Valor Econômico
O lucro mais fácil do transporte de minérios
e de produtos agrícolas, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza
ideologicamente o lucro possível no transporte de passageiros
A atualização e expansão da rede ferroviária
brasileira, voltada para o agronegócio e a mineração, levanta a questão social
do que nela sobrará para o chamado passageiro, como seu usurário e
beneficiário.
As ferrovias são fatores de criação de renda diferencial da terra na medida em que colocam os territórios que percorrem mais próximos dos mercados que se situam em seus respectivos destinos. A diminuição do tempo de um percurso opera na prática como diminuição da distância em relação ao mercado e ao mundo urbano.
O lucro mais fácil do transporte de minérios
e de produtos agrícolas de exportação, aos olhos do empreendedorismo
superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro adicional possível no
transporte de passageiros, viabilizável pelo uso de equipamentos e
infraestrutura subutilizados. Esquecem que o pequeno lucro, o chamado lucro
extraordinário, também é lucro e, nesse caso, resulta num serviço social.
Só num capitalismo mínimo e decadente o
potencial usuário e consumidor é visto e tratado como fator de prejuízo. É a
neoeconomia do subdesenvolvimento lucrativo.
Na atual onda ferroviária, há exceções.
Refiro-me às duas linhas de passageiros da Vale. A Vitória-Minas, de Cariacica,
no Espírito Santo, a Belo Horizonte, e a de São Luís, no Maranhão, a
Parauapebas, no Pará, além de Carajás. São ferrovias com composições de padrão
europeu, com carros de classe econômica e de classe executiva, com restaurante
e lanchonete, carro especial para pessoas com deficiência em cadeira de rodas.
Na de Carajás há até carro de lazer educativo para crianças com serviço de
monitores.
É claro que os lucros das duas ferrovias
transportadoras de minérios subsidiam esse serviço de transporte para
passageiros embarcados e desembarcados em cidades e localidades ao longo de
seus trajetos. Mas, na verdade, esse transporte se faz com o uso da capacidade
ociosa própria das ferrovias, nos intervalos do tráfego das composições do
transporte economicamente principal.
O Brasil já teve uma rede ferroviária
notável, documentada nas páginas do mais que centenário Guia Levi com
arrolamento minucioso dos horários de trens de passageiros do país inteiro e
suas conexões com os trens de países vizinhos.
O aproveitamento da ociosidade de
equipamentos ferroviários foi exemplar na São Paulo Railway, de 1866, que ia de
Jundiaí a Santos. Até por ocasião de festas religiosas de subúrbio havia trens
especiais para o serviço dos devotos. A SPR lucrava com café e algodão, mas
também com os pecadores.
A Paulista vivia do café. E era um luxo com
os passageiros. Bauru fazia conexão com a Noroeste do Brasil até Corumbá, na
fronteira com a Bolívia. De lá, pelo Ferrocarril Brasil-Bolívia ia-se até Santa
Cruz de la Sierra. Subia-se os Andes de ônibus e voltava-se ao trem no
Altiplano, que chegava até ruínas da cidade pré-incaica de Tihuanaco no rumo do
Lago Titicaca e do Chile. Viagem que fiz em 1958.
Uma semana para percorrer 600 km. Duas horas
depois de Roboré, o trem semanal estacou. Um passageiro fora deixado para trás.
Chegaria uma hora depois, a cavalo, com um menino que o levasse de volta. O
cavalo fora mais rápido que o trem.
Em meados dos anos 1950, começo da decadência
ferroviária brasileira, a rede tornara-se tão expressiva que se podia ir de São
Luís, no Maranhão, a Buenos Aires de trem.
Três vezes por semana havia trens de São
Paulo a Buenos Aires. Como o Brasil, a Argentina fora destino de milhares de
imigrantes, italianos e espanhóis desde fins do século XIX. Famílias embarcadas
da Itália e da Espanha imaginavam estar emigrando para a América. Porém, qual
América?
Separadas no embarque acabavam em portos
diferentes do pretendido. Ou em Santos ou em Buenos Aires. Com o tempo, o
sistema ferroviário que conectava os dois países permitiam-lhes
reencontrarem-se eventualmente e episodicamente.
Fiz um trecho dessa viagem para ir a um
seminário em Joaçaba (SC). Ao embarcar, em União da Vitória, vi que a
composição tinha um carro-restaurante. Com fome, fui a ele e descobri que era
um carro vazio, só mesas e cadeiras, uma cozinha com fogão aceso para ferver a
água para as cuias de chimarrão dos viajantes gaúchos.
Em 1983, fui a Goiás Velho a trabalho. Decidi
levar a família e ir de trem para que minhas filhas tivessem a oportunidade de
fazer uma viagem dessas. Da Luz fomos a Campinas, onde fizemos baldeação para o
trem que de lá ia até Brasília, duas cabinas-dormitório, conectadas, com
banheiro e lavabo, carro-restaurante. Em Brasília, a estação rodoviária era
também estação ferroviária final.
Foi uma viagem de despedida de um Brasil que
desaparecia, o Brasil de gente, e um outro Brasil, em que transportar gente não
vale a pena.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário:
Excelente texto
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