segunda-feira, 29 de junho de 2026

É necessário haver resistência racial, por Irapuã Santana

O Globo

Relutância que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera desumanização

Na semana passada, foram divulgadas imagens da câmera corporal de um policial militar em São Paulo referentes a um fato ocorrido em novembro do ano passado numa escola pública. A escola havia proposto uma atividade educacional sobre a cultura afro-brasileira, implementando a determinação da Lei 10.639/03, e o pai de uma aluna discordou do projeto pedagógico por pensar que havia sido ministrada uma aula de religião. Com isso, foi à escola, coagiu a professora e acionou a polícia, que prontamente o atendeu, enviando policiais armados — portando até metralhadora — para averiguar o ocorrido. Entretanto, o que as imagens captaram foi mais um episódio de violência perpetrada pelo Estado.

Durante todo o vídeo, a diretora explica o que aconteceu e chega até a convidá-los para uma reunião que ocorreria com a comunidade escolar, incluindo os pais das crianças, para explicar o plano de ensino e discutir o ocorrido. Mas, ao contrário do que a lógica sugere, recebeu acusações de não ouvir e de interromper o tenente durante a conversa. Aqui vemos um caso de evidente intolerância religiosa, combinada a um problema histórico nacional: a dificuldade de colocar em prática a Lei 10.639/03.

Para ter uma ideia, entre janeiro de 2025 e 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos, as religiões de matriz africana concentram o maior número de denúncias, chegando a 476, o que corresponde a 17,15% dos registros. O volume de denúncias de intolerância religiosa é 360 vezes maior entre os praticantes de crenças de matriz africana do que entre os cristãos (católicos e evangélicos).

A situação fica ainda mais absurda quando pensamos que o caso aconteceu numa escola de educação infantil, com professoras tendo de encarar armas de grosso calibre, justamente por parte de quem deveria proteger sua integridade física. Talvez isso ajude a explicar a grande barreira que impede as escolas de adotar o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

Na pesquisa “Lei 10.639/03: a atuação das Secretarias Municipais de Educação no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira”, elaborada pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra e pelo Instituto Alana, algumas questões foram expostas após 20 anos de vigência da lei.

A primeira é que ainda estamos muito distantes do ideal, considerando que apenas 21% dos municípios brasileiros responderam aos organizadores do estudo. Isso expõe o grau de comprometimento das administrações com essa política pública importantíssima. Mas não é só: o trabalho concluiu que a ampla maioria dessas cidades (71%) realiza pouca ou nenhuma ação para garantir a efetividade da lei.

A resistência que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera a desumanização que faz com que professoras sejam ameaçadas por aplicar a lei. Mas nem tudo está perdido, porque, graças a uma política pública eficaz, podemos tomar conhecimento dos abusos que vêm ocorrendo nas periferias e nos mobilizar para mudar essa realidade. Afinal, é preciso resistir.

 

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