O Estado de S. Paulo
A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva
Como tudo na vida, palavras envelhecem, e
talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado
de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação
de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes,
enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o
mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o
caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza
anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.
Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.
Pode ser que estejamos de novo em plena
mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton
Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de
“hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political
Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em
meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar
com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais.
Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização
das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma
politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em
partido, sindicato ou associação “real”.
De fato, essa não é a política de massas da
alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a
“nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular
considerável ou, se fossem democratascristãos, inseriam uma dimensão solidária
no liberalismo.
Partidos trabalhistas ou comunistas
enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de
baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo
somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em
tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras
de violência sem precedentes.
A globalização neoliberal dos anos 1990
significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim
desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos
da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação
tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais
uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das
coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas
que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma
frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.
O século 21, sobretudo a partir da grande
crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da
“póspolítica” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o
“interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional
anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida.
Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas
são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta:
impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do
século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.
A reconstrução da sociedade civil, espaço de
mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças
democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há
gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida
social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se
curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos
procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos,
se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um
objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.
O motor de tal convergência é a constatação
de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza
institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e
a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável
dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro
as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas
inscreveram.
*Tradutor e ensaísta, é coeditor das obras de Gramsci no Brasil

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