segunda-feira, 29 de junho de 2026

BC tenta calibrar como fala ao mercado, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Banco Central abriu tantas informações que, hoje, é um pouco refém dessa transparência

O problema pode ser que os bancos centrais estão falando demais. Durante as últimas décadas, toda a discussão foi sobre como aumentar a transparência de suas decisões e de suas intenções futuras. Agora, há uma corrente contrária que acha que estão pecando pelo excesso.

A questão central, na verdade, não é se os bancos centrais devem ser mais transparentes ou não - no fundo, é sobre fazer uma boa comunicação e evitar que ela vire uma camisa de força.

O proponente mais radical da tese de que os BCs devem falar menos é o novo chefe do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que, na sua primeira entrevista coletiva, disse que, quando os banqueiros centrais falam muito sobre o futuro, os mercados entendem como uma promessa e deixam de fazer o dever de casa de acompanhar a evolução dos dados econômicos.

Por aqui, no Brasil, o Banco Central apanhou muito nos últimos dias por ter publicado um comunicado longo e confuso. O diagnóstico do diretor interino de política econômica do BC, Paulo Picchetti, e do presidente da instituição, Gabriel Galípolo, é que o excesso de transparência no comunicado atrapalhou.

Picchetti diz que o BC deve procurar “um tamanho ótimo do comunicado”. Não se trata, porém, de reduzir o grau de transparência. Na verdade, a intenção parece ser a de escolher o momento certo e a forma correta para comunicar as coisas. As mensagens que o Comitê de Política Monetária (Copom) tinha para passar eram muito complexas para as poucas linhas do comunicado. Cabiam melhor na ata do Copom, desdobradas no Relatório de Política Monetária (RPM) e bem explicadas em uma entrevista coletiva.

No fundo, a confusão foi causada no documento em que o BC tinha menos espaço para falar - e foi esclarecida na medida em que os membros do Copom tinham mais espaço para explicar as intenções.

Galípolo, na entrevista do RPM, deu sinais de que não pretende desidratar o comunicado. Segundo ele, os desentendimentos se deveram mais a um caso específico do que a um problema mais geral.

Também seria certa ingenuidade, de outro lado, achar que o mercado vai deixar de pescar sinais dos banqueiros centrais sobre o que poderiam fazer no futuro. O último a usar comunicados com uma ou duas linhas, no Brasil, foi Alexandre Tombini. Mas eles eram recheados de palavras-chave: quando diziam que o Copom iria acompanhar “atentamente” o cenário econômico, era certo que vinha mais juro pela frente.

Tombini não participava das entrevistas coletivas do Relatório de Inflação, atual RPM, que eram conduzidas pelo então diretor de política econômica Carlos Hamilton. Quando Hamilton, nas respostas, lia um pequeno papel que mantinha no púlpito, sabia-se que vinha uma mensagem telegrafada.

O próprio Banco Central, por outro lado, quer passar uma mensagem sobre as suas intenções futuras. Ele só controla diretamente a taxa de juro de curtíssimo prazo, mas o que move a economia para cima e para baixo e traz a inflação para a meta é a sua capacidade de influenciar a curva de juro de mercado de prazo mais longo.

Os BCs caminham numa linha fina: querem influenciar os juros de mercado, mas sem cristalizar nada para não perder a flexibilidade para adequar a sua estratégia caso o cenário econômico mude - mais importante ainda quando o cenário é mais incerto.

O Banco Central fala muito, entre outros motivos, para passar a sua função de reação, que nada mais é do que indicar o que faria normalmente quando a inflação prevista para o futuro se desvia da meta e quando a atividade econômica sai da sua trajetória de crescimento de longo prazo.

Nos últimos anos, o BC passou a divulgar os parâmetros de seus modelos de projeção de inflação, abriu mais sobre como vê o cenário econômico, os riscos que estão no radar e também o prazo que pretende colocar a inflação na meta - o chamado horizonte relevante de política monetária.

Abriu tanta coisa que, hoje, é um pouco refém dessa transparência, que acaba restringindo a sua margem de manobra. Paulo Coutinho, da Mar Asset Management, publicou na semana passada um estudo que aponta alguns desses dilemas do Banco Central.

O ponto dele é que o modelo do BC é conhecido, e todos podem replicar. E esse modelo tem mostrado que choques que aumentam a inflação, como uma forte alta do dólar, se tornaram mais persistentes no modelo do BC. E o Copom passou a dar muita visibilidade para um prazo rígido e bem definido, de 18 meses, como seu horizonte relevante de política monetária.

Coutinho não discute se a decisão do Copom foi certa ou errada, o que parece prudente para evitar o Fla-Flu que se instalou no mercado. Mas diz que essa combinação tira flexibilidade para acomodar um choque de oferta que o BC calcula ter duração de 21 meses, em vez do horizonte tradicional de 18 meses. Quando tenta se livrar dessas amarras, como fez na última reunião, perde credibilidade.

Picchetti, na entrevista coletiva, disse que muita gente no mercado reclamou que o comunicado foi confuso porque, depois de muitas palavras, não informou o que o BC fará na próxima reunião. E não era mesmo para informar - esse é, precisamente, o ponto que muitos perderam.

 

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