sábado, 9 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode prosperar a barganha para blindar congressistas

O Globo

Fim do ‘foro privilegiado’ e PEC da Blindagem são despropósitos. País tem pautas mais urgentes a tratar

Foi nefasta a barganha costurada para pôr fim à inaceitável ocupação da Câmara e do Senado em protesto contra a decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. O pacote negociado envolve a votação de projetos com o objetivo indisfarçável de blindar deputados e senadores de ações do Judiciário. Se já eram ideias ruins, ficaram piores quando líderes bolsonaristas admitiram terem sido objeto de negociação para acabar com o motim que paralisou o Parlamento.

Várias propostas já haviam sido discutidas quando o deputado Arthur Lira presidiu a Câmara. É o caso da PEC da Blindagem, que, além de exigir aval do Congresso para um parlamentar ser investigado, estabelece que sua prisão só pode acontecer em casos de flagrante ou crime inafiançável. Ideias dessa natureza não foram adiante por falta de apoio, porque são despropositadas e porque o país tem pautas mais urgentes. É lamentável que retornem agora.

O projeto de maior destaque tenta mudar o foro em que são julgados os políticos — tecnicamente chamado “foro por prerrogativa de função” e popularmente conhecido como “foro privilegiado”. A Constituição estabelece que presidente, ministros, parlamentares, governadores e outras autoridades sejam submetidos a julgamento em instâncias específicas, para evitar que processos judiciais se transformem em arma política. No início, o foro era especial até se o político já tivesse saído do posto, mas em 2018 o Supremo determinou que deve valer apenas para crimes cometidos no cargo e em razão dele. Em março, fez um ajuste na interpretação, estabelecendo que o processo deve ser mantido no tribunal em que começou a ser julgado mesmo depois de a autoridade deixar o cargo. A decisão foi sensata, pois era comum a autoridade renunciar quando estava prestes a ser julgada, para o processo recomeçar na primeira instância.

Agora, um dos objetivos da tentativa de extinguir o “foro privilegiado” é favorecer Bolsonaro, tirando do STF o processo em que é réu por tentativa de golpe de Estado. A estratégia não funcionará, pois a jurisprudência assevera que julgamentos em fase avançada não mudam de tribunal. Mas não há dúvida de que tiraria congressistas da mira da Corte, levando à primeira instância dezenas de processos — há 80 inquéritos só sobre emendas parlamentares.

As propostas estapafúrdias para blindar parlamentares podem abrir caminho a outros desvarios. É o caso da descabida anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro ou de mudanças nas regras para impeachment de ministros do Supremo. No entender de oposicionistas, caso sejam aprovadas as mudanças no foro, uma vez longe da mira do STF, os parlamentares se sentiriam mais à vontade para aderir à agenda mais radical.

Não pode haver condescendência com a balbúrdia encenada no Congresso. A ocupação foi um atentado ao regimento e uma agressão à democracia. “Não vamos permitir que atos como esses possam ser maiores que o plenário e a vontade desta casa”, afirmou o presidente da Câmara, Hugo Motta. “A presidência da Câmara é inegociável.” É fato que, segundo os próprios bolsonaristas, ele não participou das negociações para o fim da ocupação.

Deputados e senadores precisam ter a responsabilidade de barrar no nascedouro pautas oportunistas, fruto de chantagem. Se a pantomima juvenil de ocupar o Congresso já foi um absurdo, a imposição de uma agenda legislativa sem cabimento é ainda mais nociva.

A disputa pela franquia Bolsonaro - Thaís Oyama

O Globo

Quem será o ungido que levará a tocha do bolsonarismo nas eleições de 2026?

Hermeticamente fechado em casa até segunda ordem, e sem perspectiva de sair desta para melhor com o julgamento de setembro, muito antes pelo contrário, Jair Bolsonaro está prestes a virar uma “ideia”. A afirmação de que fulano “não é mais uma pessoa, mas uma ideia” foi usada por integralistas nos anos 1930 para se referir ao líder do movimento de extrema direita e inspiração fascista Plínio Salgado. Lula copiou a frase em 2018, no discurso que fez antes de se entregar à Polícia Federal. Ironicamente, ela pode agora ser adaptada a seu adversário Bolsonaro — o quarto ex-presidente brasileiro a amargar a prisão, fato que leva qualquer um a se perguntar o que há de errado com este país.

Brasil, mostra a tua cara - Eduardo Affonso

O Globo

O país que o governo endossou não é o da diversidade, mas o dos estereótipos, da romantização da miséria

Você deve se lembrar: antes das eleições de 2018, o Jornal Nacional fez uma campanha em que pedia aos telespectadores vídeos sobre “o Brasil que eu quero”. Pela amostragem (cerca de 50 mil, de todos os cantos do país), os brasileiros queriam menos corrupção e mais segurança; mais cidadania e menos intolerância; mais educação e menos preconceito. Mais saúde, mais emprego. E políticos melhores. Sete anos, um ex-presidiário e um futuro presidiário depois, não resta dúvida: o brasileiro é, antes de tudo, um otimista, um inquilino da ilusão.

Dissuasão e resiliência - Cristovam Buarque

Nossa força será a construção de um país democrático e educado

A arrogância de Trump ao tentar intervir na política e na Justiça do Brasil não surpreende quem lembra da história. Um pouco antes do golpe de 1964, e depois dele, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon foram decisivos para a implantação dos anos de chumbo no Brasil, nos quais ocorreram cassações de parlamentares, fechamento do Congresso, manipulação do Judiciário, tortura e prisões. Desde então, nossa dependência diminuiu, mas chegamos a 2025 assustados diante da postura trumpista. O fato: não criamos poder de dissuasão para evitar ameaças, nem resiliência para enfrentar um presidente que ignore nossa força.

Golpismo permanente – Aldo Fornazieri

Os idiotas dos formalismos não querem proteger a democracia. Defendem a garantia da liberdade de conspiração, disfarçada de liberdade de expressão

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tem suscitado um enorme debate jurídico acerca do acerto ou do exagero da medida decretada por Alexandre de Moraes. Imbricada com o debate jurídico está, também, uma discussão sobre a conveniência política da decisão. Existem prós e contras. Alguns críticos da prisão domiciliar concordam que Bolsonaro deu margem para que ela ocorresse, por violar medidas cautelares decretadas anteriormente pelo magistrado. O problema jurídico estaria nas próprias medidas cautelares, que supostamente teriam violado a liberdade de expressão do ex-presidente.

Esses críticos se esquecem de alguns aspectos centrais na vida pregressa de Bolsonaro. Como militar, ele já havia sido preso por quebrar as regras de disciplina e hierarquia por motivos salariais. Depois disso, ocorreu algo mais grave. Por volta de 1987, segundo reportagens da revista ­Veja, teria participado do planejamento de atentados a bomba em quartéis e outras unidades militares. Após uma investigação, uma Comissão do Exército decidiu pela sua expulsão. No entanto, ao julgar um recurso em sessão secreta, o Superior Tribunal Militar absolveu o então capitão. A expulsão foi anulada, e ele não foi preso. No ano seguinte, passou para a reserva.

Que o comprador tenha cuidado - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

A concentração inédita no Dow Jones e as recompras de ações camuflam as altas no mercado

O Oráculo de Delfos, ou o Templo de Apolo, era um local visitado por peregrinos dos quatro cantos do mundo para consultar as pitonisas e saber qual era o seu destino, de sua família e de sua pátria. Hoje, procuram as pitonisas de Wall Street para saber qual o destino de seu dinheiro.

A pitonisa do J.P. Morgan, Jamie Dimon, adverte: pode haver um inferno a pagar… quando a gororoba bater no ventilador.

Até lá, outra pitonisa-chefe do ­Citigroup, Chuck Prince, cantou em 2007, antes de a gororoba do  subprime bater no ventilador: “Enquanto a música estiver tocando, você tem de se levantar e dançar. Nós ainda estamos dançando. A dança continua, nunca para”.

O processo de bolhas “especulativas” tem as mesmas características cíclicas e termina sempre estourando. Desde a bolha das tulipas, quebra da Bolsa americana em 1929, o crash da Bolsa americana em 1987, o boom e quebra das empresas pontocom em 2001, e crise da bolha ­subprime em 2008. Uma bolha “especulativa” sempre arrebenta, porém não sabemos o dia, muito menos o fato que faz a manada correr atrás do dinheiro e por quê.

Palpites sobre o SUS - Marcus Pestana

Chega, caros leitores, de falar sobre as estripulias de Donald Trump ou sobre a instabilidade política e institucional que ameaça a democracia brasileira. As crises conjunturais têm o condão de nos tirar atenção daquilo que realmente importa: as necessidades reais e básicas da maioria da população. Há enormes lacunas no Brasil que envolvem o cotidiano das pessoas nos campos da saúde, educação, moradia, saneamento, segurança, segurança alimentar, renda e emprego. E só temos tempo para discutir as ameaças e bravatas do Dr. Trump, as posturas do STF, as reações do ex-presidente, as repercussões no Congresso. Ou, qual a bolha ideológica irá radicalizar mais e nos alimentar de incertezas crescentes e informações parciais? 

Chamo este artigo de “palpites” porque estou destreinado, enferrujado. Afinal, faz mais de quinze anos que deixei a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, que tive a honra de dirigir, acompanhado por uma equipe excepcional, de 2003 a 2010 - período mais feliz e produtivo de minha vida pública - e que deixou um legado até hoje referência nacional. 

O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização -Roberto Amaral*



A natureza da agressão dos EUA ao nosso país é claramente intervencionista, política na origem e nos objetivos que persegue. A escandalosa coação ao Judiciário, imiscuindo-se em nossa domesticidade em nível jamais conhecido entre nações soberanas em paz, tanto quanto o “tarifaço”, atingindo em cheio nossa economia e anunciando desemprego, não se encerra em si mesma, pois muito está por vir, e o que nos espera poderá agravar-se se não encontrar a resistência de uma sociedade organizada, apta à mobilização e preparada política e ideologicamente.

Os idos de 2025 olham para 2026.

O projeto trumpista, apoiado pelo grosso da sociedade estadunidense, pelo seu Congresso, pela Suprema Corte, é movimento que visa a fortalecer, ampliar e dar consequência à marcha da extrema-direita em todo o mundo — fantasma que não é de hoje. Ele assombra a Europa, pervade a América Latina e agora volta ao comando dos EUA, mirando o resto do mundo.

Anistia para o Congresso - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O sequestro bolsonarista do Parlamento ora serve de escada para que prospere a agenda geral de impunidade do Congresso. Não terá sido à toa a liderança de Arthur Lira nas negociações para que os sequestradores devolvessem a Câmara à República.

Câmara (mais ou menos) devolvida à República, à custa de mais um pouco de República.

A agenda produzida pelo fim do assalto é aula de oportunismo corporativista: a blindagem de políticos contra investigações e denúncias de natureza criminal. Uma antiga bandeira de Lira, que ele não conseguira fazer avançar quando presidente da Câmara – agora com boas chances de andar. Grandes as chances de que o bolsonarismo tenha servido de bucha mais uma vez.

Alarmismo comercial de Trump deve ser ignorado - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

EUA prosperaram com livre-comércio, mas presidente e seguidores dizem ter sido vítimas dele

Enquanto um mundo horrorizado assiste à derrocada de uma ordem econômica que lhe trouxe estabilidade e prosperidade por décadas, a pergunta que ouço em cada país é a mesma: por que os EUA, a nação que floresceu tão poderosamente sob este sistema, o está destruindo?

Quando explico que muitos americanos – incluindo o presidente – acreditam que os EUA foram vítimas deste sistema de livre-comércio, a resposta é perplexidade. “Como eles podem não ver o que é óbvio: que eles são os grandes vencedores?”, disse um alto funcionário estrangeiro.

O presidente Trump e o movimento trumpista moldaram essa narrativa com grande sucesso. Mesmo aqueles que se opõem a Trump tendem a admitir que, embora os americanos mais ricos e as maiores empresas tenham tido sucesso nas últimas décadas, a maioria da população viu sua renda estagnar, empregos serem transferidos para o exterior e os padrões de vida declinarem.

Encontro marcado - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Sem mudanças, STF continuará vulnerável a ataques dos que querem destruir a ordem constitucional

Os ataques da extrema direita ao Supremo Tribunal Federal são uma consequência direta da disposição da corte em defender a democracia. Suas deficiências, no entanto, colocam o tribunal e seus membros em situação de vulnerabilidade face aos inimigos da Constituição.

A presente ofensiva contra o Supremo não constitui um fato isolado. Nos últimos meses, tribunais franceses e israelenses também vêm sendo hostilizados e acusados de promover uma "caça às bruxas", por conduzirem processos contra Marine Le Pen e Binyamin Netanyahu. Até mesmo o Tribunal Penal Internacional, que investiga o premiê de Israel por crimes contra a humanidade, passou a sofrer retaliações.

O líder da esquerda mundial - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump culpa o comércio aberto pelo suposto declínio dos EUA e engaja-se na missão de reverter a globalização

O paradigma do livre comércio, que nasceu com Adam Smith e David Ricardo, os "pais fundadores" do liberalismo, atingiu um apogeu na segunda metade do século 19, era do navio a vapor e das ferrovias. Entrou em colapso com a Grande Depressão, mas ressurgiu no pós-guerra, à sombra do Gatt (1947) e, décadas depois, da OMC (1995). A obra desses quase 80 anos encontra-se em demolição.

O Gatt (Acordo Geral de Comércio e Tarifas) foi firmado na moldura das instituições multilaterais impulsionadas pelos EUA. Suas oito rodadas de negociações, concluídas pelo estabelecimento da OMC (Organização Mundial de Comércio), basearam-se na cláusula de "nação mais favorecida" (MFN).

Os ataques 'patriotas' às instituições - Txai Suruí

Folha de S. Paulo

Em lockdown legislativo, deputados travam votações cruciais e prejudicam o funcionamento do Estado

O vergonhoso motim bolsonarista no Congresso, em mais um capítulo de sua escalada golpista, escancarou o desprezo de setores extremistas pelas instituições democráticas. Mascarados de defensores da liberdade de expressão e do país, esses não passam de inimigos do povo, pois atacam justamente o que garante seus direitos: a ordem constitucional.

A encenação repleta de bravatas, revela um projeto claro: atacar as instituições democráticas, enfraquecer o processo eleitoral e semear o caos para justificar uma agenda autoritária. Os mesmos que se dizem "patriotas" são os que cospem na Constituição, defendem torturadores e aplaudem o sufocamento das liberdades. Enquanto isso, o povo brasileiro, verdadeira vitima dessas manobras, assiste à farsa de quem nunca governou para maioria, mas apenas para seus interesses e os de seus aliados poderosos.

Bancada bolsonarista age como força auxiliar de Trump - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Estimulados pelo ataque econômico e ideológico dos EUA, 'patriotas' já sonham com novo 8/1

Ao forçar sua prisão domiciliar, Bolsonaro repete o roteiro de uma vida de crimes.

O tempo no Exército, do qual tanto se orgulha, foi marcado pela desobediência –"um mau militar", anotou o general Geisel em documento de 1988– e sobretudo pelo plano de explodir bombas de dinamite nos quartéis, em 1987. Deputado do baixo clero de 1991 a 2018, enfrentou denúncias de superfaturamento em reembolsos da verba de combustível e de enriquecimento ilícito.

Na Presidência, extrapolou todos os limites. Com a ideia fixa de tornar-se ditador, quis por diversas vezes incendiar o país para facilitar seu plano. Sabotou as medidas de proteção durante a pandemia; aparelhou as instituições; usou a Abin para espionar e perseguir adversários; interferiu na PF para salvar um filho; desacreditou o sistema eleitoral; meteu a mão em joias árabes; falsificou o cartão de vacina; ao perder as eleições arquitetou com os generais palacianos um golpe que previa o assassinato do presidente eleito.

Netanyahu ataca Israel, de novo - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão do governo de ocupar Cidade de Gaza vai contra os interesses de longo prazo de Tel Aviv

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, decidiu ocupar a Cidade de Gaza. Faz isso apesar das fortes objeções do comando militar israelense e do crescente isolamento diplomático do país. Isso é puro suco de Bibi, o apelido pelo qual é conhecido.

O compromisso do premiê é apenas consigo mesmo. E, para ser fiel a si, ele precisa manter-se no poder, a fim de adiar seu julgamento por corrupção. Para manter-se no poder, ele precisa preservar a coalizão de governo, que depende de partidos da extremíssima direita ultrarreligiosa.

E, para preservar a coalizão, ele precisa tentar contornar a decisão da Suprema Corte que pôs fim à isenção de serviço militar para os estudantes de "yeshivot" (escolas de religião) e prolongar a guerra, acenando com a possibilidade de reinstalar assentamentos judaicos em Gaza.

Caos no Congresso e prejuízo na economia - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Alheios ao tarifaço, os deputados do motim até agora não se mexeram para propor nada em defesa do setor produtivo

A semana de caos em Brasília, com o motim da oposição no Congresso Nacional, não poderia ser melhor retratada na foto do repórter fotográfico Pedro Ladeira, estampada na Primeira Página desta Folha na edição da quinta (7).

No centro da imagem, o presidente da Câmara, Hugo Motta, totalmente rendido, desmoralizado, cercado por parlamentares com gestos ameaçadores, que pediam anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes. A sua fisionomia é perturbadora.

Pouco antes, ele teve que passar pela humilhação máxima de não conseguir sentar na cadeira da presidência, ocupada pelo deputado Marcel Van Hattem (Novo). Motta só recuperou o comando da Câmara após uma bizarra negociação antipatriótica.

O golpe continuado - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O golpe de Estado passou a ser um crime continuado. Seus agentes continuam a fazer gestões aqui e no exterior para derrubar o governo e instalar a ditadura tantas vezes imaginada e verbalizada por Jair Bolsonaro

A audaciosa e inacreditável nota divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, demonstra que o governo de Washington está decidido a interferir na política interna brasileira. De repente, o assunto Bolsonaro virou tema relevante para Donald Trump. A nota da embaixada, que, no momento, está sem embaixador, afirma que está monitorando todas as pessoas próximas a Alexandre Moraes. "O ministro Moraes é o principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores. Suas flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Trump", afirma a nota oficial.

Poesia | Embriaguem-se, de Charles Baudelaire

 

Música | Arlindo Cruz - O Show tem que continuar

 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não há alternativa à dependência de fertilizantes russos

O Globo

Investida tarifária de Trump para pressionar Putin expõe lado vulnerável do agronegócio brasileiro

As tarifas de 50% impostas por Donald Trump sobre produtos indianos acenderam um alerta no Brasil. Trump impôs a sobretaxa como forma de pressão para a Índia parar de comprar petróleo da Rússia. Dado o caráter mercurial da política tarifária americana, o receio é que, na tentativa de asfixiar a economia russa para forçar Vladimir Putin a assinar a paz com a Ucrânia, Trump mais uma vez volte os olhos ao Brasil. Estamos expostos em dois setores: transporte e agropecuária. Três em 10 litros de óleo diesel vendidos aqui são importados (a Rússia responde por 60%). Nos fertilizantes químicos, matéria-prima do agronegócio, a dependência é crítica: o Brasil importa 90%, tendo a Rússia como maior fornecedor, com 30%.

Com o estouro da guerra na Ucrânia em 2022, os russos foram alvo de sanções e passaram a vender diesel e petróleo com desconto. Importadores brasileiros não foram os únicos a aproveitar. Se Trump impuser restrições ao diesel russo, não faltam fornecedores alternativos. “O risco de desabastecimento no Brasil é próximo de zero”, diz o consultor de energia Adriano Pires. O maior problema será o custo alto e o impacto inexorável na inflação de um país onde o transporte rodoviário predomina.

A questão mais preocupante são os fertilizantes. A demanda brasileira tem crescido acima da global. A Rússia é um dos dois maiores produtores, e há poucos fornecedores alternativos. No curto prazo, uma saída seria importar mais de China, Canadá, Marrocos ou Egito. Mas, num momento em que outros países serão forçados a fazer o mesmo, haverá escassez e preços altos. O próprio agronegócio americano está preocupado. Quase metade do nitrato de ureia e amônio usado nos Estados Unidos vem da Rússia. No ano passado, o país importou mais fertilizantes russos que antes da guerra na Ucrânia.

A produção de fertilizantes exige uso intensivo de energia. Além de contar com reservas minerais, os russos têm gás barato para queimar. No curto e no médio prazos, não há saída: não só o Brasil, mas o mundo todo depende da Rússia para produzir alimentos. Mesmo que o Brasil explorasse o potássio que tem (em áreas de risco ambiental), dificilmente seria autossuficiente no médio prazo (foi esse, vale lembrar, o argumento usado pelo governo Jair Bolsonaro para fazer acenos a Putin quando o conflito eclodiu na Ucrânia). Para fábricas de fertilizantes se tornarem viáveis, o preço do gás teria de cair à metade. “Para diminuir a dependência, só com subsídio”, diz José Carlos Hausknecht, sócio da MB Agro Consultoria. “Mas até isso é difícil. Que empresa privada poria bilhões numa fábrica se a sobrevivência do negócio depende de vários governos honrarem o compromisso de manter gás barato?”

O governo até tem tentado incentivar o setor. A Petrobras anunciou investimentos de R$ 6 bilhões no segmento até o fim da década, e uma de suas subsidiárias deu o primeiro passo para retomar a produção de fertilizantes. Mas ainda são iniciativas tímidas.

Em três das quatro principais classes de fertilizantes, o Brasil depende de importações para suprir 90% da demanda. Não seria problema se o mundo não estivesse sujeito ao temperamento volátil de Trump. Não haverá solução rápida nem fácil, mas a relevância estratégica do agronegócio exige uma política consistente para fertilizantes. Tal desafio está claro desde o início da guerra na Ucrânia. A volta de Trump o torna mais urgente.

Lula pode perder o discurso e timing - Vera Magalhães

O Globo

Atraso no pacote de alívio a exportadores permite a governadores tentar emplacar narrativa falsa de que medidas são culpa do governo, e não de Trump e da família Bolsonaro

Uma situação inédita e desprovida de racionalidade, como o tarifaço enfiado goela abaixo do Brasil por Donald Trump, testa a acurácia, a capacidade de reação e o timing político do governo federal. Estes quase três anos de Lula 3 não têm sido pródigos em bons exemplos de todos esses atributos, que ameaçam falhar de novo numa hora crucial.

Depois de prometer uma resposta imediata e à altura da agressão, o governo patina e demora em anunciar o pacote em sua totalidade, algo essencial aos setores perdidos diante da falta de canais claros com que negociar situações que, em muitos casos, significam manter ou fechar negócios que geram empregos e sustentam famílias em todo o país.

O sequestro do Congresso - Bernardo Mello Franco

O Globo

Para salvar ex-presidente, extrema direita quer forçar guerra entre Legislativo e Judiciário

Os bolsonaristas realizaram por 30 horas o sonho de fechar o Congresso. Na manhã de terça, parlamentares de extrema direita se entrincheiraram nos plenários da Câmara e do Senado. Foi um motim contra a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, decretada na véspera pelo ministro Alexandre de Moraes.

A rebelião evoluiu para um sequestro do Parlamento. Os amotinados avisaram que só permitiriam a retomada dos trabalhos mediante três exigências: anistia aos golpistas, fim do foro especial e impeachment do ministro Moraes.

Porta-voz dos sequestradores, Flávio Bolsonaro apresentou a pauta como “pacote da paz”. Na verdade, o senador quer empurrar o Legislativo para uma guerra contra o Judiciário. Tudo em nome da impunidade do pai.

Cortina de fumaça - Pablo Ortellado

O Globo

Verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento

É um pouco angustiante acompanhar a evolução do entendimento dos conservadores sobre as movimentações antidemocráticas de 2022 e 2023. No começo, vemos algum estranhamento e mal-estar com os acampamentos em frente aos quartéis. Em 2023, o quebra-quebra do 8 de Janeiro é tão rejeitado que a principal explicação para ele era tratar-se de uma armadilha desenhada pela esquerda. A própria existência dos planos golpistas é inicialmente negada, de tão abjeta. Mas, aos poucos, uma cortina de fumaça vai sendo lançada, e as verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento.

Intervenção da Embaixada dos EUA exuma velhos fantasmas de golpes - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O gesto diplomático dos EUA pode ser lido como tentativa de pressionar o Supremo e isolar Alexandre de Moraes, cujo desgaste não se restringe aos aliados de Bolsonaro

A nota divulgada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, ontem, alertando aliados do ministro Alexandre de Moraes no Judiciário e em “outras esferas” para que não apoiem ou facilitem sua conduta, reacende memórias da história latino-americana que nos remetem aos golpes de Estado que destituíram os presidentes João Goulart, no Brasil, em 1964, e Salvador Allende, no Chile, em 1973. Ambos eram líderes de esquerda, como os atuais presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Gabriel Boric.

Embora revestida de linguagem diplomática, a mensagem no X (antigo Twitter) chama Moraes de “arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores”. O texto ainda ameaçou outras autoridades: seus flagrantes violações de direitos humanos resultaram em sanções pela Lei Magnitsky, determinadas pelo presidente Donald Trump. Os aliados do ministro no Judiciário e em outras esferas estão avisados para não apoiar nem facilitar a conduta de Moraes. “Estamos monitorando a situação de perto”, escreveu a Embaixada.

O brasileiro de fabricação ideológica - José de Souza Martins*

Valor Econômico

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonorizada. Torcemos pelo time, mas não pela pátria

Não basta nascer no Brasil para ser brasileiro. Aos poucos, vamos sendo outra coisa que ainda não sabemos o que exatamente é. Cada vez mais, muitos nascidos no Brasil gostariam de ter nascido em outro país. As demonstrações nesse sentido avolumam-se. Agora mesmo, nas manifestações direitistas e antipatrióticas na avenida Paulista, em favor de réus de crimes políticos contra o Brasil, muita gente abraçada à bandeira americana, a aplaudir Trump, o presidente americano que nos vê como fundo de seu quintal.

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonarizada. A esfera azul é hoje uma bola de futebol. Torcemos pelo time, mas não pela pátria. Um traidor da pátria anexou-se ao quintal da Casa Branca e conspira contra a economia brasileira e contra as instituições brasileiras.

Contornos da nova ideologia econômica - Armando Castelar Pinheiro

Valor Econômico

É preciso ter um plano de ação. Ficar concentrado na polarização política não vai levar a isso

Esta semana entraram em vigor as novas tarifas sobre importações dos EUA, aí incluídas as aplicadas às compras de produtos brasileiros. Trata-se de uma mudança não trivial na política comercial americana e, de forma mais ampla, no comércio internacional. De acordo com o Budget Lab da Universidade de Yale, a tarifa média americana subiu de 2,42% em 2024, e de uma média de 2,5% em 1975-2024, para 17,35%, a mais alta taxa em 90 anos. No caso do Brasil, se calcula que a tarifa média é quase o dobro disso: 33%. E há mais por vir, com o presidente americano já prometendo para este mês tarifas sobre semicondutores e produtos farmacêuticos.

Repercussão negativa da arruaça contém aproximação entre as duas forças - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula retomou a iniciativa com aprovação do IR e encontro com Gilberto Kassab

No dia seguinte ao “8/1 de paletó”, governistas e oposição delimitaram novas fronteiras. No Senado, a retomada dos trabalhos legislativos foi marcada pela aprovação do projeto de lei que atualiza a tabela do IR e pelo rechaço do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), a incluir o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, que conseguiu 41 assinaturas, na pauta de votação.

Na Câmara, que registrou o arrependimento público dos arruaceiros, o presidente da Casa, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou que pautará, sim, a anistia, se assim for decidido pelo colégio de líderes. Diante de situações semelhantes, os dois presidentes de mesas assumiram posturas diferentes em dois temas polêmicos. Motta negou, no entanto, que o compromisso de pautar o projeto tenha derivado de um acordo feito na noite de quarta-feira para que ele pudesse sentar-se na cadeira do presidente da Casa, tomada pelos bolsonaristas.

Aliança entre Centrão e bolsonarismo, pode selar destino de Motta - César Felício

Valor Econômico

Presidente da Câmara não foi o condutor das negociações, ou não aparece como tal; papel de Arthur Lira foi fundamental

As versões sobre o acordo que fez a tropa de choque baixar a guarda e a Câmara e o Senado retomarem seus trabalhos mudaram a cada três horas, em média, na quinta-feira (7) pelos corredores do Congresso, mas convergem em dois pontos: o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) teve um papel central e um confronto do Congresso com o Judiciário se aproxima. A PEC do foro privilegiado ganhará protagonismo.

A PEC do foro privilegiado poderá ser vendida para o público externo como o fim de privilégios, a igualdade de todos perante a lei, com ônus de detentores ou ex-detentores de mandatos eletivos serem julgados por instâncias inferiores do Judiciário e o bônus de contar com a múltipla jurisdição. Mas essa embalagem é fina e relativamente transparente: o objetivo real será a blindagem total de deputados e senadores.

Tudo o que seu mestre mandar – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Do que PL e bolsonaristas serão capazes quando, e se, Jair Bolsonaro for condenado? Outro 8/1?

Depois que vândalos saíram do entorno do QG do Exército para violar as sedes dos três Poderes, no fatídico 8/1, agora são os vândalos do próprio Congresso que invadem os plenários, tomam de assalto as cadeiras dos presidentes da Câmara e do Senado e horrorizam o País, em cenas deploráveis contra o Parlamento e a democracia. Do que serão capazes quando, e se, Jair Bolsonaro for condenado à prisão definitiva?

O Brasil está sob ataque externo e interno, depois de ter sobrevivido, mais unido e mais forte, a um golpe de Estado que começou a ser articulado ainda nas eleições de 2018 e ganhou corpo no mandato de Bolsonaro, com cooptação de militares, intervenção em instituições, planos, minutas e trocas de mensagens em 2022. Quanto mais perto da eleição, mais o golpe se tornava real, concreto. A democracia, porém, venceu.

O cisne vermelho - Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Uma resposta equivocada é dizer que a educação deve se preocupar com as competências, e não mais com o conteúdo

Cisnes negros, na imagem criada por Nassim Taleb (The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable, Random House, 2007), são fenômenos inesperados, como uma crise financeira ou a pandemia de covid-19, que forçam pessoas, empresas e instituições a buscar novos caminhos. Cisnes vermelhos são previsíveis, mas afetam de maneira tão profunda os hábitos e as rotinas que as pessoas preferem fingir que não existem, até que seja tarde demais. É essa a imagem que os irmãos Silvio e Luciano Meira usam para descrever o impacto da inteligência artificial (IA) na educação brasileira, num conciso e importante documento cujo título já diz tudo (Inteligência Artificial na Educação: Ruptura Paradigmática em um Sistema em Crise Crônica, Recife, tds.company, 2025).

“Ruptura paradigmática” é um termo complicado para descrever uma situação em que, daqui por diante, tudo será diferente. Os sistemas educacionais, com suas escolas e universidades, foram criados como instituições destinadas a transmitir conhecimentos, de forma semelhante aos sistemas fabris inventados séculos atrás, em que as pessoas são agrupadas em turmas homogêneas e trabalham para incorporar pacotes de conhecimento organizados por especialidade e nível de dificuldade. O que a inteligência artificial faz é tornar todos esses conteúdos misturados e facilmente acessíveis, de maneira quase imediata e a um custo mínimo para o usuário.

A COP-30 ameaçada de irrelevância - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Desta vez, não se trata de nenhum alarmismo. A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), prevista para novembro, em Belém do Pará, está seriamente ameaçada.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, advertiu que os altos custos de hospedagem tornam o evento proibitivo. O presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, cancelou nesta semana sua participação na conferência em razão dos preços incompatíveis com o orçamento de seu país. Enquanto isso, a rede hoteleira local se recusa a justificar ao Ministério da Justiça o aumento de até dez vezes nos valores das diárias.

O minigolpe no Congresso – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Violência no Parlamento é parte da insurreição permanente que pretende destruir a democracia

Deputados e senadores bolsonaristas e a direita do já direitista Centrão promoveram um minigolpe nesta semana. Ocuparam os plenários de Câmara e Senado a fim de impedir o funcionamento do Congresso, à força, o que foi chamado de modo equivocado de "obstrução".

Obstrução é instrumento legal previsto em regimentos de Parlamentos importantes. O que aconteceu foi violência anticonstitucional, sequestro com o objetivo de chantagear outros parlamentares a fim de colocar em tramitação projetos de anistia de Jair Bolsonaro e de outros golpistas de 2022 e 2023.

Fardas em sala de aula - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se os garotos civis estudam o duque de Caxias, por que jovens militares não aprendem sobre Joaquim Nabuco?

O governador de um importante estado quer transformar 728 das 3.400 unidades de sua rede escolar em "escolas cívico-militares". Com seu salivante servilismo a certos poderosos, sugere plantar homens fardados em sala de aula para aplicar conceitos dúbios como "mediação de conflitos, desenvolvimento de atividades preventivas e promoção de valores como respeito, disciplina e responsabilidade".

É a volta da velha Educação Moral e Cívica, matéria de estimação da ditadura, imposta em 1969 por Costa e Silva e só revogada em 1993, por Itamar Franco. A EMC constava de "aperfeiçoamento do caráter e da moral do aluno", o "culto à pátria e aos seus símbolos, tradições e instituições" e a mesma "promoção de respeito, disciplina e responsabilidade". Se isso lhe soa como "Deus, pátria e família", acenda uma vela para Mussolini e outra para Bolsonaro.

Festa da Selma no Congresso – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O método dos amotinados só será vencido se a maioria os relegarem ao merecido isolamento

arruaça dos amotinados bolsonaristas no Congresso, notadamente na Câmara, não é um episódio que possa ser visto como superado, a despeito da retomada dos trabalhos depois de 30 horas de ensaio de insurreição.

Primeiro, porque a recuperação do controle foi relativa, dada a dificuldade de o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) alcançar sua cadeira na Mesa Diretora, sob cerco cerrado de deputados que, ao fim da sessão, ainda continuavam atrás dele insuflando o plenário aos gritos de "anistia já".

Depois, porque a celebração da violência é um método da ala radical da oposição que, no Parlamento, evocou o ocorrido no acampamento no quartel-general do Exército do qual partiram as hordas para a "festa da Selma", em 8 de janeiro de 2023.

Motim na Câmara era caso de polícia - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Hugo Mota, presidente da Casa, não atuou com o vigor necessário contra bolsonaristas que fazem chantagem parlamentar

Achei o Hugo Motta bem frouxo. A resposta adequada da Presidência da Câmara à tomada da Mesa por parlamentares bolsonaristas teria sido mandar a polícia legislativa retirar os insurrectos do local, recorrendo à força se necessário. Se há alguém que não pode reclamar de autoridades usarem o poder de polícia para fazer cumprir a lei é justamente um deputado bolsonarista —ou estariam legitimadas todas as ações do MST.

Congressistas podem valer-se de todas as medidas regimentais para obstruir trabalhos do Parlamento, mas apenas das regimentais. Não podem impedir fisicamente o presidente da Casa de sentar-se em sua cadeira. Isso não é só jogo feio, é falta mesmo. Motta precisaria remeter os casos dos deputados amotinados ao Conselho de Ética, para decidir se a falta é para cartão vermelho.

Um museu de grandes novidades: Onda da extrema-direita continua - Cláudio Carraly

A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno que se insere em um contexto global de polarização política, evocando paralelos históricos e preocupações quanto à estabilidade democrática. A extrema-direita no Brasil supera o carisma individual de sua maior liderança, Jair Bolsonaro, mesmo com sua inelegibilidade e várias investigações criminais, as ideias e valores que mobilizou permanecem vivos. A atual transição do campo conservador está esmagando o que havia da direita centrista, radicalizando esses grupos e jogando-os para o espectro mais agudo do reacionarismo. Essa onda do chamado neofascismo fez emergir novas lideranças e novas formas de abordagem política, ampliando sua base de apoio e garantindo sua continuidade por ainda bastante tempo.

O enfraquecimento de Bolsonaro não implica o fim desse novo ciclo da extrema-direita. A figura do ex-presidente, antes central, hoje convive com um movimento fragmentado que se reorganiza em torno de agendas comuns, surfando sempre na insatisfação popular difusa, que antes era canalizada pela figura do ex-presidente, agora se pulveriza, permitindo a emergência de líderes regionais e setoriais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira ilustram a diversidade dentro da direita.