O Estado de S. Paulo
Ao violar o sigilo da fonte, Moraes fez um favor a Flávio Dino e um desfavor à democracia
É inacreditável a insistência de ministros do
Supremo para tentar confirmar as acusações equivocadas do governo Donald Trump
de que Alexandre de Moraes, o STF e o próprio Brasil não são democráticos.
Moraes não para de atrair chuvas e trovoadas contra si e contra um poder vital
para a democracia que ele tanto defendeu.
A última do ministro foi excessiva e desnecessária: mandar vasculhar o repórter e a fonte da informação de que o também ministro Flávio Dino e sua família usam carro oficial e blindado do Estado quando estão no Maranhão. A fonte vazou e o repórter publicou dentro das regras e da rotina do jornalismo.
Independentemente de quem sejam o repórter e
a fonte, se têm ou não credibilidade ou folha corrida, o que importa é que a
informação é verdadeira, não foi inventada. Aliás, especialistas em direito nem
veem nada demais no uso de carro oficial por um ministro do STF, que tem boa
imagem, foi governador e sofre ameaças.
Ao jogar a polícia em cima do jornalista Luís
Pablo Almeida, apreender seu celular e dali quebrar o sigilo da fonte – o
ex-secretário de Estado Raimundo Cutrim –, Moraes fez um favor para o colega
Flávio Dino e um desfavor à institucionalidade e à democracia, numa coleção de
erros que se distanciam do estado democrático de direito.
Erros: jornalista que erra é sujeito a
processos normais, por exemplo, por injúria; Luís Pablo e sua fonte não têm
foro no STF; liberdade de imprensa e sigilo da fonte não são privilégios, estão
na Constituição; Moraes usou o inquérito das fake news, polêmico e “eternizado”
em favor dos próprios ministros; por último, tudo para servir a um colega.
Moraes, aliás, já tinha aberto investigação
em seu próprio favor, para descobrir a fonte que revelou o contrato de R$ 130
milhões do escritório da sua família com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Também não era fake news, mas um fato que Moraes jamais desmentiu.
Imagine-se se o STF e a PF tivessem
perseguido as fontes e os jornalistas investigativos que vêm informando a
sociedade sobre escândalos como Petrolão, golpe, rachadinhas, INSS,
“empréstimos” milionários, Master, Dark Horse, viagens e piscinas... Não
haveria mais fontes, jornalismo investigativo, nem mesmo jornalismo e
estaríamos não numa democracia, mas num regime autoritário, em que castas podem
tudo, quem denuncia é penalizado e a verdade é sonegada aos cidadãos.
Moraes cria um precedente grave. Se vale para
ministros do STF, por que não para todo o Judiciário, o Congresso e o Planalto?
Adeus jornalismo! Poderosos de todos os quilates e ideologias dormirão em paz e
Trump poderá dizer: “quem ri por último ri melhor”.

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