Correio Braziliense
Como intelectual e escritor com mais de 120 títulos publicados, em 168 edições e 10 idiomas, alio-me à defesa dos direitos autorais e daqueles que os estão defendendo
Nunca na História tivemos um tempo de nuanças
tão grande quanto neste tempo — não digo neste século, porque não sabemos
quanto tempo vai durar.
É que, desde a grande explosão (o Big Bang),
o Universo sofreu mudanças físicas que determinaram e continuam determinando a
sua forma. Aqui na Terra, com a existência de vida, sempre tivemos, e vamos
continuar tendo, transformações no corpo dos seres vivos, animais e plantas.
Pois bem, agora passamos por uma modificação profunda no modo de pensar, e a capacidade do cérebro humano é desafiada pela inteligência artificial (IA). As "minas", isto é, os bancos de dados gigantes, que consomem uma energia colossal, caminham para o armazenamento de todo o conhecimento humano e para uma imitação plena do pensamento lógico e do domínio da razão, sem que se possa prever o que farão no futuro. E já se está engatinhando por esse caminho. A humanidade ainda não consegue avaliar o risco de ser sufocada por esses imensos perigos.
Um desses aspectos, por exemplo, é a mudança
que estamos tendo na riqueza dos minerais, que deixam de ser os mais
necessários para o consumo atual (como o petróleo, o ferro, a bauxita e o
magnésio), substituídos por terras raras e outros minerais considerados
estratégicos para o futuro. Entre esses, destacam-se especialmente o lítio, o
cobre, o níquel, o cobalto e o grafite, ou seja, vários elementos químicos que
possuem propriedades especiais muito utilizadas na atual tecnologia de ponta,
como computadores, celulares, baterias, turbinas eólicas, carros elétricos,
armas de guerra e drones.
No que diz respeito ao Brasil, nosso país é
rico nesses elementos. Por isso mesmo, precisamos de uma nova política em
relação a esses minerais e às tecnologias que devem ser adotadas para sua
extração, uma vez que eles estão associados a outros minerais ou elementos
comuns.
Essa mudança de pensar atinge a todos,
afetando, sobretudo, intelectuais e artistas, que veem os seus direitos de
autoria ameaçados por essa revolução digital, necessitando de leis que protejam
a si mesmos e a suas criações. Existe também uma forte ameaça das novas
tecnologias e da IA sobre os empregos em geral.
Esses assuntos tratados por mim hoje, neste
texto, demandam uma larguíssima gama de aspectos que não podem ser esgotados em
um simples artigo. Assim, para colocá-los no terreno da realidade e das
consequências atuais, vemos a dificuldade que estão tendo nossos legisladores,
Câmara dos Deputados e Senado Federal, para estabelecer limites contra os
possíveis abusos da tecnologia. Por isso, temos de ter o maior cuidado ao lidar
com a inteligência artificial generativa.
Assim, como intelectual e escritor com mais
de 120 títulos publicados, em 168 edições e 10 idiomas, alio-me à defesa dos
direitos autorais e daqueles que os estão defendendo, tendo como referência a
Paula Lavigne, que está sendo uma guerreira no Congresso Nacional, juntamente
com dezenas de artistas e entidades representativas de cantores, escritores,
pintores e de todas as formas de criação.
Como velho senador naquela Casa legislativa,
onde passei 40 anos, sei que assuntos dessa natureza têm grande repercussão,
principalmente esse, no qual ainda somos neófitos, que desperta o interesse de
gigantescos grupos internacionais, as já famosas big techs.
Quero juntar-me, assim, àqueles que zelam
pela cultura brasileira, lutam por ela e por todos que que a produzem.
*José Sarney Ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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