sexta-feira, 14 de agosto de 2026

De volta para o futuro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Desafio de presidenciáveis é atrair público para exibir força no início da campanha

A corrida presidencial vai começar em clima de déjà vu. Na largada oficial da campanha, Lula e Flávio Bolsonaro tentarão recriar cenas do passado. O presidente voltará a São Bernardo do Campo para relembrar as greves do ABC. O senador vai à Praia de Copacabana, onde espera reviver os tempos de glória do pai.

O ato de Lula foi batizado de “Onde tudo começou”. A ideia é lotar o estádio da Vila Euclides, palco das assembleias de metalúrgicos que o projetaram na cena nacional. Os marqueteiros querem recriar as imagens do líder no meio do povo, como se caminhasse sobre a multidão. Na versão original, ele discursou aboletado numa mesa de escritório. No remake deste domingo, poderá andar sobre uma passarela, como um astro da música pop.

Não será a única diferença entre 1979 e 2026. Nas assembleias que desafiaram a ditadura, Lula arengou milhares de operários de braços cruzados. Agora os trabalhadores darão lugar a políticos e militantes, em atmosfera festiva e sem a ameaça de borrachadas da polícia. O partido organiza caravanas de outros estados para garantir quorum. Tudo para evitar o fiasco de público que irritou o presidente em seu último 1º de Maio no palanque, dois anos atrás.

No Rio, Flávio tentará repetir as aglomerações bolsonaristas iniciadas em 2018. Quer se mostrar capaz de liderar a tropa do capitão, que cumpre prisão domiciliar pela tentativa de golpe. Em convocação nas redes, o senador diz ter escolhido começar a campanha na cidade onde nasceu e cresceu. Faltou dizer que se mudou para Brasília, onde habita uma mansão de 1.100 m² de área construída no Lago Sul.

Para divulgar o comício, o PL voltou a usar inteligência artificial, em vídeo que mistura imagens de arquivo a apoiadores imaginários. O desafio de Flávio é o mesmo de Lula: produzir cenas reais, com gente de verdade, para exibir força política na propaganda de TV.

Atrás nas pesquisas, o goiano Ronaldo Caiado e o mineiro Romeu Zema escolheram jogar em casa. Na impossibilidade de lotar um espaço público no eixo Rio-SP, começarão a campanha com carreatas no interior de seus estados.

Renan Santos promete cantar e tocar violão em frente à Faculdade de Direito da USP, que abandonou sem se formar. Segundo aliados, a performance será inspirada em Bob Dylan. O autor de “Blowin’ in the wind” se espantaria com a voz e com as ideias do novo imitador.

 

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