terça-feira, 1 de março de 2022

Merval Pereira: Carnaval, carnavais

O Globo

‘Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o carnaval.’ Essa frase, atribuída ao barão do Rio Branco, é perfeita para explicar por que o carnaval aconteceu mesmo tendo sido oficialmente adiado devido à pandemia da Covid-19. O mesmo se deu há 110 anos, devido justamente à morte do próprio barão, o então ministro do Exterior, José Maria Paranhos Júnior, um apaixonado por carnaval e pela cultura brasileira.

No mês do centenário de morte do barão, que, aliás, manteve o título mesmo depois de proclamada a República, publiquei um texto na edição eletrônica do GLOBO que merece ser relembrado. O barão morreu no dia 10 de fevereiro de 1912, quando estava tudo pronto para o carnaval no dia 17 de fevereiro. O governo decretou luto oficial e transferiu o carnaval para o dia 6 de abril, o mesmo mês em que acontecerá nosso carnaval oficial.

Assim como há 110 anos, o carnaval da pandemia aconteceu em festas de rua, em lugares fechados e até mesmo com convites pagos, em vários estados e cidades. O adiamento do carnaval só aconteceu essas duas vezes, por razões de tragédias. A nova cepa Ômicron inviabilizou o carnaval oficial deste ano, assim como a morte do barão do Rio Branco provocou uma comoção nacional, com milhares de pessoas chorando na fila de seu velório. Muitos blocos desfilaram na data marcada, embora as lojas e repartições públicas estivessem fechadas e, depois do luto, outro carnaval começou.

Carlos Andreazza: Ustra nos costumes, Tarcísio na economia

O Globo

Bolsonaro palestrou para o mercado financeiro. Estava bravo. Tom em que apresentou o tripé por meio do qual pretende ser competitivo — e creio que será — em 2022: radicalizar contra o “establishment”, atacando sobretudo a credibilidade da urna eletrônica, para alimentar sua base de apoio sectária; radicalizar na sociedade com Ciro Nogueira/Arthur Lira/Valdemar Costa Neto, de modo a colher em votos a perversão do Orçamento em orçamento secreto para reeleição; e radicalizar na mobilização do sentimento antilulopetista, ora adormecido.

Palestrou para a mesma plateia que o ovacionara quatro anos atrás, então pré-candidato, enquanto desfilava sua agenda econômica: valorizar a banana do Vale do Ribeira, destinada a competir com a do Equador, e investir na transformação da Baía de Angra numa nova Cancún. Já havia Paulo Guedes, embora ausente do evento. Ausente, mas presença o suficiente — fiador o bastante — para que não houvesse dúvida, apesar das bananas e de suas cascas: Bolsonaro, “mito, mito!”, já era, meses antes do primeiro turno, o escolhido.

Míriam Leitão: Rússia sitiada na economia

O Globo

O ataque do Ocidente à Rússia de Vladimir Putin, na área financeira, foi sem precedentes, e o país foi arremessado de volta à crise de 1998, quando as moedas dos países emergentes sofreram colapsos seriais. Certamente o presidente Vladimir Putin subestimou a reação dos grandes países, nos quais depositou suas reservas. No fim do dia, o quinto da guerra que declarou contra a Ucrânia, seu Exército estava às portas de Kiev, seu Banco Central estava de joelhos, e sua população estava numa corrida contra o rublo. Putin acumulou US$ 630 bilhões de reservas para descobrir que o Manifesto Comunista, que deve ter lido nos tempos de espião soviético, continha o melhor alerta: “Tudo o que era sólido desmancha no ar”.

Luiz Carlos Azedo: Não adianta ficar Putin, a Ucrânia já ganhou

Correio Braziliense

Política e moralmente, o presidente russo já está derrotado; pode até ocupar Kiev, a capital ucraniana e berço histórico da própria Rússia, porém, cedo ou tarde, terá que bater em retirada

O samba vencedor de 1991 do Bloco de Segunda foi um dos melhores do Carnaval carioca daquele ano, empolgando a multidão que desfilou pelas ruas do Humaitá já na concentração dos foliões, a área de descarga dos caminhões que abastecem a Cobal de Botafogo. Era o início da chamada Era Collor de Mello, o breve, que havia sido eleito com a discurso de por o Brasil em sintonia com o mundo moderno. Progresso, civilização, o jovem presidente propunha ao Brasil retomar o rumo do futuro, a partir da abertura comercial e da ultrapassagem do velho modelo de substituição das importações pela integração competitiva à economia mundial.

Estado mínimo, privatizações, modelo de acumulação flexível, sua agenda neoliberal era polêmica, mas fracassou. O que não faltava para os blocos de rua, que ressurgiam com força por todo o Rio de Janeiro, era assunto para sambas e marchinhas. Por exemplo, o confisco da poupança, que fez naufragar o plano econômico da então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, e do presidente do Banco Central (BC), Ibrahim Eris.

Eliane Cantanhêde: Dicotomia ou esquizofrenia?

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro fala uma coisa, o Itamaraty faz outra. Neutralidade ou equilíbrio?

O mundo acompanha, estupefato, a dicotomia insana do Brasil diante da invasão russa na Ucrânia, que terá drásticas consequências por toda a parte. O presidente Jair Bolsonaro diz uma coisa, o Itamaraty faz outra. Ele anuncia “solidariedade” à Rússia e “neutralidade”, mas o Brasil votou contra a Rússia na ONU e o chanceler Carlos França corrigiu ontem na Globonews: a posição do Brasil “é de equilíbrio, não de neutralidade”.

Uma vez negacionista, sempre negacionista, e o Brasil tem o azar, ou a imprudência, de ter um presidente que deu de ombros para a pandemia, as vacinas, as enchentes na Bahia, a Amazônia em chamas, a Educação e a Cultura e agora trata de forma rasa, com uma ligeireza espantosa, uma guerra que atinge todo o mundo e terá altos custos para os brasileiros.

Felipe Salto*: Vícios privados, malefícios públicos

O Estado de S. Paulo.

Qualquer reforma administrativa deve começar por este ponto: a extinção de todos os privilégios

É preciso reverter a perda de bem-estar social derivada da captura do Estado por verdadeiros caçadores do erário. É hora de escancarar os custos das políticas públicas, para que a sociedade possa colocar na balança e comparar, por exemplo, uma isenção fiscal para um grupo de empresas ao pagamento de uma transferência social. Surrada, mas inescapável, a palavra chave é transparência. E, a partir dela, ações de governo para rever gastos ruins e abrir espaço para o que importa.

A ideia de que a ação autocentrada pode levar ao progresso econômico tem quase dois séculos e meio. É a lógica da “mão invisível”, de Adam Smith, segundo a qual as forças da oferta e da procura seriam vetores suficientes para o funcionamento da economia, mesmo na presença do egoísmo, digamos assim. O bom funcionamento dos mercados é, de fato, a base para estimular a atividade produtiva, que gera emprego e renda.

Hélio Schwartsman: Aventura está saindo caro para Putin

Folha de S. Paulo

No front econômico, as sanções vieram muito mais duras do que se antecipava

No cenário dos sonhos de Putin, suas forças já teriam tomado Kiev, a resistência dos ucranianos seria mínima e as sanções ocidentais não teriam ido muito além do embargo de alguns produtos. O governo do presidente ucraniano Volodimir Zelenski já teria caído, e o Kremlin estaria instalando um regime fantoche para substituí-lo. Se isso tivesse acontecido, o autocrata poderia gabar-se de ter feito a Rússia voltar a ser uma superpotência.

Joel Pinheiro da Fonseca: A 'complexidade' da questão russa não deve nos impedir de ver o óbvio

Folha de S. Paulo

Há quem busque artifícios para defender o lado moralmente errado

"Que falta de sofisticação condenar Putin! Não sabe que a situação no leste europeu é complexa?" Sem dúvida, é. A realidade é complexa, não há nada puramente bom ou puramente mau. Em meio aos incontáveis tons de cinza, contudo, é preciso fazer escolhas, e essas escolhas não são todas equivalentes.

Há quem recorra à complexidade para aprofundar nosso entendimento —e não tenhamos dúvida: tudo é complexo, até comprar pão na padaria. E há aqueles que buscam nos afundar em complexidades para defender —sem a coragem de admiti-lo— o lado moralmente errado.

Como bem apontado por Yuval Harari em artigo para a The Economist (9.fev), a ordem global liberal marcou uma mudança de valores: a conquista territorial deixou de ser bem-vista. A guerra é uma tragédia e não a aspiração legítima de uma sociedade. Desde 1945, nenhuma nação internacionalmente reconhecida foi apagada por conquista militar externa. É por isso que o mundo inteiro se levanta em coro para apoiar a Ucrânia, mesmo que intelectuais continuem a adular Moscou.

Alvaro Costa e Silva: Mentiras afrontosas

Folha de S. Paulo

O livro Limonov, de Emmanuel Carrère, lança luz sobre a invasão da Ucrânia

A invasão da Ucrânia me recordou "Limonov", o livraço de Emmanuel Carrère publicado em 2011. Carrère esbarrou num personagem real —Eduard Veniaminovich Limonov (1943-2220), ucraniano de nascimento cuja história vai da batalha de Stalingrado até os destroços do pós-comunismo na Rússia— que é o sonho de todo romancista.

O autor sente-se obrigado a explicar: "Não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço". Também não é uma biografia. Está mais para reportagem selfie. Neto de imigrante georgiano que chegou à França nos anos 1920, Carrère aproveita a trajetória de Limonov para falar de si mesmo e das dificuldades em entender o mundo multipolar de seu protagonista. O cara era um enigma, um exemplo das incertezas e confusões da época atual. Como o ataque a Kiev, que não opõe combatentes de cores azuis e vermelhas; aponta uma zona cinzenta no mapa.

Cristina Serra: Mineração artesanal? Conta outra

Folha de S. Paulo

Se essa indústria fosse séria, condenaria a agenda que beneficia criminosos e pagaria o justo a atingidos pelos desastres

A mais recente novidade na fábrica de mentiras do dicionário bolsonarista é a tal da mineração artesanal, objeto de um decreto presidencial para formulação de políticas públicas para o setor. O decreto constrói uma realidade inexistente, como se a mineração no Brasil ainda estivesse no tempo da bateia.

O decreto é mais um exemplo da persistência do governo em legalizar práticas criminosas, como o garimpo em terras indígenas. Sobre esse assunto, é de grande relevância a investigação feita pelo Instituto Escolhas, "Raio X do Ouro", a respeito da extração e comercialização do ouro no Brasil (2015-2020). O relatório conclui que quase metade (229 toneladas) da produção nacional do período tem indícios de origem ilegal.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Fala de Bolsonaro sobre a Ucrânia envergonha Brasil

O Globo

Depois de dias de silêncio, o presidente Jair Bolsonaro aproveitou uma entrevista coletiva no último domingo para proferir suas primeiras declarações a respeito da guerra na Ucrânia — e, como esperado, foi extremamente infeliz em seu pronunciamento. Bolsonaro afirmou que o Brasil “não vai tomar partido”, defendeu as razões alegadas por Vladimir Putin para o ataque russo e disse que o Brasil adotaria uma posição neutra diante do conflito.

Nenhuma palavra de solidariedade aos civis ucranianos atingidos pelas armas de Putin (só ontem ele falou em oferecer vistos humanitários a refugiados). Nenhuma crítica à agressão russa ao território soberano da Ucrânia. Em vez disso, Bolsonaro fez apenas uma menção irônica ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky: “O povo confiou em um comediante para traçar o destino da nação”. Zelensky tem sido aplaudido no mundo todo por ter preferido cerrar fileiras com seus soldados na defesa do país a exilar-se.

Poesia | Joaquim Cardozo: Aquarela

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela;
Cheiro de chão que amanhece.
Estavas sob a latada
Quando te abri a janela.

Cheiro de jasmim laranja
Pelos jardins anoitece;
Junto a papoulas dobradas,
Num canteiro florescendo,
A tua saia singela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Não sei se és tu, se eras outra,
Não sei se és esta ou aquela,
A que não quis nem me quer,
Fugindo sob a latada
Nessa tarde de aquarela.

Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

Música | Alceu Valença - Madeira do Rosarinho (Capiba)

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto*: Putin em tempo de Bolsonaro: a esquerda brasileira e os abismos de duas esquinas

O fato incontornável da semana, candidato a ter longa vida, é a agressão militar da Rússia contra a Ucrânia, ato cujas causas e consequências cabe a análises especializadas detectar e estimar e cujo alcance destrutivo, nos sentidos político e humanitário, nenhum agente que exerça ou aspire exercer autoridade política, em qualquer lugar do mundo, tem direito de ignorar ou relativizar. É um novo desafio que se apresenta aos democratas brasileiros, já às voltas com uma devastação promovida por um autocrata interno. Palavras e gestos escolhidos para uma situação podem repercutir sobre a outra.

É imperativo que analistas voltados à compreensão dos cenários anterior e posterior à agressão russa usem informação qualificada, multilateral, o mais isenta possível de vieses e produzam interpretações equilibradas, dotadas de senso de objetividade. Tão imperativo quanto isso é não faltar, por outro lado, em declarações de líderes, partidos e outros agentes da política, a capacidade de se colocar, com clareza e senso de urgência, em oposição a um gesto político-militar imediato e concreto que liquida, por decisão unilateral do governo de um país, instituições e vidas humanas que importam a todos, seja no sentido da solidariedade entre indivíduos e entre povos, seja no da autopreservação de cada pessoa, ou país. São igualmente problemáticas, numa hora dessas, a contaminação ideológica de quem se propõe a ocupar o lugar de analista e a ausência, no caso de agentes políticos, da disposição subjetiva de encarar a agressão militar sob a orientação primordial de valores.

Nenhuma posição política realista precisa ou deve ser cancelada em emergências assim. Ao contrário, nessas situações-limite elas são ainda mais requisitadas, porém, o que delas se requer, como uma de suas premissas, é que não confundam uma saudável recusa à ideologia com sua diluição num varejo destituído de causas, o que denota, não política realista, apenas uma política pequena. Daí que a condenação da agressão não comporta meias palavras da parte de quem tem responsabilidade política.

Fernando Gabeira: Aventura humana do vírus à guerra

O Globo

Quando a pandemia entra em declínio, sopram ventos de guerra. A Rússia invadiu a Ucrânia e rompeu com a esperança global de que as fronteiras não sejam definidas pela força militar, mas por negociações diplomáticas.

Em 2018, estive em Moscou. Era Copa do Mundo, o que não impediu que eu conversasse com alguns russos sobre outros temas. A Ucrânia, para quase todos com quem falei, era tida como um pedaço da Rússia, uma perda dolorosa.

Putin decidiu completar a tarefa que iniciou em fevereiro de 2014, anexando a Crimeia. É indiscutível sua força militar. No entanto nem sempre a força bruta triunfa, apesar da admiração dos chamados realistas. Funcionou na Crimeia, não funcionou no Afeganistão.

Rússia e China parecem unidas no momento. Cada vez mais, cresce sua importância diante de um Ocidente perplexo. Ambas têm uma visão específica sobre democracia, direitos humanos, liberdades individuais.

Miguel de Almeida: No cercadinho com o inimigo

O Globo

Vivemos o tempo dos homens ocos, como lá atrás decretou T.S. Eliot. Também o aguçamento das mentiras, na visão de Marcel Proust ao ler as falsas notícias de vitórias francesas na Primeira Guerra Mundial. Em fuga das armadilhas fáceis das generalizações, Thomas Mann discordava de quem colocava o nazismo em igual patamar do comunismo.

— O nazismo é apenas o niilismo diabólico — teria declarado em 1949, alertando ainda que não era comunista.

Os três escritores passaram por guerras — Proust apenas pela Primeira Guerra (morreu em 1922). Já morando em Londres, Eliot, que era americano, permaneceu como professor e, em seu posto bancário, sem muitos percalços ao longo dos dois conflitos mundiais, somente decepcionado com a maldade humana. Basta ler “A terra desolada” e escutar seu mergulho no desencanto.

Pablo Ortellado: O Telegram cedeu

O Globo

Após ultimato do ministro Alexandre de Moraes, plataforma finalmente cumpriu uma decisão judicial brasileira

Depois de muita especulação sobre o que fazer com o Telegram, o ministro Alexandre de Moraes deu um ultimato e a empresa finalmente cumpriu uma decisão judicial brasileira. Em sua decisão, o ministro determinou a suspensão do canal do ativista bolsonarista Allan dos Santos, sob pena de multa de R$ 100.000 diários e a suspensão do aplicativo de mensagens no país, inicialmente por 48 horas. O Telegram, que sistematicamente se negava a atender decisões judiciais, cedeu e bloqueou no Brasil os canais de dos Santos. A mudança de postura da empresa terá grandes repercussões para o processo eleitoral no Brasil.

Marcus André Melo*: Bilhões e eleições

Folha de S. Paulo

Existe financiamento de partidos e campanhas em outras democracias?

Sempre houve muito dinheiro nas nossas eleições, e elas estão entre as mais caras do mundo. "Os gastos partidários são astronômicos, as despesas dos candidatos, elevadíssimas", escreveu Hermes Lima, em 1955.

Hoje estão ainda maiores; e a fatura continua a ser socializada. Até 2015, através de doações de empresas (ex. sobrepreço de contratos públicos); agora através de fundos públicos bilionários. A mudança tem elementos positivos —diminuição da influência corporativa sobre as eleições— mas os valores envolvidos, não. Remédio e veneno variam apenas na dose.

Celso Rocha de Barros: Esquerda e direita diante da Ucrânia

Folha de S. Paulo

Bolsonaro gostaria de unir-se à Otan, como os ucranianos, e instaurar uma ditadura como a de Putin

No que se refere à invasão da Ucrânia por tropas russas, duas coisas devem ser óbvias para a esquerda latino-americana: em primeiro lugar, ninguém precisa nos explicar que os Estados Unidos também são capazes de agressões imperialistas. Em segundo lugar, ninguém aqui aceita a ideia de que potências nucleares têm o direito de invadir países vizinhos que tentam sair de suas áreas de influência.

A Ucrânia é um país soberano que deve ter suas fronteiras preservadas.

Qualquer outra posição dentro da esquerda está errada. Não, uma vitória russa não será um triunfo do anti-imperialismo; será uma vitória do imperialismo russo.

Mirtes Cordeiro*: A paz e a liberdade como escudos para fazer a guerra

Sobre a guerra deflagrada contra a Ucrânia em pleno século XXI, o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, com sua grande sabedoria, fruto da experiência de vida, nos alerta a todos que querer resolver conflitos entre homens que habitam o mesmo espaço neste mundo, através da guerra, é indicativo de que ainda estamos na pré-história, apesar dos grandes avanços tecnológicos.

De 1945, quando acabou a Segunda Guerra Mundial, até a queda do Muro de Berlim (09.11.1989) – anunciando o fracasso da experiência do socialismo real instituído pela União Soviética (URSS), criada em 1922 por Lenin, então líder da Revolução Bolchevique -, a Europa ficou dividida entre o leste, que “pertencia” à União Soviética liderada pela Rússia, e o oeste, que “pertencia” aos países do ocidente participantes e vencedores da Segunda Guerra (EUA, Reino Unido e França).

O sentimento era de pertencimento mesmo, dados os níveis de obediência e restrições das quais se tinha notícia.

Ana Cristina Rosa: Com mulheres na cabeça

Folha de S. Paulo

voto feminino no Brasil completou 90 anos na semana passada. Desde que a professora Celina Guimarães se alistou para votar em Mossoró, em 1927, e Alzira Soriano, primeira mulher eleita para um cargo público no país, assumiu a Prefeitura de Lajes, em 1929, ambos municípios do Rio Grande do Norte, muita coisa mudou. Em que pesem os avanços legais, o cenário nacional segue desfavorável e a participação das mulheres na política ainda é irrisória considerando o perfil demográfico brasileiro.

Denis Lerrer Rosenfield*: O Estado de bem-estar social

O Estado de S. Paulo

É uma falácia considerar que o valor da liberdade é representado pela direita, enquanto o da igualdade o seria pela esquerda

A discussão política acerca da esquerda e da social-democracia no Brasil é frequentemente confundida com o debate sobre a noção de Estado de bem-estar social, como se este fosse fruto da esquerda. Note-se, a respeito, que a trajetória histórica de constituição desta forma de Estado foi liderada por vários partidos, adotando todos os valores da democracia e da igualdade. Na Itália, sucederam-se vários governos de orientação democrata-cristã, muitas vezes com apoio dos comunistas e socialistas. Na Alemanha foram governos também de orientação democrata-cristã, alternando-se no poder no transcurso de décadas com governos social-democratas. Nada de essencial mudava nesta alternância política, salvo em questões menores, nenhuma delas comprometendo as liberdades, a democracia, as medidas sociais e a economia de mercado. Na França, governos de orientação gaullista se alternaram com governos socialistas, sem que os pilares do Estado fossem comprometidos. Em nenhuma destas alternâncias em diferentes países adversários políticos foram tratados como inimigos a serem eliminados.

Luiz Carlos Azedo: Ocidente e Oriente estão em luta pela hegemonia na Ucrânia

Correio Braziliense, 27.2.2022

O Estado de bem-estar social, que fora fundamental para suplantar o chamado “socialismo real”, entrou em crise e a democracia tem dificuldades de acompanhar as mudanças de uma economia globalizada

Quando Alexander Hamilton exortou os norte-americanos a decidirem se “as sociedades humanas são mesmo capazes de constituir um bom governo, com base na reflexão e na escolha, ou se estão condenados para sempre a ter organizações políticas que são fruto do acidente e da força” (O Federalista, nº 1), em 1787, no debate que levou à consolidação a Constituição dos Estados Unidos, traçou o curso da linha divisória que separa o Ocidente democrático do resto do mundo. Os países que foram capazes de seguir esse caminho constituíram bons governos e foram adiante, ampliando consideravelmente a sua influência mundial; os que tomaram outro rumo, como a Alemanha nazista e, mais recentemente, a antiga União Soviética, amargaram o declínio, a disfunção e/ou o colapso.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Senado acerta ao tomar iniciativa de regular criptoativos

O Globo

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado fez bem ao aprovar na semana passada um projeto de lei sobre transações com criptomoedas. O projeto tem dois pontos- chave: 1) estabelece que as prestadoras de serviços de criptoativos só poderão operar no país após receber autorização do Banco Central (BC) ou de outro órgão indicado pelo Executivo; 2) altera o Código Penal para tipificar fraudes com serviços de ativos digitais. A expectativa é que os investidores se sintam mais protegidos e que aqueles até agora reticentes possam começar a aplicar nesses ativos com segurança.

O universo das criptomoedas nasceu descentralizado e avesso à regulamentação. Alimentado por um sonho libertário, atraiu um sem-número de golpistas e o crime organizado, interessado em novas formas de lavar o dinheiro obtido como produto de atividades ilegais.

Muitos investidores, inebriados pela promessa dos altos retornos, se tornam presas fáceis dos faraós de pirâmides financeiras sem a menor sustentação. Como os brasileiros podem testemunhar por experiência própria, os golpes podem ser virtuais, mas os prejuízos logo assumem a forma de reais no saldo bancário.

Poesia | Manuel Bandeira: Poema de uma quarta-feira de cinzas

Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…
o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,
Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...

Música | Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo: Banho de Cheiro

 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: Brasil em cima do muro

O Globo

A guerra da Ucrânia será “longa”, segundo o presidente da França, Emmanuel Macron, e o Brasil terá que tomar uma posição firme na medida que os países democráticos ocidentais vão assumindo cada vez mais a defesa da Ucrânia, enviando até mesmo armamentos.

Ao mesmo tempo em que assinou a declaração do Conselho de Segurança da ONU contrária à invasão russa, o Brasil se recusou a apoiar uma moção da OEA no mesmo sentido, seguindo países como Nicarágua e Cuba. A alegação técnica é que a Ucrânia não está nas Américas, o que é verdade, mas o apoio simbólico ao país invadido seria um gesto  que refletiria a posição brasileira com mais firmeza, deixando de lado a sensação de equilibrismo numa situação que não admite rodeios.

Putin já  afirmou que o fim da União Soviética foi a "desintegração da Rússia histórica". A escalada de Putin, na tentativa de conquistar toda a Ucrânia, reflete seu pensamento geopolítico. Ele já declarara anteriormente que o fim da União Soviética foi "o maior desastre geopolítico do século 20".  Segundo ele, 25 milhões de russos nos novos países independentes “de repente se sentiram desconectados da Rússia, uma grande tragédia humanitária".

Eliane Cantanhêde: Na paz e na guerra

O Estado de S. Paulo

A Rússia invade a Ucrânia, o mundo reage e Bolsonaro está em outro planeta

Enquanto a Bahia afundava em dor, lama e mortes, o presidente Jair Bolsonaro gastava R$ 900 mil para andar de jet ski no lindo mar azul de Santa Catarina. Enquanto o mundo afunda em ameaças e incertezas com a guerra na Ucrânia, Bolsonaro faz motociatas por aí. Para que serve um presidente? Para curtir a vida e fazer campanha?

Na definição do ex-chanceler Celso Amorim, a posição brasileira é “esquizofrênica”. Bolsonaro lava as mãos, como quem não tem nada a ver com isso, o vice Hamilton Mourão radicaliza, defendendo o “uso da força” contra a Rússia, e o Itamaraty faz contorcionismos em busca de racionalidade.

Rolf Kuntz: Bolsonaro, Orbán e Putin

O Estado de S. Paulo

Admirador de chefões autoritários, o presidente prefere passear de moto a falar sobre um ato de banditismo internacional

Dois chefões autoritários, um de direita, outro com carteirinha de comunista, foram visitados e afagados pelo presidente Jair Bolsonaro em sua última excursão fora do Brasil. O de direita, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, foi saudado num discurso de inspiração fascista, com referência a valores comuns: Deus, pátria, família e liberdade. Ao outro, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Bolsonaro se declarou solidário, apesar da conhecida ameaça de ataque à Ucrânia. A invasão, com forças de terra, mar e ar, ocorreu na semana seguinte.

Atacada a Ucrânia, Bolsonaro evitou comentar o assunto, enquanto o Itamaraty publicava uma nota vergonhosa, conclamando as partes a “negociações conducentes a uma solução diplomática da questão”. O agredido tem de negociar com o agressor? Os dois são culpados pela violência? Não houve espaço ou tinta para uma palavrinha de censura a um ato de banditismo? O vicepresidente Hamilton Mourão fez uma declaração séria, comparando o ataque russo ao expansionismo nazista, mas foi desautorizado. “Quem fala sobre o assunto é o presidente da República”, disse Bolsonaro, mas quem esperou sua fala perdeu tempo.

José Augusto Guilhon Albuquerque*: A candidatura de Bolsonaro tem jeito?

O Estado de S. Paulo

Pode ele reconhecer os erros, corrigir sua trajetória e se empenhar em entender as necessidades vitais do povo brasileiro?

A conduta do presidente assusta o Planalto e desafia seus opositores, pois parece haver consenso entre as elites dirigentes. Ou ele muda de atitude – para de provocar controvérsias irrelevantes, de se opor a pautas majoritárias na população, para de hesitar diante de decisões vitais para a parte mais vulnerável do eleitorado, e começa a governar seriamente – ou não chegará ao segundo turno.

Interpretar suas motivações parece ser urgente. Mas não se pode abrir a cabeça das pessoas e observar o que se passa lá dentro. Para entender o comportamento de um político, antes de especular sobre conversas de bastidores ou declarações de intenções, convém observar... o seu comportamento.

Muitos são os registros das condutas de Jair Bolsonaro como oficial do Exército e como parlamentar, e acompanhamos seu comportamento público durante três anos de mandato presidencial. As questões relevantes a observar nessas funções seriam: saber se seu comportamento segue um padrão ou é errático; em que consiste esse padrão, se houver; e qual é seu objetivo.

É preciso saber se existe continuidade de padrão entre essas funções ou em que consistiriam as eventuais mudanças de padrão e de objetivo. Resta, ainda, saber se é possível o presidente alterar sua conduta, tornando-a compatível com uma candidatura competitiva no segundo turno de 2022.

Ruy Castro: Contar votos ou canhões

Folha de S. Paulo

Canhões são uma metáfora, mas não muito longe da realidade. Quem vai sair da frente para o outro atirar?

A familiaridade com que discutimos se haverá ou não um golpe no Brasil, antes, durante ou depois das eleições, é quase inédita. Em 1964, deu-se um golpe sob o pretexto de que o outro lado —o governo— estava preparando o seu, embora, como se constatou, ele não tivesse nenhuma condição para isso. Os vitoriosos não precisaram disparar um tiro. Agora, não. A ameaça vem de quem não apenas detém o comando efetivo da força como está há anos atiçando e munindo uma força paralela para agir a seu favor.

Bruno Boghossian: Deu zebra

Folha de S. Paulo

Pressão de religiosos é insuficiente quando grupo se distancia dos interesses do centrão

Pastores fizeram uma operação para barrar a liberação de cassinos, bingos e jogo do bicho no país. O esforço não deu resultado: a proposta avançou na Câmara e contou até com o apoio de parlamentares que integram a bancada evangélica. Dos 180 deputados do grupo, só 83 votaram contra a legalização da jogatina.

O placar mostra que, embora barulhenta e numerosa, essa bancada enfrenta limitações de coordenação e mobilização. No papel, um de cada três deputados faz parte da frente parlamentar evangélica, mas são poucos os casos em que esses políticos agem unidos ou incluem a religião no cálculo de suas votações.

Integram formalmente a bancada evangélica desde o ex-ator pornô Alexandre Frota (PSDB) até o deputado Altineu Côrtes, líder do PL de Jair Bolsonaro. Os dois votaram a favor da liberação dos jogos. Também é signatário da frente parlamentar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), que comandou a aprovação do texto e disse que as críticas à proposta partiam de "grupos sectários".

Bernardo Mello Franco: A folia da jogatina

O Globo

O carnaval começou mais cedo para a turma da jogatina. Na madrugada de quinta, a Câmara aprovou um projeto que legaliza cassinos, bingos e caça-níqueis. A folia também incluiu o jogo do bicho, cujos chefes passaram a se aliar às milícias.

A operação foi pilotada por Arthur Lira. Ele desengavetou um texto apresentado há 31 anos e comandou sua aprovação em apenas três horas. O deputado defendeu a proposta com um argumento que poderia ser usado em favor da liberação das drogas: “Todos nós sabemos que isso existe. Mas tem que existir na clandestinidade?”.

Estudos da Polícia Federal, da Receita Federal e da Procuradoria-Geral da República mostram que a questão não é tão simples. Bingos e cassinos são instrumentos poderosos para a lavagem de dinheiro do crime organizado. “Seria pueril imaginar que a legalização vai acabar com a corrupção”, alertou a PGR em 2016.

Vinicius Torres Freire: A Guerra de Putin e a política nos EUA

Folha de S. Paulo

Crise na Ucrânia altera debate sobre clima, energia importada e ameaça estrangeira

Joe Biden preocupa-se com quantas mulheres vai nomear para o Banco Central. Seu Partido Democrata se ocupa de quais pronomes pessoais usar com pessoas LGBTQ+ —ou não. Quer cortar a despesa militar e fazer uma transição para a "economia verde" que sujeita o país a caprichos de estrangeiros, de quem depende para ter energia bastante ou a preço razoável.

A direita tradicional americana cai assim de pau em Biden, acusado também de molenga com Vladimir Putin. Sim, a direita tradicional e letrada do Partido Republicano. Os trumpistas vão além. Elogiam Putin e querem deixar a Rússia para lá, pois o problema seria a China.

Percebe-se por que Jair Bolsonaro lambe as botas de Putin: porque pegou gosto lambendo a sola de Trump.

A direita tradicional e parte dos democratas querem que Biden arranque o couro de Putin até para mostrar à China que não está para brincadeira e que não vai tolerar nem sinal de ucranização de Taiwan. Querem também que o governo derrube restrições ambientais à produção de petróleo e gás, de modo a tornar os EUA independente e capaz de vender a energia de que seus aliados precisam, dane-se a transição verde. Enfim, diz que os americanos devem se preparar para uma nova Guerra Fria, o que implica ter ideias diferentes sobre autossuficiência econômica em itens estratégicos, alterar a política de alianças regionais (exigindo mais fidelidade) e mudar suas bases militares para perto das fronteiras inimigas, da Rússia em particular.

Janio de Freitas: Fabricantes de crises letais

Folha de S. Paulo

A culpa na ocupação na Ucrânia tem muitos donos

A preliminar de todas as turbulências em que se envolveram Estados Unidos e europeus, desde o fim da União Soviética, espera há três décadas a compreensão desses países para tentarem solucioná-la: o comunismo acabou como nação e como movimento, mas os Estados Unidos continuaram contra a Rússia o que era a guerra contra o comunismo. Por quê?

O tema não entra em consideração, por certo pelo temor da reação americana. Onde houve proximidade, entendimentos e interesses da Rússia, os Estados Unidos puseram sob acusações, pressão e riscos.

Assim foi sacrificada, reiteradamente, a oportunidade de convivência menos letal e mais inovadora entre as forças dominantes do mundo.

A Rússia extinguiu os saldos da experiência de convívio equânime de Gorbachev e mesmo de Ieltsin, e assumiu sua contraparte nas confrontações.

colaboração na aventura espacial foi a exceção da regra, mais por necessidades temporárias dos americanos que por associação de sinceridades promissoras.

Elio Gaspari: Putin já foi o motorista Vladimir

O Globo / Folha de S. Paulo

Outro dia, antes do início da guerra na Ucrânia, o jornalista americano Thomas Friedman escreveu que o melhor lugar para se acompanhar a crise é tentando entrar “na cabeça de Vladimir Putin”.

Diversas pessoas já tentaram mapear essa cabeça, da alemã Angela Merkel à ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright. O presidente russo é frio como cobra.

Em dezembro de 1989 ele estava na sede da KGB, em Dresden, na falecida Alemanha Oriental, quando uma multidão se aproximou da casa. Ele foi para o portão, disse que era um intérprete e recomendou que fossem embora, do contrário seus compatriotas atirariam. Deu certo, mas não havia atiradores.

Dois anos depois a Alemanha Oriental se acabara, a União Soviética derretera e a Rússia perdera cerca da metade de seu Produto Interno. Putin havia voltado para São Petersburgo e trabalhava com o prefeito da cidade. Para fechar o orçamento familiar, fazia bicos como motorista. Lembrando essa época numa entrevista, foi breve: “É desagradável falar sobre isso, mas infelizmente foi o caso”.