A divergência, contudo, é só na aparência. Na realidade, ambos têm a mesma causa: é o gasto do governo que, ao mesmo tempo, aquece a economia e piora a perspectiva das contas públicas, levando ao pessimismo do mercado. Com o pessimismo, o real perde valor, a inflação sobe e o Banco Central tem que aumentar os juros.

Puro suco de Lula – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente enquadra Haddad, que assim se enfraquece como alternativa eleitoral

Não tem jeito, Luiz Inácio da Silva é daqueles políticos que só confiam no próprio taco. Intuitivo, parece ter confiado nessa característica para desenhar o anúncio das ditas medidas de contenção de gastos em molde eleitoral, na certeza de que tudo se ajeita na economia desde que o "mercado" entenda o cálculo e se submeta às suas motivações.

Quando foi eleito presidente a primeira vez, intuiu que não governaria se adotasse o lema do gasto é vida. Entregou a condução da economia a Antonio Palocci sob os auspícios das bases da estabilidade definidas por Fernando Henrique Cardoso, enquanto no palanque discursava contra a "herança maldita".

A cegueira cambial - Roberto Luis Troster

Folha de S. Paulo

Volatilidade aponta que há espaços para aprimoramentos; permitir contas em dólares no país daria mais estabilidade ao câmbio e ganhos ao fisco

O ponto principal deste artigo é que a cotação da divisa norte americana é um problemão —e continuará a ser se não mudarem a política cambial. Apesar do nome de câmbio flexível, o regime cambial brasileiro é de câmbio volátil.

O câmbio flutuante é um regime em que a taxa de câmbio se ajusta automaticamente às condições da economia. As variações da produtividade do setor não financeiro em relação ao resto do mundo são compensadas com variações na taxa de câmbio. Há ajustes também em função da variação do diferencial entre as taxas de juros internas e as internacionais.

Dino libera emendas, porém, exige transparência – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

R$ 23,3 bilhões em emendas já foram pagos, menos da metade. Com isso, o governo terá de liberar R$ 25 bilhões neste final de ano para votar qualquer coisa no Congresso

Estava tudo parado no Congresso, agora as coisas vão começar a andar, para o bem, como a regulamentação da reforma tributária, ou para o mal, caso da PEC das Praias, veremos no decorrer das próximas semanas. Depois das eleições municipais, os parlamentares realizaram uma espécie de obstrução dissimulada, na qual se recusavam a votar propostas da maior relevância, porque as emendas parlamentares ao Orçamento da União continuavam suspensas. Aguardavam decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que exigia a adoção de mecanismos que garantissem clareza e transparência na destinação dessas emendas.

STF mantém decisão de Dino e forma maioria para liberar emendas parlamentares

Lara Perpétuo, Júlia Portela / Correio Braziliense

Decisão foi confirmada por maioria dos demais ministros em sessão convocada pelo presidente da Corte, Luís Roberto Barroso

O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, nesta segunda-feira (2/12), para liberar o pagamento de emendas parlamentares, bloqueadas desde agosto. A decisão monocrática do ministro Flávio Dino, enviada mais cedo ao plenário virtual, foi confirmada pela maioria ministros em sessão extraordinária convocada pelo presidente da Corte, Luís Roberto Barroso.

Por volta das 19h40, embora faltassem ainda o voto de cinco ministros, seis haviam votado a favor da liberação, formando maioria. Além de Dino, votaram favoravelmente Barroso, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Os demais têm até 23h59 desta terça-feira (3/12) para depositar os votos.

Em agosto, Flávio Dino havia considerado que as emendas não atendiam a critérios de transparência e rastreabilidade. O Congresso pressionava o Judiciário para a liberação do mecanismo desde a semana passada, quando Lula sancionou um texto que garante mais transparência

Na manhã desta segunda, Dino estabeleceu ressalvas para garantir maior controle sobre repasses, com “total transparência e rastreabilidade”. 

Poesia | Graziela Melo - Palavras

Palavras
apenas
levemente
sussurradas,

em ouvidos
ávidos
de paixão!

Doce
melodia
desejada

por uma
alma triste
e um
enternecido
coração!!!

Suaves
carícias
proferidas

em sílabas,
verbos
e vogais!!!

Só hoje
é que
escuto
em tua
boca!

Depois...
adeus, e
não te vejo
nunca mais!!!

Música | Pablo Milanés - Yolanda (En Vivo Desde La Habana, Cuba)

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É desejável trazer o Pan de 2031 para o Brasil

O Globo

Independentemente da sede — Rio/Niterói ou São Paulo —, país teria a ganhar com competição esportiva

Depois de sediar por duas vezes os Jogos Pan-Americanos — em São Paulo, em 1963, e no Rio, em 2007—, o Brasil tem todas as condições de repetir o feito em 2031. Experiência não falta para organizar grandes eventos esportivos, depois de duas Copas do Mundo, em 1950 e 2014, e uma Olimpíada, em 2016 no Rio. O país conta com estádios, pistas de atletismo, ginásios e outros equipamentos à altura das múltiplas competições que caracterizam esses jogos.

O Rio deseja voltar a recepcionar os atletas das Américas quase duas décadas depois, agora associado a Niterói. A iniciativa ajudaria a firmar a cidade como referência para grandes eventos esportivos, que costumam atrair turistas do exterior e do próprio país. A prefeitura de São Paulo informou por nota que apresentou ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) sua carta de intenções na Olimpíada de Paris.

As candidaturas de Rio/Niterói e São Paulo precisam acelerar a preparação das propostas para que sejam entregues até 31 de janeiro. Caberá ao COB escolher quem representará o país na disputa pelo Pan de 2031. É necessário apresentar um dossiê até 30 de abril com o detalhamento de onde ocorrerão as competições e o projeto de uma vila olímpica capaz de receber 6,5 mil visitantes, entre atletas, técnicos e árbitros. A proposta vencedora será decidida em assembleia marcada para 6 e 7 de agosto em Assunção, no Paraguai. Se Rio/Niterói ou São Paulo conseguirem sediar o Pan, o Brasil receberá os Jogos pela terceira vez, equiparando-se a México (Cidade do México duas vezes e Guadalajara) e Canadá (Winnipeg duas vezes e Toronto).

Memórias da carne – Fernando Gabeira

O Globo

É necessário compreender com clareza o que é interesse comercial na Europa e o que é preocupação genuína com o meio ambiente

Sou vegetariano, mas não resisto às tentações da carne quando se trata de debate político. Ainda como deputado, enfrentei um deles. Foi quando o Canadá, falsamente, insinuou que havia a doença da vaca louca no gado brasileiro. Criamos uma comissão e fizemos bastante barulho para demonstrar que era injusto.

Não sou favorável à criação de gado que consome a floresta. Os grandes consumidores internacionais também não são. É o caso do McDonald’s, preocupado com seus jovens clientes. Apesar de minhas posições, eu achava que era importante cerrar fileira com os deputados ruralistas. Era um tempo em que, apesar da divergência, havia diálogo. O interesse nacional estava em jogo.

Lembro que, depois de resolver o problema da falsa denúncia, ainda discutimos um pouco a rastreabilidade do gado. Minha posição era que a condição deveria ser preenchida. Alguns ruralistas resistiam por causa dos custos. De que adianta fazer economia, se há o risco de perder o mercado internacional?

A falta que faz a direita clássica – Miguel de Almeida

O Globo

Não foram políticos que concordavam com os assassinatos praticados nos porões militares

Difícil não culpar Lula e sua retórica (e prática) pela calamidade Bolsonaro. Em 2002, ele derrotou José Serra, candidato de centro-esquerda que terminou no córner à direita. Já no cargo, cunhou o acusação da “herança maldita” dos governos do PSDB/PFL, naquele seu redundante trololó deficiente em pronomes. Como suas ideias não correspondem aos fatos, ao fazer uma administração centrista e populista (até Muhammad Yunus lamentou a fórmula petista do Bolsa Família), apareceu com a clivagem do “nós e eles”.

Deixa eu contar: no “eles”, não estava incluída a direita, mas apenas seu despeito e ciúme da figura pública do ex-presidente FH. E da administração que exterminara a inflação — isso, sim, um programa econômico inclusivo — e, pelas mãos de Ruth Cardoso e Vilmar Faria, desenhara diversos e consequentes programas sociais. A ex-primeira-dama nunca precisou ressignificar sua posição. Sempre teve história independente do marido.

Não sei se Lula , ou a própria Janja, conhecem a figura de Carl Schmitt. O jurista alemão, um dos principais teóricos do nazismo, ajudou na construção da clivagem do “nós e eles”, do “amigo e inimigo”. Suas ideias deram subsídios ao regime hitlerista na perseguição e morte dos judeus ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial. Schmitt formulou a substituição do adversário pelo inimigo na luta política. Ao mudar o ângulo, deu justificativa teórica à intolerância e aos assassinatos, como ainda à disseminação do ódio sempre repisado nos discursos para as massas sedentas de emoção (sangue?). A filósofa Susan Neiman defende que o modismo das guerras culturais se escora nos conceitos nazistas de Carl Schmitt. Assim, a conversa fiada do identitarismo (Hitler gostava do viés de raça!) não seria de esquerda.

Haddad desafinou e se mostrou frágil - Bruno Carazza

Valor Econômico

Ministro da Fazenda, até quando acertou, pareceu fraco e derrotado no anúncio do pacote

Maldito o dia em que Fernando Haddad aceitou a sugestão de Natuza Nery e dedilhou ao violão diversos acordes de Blackbird, dos Beatles, numa entrevista dada no seu gabinete, na Esplanada dos Ministérios.

A culpa, obviamente, não foi da jornalista, que fez o convite para mostrar um lado mais humano do ministro da Fazenda, posição ocupada por personagens geralmente retratados de forma sisuda.

Haddad tampouco deve ter medido as consequências do seu gesto. Afinal, trata-se de um político, a quem, além da vaidade que emana do exercício do poder, interessa mostrar-se popular e, coerente com seu perfil, cool.

Mas a atitude não condizia com a responsabilidade que repousa sobre seus ombros. A performance aconteceu passados apenas seis meses do início do governo - prazo curto para apresentar-se relaxado ou, pior ainda, para cantar (no caso, tocar) vitória sobre os enormes desafios econômicos confiados à sua gestão.

País poderia ter agido antes contra extremismo, diz Limongi - César Felício

Valor Econômico

Para cientista político, reação às ameaças de ruptura feitas pelo ex-presidente demorou

As instituições demoraram a reagir às ameaças de ruptura que ameaçam a democracia, avalia o cientista político Fernando Limongi, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), que lançou neste mês o livro “Democracia Negada: Política Partidária do Brasil na Nova República”, em coautoria com Leonardo Weller. Para Limongi, o ex-presidente Jair Bolsonaro, indiciado pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado em inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), poderia ter tido sua carreira eleitoral interrompida ainda nos anos 90.

“Bolsonaro desde que começou sua carreira política deu inúmeras oportunidades de se agir contra ele. Começou a sua carreira pensando em terrorismo, planejando explodir uma adutora. Passaram o pano para ele entre os militares. Depois ele entrou no Congresso para representar a linha dura, defendeu a tortura, o fuzilamento de presidente, tudo documentado”, disse Limongi ao Valor, fazendo alusão a alguns momentos do início da trajetória do ex-presidente.

Reforma da renda ruma para hibernação após reação de líderes - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Pacote do ajuste fiscal pareceu menos indigesto depois do almoço da Febraban na sexta-feira (29), em São Paulo

O pacote do ajuste fiscal pareceu menos indigesto depois do almoço da Febraban na sexta-feira (29), em São Paulo. Nas falas e conversas dos três ministros (Fernando Haddad, Simone Tebet e Esther Dweck), e do diretor do Banco Central Gabriel Galípolo com banqueiros e executivos do mercado financeiro presentes, o clima parecia mais desanuviado. O dólar, que abriu em R$ 6,10 e recuou para R$ 6, parecia confirmar a descompressão.

E não foi apenas pelo chá de capim santo servido durante o almoço. Pela manhã, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, falaram com Haddad. O que deveria ser dito? “O mesmo que foi dito para o presidente ontem, ora.” Na tarde de quinta, tanto Lira quanto Pacheco estiveram no Palácio do Planalto e disseram a Lula que o ajuste fiscal teria mais chances no Congresso do que a reforma da renda.

BC espera o mercado digerir o pacote fiscal - Alex Ribeiro

Valor Econômico

A banqueiros Galípolo transpareceu esperanças de que essas primeiras reações do mercado a pacote de ajuste fiscal não sejam definitivas

O mercado financeiro reprecificou o cenário para os juros depois do pacote fiscal. Chegaram a 70% as chances de uma alta de juros de 0,75 ponto percentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central da semana que vem. A probabilidade de uma nova intensificação no ritmo de aperto em janeiro, para um ponto percentual, já é de 30%. A curva de juros embute uma taxa Selic ao fim do ciclo de aperto monetário superior a 14% ao ano, nos maiores níveis das últimas duas décadas.

O que o BC deverá fazer diante dessa reação do mercado? O futuro presidente da instituição, Gabriel Galípolo, disse na semana passada que não briga com o mercado. Mas transpareceu, num almoço com banqueiros organizado na sexta pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), esperanças de que essas primeiras reações do mercado não sejam definitivas. “Esse processo está sendo digerido”, afirmou Galípolo.

A força da democracia americana - Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Se tentar minar a democracia, Trump enfrentará maiores obstáculos do que outros caudilhos

Para cientistas políticos, a volta de Donald Trump é um experimento fascinante: o republicano, que se assemelha a caudilhos como Viktor Orbán, na Hungria, ou Recep Erdogan, na Turquia, vai seguir o exemplo dos dois (e de vários outros pelo mundo) e enfraquecer os freios e contrapesos, fundamentos da democracia americana? E, se tentar, conseguirá?

Há poucas dúvidas sobre as convicções não muito republicanas de Trump, confirmadas em livros e artigos publicados por numerosos ex-integrantes de seu primeiro governo, a maioria dos quais se recusou a apoiá-lo na campanha de 2024.

Bolsonaro traído - Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Gabinete de crise teria dificuldade de construir sua legitimidade sem o então presidente

Enquanto Jair Bolsonaro lança apelos públicos por anistia, a defesa do ex-presidente dedica-se a construir uma nova versão dos fatos envolvendo uma suposta tentativa de golpe de Estado. O advogado Paulo Cunha Bueno disse que uma junta militar a ser criada no dia 16 de dezembro em 2022, conforme plano encontrado pela PF nos arquivos do general Mário Fernandes, é que seria a beneficiada de um golpe, não Bolsonaro. Os integrantes desse grupo assumiriam o governo no lugar dele, segundo Bueno.

A versão de que os militares tramaram uma ruptura institucional pelas costas de Bolsonaro e que pretendiam traí-lo em seguida não é crível por três motivos. Primeiro, porque não é isso que está escrito na planilha do general Fernandes. O documento detalha a estrutura e as funções de um gabinete de crise (a tal “junta militar”) a ser instalado no dia seguinte ao golpe.

O fiasco do golpe - Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

A ocupação da Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro não pode ser vista seriamente como uma tentativa de golpe

A tentativa de golpe de Estado, liderada por um grupo de bolsonaristas, fiéis ao ex-presidente da República, com envolvimento de militares, alguns deles generais, redundou em um exuberante fiasco. Parece coisa de aloprados ideologizados, cujo amadorismo contrasta com a formação de alguns deles nos “kids pretos”: as Forças Especiais. Em todo caso, parte da cobertura jornalística e midiática tem dado destaque ao Exército enquanto instituição, visando a atingir a sua própria imagem. Ora, tal tentativa é divorciada ideologicamente da realidade. Se a tentativa de golpe não prosperou, é porque a maioria absoluta do Alto Comando, conforme relatório da Polícia Federal, impediu que esse empreendimento tivesse êxito. Logo, se golpe não houve, isso se deve aos militares. Manchete que poderia ter sido escrita: Alto Comando do Exército impede o golpe!

Democracia esfarrapada - Roberto Livianu

O Estado de S. Paulo

Cenário de terra arrasada nos permite compreender a ascensão vertiginosa do golpismo dos últimos anos

A construção do Estado moderno, com a inerente separação dos Três Poderes, foi uma forma de evolução do contrato social, tendo o bem-estar da sociedade como foco das atenções, depois de séculos de absolutismo dos reis.

A tomada da prisão da Bastilha, em 1789, pelos franceses é símbolo dessa transição e foi um dos momentos mais sublimes e inspiradores da história da civilização. Significou a subida de degraus na escada evolutiva da luta contra o arbítrio. Representou divisor de águas singular para o humanismo, para a ruptura daquele injusto e despótico esquema de poder até então prevalente.

Entretanto, passados mais de dois séculos da Independência e quase 150 anos da República no Brasil, o compadrio político, o patrimonialismo, a corrupção, a lenta e difícil assimilação e sedimentação dos valores republicanos e democráticos nos têm condenado a viver em estado de alerta permanente, em que milhões sobrevivem marginalizados (40% nem sequer têm acesso a saneamento básico), diante da estratosférica desigualdade social.

Autocratização ou democratização - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Nas últimas três décadas, as autocracias transformaram-se em regimes democráticos melhores do que os que as precederam

Ao longo dos oito anos em que venho atuando como colunista aqui na Folha critiquei análises sobre crises e ameaças à democracia bem como índices de qualidade da democracia produzidos pelo VDEM e Freedom House. É reconfortante saber que estas instituições reconheceram as insuficiências apontadas por muitos analistas. A ideia de uma "recessão democrática" no mundo foi em parte produto da ascensão de Trump em 2016. Sua reeleição, em 2024, tem efeito similar, magnificando simbolicamente a narrativa de uma crise global da democracia. Já houve vieses no sentido contrário: quando a Argentina saía do regime militar e Menem, que havia sido encarcerado pelo regime, assumiu o poder, não se detectou nenhum retrocesso nos índices em seu mandato; Menem, no entanto, aumentou o número de juízes da Suprema Corte de 5 para 9, garantindo de imediato maioria na casa. Conscientes ou não, os analistas "torciam" para que a transição desse certo.

Celeste dos cravos – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Uma mulher ofereceu um cravo a um soldado; era a Revolução dos Cravos, que libertou Portugal

Foi no dia 25 de abril de 1974, em Lisboa, e eu estava lá. Em meio da manhã, todo mundo na rua já sabia que o golpe militar desfechado naquela madrugada viera derrubar a ditadura de 48 anos em Portugal. Lá por meio-dia, na praça do Marquês de Pombal, alguém me espetou um cravo vermelho na lapela do casaco. Em minutos, jovens, velhos, muita gente ao meu redor, tinha um cravo como aquele na mão, na boca, atrás da orelha. Ao fim do dia, já se a chamava de a Revolução dos Cravos. E, assim como eu, ninguém se perguntou de onde eles vinham ou como aquilo começara.

Nunca fomos leitores = Jaime Pinsky*

Correio Braziliense

Que tal nossas autoridades da área de educação criarem projetos corajosos, ousados, como os de países que, em diferentes fases da história e em diferentes lugares do planeta, praticando diferentes regimes políticos, fizeram grandes revoluções educacionais e mudaram radicalmente para melhor?

Toda vez que comento notícias, lamentando o decréscimo do hábito de leitura no Brasil, tenho a sensação de estar perdendo tempo e enganando meu interlocutor. É elementar: só podemos perder um hábito que temos, não um que nunca tivemos. Quem nunca fumou não tem como parar de fumar. Quem nunca leu não pode deixar de ser leitor. E, com as devidas desculpas aos que afirmavam o contrário, no Brasil o hábito de leitura, como se diz, "não pegou". Nunca. 

Com exceção de meia dúzia de leitores teimosos, entre os quais se inclui o punhado de amigos que me leem, no Brasil não se lê. Estou falando, evidentemente, de ler como hábito, como vício, como dependência, estou falando de ler livros inteiros e entender o que se lê, de absorver, assimilar o escrito, como falava Antonio Cândido, e só, então, questionar o escrito, não passar os olhos e redigir um comentário idiota, demonstrando despreparo e ignorância. Falo de ler sendo letrado, não apenas alfabetizado. Desse tipo de leitores, temos poucos. Apesar dos esforços de meia dúzia de valentes batalhadores pela democratização do saber. O fato é que não somos um país de letrados. E, como sempre, a história ajuda a explicar por quê.

Adolescentes australianos banidos das redes - Marcus Cremonese

Sexta-feira passada, 29 de novembro, na sua última reunião de 2024, o parlamento australiano aprovou uma lei banindo no país o uso de redes sociais por crianças e adolescentes menores de 16 anos.

O fato foi abordado pela imprensa de praticamente todo o mundo como uma grande novidade (a world-first). A reação das bigtechs foi imediata e não causou surpresa. A Meta, dona do Facebook e Instagram, disse que "a lei foi votada às pressas e é difícil de ser aplicada". O Snapchat adevertiu que a aplicação dessa lei pode ter "consequências inesperadas". A mais feroz oposição veio do X, em postagem de Elon Musk. Ele a define como "um caminho pela porta dos fundos para controlar o acesso à internet por todos os australianos."

Esta lei, no entanto, não foi criada de uma hora para outra. Nem foi um impulso imediato em resposta a casos recentes de danos físicos e mentais sofridos por adolescentes por estarem expostos ao conteúdo de certas plataformas. Meses antes, sintomas já eram bem visíveis de que isso iria ocorrer.

Poesia | Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Dia Nacional do Samba: Jair Rodrigues & Alcione - Não deixe o samba morrer

domingo, 1 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É imoral e custoso restaurar quinquênio pago aos juízes

O Globo

Depois de fracasso de PEC, tribunais tentam ressuscitar os aumentos automáticos por via administrativa

No momento em que o país precisa conter os gastos públicos para equilibrar suas finanças, ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior do Trabalho (TST) ressuscitaram, a pedido da Associação dos Juízes Federais (Ajufe), o pagamento de reajustes automáticos de 5% aos magistrados a cada cinco anos, conhecido como quinquênio. Extinta em 2006, essa benesse não obedece a nenhum parâmetro de mérito e deixa de considerar a situação fiscal crítica do país. O salário dos magistrados — uma das categorias mais privilegiadas do funcionalismo público — sobe por inércia com o passar do tempo, mesmo que a Justiça seja conhecida por lentidão e burocracia.

A decisão deixa dúvida se será obedecido o teto salarial do setor público, estabelecido pela Constituição em R$ 44.088,52, remuneração de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). A bolada que juízes receberão com os atrasados e o próprio quinquênio, oficialmente chamado de Adicional por Tempo de Serviço (ATS), é considerada “indenizatória” e não se submete ao limite constitucional. Por enquanto, apenas o TST determinou o pagamento dos atrasados. É difícil, porém, que o STJ resista a pressões e não siga a Justiça do Trabalho. E é evidente que o sucesso incentivará juízes e desembargadores dos demais tribunais a tentar obter o mesmo privilégio.

Falta de convicção - Merval Pereira

O Globo

Um governo que anuncia aumento de gastos junto com medidas que supostamente cortarão esses gastos para equilibrar as finanças não sabe o que faz

Nossa situação política é tão incerta que qualquer especulação ganha ares de verdade. Achar que a aparição do ministro da Fazenda Fernando Haddad em cadeia nacional, para anunciar corte de gastos, seria uma maneira de o governo lançá-lo como possível candidato em 2026 à presidência da República caso Lula não concorra, demonstra que a parte forte do pacote de corte de gastos foi mesmo o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda, por paradoxal que seja.

Foi justamente por isso que o dólar bateu os R$ 6,00, mexendo com os nervos do mercado financeiro. Um governo que anuncia aumento de gastos junto com medidas que supostamente cortarão esses gastos para equilibrar as finanças não sabe o que faz. Além de reafirmar a tendência para um populismo que é a marca registrada do PT. Fernando Haddad não é um populista, e tentou evitar essa confusão de objetivos, mas foi vencido pelo presidente Lula e a ala mais populista do PT, temerosos de que o corte de gastos se transformasse em arma contra o governo. A falta de convicção foi sentida pelo mercado.