Valor Econômico
Alegria com o penta não ajudou o sucessor de Fernando Henrique em 2002. José Serra perdeu para Lula naquela eleição
O que mais simboliza o patriotismo? O hino, a
bandeira, a camisa verde-e-amarela? Torcer para a seleção Canarinho, na alegria
e na tristeza? Para o atual governo, um dos símbolos é a ferramenta de
transferência de valores do Banco Central: “O Pix é do Brasil”, diz a palavra
de ordem da pré-campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
Na ditadura de Getúlio Vargas, em meio à campanha “O petróleo é nosso”, e no ano de fundação da Petrobras, Guimarães Rosa descartou que a commodity pudesse representar nossa pátria. Para o escritor, com fama de bom de garfo, o orgulho de ser brasileiro envolvia olfato e paladar: “O derradeiro resumo do patriotismo é o gustativo, palatal, de mesa e sobremesa”, afirmou. “Nossos, bem nossos, são o doce-de-leite e o desfiado de carne seca”, sacramentou, em crônica publicada em 1953.
Para Nelson Rodrigues, que além de dramaturgo
era cronista esportivo, a síntese do nosso patriotismo é o futebol. Irmão do
jornalista Mário Filho, que dá nome ao Maracanã, Nelson levava o esporte nas
veias.
Nos tempos do herói Pelé e da ditadura
militar, o escritor elogiou gesto do então presidente Garrastazu Médici, que
recebeu o jogador no Palácio do Planalto. “Ai do presidente que não reconhece o
herói popular, que não tem sensibilidade para os mitos gerados nas
arquibancadas”, alertou, em crônica publicada em O Globo em 1973.
Numa semana que teve de tudo, desde a queda
do influente líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que abalou o
comitê de reeleição de Lula, até o vídeo explosivo da ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro, acusando o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), de
maltratá-la e humilhá-la, torna-se quase impossível dissociar a volta de Neymar
ao campo da conjuntura política.
Horas antes de ser bombardeado por Michelle,
Flávio Bolsonaro esperava capitalizar politicamente com o vídeo divulgado em
suas redes, de gosto duvidoso, em que apareceu travestido de Tom Cruise em “Top
Gun”, no qual resgata Neymar e o transporta a bordo de um caça de volta ao
estádio. Estética à parte, a mensagem era de que um país não abandona seus
heróis.
O vídeo foi uma provocação a Lula, que dias
antes, havia fustigado Neymar durante um evento em Belo Horizonte. O presidente
enaltecia o talento de Marta, atacante da seleção feminina, quando perguntou a
uma criança quem considerava “bom de bola”, e a resposta foi: “Neymar”. Mas
Lula retrucou que o jogador do Santos não estava “nem jogando”, e em tom de
ironia, disse que ele era o “primeiro convocado ‘home office’ do mundo”.
A provocação a um dos maiores ídolos dos
brasileiros, que somente no Instagram soma mais de 237 milhões de seguidores -
mais do que a população brasileira, de 214 milhões de habitantes - alarmou os
lulistas, que viram no comentário outro improviso desastrado.
É fato que no pleito de 2022, Neymar declarou
apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ainda assim, espezinhar o craque
foi considerado um gol contra de Lula. Como se ele ignorasse o alerta de Nelson
Rodrigues ao presidente que ignora os “mitos gerados nas arquibancadas".
Mas o governo e o time lulista mantêm a
aposta em outras vertentes do sentimento de patriotismo, como o apreço à nossa
soberania, que revelou apelo eleitoral. Após o ataque americano à ferramenta do
Banco Central, o mote “o Pix é do Brasil” aparece em quase todos os eventos de
Lula.
Em paralelo, diante do novo “tarifaço” de
Washington sobre nossas exportações, logo após a visita de Flávio Bolsonaro ao
presidente Donald Trump, o presidenciável do PL se desdobra para se descolar da
pecha de “traidor da pátria”, que Lula e o PT lançaram sobre ele.
Na quarta-feira (24), o Itamaraty reforçou o
coro ao divulgar nota nas redes sociais em reação ao anúncio de Flávio que se
inscreveu na audiência pública que debaterá as sanções da Seção 301 a vários
países. “Os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história. O Brasil
sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na
justiça brasileira”, afirmou o órgão, alegando que tal espaço seria restrito ao
setor privado, e que outros atingidos como China e União Europeia não enviarão
representantes.
No ano passado, quando Trump anunciou o
primeiro “tarifaço” contra as exportações brasileiras, e o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro foi a invocar a paternidade do feito, uma das primeiras consequências
do episódio foi a melhora da popularidade de Lula. A rodada da Genial/Quaest de
agosto mostrou que a desaprovação de Lula estava em 51%, e a aprovação em 46%,
mas a diferença entre os dois índices que já foi de 17 pontos percentuais, caiu
para cinco.
O debate sobre a força eleitoral do escrete brasileiro, a depender do desempenho na Copa do Mundo, movimenta as campanhas. A avaliação dos marqueteiros de Lula é que a eventual conquista do hexa poderia favorecer o governo. A leitura é de que o resultado despertaria tamanha felicidade e euforia na população, a ponto de afastar o mau-humor do eleitor com a economia ou outra variável que define o voto. Mas a alegria com o penta não ajudou o sucessor de Fernando Henrique em 2002, quando o Brasil bateu a Alemanha por 2 a 0: José Serra perdeu para Lula naquela eleição.
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