sábado, 4 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Funcionários fantasmas no Rio são um acinte

Por O Globo

É chocante que um a cada três em cargo comissionado recebesse sem trabalhar. Alerta serve a todo o país

São estarrecedores os resultados da auditoria na folha do funcionalismo determinada pelo governador interino do Rio, Ricardo Couto. Praticamente um em cada três funcionários em cargo comissionado no estado — aqueles que devem seu emprego a uma indicação política — recebia sem trabalhar. Constatou-se, ainda, que a prática de pagar salário a quem nem aparece no trabalho, os proverbiais fantasmas, se estendia a todos os 77 órgãos da administração fluminense. É um acinte para o cidadão que trabalha arduamente para pagar suas contas em dia. E um alerta para todo o país.

Desde março, Couto mandou exonerar 4.283 funcionários comissionados, ou 30% do total de 14.340, segundo o Caderno de Recursos Humanos do estado. O abuso resulta em grande parte do loteamento de cargos por deputados da Assembleia Legislativa do Rio. Indicação política importa mais que competência técnica ou serviço prestado — quando prestado. Como se não bastassem os fantasmas, o Rio ainda tem proporção maior de comissionados na comparação com outros estados: 7,9% dos 181 mil servidores ativos, ante 1,3% em São Paulo, 0,8% em Santa Catarina e 6,3% no Distrito Federal. É verdade que há estados que extrapolam ainda mais, mas isso só mostra que a administração pública brasileira precisa de um choque de austeridade.

A apuração da Controladoria-Geral do Estado expôs situações inacreditáveis. Na Secretaria de Ambiente e Sustentabilidade, foram encontrados 128 “funcionários” apenas no gabinete do secretário, 86% dos quais nunca haviam acessado o sistema. Na pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, havia registro de 150 em cargos de comissão, mas apenas 90 tinham estações de trabalho. Entre as secretarias com maior corte de comissionados estão Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%) e Turismo (73,3%). Sem eles, é evidente que não haverá prejuízo algum ao serviço sofrível prestado à população, já que não faziam nada mesmo.

Repórteres do GLOBO flagraram situações constrangedoras. Um dos exonerados da Secretaria de Ambiente alegou fazer trabalhos “majoritariamente em campo” em visitas a praças e locais públicos, mas foi incapaz de lembrar o nome de seu chefe. “Era tipo um supervisor”, disse. Pelo “trabalho”, recebia quase R$ 11 mil. Detalhe relevante: ele é filho de um ex-vereador e ex-funcionário comissionado, indicado por um ex-secretário da pasta. Outro exonerado, que recebia R$ 6 mil, também alegou trabalhos externos, mas não conseguiu especificar suas atribuições.

Pela estimativa, as exonerações proporcionarão economia de R$ 355 milhões em um ano, valor nada desprezível para um estado cujas finanças estão em frangalhos. Mas não se trata apenas de questão financeira. É um despropósito que o Rio ou qualquer outro estado pague salário a quem não trabalha e só está ali por indicação de políticos que mantêm seus feudos na administração estadual. Não surpreende que cidadãos estejam sempre insatisfeitos com a qualidade do serviço público.

A subversão do uso do Estado é uma preocupação que deve nortear governadores e candidatos que passarão pelo teste das urnas em outubro. Auditorias precisam ser regulares e abrangentes, pois o problema não é exclusivo do Rio. É inadmissível que não haja controle sobre quem recebe sem trabalhar. Ou é inépcia, ou má-fé. A máquina pública sustentada pelo contribuinte não pode virar cabide de empregos.

Investigação de desvios na cota parlamentar deve ser aprofundada

Por O Globo

Como suspeitas recaem sobre lideranças da oposição, PF precisa manter distância de embate eleitoral

A explicação do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), para os R$ 468,7 mil em espécie apreendidos em dezembro passado num apartamento seu em Brasília não fica em pé. Investigado pela Polícia Federal (PF) sob suspeita de desvio de recursos da verba a que todos os deputados têm direito, a cota parlamentar, Sóstenes garante que o dinheiro provém da venda de um imóvel em Minas Gerais. Só que o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em que a investigação se baseou não registra, perto da data da compra, nenhum saque perto desse montante na conta do advogado Thiago Ferreira de Paula, apontado como comprador. E a renda de Ferreira de Paula, diz a PF, é incompatível com o valor. Para corroborar as suspeitas, a escritura de transferência da propriedade só foi registrada em cartório em 30 de dezembro do ano passado, 11 dias depois da operação da PF que localizou e apreendeu o dinheiro no flat de Sóstenes em Brasília. Ele até agora não convenceu os investigadores.

Na quarta-feira, em mais uma fase da investigação, a PF cumpriu seis mandados de busca e apreensão em Brasília, Goiás e Minas. Entre os alvos, Ferreira de Paula e empresas ligadas a Sóstenes. Foram encontrados no endereço do advogado R$ 160 mil, dólares e relógios de luxo. Parte do dinheiro estava num livro com fundo falso. As investigações também atingem outro deputado do PL fluminense, Carlos Jordy. A PF suspeita que uma empresa de locação de carros, propriedade de um assessor de Jordy e Sóstenes, lavava dinheiro dos deputados por meio do aluguel fraudulento de veículos.

Os processos, sob a relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, integram um conjunto de investigações a respeito de falcatruas no uso da cota parlamentar. Usada para pagar passagens aéreas, alimentação, contratação de consultorias, aluguel de veículos e outras despesas, a verba está entre R$ 30 mil e R$ 45 mil por mês, dependendo do estado de origem do deputado. Representa gasto anual de R$ 300 milhões para o Tesouro. Além disso, todo parlamentar tem direito a verba de gabinete de mais de R$ 165 mil mensais para contratar assessores.

Um deputado tem, portanto, cerca de R$ 200 mil mensais à disposição para custear seu mandato. É em torno desse dinheiro que surgiram escândalos de “rachadinha”, a prática de contratar assessores mediante exigência de que dividam parte do salário. O exemplo mais conhecido foi protagonizado pelo ainda deputado estadual Flávio Bolsonaro, em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (o STF arquivou o processo).

Cabe ao Estado bancar o custo do exercício do mandato. Mas é preciso haver limites e vigilância. As investigações de Sóstenes e Jordy devem ser aprofundadas e manter distância dos embates políticos que se aguçam em ano eleitoral. Como os dois deputados são lideranças do maior partido de oposição, a PF deve ter cuidado extremo.

Pesquisa Datafolha desafia polarização ideológica

Por Folha de S. Paulo

Blocos à esquerda e à direita são minoritários, com prevalência de posições em um centro expandido

O que parece prevalecer é o perfil conservador diante de perguntas ditas de comportamento e a crença no governo quando o tema é econômico

Parece haver uma contradição entre o cenário eleitoral do Brasil e a inclinação ideológica dos brasileiros, tal como captada por recente pesquisa do instituto Datafolha.

No campo da política, o país tem assistido a uma disputa entre apenas dois atores relevantes: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), sempre associados, respectivamente, à esquerda e à direita. Não surge, nos levantamentos sobre intenção de voto, nenhuma candidatura viável fora dessa polarização.

Em contraste, a matriz ideológica registrada pelo Datafolha aponta uma situação distante desse antagonismo maniqueísta.

Primeiro, porque as pessoas identificadas com a esquerda (13%) e com a direita (15%) compõem blocos minoritários. Além disso, o somatório dos grupos formados por centro (17%), centro-esquerda (26%) e centro-direita (29%) resulta em um "centro expandido" que aglutina expressivos 72% dos entrevistados.

E é interessante notar que, desde 2013, quando se realizou a primeira edição da matriz ideológica do Datafolha, repete-se o mesmo quadro, com cerca de 3 a cada 4 brasileiros alocados em uma dessas três posições de centro.

Pode soar paradoxal, ou até mesmo contraditório, que a polarização resista em um contexto em que são minoritários os polos à esquerda e à direita. Ocorre que a definição do voto se dá por fatores variados, jamais se reduzindo a uma simples análise de correspondência ideológica.

Mais importante, entretanto, é reconhecer que os políticos dificilmente se reduzem ao rótulo que ostentam; eles próprios são contraditórios e nuançados.

Lula, por exemplo, disse em junho, durante uma conversa no G7, que nunca foi esquerdista. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), por sua vez, a despeito de sua propalada agenda liberal, tentou intervir na Petrobras para controlar os preços dos combustíveis, providência que a esquerda estatista costuma apoiar.

Essa ambiguidade espelha, de certa forma, o posicionamento de boa parte dos brasileiros. Mais do que a dicotomia direita-esquerda, talvez afeita só aos livros teóricos, o que parece prevalecer é o conservadorismo diante de perguntas ditas de comportamento e a crença no governo quando o assunto é econômico.

Na pesquisa Datafolha, consideradas somente as questões comportamentais, 52% dos entrevistados estão na direita ou centro-direita, ante 29% na esquerda ou centro-esquerda. O quadro se inverte, no entanto, quando o foco recai sobre as perguntas econômicas, com 45% dos entrevistados posicionados na esquerda ou centro-esquerda e 29% na direita ou centro-direita.

Esses resultados da matriz ideológica ajudam a lembrar que, fora da militância mais radical e longe da estridência das redes sociais, há espaço para concessões e conciliações. As diferenças entre o que os brasileiros esperam para o país, afinal, parecem menores do que se costuma alardear.

Taxas de aprovação escolar muito altas ocultam problemas

Por Folha de S. Paulo

Indicadores de 99% ou mais levantam questões sobre aplicação da progressão continuada e impactos no Ideb

Em 2023, quando o Pará implantou o modelo, as taxas de aprovação nos 1º e 2º anos do ensino médio foram de 100%, ante 73% e 77% em 2022

As taxas de aprovação em algumas redes estaduais de ensino remetem à ideia de que aquilo que estatísticas escondem às vezes é tão importante quanto o que elas revelam.

Índices muito altos e com aumento significativo em curto período parecem sinalizar a necessidade de melhora das aferições.

Segundo dados do Censo Escolar 2025 divulgados na última semana, a taxa de aprovação no ensino médio nas escolas estaduais foi de 94,3% —e a grande maioria do alunado nessa etapa da educação está em redes estaduais.

Em quatro estados, praticamente todos os discentes do ensino médio obtiveram tal resultado. Com 99,5%, o Piauí tem a maior taxa, seguido por Pará (99,3%), Mato Grosso (99,2%) e Espírito Santo (98,8%).

Por óbvio, é meritório que mais estudantes sejam aprovados; o problema é como se dá esse processo. E o caso paraense exemplifica questões relevantes sobre a progressão continuada.

Nesse modelo, o aluno só pode ser reprovado ao final de um ciclo de aprendizagem, em vez de ser reprovado ao final do ano letivo, como na progressão regular. No ensino médio, por exemplo, a reprovação só ocorreria no 3º ano. A iniciativa visa conter a evasão escolar induzida pela repetência.

O Pará implantou o modelo em 2023, mas outras redes que também o fizeram aplicam o critério da frequência escolar: se o aluno faltar a mais de 25% das aulas, será reprovado no ano letivo.

Em 2023, as taxas de aprovação nos 1º e 2º anos do ensino médio no Pará foram de 100%, nível jamais alcançado por nenhuma outra rede estadual —ante 73,3% e 76,9%, respectivamente, no ano anterior. Especialistas alertam que casos como esse podem prejudicar o monitoramento da frequência, fator que está relacionado ao abandono escolar.

Ademais, uma progressão continuada mal implantada tem potencial para interferir nos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), avaliação bianual cuja nota, numa escala de 0 a 10, combina prova de desempenho e taxas de aprovação.

A média das escolas paraenses passou de 3, em 2021, para 4,3, em 2023, ano da última edição divulgada do Ideb. O estado saltou da 26ª posição para a 6ª; se tivesse mantido o índice de aprovação anterior, alcançaria 3,4.

Por fim, os estudantes brasileiros vão mal em avaliações internacionais de aprendizagem, como o Pisa. Isso denota que altas taxas de aprovação não são acompanhadas por aquisição adequada de conhecimento, que, afinal, é o objetivo de toda política pública em educação.

O vigor da democracia americana

Por O Estado de S. Paulo

Ao completar 250 anos de independência sem rupturas, os EUA reafirmam ao mundo o valor da estabilidade das instituições democráticas, pilar do seu formidável desenvolvimento

Os Estados Unidos completam hoje 250 anos de independência. Como em várias ocasiões ao longo desse período, muitos se apressam hoje a vaticinar sua decadência, sobretudo em razão da presidência errática e irresponsável de Donald Trump, que em vários aspectos afronta os valores fundadores da República americana, a mais antiga da história contemporânea. Trata-se de precipitação. Malgrado as aparências, as instituições americanas são tão sólidas que resistem até mesmo a um niilista como Trump. Eis o exemplo dos Estados Unidos para o mundo: só a autêntica liberdade, valor central do experimento americano, é capaz de construir a couraça que protege a democracia daqueles que gostariam de destruí-la.

Foi esse valor que presidiu os debates que resultaram na Constituição americana. É esse acervo de ideias livremente confrontadas que forma o caldo primordial do experimento americano – algo radicalmente novo para o panorama político da época, dominado por reis e nobres com direitos hereditários. A ideia de uma sociedade profundamente igualitária, onde o poder político seria exercido por cidadãos eleitos pelos seus iguais, era algo sem paralelo na história humana, a não ser que voltemos alguns milênios, para a Antiguidade grega. Sem dúvida, a democracia americana nasceu imperfeita, pois apenas uma minoria detinha o direito de eleger e de ser eleito, sendo esse direito estendido somente com muita luta ao longo dos anos. E essa talvez seja a característica mais notável desse experimento: a capacidade de mudar preservando a sua essência.

O mais comum na história humana é a revolução e a ruptura. A Revolução Francesa, por exemplo, inspirada pelos mesmos ideais que moveram a Revolução Americana, não foi capaz de estabilizar o sistema político francês. E assim é a história da maioria das nações, presas que são das veleidades e ambições dos governantes. O que chama a atenção no experimento americano é a permanência das instituições.

O aspecto mais simbólico dessa permanência é a sucessão de presidentes regularmente eleitos desde 1789. Quando um presidente falta, o vice-presidente assume de acordo com a lei. Não há jeitinhos ou acordos de conveniência. As mudanças de regras são muito raras. Há uma reverência pelas tradições que construíram a nação.

Democracia se tornou uma palavra gasta pelo uso. Não custa lembrar que as ditaduras socialistas comumente se autodenominam “democracias”, pois, em tese, é o povo que está no comando, por meio da “vanguarda do proletariado”. Na prática, no entanto, esse mesmo povo só tem o direito de concordar com os regimes revolucionários, sendo submetido a uma feroz censura e a policiamento político. Na democracia americana, a liberdade de expressão e de associação são sagradas, e são elementos constitutivos do sistema político. Pode parecer natural, mas, a julgar pelo pequeno número de verdadeiras democracias no mundo, trata-se de exceção, não de regra. O experimento americano continua soando como uma novidade na história humana.

O incrível desenvolvimento econômico alcançado pelos Estados Unidos nesses 250 anos foi fruto, em grande parte, dessa estabilidade institucional. Outros arranjos políticos podem fomentar o crescimento econômico por algum tempo – a União Soviética, por exemplo, chegou a ser uma potência econômica –, mas somente os Estados Unidos passaram pelo teste do tempo. O seu sistema político, que une flexibilidade e estabilidade, conseguiu produzir prosperidade e conhecimento sem paralelo na história humana. Não é coincidência que a fronteira tecnológica esteja sendo desenhada, neste momento, por empresas americanas. Tem sido assim nos últimos cem anos, pelo menos.

Não deixa de ser uma ironia que os americanos estejam comemorando os 250 anos de sua independência sob um presidente tão corrupto e inconsequente como Donald Trump, que desafia abertamente os limites institucionais. Mas talvez essa seja precisamente a demonstração cabal da força do experimento americano, que consegue sobreviver apesar, e não por causa, dos seus presidentes.

Inadimplência recorde, de novo

Por O Estado de S. Paulo

Ajudas pontuais como o Desenrola podem até dar algum fôlego aos endividados, mas não resolvem questões estruturais que têm exigido juros em patamares tão elevados há tanto tempo

Dados do Banco Central (BC) expuseram uma realidade que boa parte dos brasileiros conhece bem. A inadimplência média nas operações de crédito total subiu de 4,6% em abril para 4,7% em maio, o maior nível da série histórica, iniciada em 2011. Decomposto, o indicador descreve um cenário igualmente ruim. Em operações de crédito livre, as dívidas com atraso há mais de 90 dias cresceram de 6,1% para 6,2%; nessa mesma modalidade, o calote entre as pessoas físicas avançou de 7,4% para 7,6%, e entre empresas aumentou de 4% para 4,1%.

Se parte desse fenômeno até pode ser atribuída a uma mudança na forma de contabilização da inadimplência pelo Banco Central, como a própria instituição reconheceu, é inegável que a pindaíba é generalizada entre pessoas físicas e jurídicas e os mais diversos setores da economia. Mesmo nas operações de crédito direcionado, que fazem uso de recursos da poupança e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para cobrar juros mais baixos, a inadimplência subiu de 2,7% para 2,8%.

Com uma taxa básica de juros tão elevada há tanto tempo, não havia mesmo como ser diferente. O governo já não disfarça a preocupação com o impacto que esse aperto pode causar nas eleições, mas prefere atuar nas consequências desse problema em vez de encarar suas causas de frente. Foi nesse espírito que decidiu lançar uma nova etapa do Desenrola no início de maio e, desde então, as dívidas renegociadas já somam cerca de R$ 15 bilhões.

A primeira edição do programa, lançada em 2023, teve efeito no curto prazo, mas foi uma questão de meses até que os encalacrados se afundassem em novas dívidas. O problema é que parte da população tem utilizado o crédito não como uma maneira de adquirir patrimônio, mas como um complemento de renda, o que impede que saiam desse círculo vicioso. Mesmo que o desemprego esteja em níveis historicamente baixos, linhas caras, como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal, consomem parcela cada vez maior dos rendimentos.

Em vez de incentivar mais prudência, o governo fez o oposto e estimulou a população a se endividar ainda mais. Além de anunciar a renegociação de dívidas de estudantes, agricultores familiares e micro e pequenas empresas, o Executivo lançou linhas para aquisição de caminhões, veículos e motocicletas. A mais recente iniciativa do Desenrola contemplou trabalhadores formais, informais e até quem estava com as contas em dia ou com atrasos inferiores a 90 dias.

Entre as empresas, a situação não é melhor. O pagamento de juros consumiu 45% da geração de caixa das 40 maiores varejistas do País no ano passado, o que explica tantas companhias tradicionais terem recorrido a reestruturações e recuperações judiciais e extrajudiciais. É demais para qualquer setor, especialmente para quem atua em um ambiente competitivo e de margens bastante apertadas.

Até mesmo o agronegócio, que historicamente tem acesso a taxas mais benevolentes em razão do Plano Safra, tem registrado aumento na inadimplência. Custos de insumos essenciais como diesel, defensivos, fertilizantes e fretes marítimos subiram consideravelmente, e parte do setor ainda padece de perdas ocasionadas por problemas climáticos, sobretudo no Rio Grande do Sul.

É difícil vislumbrar uma reversão desse quadro no curto prazo. Ajudas pontuais podem até dar algum fôlego aos endividados, mas não resolvem questões estruturais que têm exigido que os juros fiquem em patamares acima de dois dígitos há tanto tempo. Foi assim em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, e tem sido assim neste ano em que o presidente tentará a reeleição. Nada indica que será diferente caso seja eleito.

É o déficit no Orçamento que eleva a dívida pública e o custo para financiá-la, mas o governo Lula prefere culpar o Banco Central em vez de assumir sua responsabilidade por colocar as contas em dia. É papel do Executivo criar condições para que os juros sejam reduzidos, e não simplesmente praguejar contra o mercado financeiro como se não dependesse desse mercado para rolar sua dívida.

O Cantareira em alerta

Por O Estado de S. Paulo

Sistema muda de nível e captação de água cai, numa bem-vinda medida para proteger manancial

Por uma decisão da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas), o Sistema Cantareira passou, de junho para julho, do chamado nível de atenção para o nível de alerta. Na prática, isso quer dizer que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) terá de captar menos água do manancial responsável por abastecer quase metade dos 22 milhões de habitantes da região metropolitana.

A prudência dos órgãos reguladores é bem-vinda. Os índices pluviométricos do verão passado não foram capazes de repor o volume armazenado no Cantareira de modo que o sistema atravessasse o período de estiagem com tranquilidade. No dia 30 de junho de 2025, o volume de água marcava 47,3% e, um ano depois, caíra para apenas 39,9%. Como o Cantareira encerrou o mês abaixo dos 40%, houve então a adequada reclassificação pelas agências para julho.

Não é de hoje que o estresse hídrico aflige a população paulista. Mas, desde a pior crise de abastecimento, vivida em 2014 e 2015, as autoridades públicas têm agido para mitigar a escassez. E, agora, além da redução da captação de água de 31 metros cúbicos por segundo para 27 m³/s, outra ação emergencial será adotada: o Cantareira vai receber água do Rio Paraíba do Sul, o mesmo manancial que abastece parte da região metropolitana do Rio de Janeiro.

A mesma medida foi motivo de briga entre paulistas e fluminenses há dez anos. Desta vez, porém, prevaleceram o interesse público, o pacto federativo e o bom senso: os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e a União fecharam um acordo para atender ao pedido de transposição feito pela Sabesp. Em comunicado, os órgãos reguladores adotaram atitude republicana. Segundo as agências, o objetivo é reforçar a segurança hídrica “diante da persistência das condições de estiagem e da necessidade de ampliar a resiliência do Sistema Integrado Metropolitano”, que, no fim de junho, somando seus sete mananciais, estava em 52,5%.

Faz bem a Sabesp em buscar água onde for preciso, sobretudo porque há a expectativa de que o regime de chuvas continue abaixo da média e de que o El Niño agrave o problema. Acerta também a empresa ao manter há quase um ano a redução da pressão das 19h às 5h, a fim de minimizar o impacto dos vazamentos. É inacreditável, mas cerca de 30% da água tratada pela Sabesp ainda se perde na tubulação. Soma-se ainda o desperdício cometido por consumidores que ignoram a realidade e insistem em hábitos irresponsáveis e inconsequentes, como lavar calçada, quintal ou carro com mangueira. Esse tipo de abuso deveria ser coibido com severas multas.

É digno de nota o esforço do governo de São Paulo, com iniciativas como a privatização da Sabesp, os projetos de recuperação de mananciais e de preservação ambiental e a gestão racional dos recursos hídricos. Mas é claro que há ainda muito a ser feito: são necessários investimentos pesados para conter as perdas, universalizar o acesso à água e completar as interligações dos sistemas de abastecimento. Os paulistas precisam de segurança hídrica.

Cooperação policial deve ser política de Estado

Por Correio Braziliense

Em vez de importar a retórica da "guerra ao terror" ou o populismo penal de inspiração bukelista, o país precisa de uma estratégia de Estado para desarticular as economias do crime dentro das balizas constitucionais

A operação da Polícia Federal (PF) desta sexta-feira, deflagrada na esteira das sanções e das investigações conduzidas pelos EUA sobre a lavagem de dinheiro do PCC em território americano, expõe duas verdades sobre o crime organizado: as facções brasileiras já operam como redes transnacionais de negócios ilícitos, capazes de mover recursos entre países, empresas de fachada, criptomoedas, contas bancárias e laranjas com notável sofisticação; e o combate a esse fenômeno depende, cada vez mais, de cooperação internacional estreita, tecnicamente qualificada e politicamente protegida do ruído ideológico que hoje contamina as relações entre Brasília e Washington. Deve ser política de Estado.

A ação da PF foi acelerada depois de o Departamento do Tesouro dos EUA anunciar sanções contra Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontados como operadores de lavagem de recursos ligados ao PCC. Segundo o Tesouro, Shimada atuava como elo entre integrantes do PCC na Flórida e o núcleo paulista da facção, tendo movimentado mais de US$ 30 milhões em dinheiro ilícito, inclusive por meio de criptomoedas.

Entretanto, a PF fala em uma estrutura financeira muito mais ampla, com análise preliminar de mais de R$ 10 bilhões em transações vinculadas ao esquema. O dado mais relevante é a natureza da operação: trata-se de uma organização dedicada a transformar dinheiro sujo em capital aparentemente lícito, por meio de brechas do sistema financeiro e assimetrias de jurisdição entre os países. Esse ponto é central.

A expansão internacional do PCC e do Comando Vermelho não se resume à exportação da violência das periferias brasileiras para outros mercados. O centro de gravidade dessas facções é econômico. O narcotráfico continua sendo o motor principal, mas ele já se conecta a uma constelação de atividades criminosas — entre elas, contrabando, roubo de cargas, exploração de combustíveis, mineração ilegal e infiltração em contratos públicos.

A facção não busca apenas dominar territórios; busca controlar fluxos de caixa, canais logísticos, proteção institucional e influência política. É isso que torna insuficiente tanto a leitura romântica que ainda subestima o problema quanto a tentação de enquadrar automaticamente toda organização criminosa como grupo terrorista. Isso pode até produzir instrumentos úteis de estrangulamento financeiro, sobretudo ao ampliar o alcance de sanções e o monitoramento de redes empresariais associadas nos EUA, mas também acarreta riscos. 

O primeiro é diplomático: sem coordenação entre autoridades brasileiras e norte-americanas, medidas unilaterais podem atrapalhar investigações em curso. O segundo risco é jurídico e político: o rótulo de terrorismo, quando aplicado a organizações cujo objetivo central é o lucro e não a ação político-ideológica típica do terrorismo clássico, abre margem para abusos, para extraterritorialidade excessiva e até para pressões indevidas sobre bancos e empresas brasileiras que não dispõem de capacidade investigativa comparável à de um Estado.

O Brasil tem um interesse objetivo em aprofundar a cooperação com os EUA sem terceirizar sua política de segurança nem aceitar tutelas. A agenda correta é a  integração de inteligência financeira, o compartilhamento tempestivo de dados, o rastreamento de criptoativos, a cooperação policial e judiciária, entre outras medidas. Em vez de importar a retórica da "guerra ao terror" ou o populismo penal de inspiração bukelista, o país precisa de uma estratégia de Estado para desarticular as economias do crime dentro das balizas constitucionais. Livre da partidarização e do efeito tóxico das disputas eleitorais, aqui e nos Estados Unidos.

Pré-campanha entra em nova fase

Por O Povo (CE)

Os candidatos poderiam oferecer ao mundo um exemplo de civilidade, reconhecendo a integridade do sistema eletrônico e comprometendo-se a respeitar os votos que os brasileiros digitarão nas urnas

A partir de hoje, as pré-campanhas entram em nova fase, com restrições mais severas, conforme a Lei Eleitoral (nº 9504/97). Até agora, os pré-candidatos tinham liberdade para participar de qualquer atividade, inclusive comparecendo a inaugurações de obras — e de fazer proselitismo político. Era vedado apenas o pedido explícito de voto, como "vote em mim" ou "eleja sicrano", referindo-se a algum aliado.

Apesar de proibidos de fazer menção direta à candidatura, os pré-candidatos detentores de cargos públicos intensificaram a inauguração de obras e "entregas" no período anterior à proibição, o que pode ter-lhes conferido alguma vantagem. Destaque-se que pré-candidatos de todas as correntes políticas utilizaram-se dessa prática.

A partir de agora, ficam mantidas essas restrições, acrescidas de outras exigências, como o impedimento de pré-candidatos participarem de inaugurações de obras públicas. Ficam vetadas também a publicidade institucional nos meios de comunicação, inclusive em sites ou redes sociais, ou pronunciamentos em cadeias de rádio e televisão. Nomeações, exonerações e liberação de verbas da União para estados e municípios e dos estados para municípios também ficam proibidas.

Diante do cenário tenso que se desenrola em todo o País, para o qual muito contribui a chamada "polarização", principalmente entre os dois principais pré-candidatos à Presidência, espera-se que os disputantes, em todas as esferas, respeitem os limites estabelecidos pela legislação eleitoral.

É claro que haverá uma vigilância de um candidato sobre outro para verificar o cumprimento da lei. No entanto, a tarefa não deve ser deixada exclusivamente a eles, pois tendem ao exagero, levando à chamada "judicialização" da política. Por isso, é fundamental a atuação rigorosa das instituições encarregadas da fiscalização, como o Ministério Público Eleitoral — e também dos cidadãos.

O Brasil é um exemplo de organização eleitoral, tanto pelas leis que procuraram oferecer oportunidades equivalentes a todos os candidatos, quanto pelo seu sistema de urnas eletrônicas, que propicia a contagem de votos rapidamente, evitando constatações, como se vê em diversos países que ainda contam os votos manualmente.

Em vista disso, os candidatos poderiam oferecer ao mundo um exemplo de civilidade, reconhecendo a integridade do sistema eletrônico e comprometendo-se a respeitar os votos que os brasileiros digitarão nas urnas.

No dia 16 de agosto começa oficialmente a campanha eleitoral, quando os candidatos poderão pedir votos abertamente e fazer campanha sem restrições, observada a Lei Eleitoral. Que vença o que obtiver mais votos.

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