sábado, 4 de julho de 2026

Analfabetismo digital, por Flávia Oliveira

O Globo

Os mais velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos

O jornalista, escritor e imortal Ruy Castro comprou, semanas atrás, a briga em que, agora, me incluo. A digitalização galopante, não só de notícias e relações sociais, mas de serviços financeiros, comércio e até das políticas públicas, está isolando os idosos. Nesta semana, o IBGE informou que, no ano passado, 95% dos lares e nove em cada dez brasileiros contavam com acesso à internet. A proporção alcança o teto de 95%-96% nas faixas etárias entre 20 e 49 anos; entre os maiores de 60 anos cai para 74,5%. Desde 2016, triplicou o percentual de idosos acessando a web, mas dois terços dos que estão fora do mundo virtual alegam desconhecimento. A falta de letramento digital é a nova face do analfabetismo.

Semanas atrás, a Escola Municipal João Othmar Moura, de João Alfredo, município do Agreste Pernambucano, viralizou numa rede social ao postar fotos da turma de educação de jovens e adultos (EJA). Os estudantes, alguns idosos, posaram com caderno e caneta, à frente de uma bandeira do Brasil, entre um ábaco e um globo terrestre. O país, tempos atrás, ousou debater a relação custo-benefício de alfabetizar os mais velhos, como se fosse justificável deixar na escuridão os que não tiveram a chance de estudar na época adequada. No Censo Escolar 2025, o Ministério da Educação contou 2,252 milhões de estudantes no EJA.

Em 2025, o IBGE reportou a menor taxa de analfabetismo da História. O país investiga o letramento da população desde o Censo de 1940, quando 44% dos habitantes não eram capazes de ler nem escrever um bilhete simples. Em 2010, a proporção caíra para 9,6%; em 2022, para 7%, num total de 11,4 milhões de analfabetos. No ano passado, eram 8,4 milhões, taxa de 4,9%. Ainda assim, na população com 60 anos ou mais, 13,8% não eram alfabetizados — são 4,9 milhões de idosos brasileiros sem saber ler ou escrever.

Enquanto avança na educação formal, o Brasil não pode cochilar na inclusão digital. A nova fronteira da desigualdade se manifesta em inúmeras dimensões. É maior nas áreas rurais e no Nordeste; alcança metade dos que se declararam sem instrução e quase um quarto dos idosos. É um fosso que, em parte, solapa cidadania, já que as pessoas crescentemente se informam, se relacionam e acessam serviços remotamente.

Idosos estão entre as principais vítimas dos golpes financeiros digitais, que se multiplicam no país. No Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, os pesquisadores alertaram sobre a migração dos crimes do mundo real para o virtual. Na última meia década, estelionatos têm superado o total de roubos. Em 2024, as polícias civis registraram 745.333 roubos, 15,2% a menos que no ano anterior. No mesmo período, os casos de estelionato cresceram 7,8%, num total de 2,166 milhões. Em meio eletrônico, o salto foi ainda maior, 17%.

— Essa parece ser uma tendência que veio para ficar, na medida em que está fortemente correlacionada com a transformação digital da sociedade brasileira, que ganhou impulso a partir de 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando boa parte das interações da população passou a ser mediada por meios digitais (...). Em 2020, a Febraban registrou um volume de 104,3 bilhões de transações bancárias, com 65,7% delas feitas por aplicativos de celulares e/ou navegadores de internet. Em 2024, esse volume praticamente dobra, atingindo 208 bilhões de transações. E a participação dos canais digitais salta para 81,5% — destaca o Anuário.

Os idosos acessam cada vez mais a internet, mas parte significativa permanece excluída. Além disso, compõem a faixa etária que mais se declara insegura em relação aos novos meios, segundo pesquisa do Aláfia Lab citada por Nina Santos, pesquisadora no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital e ex-secretária adjunta de Políticas Digitais da Secom/Presidência da República:

— Os idosos são os que dizem encontrar mais desinformação, declaram-se mais inseguros e são os mais preocupados com os danos no ambiente virtual. O ambiente é de muita vulnerabilidade, a inteligência artificial (IA) cria nova camada de desigualdade, e os serviços públicos estão cada vez mais digitalizados. Ainda que exista atendimento presencial, o acesso a direitos, a benefícios se dá por meio digital. Isso afasta uma parcela da população do Estado — diz.

Autoridades precisam se ocupar desse abismo, porque a evolução tecnológica não cessa. Os desafios serão permanentes, alerta a pesquisadora. Boa parte dos programas de educação midiática ou digital ocorre em escolas, em que circulam basicamente crianças, adolescentes, jovens. Os mais velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos. Nem sempre as redes próximas os deixam menos vulneráveis.

 

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