Correio Braziliense
Pela primeira vez, a disputa
pela liderança simbólica do bolsonarismo, protagonizada pelo senador e pela
ex-primeira-dama, foi travada em praça pública
O conflito entre Michelle Bolsonaro e Flávio
Bolsonaro extrapolou o terreno das relações familiares e se tornou um dos
episódios mais reveladores das contradições no clã Bolsonaro nesta pré-campanha
presidencial. Pela primeira vez, desde que Jair Bolsonaro escolheu o filho mais
velho como sucessor, a disputa pela liderança simbólica do bolsonarismo,
protagonizada por ambos, foi travada em praça pública.
À primeira vista, Michelle parecia ter produzido um enorme desgaste para a candidatura de Flávio. Principal liderança feminina da direita e responsável pela interlocução do PL com o eleitorado evangélico, acusou o enteado de tê-la “desrespeitado”, “maltratado” e “humilhado”. Gravou um vídeo muito bem produzido e de cabeça pensada, com objetivo claro de ser contundente: “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.
Segundo Michelle, naquele momento compreendeu
que sua participação na campanha de Flávio Bolsonaro era considerada
irrelevante. “Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era
insignificante. Então eu me recolhi”. Ao exumar um episódio ocorrido há meses,
durante as negociações do PL no Ceará, porém, mais do que um desabafo, fez uma
afirmação de legitimidade política, de quem avalia que tem luz própria.
Michelle lembrou que Jair Bolsonaro havia
determinado apoio à candidatura da vereadora Priscila Costa ao Senado no Ceará
e disse que suas posições refletiam a vontade do marido. Ou seja, a
ex-primeira-dama disputa “lugar de fala” em nome do legado político do
ex-presidente. A demarcação de território, porém, até agora, teve efeito
contrário nas bases bolsonaristas.
Segundo levantamento da AP Exata
Inteligência, a presença de Michelle nas conversas digitais saltou de 5% para
16,4% entre os presidenciáveis em apenas quinze horas — crescimento de 228% —
enquanto seus vídeos ultrapassaram milhões de visualizações. Entretanto, o aumento
da exposição não foi acompanhado por melhora equivalente na percepção pública.
Seu índice de confiança permaneceu praticamente estável, com pequena queda de
0,3 ponto percentual, enquanto as menções positivas recuaram para 45,5%.
Já Flávio Bolsonaro experimentou movimento
inverso. Seu índice de confiança cresceu 1,2 ponto e as menções positivas
avançaram 3,5 pontos, atingindo o melhor desempenho dos últimos dez dias. O
fenômeno confirma uma característica recorrente das comunidades políticas
altamente organizadas nas redes sociais: tendem a reagir rapidamente quando
identificam um ataque dirigido ao líder escolhido pelo grupo.
Roupa suja
Sérgio Denicoli, responsável pela pesquisa,
em diversos estudos sobre comportamento digital, verificou que comunidades
políticas consolidadas costumam produzir um processo de “blindagem narrativa”.
Quando percebem risco ao projeto coletivo, reorganizam espontaneamente suas
mensagens para proteger o principal ativo político. Foi exatamente o que
ocorreu.
Em poucas horas, grande parte da militância
bolsonarista passou a enquadrar Flávio como vítima da exposição pública de uma
divergência privada. Prevaleceu o conceito de que “roupa suja se lava em casa”.
O foco deixou de ser a acusação feita por Michelle para concentrar-se na
necessidade de preservar a candidatura presidencial.
Flávio Bolsonaro assimilou o golpe não
somente nas redes sociais. Seu pedido de desculpas revelou uma clara intenção
de redução de danos. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender
Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas.” Na
sequência, deslocou o eixo da discussão para a disputa pela orientação da
campanha: “Divergências de estratégia não significam divergências de
princípios”.
Não falou para Michelle, mas para o
eleitorado conservador, que tenta conquistar com uma narrativa mais moderada do
que a dos irmãos Carlos e Eduardo e de Michelle: “O Brasil precisa de
maturidade, serenidade e unidade”. Michelle também retrocedeu no confronto.
“Não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo
deturpada”, disse nas redes sociais. E acrescentou: “Vamos todos trabalhar
juntos para derrotar o atual desgoverno”.
O problema é que a dimensão estratégica do confronto foi escancarada. Há duas vertentes no bolsonarismo. Flávio controla a máquina partidária, o respaldo formal do PL e a indicação feita por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência. Michelle tem o apoio do eleitorado feminino conservador, de lideranças evangélicas e mais carisma pessoal para mobilizar emocionalmente seus apoiadores. Se Flávio vencer a eleição presidencial, Michelle provavelmente será senadora pelo Distrito Federal. Se ele perder, também. Mas ampliará sua autonomia, com mais visibilidade nacional e independência política. A herança do bolsonarismo já está em disputa.

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