Valor Econômico
Redução da demanda por cargos públicos expõe novas dinâmicas do sistema político-eleitoral brasileiro
Iniciada a campanha eleitoral e publicada a
relação dos registrados por todos os partidos, um fato chamou a atenção: pela
primeira vez desde pelo menos 1998, o número de candidatos caiu.
Em outubro, 20.712 brasileiros tentarão obter um mandato eletivo para os próximos quatro ou, no caso de senador, oito anos. Trata-se de uma redução significativa de 29,2% em relação à eleição passada, que contou com a participação de 29.262 concorrentes.
Entre as principais quedas, destacam-se uma
menor demanda para os cargos de deputado estadual e distrital (-33,1%) e para
deputado federal (-27,5%). A única exceção é o cargo de senador, que neste ano
oferece duas vagas por Estado e, por isso, observou uma expansão de 30,5% no
número de candidatos (eram 243 em 2022 e neste ano são 317 postulantes).
Explorar as possíveis explicações para esse
fenômeno atípico na nossa história recente nos ajuda a entender as novas
dinâmicas da forma de se fazer política partidária e eleitoral no Brasil.
A redução no número de aspirantes ao posto de
deputado estadual e distrital já era esperada. De 2018 para 2022 já havia
ocorrido uma diminuição, ainda que em menor grau (8,5%) e foi associada à
ênfase que os partidos vêm dando para as disputas para o Congresso Nacional. A
razão para isso está na forma de cálculo para o fundo eleitoral, que leva em
consideração o número de votos obtidos e a bancada eleita para a Câmara dos
Deputados e o Senado Federal. Estamos falando de uma bolada de quase R$ 5
bilhões distribuídos a cada dois anos, e nesse sentido um novo decréscimo de
33,1% nas candidaturas às Assembleias locais demonstra onde os principais
partidos depositam suas fichas.
Essa explicação, porém, não casa com o fato
de que tivemos também uma quantidade bastante menor de interessados em se
tornar deputados federais. É preciso investigar, portanto, porque os partidos
lançaram menos candidatos neste ano, mesmo cientes de que o desempenho na
Câmara pode significar mais dinheiro no próximo ciclo eleitoral.
A explicação não está num enxugamento na
oferta de partidos. Em 2022 tínhamos 32 legendas ativas, enquanto neste ano são
30. De um lado, quatro agremiações se fundiram ou foram incorporadas a outras
no último quadriênio (Patriota, PTB, PSC e Pros), enquanto duas outras surgiram
(Missão e PRD). O saldo final, portanto, não justifica diferença tão grande no
total de candidatos.
Explicação mais plausível está na expansão
das federações de partidos. Esse arranjo previsto na reforma eleitoral de 2021
permite que duas ou mais legendas firmem uma aliança nacional que vale para
todos os cargos e deve perdurar até a próxima eleição. No pleito passado, três
federações foram formalizadas: PT/PCdoB/PV, PSDB/Cidadania e Rede/Psol. Nos
últimos meses, PRD e Solidariedade, assim como União Brasil e PP, também
celebraram essa parceria.
Ao decidirem juntar forças na eleição, os
membros da federação precisam agir como se fosse um só partido. Nesse caso,
ficam limitados à quantidade máxima de concorrentes prevista na legislação
(número de vagas em disputa mais um). Isso explica, por exemplo, a redução no
número de candidatos a deputado federal lançados pelo PP (-53,8%) e pelo União
Brasil (-45,5%) neste ano, em relação a quatro anos atrás.
No entanto, poucas siglas tiveram alteração
em seu status de 2022 para cá, e mesmo assim a maioria delas mostrou diminuição
no efetivo de postulantes a uma cadeira no plenário da Câmara. Isso ocorre do
pequeno Agir (-72,4%) ao gigante PT (-4%), passando pelo PSB (-7%) e o
Republicanos (-12,6%).
As exceções de partidos que expandiram o rol
de inscritos são poucas: o PL terá 4,7% candidatos a mais e o PSD, 1,9%, afora
agremiações nanicas que tentam se mostrar mais relevantes nacionalmente, como o
Novo (+128,5%) e o Unidade Popular (+155,6%), mas não têm peso no cômputo
final.
As emendas parlamentares também podem estar
relacionadas à retração do quantitativo. Neste pleito vemos uma proporção maior
de candidatos que já detêm mandato federal ou estadual buscando um cargo na
Câmara dos Deputados do que há quatro anos (6,7%, contra 5,4%).
Com mais de R$ 50 bilhões sendo pagos
anualmente por indicação de deputados federais e senadores em seus redutos
eleitorais, essas verbas são uma vantagem turbinada para quem busca a
reeleição, uma vez que promovem o nome do político ao longo de todo o mandato.
Além disso, as emendas criam vínculos com prefeitos, deputados estaduais e
lideranças locais que acabam desestimulando a competição local.
No novo coronelismo brasileiro, as campanhas
continuam caras e, com os fundos eleitoral e partidário e o orçamento
impositivo, há cada vez mais dinheiro em jogo. O problema é que os recursos são
alocados de forma muito concentrada, com centenas de incumbentes levando a
fatia maior e milhares de desafiantes repartindo o pouco restante.
Com alta chance de reeleição para quem já
detém mandato, as condições e regras atuais desestimulam o lançamento de novas
candidaturas, reduzindo a concorrência e as opções para os eleitores.

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