terça-feira, 2 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Desmatamento no Cerrado impõe dever aos estados

O Globo

Engajamento de governadores é crucial para sociedade saber o que é legal e ilegal — e deter a devastação

A área desmatada no Cerrado aumentou 3% de agosto de 2022 a julho de 2023, segundo dados do Inpe. Em anos anteriores, o aumento foi maior (25% em 2022 e 2020, 8% em 2021). Seria um erro, porém, se estender em comemorações. Os 11 mil km2 desmatados foram a maior extensão para o período desde 2015. A situação lembra a vítima de enchente que celebra que a chuva amainou com água até a cintura. De 2003 a 2022, uma área equivalente ao estado de São Paulo virou pasto ou lavoura.

A perda da vegetação nativa é o resultado previsível da expansão da atividade econômica. Hoje o Cerrado responde pela maior fatia da agropecuária brasileira (54% da produção agrícola e 44% do rebanho bovino). Com tecnologia e empreendedorismo, tornou-se referência mundial de produtividade e um dínamo para a economia. O debate, portanto, não deve opor a produção a qualquer preço à conservação ambiental. O desafio é a coexistência. A cada ano fica mais óbvio que o ritmo atual de desmatamento, legal ou ilegal, é insustentável. A estação seca e as temperaturas aumentam, e a água escasseia.

Merval Pereira - Lá como cá

O Globo

O que está em jogo é a sobrevivência do sistema de governo vigente na Argentina e no Brasil

Muito mais dramaticamente na Argentina do que entre nós, dois governos eleitos democraticamente enfrentam seus Congressos como marca da decadência do presidencialismo que, nos dois países, tem sofrido os percalços do populismo, seja de direita, seja de esquerda.

Não é preciso entrar no mérito das disputas para entender: o que está em jogo é a sobrevivência do sistema de governo vigente na Argentina e no Brasil. O extremista de direita Javier Milei foi eleito por uma maioria popular que, pelas pesquisas de opinião, já perdeu, num paradoxo perfeito da tragédia que los hermanos vivem.

Os mesmos que o colocaram no poder acatando promessas alucinadas de passar a motoserra em tudo o que estivesse pela frente hoje se assustam com a potência de seu corte. Lula — populista dito de esquerda, eleito por pequena maioria para livrar o país de um extremista de direita que ameaçou transformar nossa frágil democracia em retrógrada ditadura revolucionária — enfrenta uma máquina política ainda controlada pela direita e não consegue ampliar o apoio que recebeu nas urnas.

Míriam Leitão - O ano econômico terá boas novas

O Globo

Mesmo com um bom cenário de indicadores, não será um ano fácil. O Ministério da Fazenda terá várias batalhas pela frente

Este ano vai ser diferente daquele que passou. O crescimento não será concentrado em um único setor, nem apenas em um período do ano. A agropecuária, que sustentou o PIB de 2023, deve entrar na conta do produto com o sinal negativo. O primeiro trimestre, que foi o mais forte no ano, pode ser mais fraco agora. O ano terá um crescimento mais espalhado pelos trimestres. A queda dos juros vai ocorrer ao longo de várias reuniões e isso deve ajudar a atividade. A economia também será favorecida pela melhora da renda, pelo aumento real do salário mínimo e pela própria atividade. Apesar de serem menores do que no ano passado, a safra e o saldo comercial serão importantes para manter o ritmo econômico.

Pela natureza da estatística de crescimento, o PIB é sempre a comparação de um período contra o outro. A agricultura apesar de poder registrar queda, colherá a segunda melhor safra da história. O saldo comercial que deu um pulo de US$ 62 bilhões para perto de US$ 100 bilhões no ano passado será menor este ano, mesmo assim será o segundo maior da história. É o que prevê a MB Associados que tem uma projeção de US$ 87 bilhões.

Carlos Andreazza - Uma mensagem de otimismo

O Globo

O Congresso aprovou R$ 53 bilhões para emendas parlamentares no Orçamento de 2024 — valor próximo ao que a Fazenda, não prevalecentes os puxadinhos, terá de bloquear no próximo ano, jornada em que o presunto do natimorto arcabouço fiscal será exposto, o compromisso com a meta zero tendo cumprido o papel de fantasiar uma regra que alivia o controle de despesas, garante aumento de gastos e pretende sobreviver via arrecadação exclusivamente.

A conta não fecha; daí Haddad a despejar, mal saído o Papai Noel, Medida Provisória por meio da qual promoverá justiça tributária limitando a compensação a quem pagara mais em decorrência de cobrança ilegal. A empresa tungada, na hora de usar créditos tributários para abater impostos, a receber uma espécie de tunga da tungada. Faz lembrar Guedes e o teto pedalador dos precatórios, contra o que — calote — a grita fora imensa. Como a democracia voltou, ora se faz justiça.

Joel Pinheiro da Fonseca - Polarização e instituições

Folha de S. Paulo

Populismo de direita faz da crítica às instituições parte central de seu discurso

"Biografia do Abismo", de Felipe Nunes e Thomas Traumann, nos dá uma boa ideia do clima político que o Brasil entra em 2024, se é que a mera convivência com seus estimados concidadãos já não mostrou isso. Um país não apenas dividido como calcificado em suas diferenças políticas e tomado pela polarização afetiva: o eleitor ama quem está do seu lado e, cada vez mais, odeia quem está do lado contrário.

Como os próprios autores indicam, não devemos sair dessa polarização tão cedo. Eu também acho que ela veio para ficar. E dado que a polarização está aí, lanço outra preocupação: como fortalecer as instituições que, por não estarem engajadas na luta política, desempenham um papel central na manutenção da democracia liberal? Imprensa, universidades, institutos, Ministério Público, Justiça, partidos, Forças Armadas. Quanto mais odiamos uns aos outros, mais importante é ter um chão mínimo de fatos comuns que limite as posições de ambos os lados. Vacinas funcionam ou não? Existe déficit público? Que candidato recebeu mais votos? A sociedade precisa ter amplo consenso nisso; e só o terá se a resposta vier de instituições vistas como objetivas e não politizadas.

Hélio Schwartsman - Cegueiras seletivas

Folha de S. Paulo

Israelenses e palestinos têm razões de sobra para queixar-se do comportamento do outro lado

Vão se acumulando razões para que Israel conclua ou pelo menos reduza as operações militares em Gaza. A mais premente é a economia. Travar uma guerra como essa é estupidamente caro para Israel. A segunda razão é a pressão internacional, em especial a dos EUA, para suspender a carnificina. E até os membros mais extremistas do governo de Netanyahu sabem que o país precisa do apoio dos EUA.

As razões humanitárias para interromper os ataques, que, num mundo justo, dispensariam todas as outras, entram apenas em terceiro lugar ou mais abaixo. E isso nos leva a um paradoxo. A maioria dos israelenses e a dos palestinos são, por definição, pessoas normais, que valorizam a vida humana e repelem o que veem como injustiças. Como então, explicar, o apoio maciço de israelenses às operações militares e os ostensivos aplausos de palestinos (e de boa parte da opinião pública mundial) aos ataques terroristas de 7 de outubro?

Dora Kramer - Só o seguro morre de velho

Folha de S. Paulo

É preciso que o presidente leve o tema da segurança para dentro do Palácio do Planalto

O ano acabou de começar e já é longa a lista de tarefas para governo, oposição, justiça e sociedade. Começando por nós, o público, cuja missão primordial será a de cobrar dos candidatos e de todos os envolvidos na eleição municipal, mais atenção à vida nas cidades e menos aposta na briga de torcidas políticas.

Há muito a cuidar e não só naquilo que diz respeito direto a prefeitos e vereadores, que são a base da escolha seguinte, em 2026, de governadores e presidente da República. Por ora, a economia vai razoavelmente bem administrada, mas a insegurança, a violência, a criminalidade estão descontroladas.

Alvaro Costa e Silva - O descuidado Cláudio Castro

Folha de S. Paulo

Desde que assumiu o cargo, suspeita de corrupção amedronta o governador

O escritor Gore Vidal, referindo-se a políticos em geral e a Richard Nixon em particular, dizia que "se você não puder ser honesto, seja cuidadoso". É uma variação da assaz citada sentença sobre a mulher de César.

O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), é tudo o que você possa imaginar. Menos cuidadoso. Desde seus primeiros dias no cargo, recebido de mão beijada com o afastamento de Wilson Witzel, a suspeita de corrupção o amedronta. Em 2019, ele foi filmado caminhando pela Barra, mochila vazia às costas. Depois de visitar uma empresa que mantém contratos milionários de assistência social com o governo, Castro aparece num elevador com a mochila entupida. Um funcionário da empresa o acusa de ter recebido R$ 100 mil cash. Tremendo batom na cueca que, no entanto, não impediu sua reeleição em primeiro turno com quase 60% dos votos.

Andrea Jubé - Com eleições municipais em vista, Lula cobra pressa em realizações de ministros

Valor Econômico

No balanço de primeiro ano, presidente elogiou Haddad por aprovação da reforma tributária

Após um primeiro ano marcado por crises políticas e pela discussão da pauta econômica no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) advertiu os ministros de que chegou a hora de apresentar resultados e cobrou agilidade. Preocupado com as eleições municipais, ele vai adiar mudanças no primeiro escalão para que os auxiliares se concentrem nas entregas, dentro do prazo eleitoral, a fim de ajudar aliados a se elegerem em outubro.

No pronunciamento de fim de ano, Lula afirmou que criou as condições para uma “colheita generosa em 2024”. Por isso, para ampliar as chances de que alguns ministros mostrem a que vieram, a reforma ministerial que havia sido planejada para o começo do ano vai se restringir, por enquanto, à substituição do ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, que tomará posse no Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro.

Uma fonte que despacha no Palácio do Planalto ressalvou, todavia, que Lula ainda pode mudar de ideia para fazer alterações pontuais na equipe. Isso porque ele deixou o gabinete, no dia 22 de dezembro, levando consigo uma pilha volumosa com os 38 relatórios de prestação de contas de cada ministro, determinado a ler um a um para avaliar o desempenho de cada auxiliar.

Na última reunião ministerial do ano, no dia 20, Lula observou que tem relação de confiança com seus ministros, e que lhes deu autonomia para montarem as equipes. Porém, alertou que a fase de “ajustes” expirou, e, portanto, eles devem substituir os auxiliares que não estiverem sendo produtivos. Para um auxiliar palaciano, foi um recado aos ministros de que ele prefere não mexer agora na equipe, mas pode rever os planos.

Humberto Saccomandi - Eleição americana é o evento de 2024, e Trump o principal fator de risco

Valor Econômico

Há ainda duas guerras, na Ucrânia e na Faixa de Gaza, que ainda não está claro como vão transcorrer, e o risco de um conflito regional no Oriente Médio

Bem-vindo a 2024. O ano começa com uma escalada de bombardeios entre Rússia e Ucrânia e a continuidade dos ataques israelenses na Faixa de Gaza. Há dúvidas importantes com relação à economia dos EUA e da China, assim como com a exuberância dos mercados financeiros, especialmente o americano. Mas o evento previsível mais importante no mundo será sem dúvida a eleição presidencial nos EUA, em novembro, principalmente pela sua capacidade de trazer mudanças globais profundas e duradouras. O fator Donald Trump estará em todas as avaliações de risco.

Claro, haverá outros eventos importantes em 2024. Existem as duas guerras de amplo impacto em andamento, na Ucrânia e em entre Israel e o grupo palestino Hamas, e não está claro ainda como elas vão transcorrer. Há o risco de um conflito regional no Oriente Médio. Além disso, as duas maiores economias nacionais do mundo, EUA e China, devem desacelerar neste ano, e esse processo, que afetará diretamente a vida de boa parte da população do planeta, também é incerto.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Previsões econômicas*

Valor Econômico

Os mercados financeiros são construídos para reduzir a incerteza, mas aumentam a instabilidade da economia, especialmente das decisões cruciais, como as de investir

Entre o Natal e o Réveillon multiplicaram-se as críticas às previsões dos economistas, previsões congregadas no Relatório Focus. Entre tantas recriminações, escolhi as observações de Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustríssima, caderno da “Folha de S. Paulo”: “Ainda em março, as expectativas da maioria dos entendidos, não a simples opinião, continuavam bastante negativas. E equivocadas. A mediana do boletim Focus, uma consulta que o Banco Central faz ao oráculo de seus pares do mercado, apontava para um crescimento do PIB de 0,84% até o fim do ano...”

Diante dos números divulgados, influentes analistas, na confortável tarefa de prestigiar o boletim de bancos e financeiras, afirmavam que seria isso mesmo e que não haveria motivo para imaginar alguma coisa diferente. Sob Lula o crescimento não chegaria nem sequer a 1%.

Sabemos hoje que o PIB vai fechar o ano com expansão de 3%.

Luiz Schymura* - Pontos de atenção com a nova política industrial

Valor Econômico

Mesmo governos tidos como ‘terrivelmente’ liberais como os de Reagan e Thatcher não renunciaram à utilização da política industrial

O governo federal está em vias de divulgar a proposta para a nova política industrial. Pelo que vem sendo sinalizado, o mote principal é a criação de mecanismos que tragam a “neoindustrialização” para o Brasil. Nas palavras do presidente Lula: “Nos próximos anos, a indústria será o fio condutor de uma política econômica voltada para a geração de renda e de empregos mais intensivos em conhecimento e de uma política social que investe nas famílias”. Embora a intenção pareça louvável, não está claro como o Estado apoiará o setor industrial. Seja como for, o debate a respeito do papel do Estado como impulsionador da indústria é antigo e desperta muita controvérsia. Vide, por exemplo, a polarização existente na interpretação das razões que suscitaram o sucesso econômico dos tigres asiáticos a partir dos anos 1980. De um lado, os analistas de viés mais liberal creditam o bom desempenho da economia daquela região à aplicação de boa parte da cartilha ortodoxa, “apesar” de terem lançado mão de vultosa política industrial (PI). No outro extremo, os desenvolvimentistas veem na maciça PI praticada naqueles países um fator decisivo para explicar a excelente resposta da economia asiática. Como se vê, as leituras são bastante dissonantes.

Luiz Carlos Azedo - Lula deve acertar com os beques

Correio Braziliense

"Outra vez estamos diante das escolhas dos governantes. O ano começa com o presidente Lula em confronto aberto com o Congresso e os agentes econômicos"

Os cenários para 2024 são otimistas, porém voláteis. Há que se considerar as contingências da politica mundial, da economia, da situação social e da correlação entre forças políticas, e também as idiossincrasias dos governantes. Houve uma mudança de qualidade na cena mundial: a China ameaça seriamente a hegemonia norte-americana nas cadeias globais de valor, cujo fluxo se deslocou do Atlântico para o Pacífico. A reação norte-americana está sendo reestruturar essas cadeias, para reduzir sua dependência, e tentar recuperar seus velhos mercados.

presidente Joe Biden usa sua vantagem estratégico-militar para conter o grande projeto do líder chinês Xi Jinping: a Nova Rota da Seda, cuja ambição é chegar à Europa e à América Latina, não só no plano comercial, mas, também, na modernização da infraestrutura. A China ameaça o Ocidente porque seu modelo de "capitalismo de estado asiático", integrado à economia mundial e sob controle de um partido comunista, suplantou o modelo neoliberal que liderou a globalização a partir do colapso da antiga União Soviética e do "socialismo real" no Leste Europeu.

A democracia representativa do Ocidente tem mais dificuldades para implementar a modernização. O estado de bem-estar social é incompatível com a modernização conservadora.

Paulo Hartung* - Lideranças lúcidas para um futuro viável

O Estado de S. Paulo

Necessitamos de líderes capazes de desenhar caminhos de superação e, ao mesmo tempo, qualificados a projetar horizontes sustentáveis e promissores

Se, por si só, a mudança do calendário não transforma automaticamente o curso dos dias, que a chegada de um ano novo nos inspire a exercitar aquela visão de tempo peculiar que nos foi ofertada por Santo Agostinho. Assim, que neste posto do presente, o único tempo que realmente temos, possamos elaborar um olhar estratégico sobre a atualidade, considerando os ecos dos caminhos que nos trouxeram até aqui e também as inspirações e oportunidades que nos movem adiante.

Fragmentado e polarizado, o planeta padece sob emergência climática. Ficou no retrovisor a larga avenida da globalização acelerada, que ensejou desinflação e crescimento. A catástrofe sanitária da pandemia acentuou os desgastes nas engrenagens globalizantes, desorganizou cadeias de suprimentos, turbinou inflação e juros mundialmente.

Eliane Cantanhêde - Entre Biden e Trump, China e EUA

O Estado de S. Paulo

Eleição nos EUA e ampliação dos Brics em torno da China definem foco de 2024

A eleição americana em 2024 está no centro das atenções mundiais e tanto da política externa quanto da política interna do Brasil. Nenhum dos candidatos, Joe Biden, democrata, e Donald Trump, republicano, encanta ou atrai o governo, iniciativa privada ou analistas, mas Trump é considerado o mal maior, com poder destrutivo das instituições dos EUA e risco para a estabilidade mundial. A invasão do Capitólio, em 6/1/2021, deixou cicatrizes.

Como a Argentina, a maior potência mundial está refém de uma polarização nefasta entre Biden, tão antiquado e incapaz de enfrentar os grandes problemas quanto o peronista derrotado Sergio Massa, e Trump, tão absurdo, autocentrado e perigoso quanto Javier Milei. Há um estrangulamento do centro democrático e da racionalidade, quando o mundo, atolado em duas guerras, da Ucrânia e de Israel, precisa de negociação e bom senso.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Vai rolar muito sapo e muita lorota

A considerar os esforços do ministro da Fazenda para descobrir e aprovar, ainda em 2023 ,  fontes de receita para o Tesouro,  capazes de amenizar o crescente déficit das contas públicas e alimentar as eleições municipais, em  2024 deve pairar sobre o País  um cardápio de  promessas  recheado de narrativas e  estratégias   de governança, típicos dos Contos da Caronchinha, o primeiro livro para crianças publicado no Brasil em 1894. Mais que isso, será um novo ciclo de verdades duvidosas, e de tentativas de reconstrução do mundo .

É de se pressupor, por isso,  que o novo exercício fiscal não será fácil, ao contrário do que anunciam os áulicos.  Primeiro, não haverá déficit zero nas contas públicas.  O novo ano começa com um  sorrateiro reconhecimento de que o  desequilíbrio  contábil do Governo não será inferior a  R$ 160 bilhões . Segundo, na política, constatou-se que  a hiperpolarização tóxica interna e as onerosas  viagens internacionais do casal Lula levaram o governo a um índice de desaprovação de quase 50 por cento , abrindo espaço para um  imaginário  bolsonarista .

Poesia | O Tempo - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Anunciação

 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasil deve regular Cannabis medicinal com sensatez

O Globo

Não pode haver um ‘liberou geral’, mas questão de saúde pública não deveria ficar a cargo da Justiça

No ano que passou, 430 mil pacientes usaram a Cannabis medicinal para tratar casos de doenças como epilepsia, dores crônicas ou transtornos neuropsiquiátricos. Houve alta de 130% em relação a 2022. A maior parte dos produtos é importada. Somente no primeiro trimestre, o Ministério da Saúde gastou R$ 768 mil para atender a ordens judiciais e fornecê-los aos pacientes, quase o quíntuplo do gasto de 2021. Até outubro, a Anvisa já emitira 114.782 autorizações de importação, 73,4% a mais que no mesmo período de 2022. A maior despesa tem cabido aos estados: seis unidades da Federação gastaram até outubro R$ 39,1 milhões para atender às ordens da Justiça (R$ 25,6 milhões só em São Paulo).

A corrida ao Judiciário acontece porque a atual legislação permite a importação, mas não o cultivo da Cannabis para fins medicinais. O custo é alto — alguns produtos importados podem chegar a R$ 4 mil — a ponto de impedir muitas famílias de usar o tratamento. As estratégias não garantem sucesso. Em geral, os médicos precisam detalhar os motivos para uso do produto e atestar que já tentaram outros tratamentos. Muitos pacientes procuram a Justiça também em busca de autorização para cultivar a planta em casa. Mas isso ainda é proibido no Brasil.

Fernando Gabeira - Uma lista de desejos

O Globo

Meu plano quinquenal, ainda que com muitas derrotas e atropelos, será plenamente vitorioso se chegar ao fim

Desde muito, a virada do ano é marcada por promessas de mudanças pessoais. Imagino como isso deve ter mudado em tempos de hoje.

Vivemos sob um bombardeio de conselhos. Já falei sobre um aspecto deles, uma espécie de terrorismo alimentar que combate tudo, desde açúcar e ultraprocessados até o leite, o pão, a lactose e o glúten. Esse bombardeio fez o pão nosso de cada dia virar o pão que o diabo amassou. Impressionante, a julgar pelas advertências, observar como a humanidade sobreviveu, sobretudo depois de Cristo ter multiplicado o pão.

Outro dia, um desses gurus alimentares confessava na rede que toma dez comprimidos de suplemento alimentar antes do café. Não fica claro para que café da manhã, depois de tanto comprimido. Os suplementos são a outra face do bombardeio: ômega 3, magnésio, cúrcuma, creatinina, vitaminas — é uma lista interminável.

Tenho visto também nas redes sociais o grande número de pessoas dizendo o que fazer para sermos felizes. Há algumas senhoras bem vestidas, gurus indianos com seus turbantes, todos garantindo que existem três, quatro ou às vezes até sete conselhos que mudarão nossa vida. Usando tática muito comum na internet, dizem que o último conselho é o mais surpreendente. Assim tentam reter nossa atenção até o fim.

Miguel de Almeida - A fome do pão e do ouro

O Globo 

É um avanço de várias casas a prisão e condenação dos golpistas bolsonaristas

Numa escala de 1 a 10, ainda não chegaram aos presídios os peixes graúdos do Golpe de 8 de Janeiro. Estamos no 3, no momento. As celas reúnem alguns bagres desatentos, outras tilápias distraídas e um ou outro dourado de olhos estalados. Um ano depois da patriotada, as investigações por enquanto não cercaram o pacu estrelado ou o lambari endinheirado. A piaba da barra permanece em suspensão.

Pode soar frustrante, mas, no Brasil da contemporização e do perdão obsequioso, é um avanço de várias casas a prisão e condenação dos golpistas bolsonaristas. Até então, as tentativas de subversão criminosa vindas da direita — civil ou militar — logo recebiam um tapinha nas costas e alguma anistia em nome da nefasta e covarde concórdia. Como prêmio, e porque ninguém é de ferro, vinha uma aposentadoria especial.

A patuscada de 1935, de cepa de esquerda, resultou na prisão dos líderes, a começar por Luiz Carlos Prestes. Mas tantos documentos depois, discute-se se a Intentona Comunista não surgiu de um ardil de Getúlio Vargas para golpear a democracia em 1937, com a implantação do Estado Novo — e a censura e as mortes que se seguiram em seu rastro de desonra.

Diogo Schelp - Trump e a eleição no Brasil

O Estado de S. Paulo

O que ocorrer com o americano em 2024 será apresentado como um espelho de Bolsonaro e seu grupo

Deve-se sempre ministrar uma dose de ceticismo à ideia de que tendências políticas propagam-se como ondas através das fronteiras, com eleições em um país influenciando votações em outro. Em alguns casos, porém, essa influência pode existir, ainda que apenas pelo simbolismo ou pela imitação de estratégias de campanha.

Em 2015, os venezuelanos foram às urnas para a difícil missão de derrotar o chavismo nas eleições legislativas. No dia do pleito, este colunista ouviu de eleitores em Caracas que eles se sentiram incentivados a sair de casa para votar por inspiração dos argentinos que, uma semana antes, haviam derrotado o kirchnerismo nas urnas.

Em 2016, Donald Trump ganhou a presidência explorando insatisfações do eleitorado americano semelhantes àquelas que levaram os britânicos a decidir pelo Brexit meses antes.

Denis Lerrer Rosenfield* - Escudos humanos

O Estado de S. Paulo

O uso da palavra humanitário serve aos mais distintos propósitos, inclusive para encobrir as ações propriamente inumanas dos terroristas

Já em 2015, Bassem Eid, ativista de direitos humanos e dissidente palestino, declarou: “Quem impôs três guerras a Gaza foi o Hamas. Em todos os países, os governos usam seus mísseis e foguetes para proteger o seu povo, mas o Hamas fez o oposto, usando seu povo para proteger seus mísseis e foguetes” (extraído de Natan Sharansky e Gil Troy, Jamais estive só). Os palestinos se tornam instrumentos de uma organização terrorista voltada para a destruição de seu inimigo primeiro, Israel e os judeus, com o intuito de posteriormente voltar-se contra as outras religiões, mormente as cristãs, e os valores ocidentais em geral.

Compreende-se, assim, melhor o elevado número de vítimas civis entre a população de Gaza, considerando que os terroristas borram qualquer distinção entre civis e militares, até nas estatísticas, não sendo as mortes militares contabilizadas. Procuram, isto sim, produzir o máximo de vítimas entre os civis, pois sabem o impacto dessas mortes na opinião pública ocidental, com o intuito de causar um dano midiático ao seu inimigo principal. Desprezam o Ocidente, mas empregam este mesmo Ocidente para miná-lo desde seu interior. Note-se o papel que conseguiram conquistar nas universidades americanas e nos seus êmulos entre nós, advogando, na verdade, pela destruição dos direitos humanos, considerados ocidentais. O Ocidente cava a sua própria cova.

Felipe Nunes* - A eleição municipal da polarização

O Globo

A nova disputa de torcidas tem tudo para chegar aos pleitos municipais de 2024

Cada eleição acaba contando uma história do momento político, da conjuntura de humores, do desempenho econômico. Se a eleição de 2016 marcou o início dos outsiders na política, se a eleição de 2020 refletiu os efeitos da pandemia, arrisco dizer que a eleição de 2024, sobretudo nas grandes cidades, deverá ficar para a História como a eleição da polarização.

Polarização sempre existiu nas eleições para presidente do Brasil, especialmente nas disputas de segundo turno. Mas, desde 2018, transbordou e deu origem à polarização afetiva, ambiente em que o adversário passa a ser visto como inimigo. Ele se torna uma ameaça à própria existência, o que estimula rompimentos de amizades e até de relações familiares, além de ações de violência política. As pesquisas que temos feito na Quaest têm mostrado uma parcela crescente dos que assumem ter rompido relações familiares ou de amizade em função da política. Que determinam seus comportamentos de compra em função da visão política. Que escolhem escola, restaurante e onde se informar a partir de identidades políticas.

Deborah Bizarria - Propostas para a população de rua

Folha de S. Paulo

Casos no exterior apresentam alternativas para enfrentar desafio da habitação, mas há resistência da sociedade

Com as eleições de 2024, o debate sobre os temas municipais vai se intensificar. Um dos dramas das grandes cidades é o aumento da população em situação de rua. De acordo com relatório do Ministério dos Direitos Humanos, o CadÚnico registra 236.400 pessoas vivendo em situação de rua, em 64% dos municípios brasileiros.

Não é uma questão trivial de resolver. Diversos fatores contribuem para a situação de rua, como a exclusão econômica, desemprego e déficit habitacional, juntamente com a ruptura de laços familiares e problemas de saúde física e mental. Segundo levantamento do Ipea, problemas familiares ou com companheiros motivaram 47,3% das pessoas em situação de rua a deixarem suas casas. Em comparação, o desemprego foi mencionado por 40,5%; o consumo problemático de álcool e outras drogas, por 30,4%; e a perda de moradia, por 26,1%.

Marcus André Melo* - A profecia de Lima Barreto

Folha de S. Paulo

Há um século, escritor antecipou as patologias políticas que nos afligem hoje

"Os Bruzundangas" foi publicado há 101 anos. Nele Lima Barreto zombou das patologias políticas que afligiam o país. A crítica acerba é surpreendentemente atual. Basta ler o noticiário sobre os Três Poderes. O presidente, que em Bruzundanga se chamava Mandachuva, cooptava todos a sua volta. Não havia oposição.

Lima alertava: "Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da 'situação' ou de membros dela fica subentendido que ele não tem aplicação no caso". "Na constituinte, todos esperavam ficar na ‘situação’, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente." E acrescentava: "Se algum recalcitrante, à vista de qualquer violação da Constituição, apelava para a Justiça (que lá se chamava Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo."

Ruy Castro - Ta-ra-tã, ta-ra-tã

Folha de S. Paulo

Tentei ler O Estrangeiro, do modernista Plinio Salgado. Parei para não entrar em rigor mortis

Tirei o fim de ano para pagar uma dívida de séculos comigo mesmo: ler "O Estrangeiro", de Plinio Salgado. É um romance de 1926, no apogeu do Modernismo, do qual ele fazia parte. Incrível como a antipatia por alguém faz com que tentemos apagá-lo da história, não? Como se ele não devesse ter existido. O problema é que ele existiu e, pior, continuou existindo.

Plínio Salgado, como se sabe, ficaria famoso pelo integralismo, o movimento político de extrema direita que ele lançou em 1932. Plínio e seus seguidores se fardavam, usavam braçadeiras com um símbolo tipo suástica e se saudavam esticando o braço e gritando "Anauê!", palavra talvez tupi que podia significar "Salve!". Suas ideias se inspiravam no nazifascismo, com o qual ele mantinha cordiais relações. Em cinco anos de existência, o integralismo atraiu centenas de milhares de militantes e esteve muito perto do poder. Bolsonaro foi um sucessor do integralismo.

Tostão - O jogo de futebol

Folha de S. Paulo

Partida vai além da disputa esportiva e envolve sentimentos e contradições humanas

A partida de futebol não pode ser vista somente como uma disputa esportiva de habilidade, criatividade, técnica, estratégia, força física e de acasos. É também um espetáculo complexo, lúdico, teatral, prazeroso e de fortes emoções. Todos os sentimentos e contradições humanas estão presentes.

A estratégia dos treinadores, importante para o sucesso de uma equipe, vai muito além dos esquemas táticos, jogadas ensaiadas e da movimentação dos jogadores. Uma das qualidades importante de um treinador é perceber, observar durante o jogo os detalhes técnicos surpreendentes, objetivos e subjetivos. É o mais difícil. O treinador precisa aceitar que em um jogo há mais duvidas do que certezas.

Na Copa de 2018, contra a Bélgica, Tite demorou a perceber que o centroavante Lukaku se deslocava para direita, acompanhado pelo zagueiro Miranda, deixando espaços pelo meio por onde o meio-campista De Bruyne avançava e fez um dos gols. Não estava previsto. No mundial de 2022, não havia como Tite corrigir a sucessão rápida de erros de vários jogadores brasileiros que levaram ao empate contra a Croácia e depois a eliminação do Brasil nos pênaltis.

Poesia | O Mito - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Sonho Estranho - Moacyr Luz e Samba do Trabalhador - Part. Chico Alves

 

domingo, 31 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

A agenda prioritária para 2024

O Globo

Atenção deve estar no corte de gastos, conclusão da reforma tributária, reforma administrativa e pauta ambiental

O ano de 2024 será desafiador para o Brasil. A conjunção de uma economia em desaceleração e eleições municipais exigirá do governo e do Congresso disciplina para não sucumbir ao populismo ou à complacência. Para o país garantir mais crescimento, mais trabalho, mais renda e mais equidade, Executivo e Legislativo terão de trabalhar duro.

A agenda prioritária deveria contemplar cinco itens: 1) controle dos gastos públicos para evitar uma crise fiscal; 2) votação de leis complementares à reforma tributária para garantir o mínimo de exceções e a simplificação do novo sistema de impostos; 3) aprovação da reforma administrativa para elevar a eficiência do Estado; 4) atenção à agenda ambiental, em especial ao mercado de carbono e ao combate ao desmatamento; 5) legislação para coibir manipulação por inteligência artificial na campanha eleitoral.

Que ninguém duvide. O maior desafio está na economia. A dívida pública brasileira estará perto de 75% do PIB quando saírem os números oficiais de 2023, percentual alto para um país emergente. Pelos cálculos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao final de 2024 deverá estar perto de 80% do PIB nos governos federal, estaduais e municipais. Dívida alta significa mais gasto com juros, menos dinheiro para investimentos e menor capacidade de crescer.

Míriam Leitão - O ano em que o mercado falhou

O Globo

Números de 2023 foram melhores do que os previstos e ainda tiveram outras surpresas positivas

O que marca 2023 é o fracasso das projeções econômicas. Até economistas do mercado financeiro estão olhando com desconfiança para os próprios modelos. O ano terminou com números muito melhores do que os previstos. Houve também erro na sequência de eventos projetados para a economia.

Comparando-se os dados das duas pontas, o país iria crescer pouco mais de 0,5%, e cresceu 3%, iria ter uma inflação de 6% e ela termina em torno de 4%. Não cumpriria a meta e ela foi cumprida. Houve um momento do ano em que os analistas diziam que só haveria queda da inflação de serviços se houvesse forte aumento do desemprego. A inflação de serviços caiu com aumento do emprego.

O que mais cresceu no Caged foram vagas formais no setor de serviços e a Pnad Contínua mostrou que o desemprego até novembro foi o menor para o período desde 2014, com mais de cem milhões de brasileiros empregados, um recorde.

Elio Gaspari - O golpe sonhava com o caos e uma GLO

O Globo

Não lembrar o 8 de janeiro é mais que uma injustiça

O 8 de janeiro de 2023 buscava o caos para obter um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), colocando tropas nas ruas, sob o comando de algum militar. Uma semana depois da posse de Lula, a insurreição precisava da desordem, situação com a qual Jair Bolsonaro sonhou várias vezes durante seus quatro anos de governo.

Nas mensagens trocadas nos dias que antecederam os ataques, falava-se em bloqueios de estradas, paralisação de refinarias e, finalmente, a “Festa da Selma”, com a invasão do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). O golpe dependia da decretação da GLO.

O ex-vice-presidente, general e senador eleito Hamilton Mourão disse, às 17h10m: “Repito que o governo do Distrito Federal é responsável, e caso não tenha condições, peça ao governo federal um decreto de GLO.”

O texto do decreto havia sido preparado no Ministério da Defesa, e a proposta foi levada a Lula. Ele recusou-a e, às 17h50m, de Araraquara (SP), decretou a intervenção federal na Secretaria de Segurança de Brasília.

Luiz Carlos Azedo - O pior já passou, feliz ano novo

Correio Braziliense

Há possibilidade de a economia crescer acima das previsões, como ocorreu neste ano. De onde pode vir esse crescimento? Da nova economia verde e do aumento do salário mínimo

Há possibilidade de a economia crescer acima das previsões, como ocorreu neste ano. De onde pode vir esse crescimento? Da nova economia verde e do aumento do salário mínimo

Os balanços de fim de ano são unânimes: 2023 terminou muito melhor do que começou. Os aspectos determinantes dessa conclusão são: na economia, a queda da inflação, o crescimento acima do esperado, a redução do desemprego a patamares que há muito tempo não se via, a elevação da renda e a reforma tributária; na política, a normalidade institucional, ameaçada pelo golpismo, graças à firme atuação dos Poderes; na questão ambiental, o combate ao desmatamento, às queimadas e ao garimpo ilegal; e na política internacional, em que pese atitudes dúbias em relação à Ucrânia, a volta do Brasil à cena mundial.

Para quem apoiou a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tudo isso é motivo de comemoração; para quem perdeu, de acomodação, como no caso do Centrão. Ou enorme frustração, caso da extrema-direita, diante do fracasso da tentativa de destituição de Lula, da condenação dos vândalos que depredaram os palácios do Executivo, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) e da inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sergio Fausto - Nuvens políticas carregadas em 2024 (e depois)

O Estado de S. Paulo

Os cordões sanitários que permitiram isolar o extremismo de direita por 70 anos estão se esgarçando ou já se romperam. No Brasil, os ‘companheiros’ não parecem saber em que mundo estão vivendo

Desde a eleição de Donald Trump em novembro de 2016, as democracias têm sido submetidas a constantes testes de estresse. Não será diferente em 2024, quando o ex-presidente, muito provavelmente, voltará a disputar com chances de vitória a Casa Branca. Se vencer, o risco para a democracia será maior do que da primeira vez. Embora seja a mais importante, a eleição presidencial nos Estados Unidos não é a única frente na batalha em defesa da democracia.

Os sinais de ascensão da extrema direita estão quase por toda parte. A vitória do partido nacionalista xenófobo nas eleições parlamentares na Holanda, em novembro, é presságio de avanços de partidos do mesmo naipe nas eleições para o Parlamento Europeu em junho de 2024. Na Espanha, os socialistas se viram na contingência de fazer um grande acordo político, que pode lhes custar caro no futuro, para evitar um governo com a presença da extrema direita. O que foi possível evitar na Espanha ao final deste ano é provável que ocorra em Portugal, onde eleições antecipadas para o início de 2024 podem levar ao governo uma coalizão integrada pelo Chega, irmão siamês do Vox. Em nenhum desses casos, a extrema direita alcança votos e cadeiras suficientes para liderar a maioria no Parlamento, mas se afirma como força incontornável para a direita chegar ao poder. Os cordões sanitários que permitiram isolar o extremismo de direita por 70 anos estão se esgarçando ou já se romperam.

Eliane Cantanhêde - Não a golpes, guerras, violência e desigualdade

O Estado de S. Paulo

Desafio do governo em 2024 é repetir 2023 e superar as previsões negativas

O ano de 2023 acabou melhor do que começou, mas os desafios de 2024 não serão fáceis para o mundo, a América Latina e o Brasil, que resistiu bem às ameaças de golpe de Estado, surpreendeu positivamente na economia, recuperou parceiros fundamentais na política externa e, agora, precisa jogar toda sua energia para enfrentar problemas estruturais e algo que só vem piorando: as tensões na América do Sul e o desequilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Ucrânia e Faixa de Gaza viram escombros e a ONU confirma sua irrelevância, num ambiente que frustrou as expectativas do presidente Lula para sua atuação internacional. Em 2023, ele passou 62 dias fora, em 24 países de todos os continentes, e teve sucesso ao normalizar as relações com o resto do mundo, mas derrapou em gestos e declarações de cunho ideológico – portanto, pouco diplomáticas – e acabou muito distante do protagonismo sonhado.

Celso Ming - 2023: o ano em que o mercado errou

O Estado de S. Paulo

Na área econômica, sob muitos aspectos, este 2023 se saiu melhor do que esteve nas projeções. É o que dá para concluir da comparação das previsões registradas no Relatório Focus, do Banco Central (BC), com os resultados finais do ano. O Focus é uma pesquisa que o BC faz semanalmente com instituições, com o objetivo de aferir as expectativas do mercado.

No último relatório de 2022, a variação do PIB para 2023 estava avaliada em 0,80% positivo. Pois vai dar algo em torno dos 3,0%. As apostas na inflação do ano estavam em 5,31%, mas os números finais ficarão quase um ponto porcentual mais baixos. A média para a previsão da Selic foi de 12,25%, magnitude que mais se aproximou dos 11,75% fixados na última reunião do Copom.