terça-feira, 25 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debate viola direito do eleitor a informação

Por O Globo

No primeiro confronto desta eleição, três candidatos faltaram, entre eles os dois primeiros nas pesquisas

Foi frustrante o primeiro debate presidencial desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas pesquisas. Romeu Zema (Novo) também se negou a ir.

Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.

Quando a Câmara censura a história e resgata o passado colaboracionista, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo. Em 1977, Ernesto Geisel fez o mesmo

Há uma ironia inquietante na decisão da Câmara dos Deputados de impedir que uma obra acadêmica utilize a expressão “ditadura militar” para caracterizar o regime instaurado em 1964. A Casa, que teve 173 deputados e oito senadores cassados, foi fechada três vezes pelos generais, mesmo tendo legitimado o golpe militar de 1964. Ao suavizar a linguagem empregada para caracterizar o regime militar, não apenas contraria a pesquisa histórica: renega a própria memória.

Entrevista |'A universidade não pode ter alergia à política nem ser bunker protegido', afirma cientista político, por Adelia Felix

Bnews

A recente invasão da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo deputado Diego Castro (PL) após receber denúncias sobre a colagem de adesivos políticos no prédio ilustra um fenômeno cada vez mais comum na política brasileira: a transformação de espaços tradicionais em cenários para gerar vídeos e tumulto nas redes sociais.

Em entrevista ao BNEWS, Paulo Fábio Dantas Neto, cientista político, professor associado da UFBA e pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades (CRH), avalia que a substituição do debate por monólogos e versões sobre os fatos alimenta uma polarização que afeta diretamente o ambiente universitário.

Dantas Neto defende que a instituição deve ser plural e "não um bunker". Ele considera legítima a circulação de ideias, mas ressalta: "Nada disso se aplica a quem provoca tumulto, por intimidação ou agressão".

Segundo o professor, a democracia perde força quando passa a ser cobrada para resolver uma "briga de turma". Ele aponta que o ambiente político ficou menos plural e que, com o retorno da guerra de narrativas, as instituições democráticas resistem, mas a conduta democrática sofre pressão.

"A disputa é sobre quem é o dono da verdade. O messianismo que antes era traço de uma turma virou padrão mais generalizado", avalia o especialista.

Ao avaliar o cenário eleitoral, o especialista indica que propostas realistas enfrentam dificuldades para ganhar destaque. O ambiente político, segundo o professor, sofre com a perda de pluralismo e o avanço da intolerância.

Na visão dele, "as instituições democráticas não estão tão ameaçadas como em 2022, mas a conduta democrática sim. Há campo livre para lógicas de faxina. Quem ganhar a eleição não terá direito ao benefício da dúvida".

Leia a entrevista:

Perdas e ganhos, por Merval Pereira

O Globo

Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana.

Por incrível que pareça, a eleição presidencial tem sido decidida por medidas do Supremo Tribunal Federal (STF) e atuações da Polícia Federal. Não se trata de figura de linguagem. Os processos que tramitam no STF é que dão motivos para a queda de Flávio Bolsonaro e a subida de Lula, ou vice-versa, dependendo da semana. Existem três ministros envolvidos em diversas decisões supremas fundamentais para ditar o rumo dos acontecimentos, que têm tido repercussão nos resultados das pesquisas de opinião.

Diferenças entre as duas eleições, por Míriam Leitão

O Globo

A taxa de eleitores indecisos na pesquisa espontânea é maior nesta eleição do que na de 2022. Este ano, na pesquisa mais recente da Quaest, 51% dos eleitores se diziam indecisos antes da apresentação dos nomes dos candidatos. Na eleição de 2022, em agosto, os indecisos estavam em torno de 36%. A campanha começou mais fria. Mas há outra diferença, quando se comparam os detalhes das sondagens. Na última disputa, o eleitor de Jair Bolsonaro estava mais interessado nas eleições, agora é o eleitor de Lula que se mostra mais interessado.

Inimigos da democracia, por Pedro Doria

O Globo

A VPN da Proton aumentou em 800% o número de clientes brasileiros na semana passada. A maioria nem sequer desconfia do que seja uma VPN. Isso aqui, no Brasil. Em países como Rússia, Turquia, Irã ou China, todo mundo sabe. Afinal, VPN é um serviço que você contrata, instala no computador ou celular, e aí faz parecer que usa a internet de outro canto. Parece que vem de Londres, do Canadá, das Ilhas Canárias — de onde for. Serve para driblar proibições de uso em países com censura a sites específicos. Quando a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) decidiu que o Discord não poderia fazer mais lives, no Brasil, a plataforma impôs uma barreira ao território nacional. Aos computadores que vêm daqui, vídeo ao vivo está bloqueado. Vale para todo mundo — menos para os que usarem VPN. Pois é. Muito pouca gente sabe de que serve a VPN. Mas quem sabe inclui a garotada que comete crimes virtuais. O Discord está restrito para todo mundo, mas não para aqueles a quem a proibição se dirigia.

O dilema da exploração na Margem Equatorial, por Fernando Gabeira

O Globo

Será que a região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

Egressos da eleição mais perdulária vão votar o ajuste, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Redução no número de candidatos e verba pública recorde enriquecem campanha de parlamentares que vão votar o ajuste seja qual for o presidente eleito

A redução no número de candidaturas combinada com fundo eleitoral e partidário recordes e o maior volume de emendas já registrado vai proporcionar a eleição mais perdulária da história. Não poderia haver contraste maior com a agenda de ajuste fiscal que aguarda o Congresso em 2027, seja qual for o presidente a ser eleito.

O contraste do mar de dinheiro que os elegerá e a agenda que os parlamentares têm pela frente só se equipara ao da indefinição da disputa presidencial e a previsibilidade daquela da Câmara dos Deputados. A primeira deve durar, pelo menos, até 4 de outubro sem favorito. A segunda já tem bolsa de apostas sobre o baixo grau de renovação. Nenhuma delas ultrapassa a metade da Câmara.

Qualidade das campanhas pode ser decisiva, por Christopher Garman

Valor Econômico

O ataque mais eficaz contra Lula não são denúncias de corrupção, mas a associação entre carga tributária e custo de vida

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou na campanha eleitoral como um ligeiro favorito, favorecido pela vantagem de estar no governo. Mas, com os modelos de previsão eleitoral apontando em direções opostas, a qualidade das campanhas e a capacidade dos candidatos de se conectarem aos temas que realmente preocupam o eleitorado podem ter um peso incomum no resultado das urnas.

Campanhas presidenciais raramente decidem eleições. Comentaristas políticos e marqueteiros dispendem uma energia enorme para analisar discursos, debates, estratégias e mensagens - que, de modo geral, têm pouco impacto no resultado. A maioria das eleições é decidida por um desejo difuso de mudança ou de continuidade, ou pela credibilidade que um candidato projeta em torno de um tema central para o eleitor.

O intocável regime de metas precisa ser aperfeiçoado, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Diversas fontes inflacionárias além da demanda podem ter peso muito maior na alta dos preços e tornar o regime ineficaz

O Regime de Metas de Inflação (RMI), bastante utilizado no mundo para o controle da inflação, é hoje quase um dogma no Brasil. Poucos economistas ousam contestá-lo. Um trabalho dos economistas André Luis Campedelli, da Unifesp, e Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor da PUC-SP, lança luzes até para não acadêmicos enxergarem o alcance e as limitações desse regime no Brasil.

O RMI foi instituído no país em 1º de julho de 1999. Estabeleceu-se que o Conselho Monetário Nacional fixaria a meta, cabendo ao Banco Central cumpri-la - atualmente é 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

O regime parte do pressuposto de que a inflação é explicada, na maior parte do tempo, por uma demanda econômica aquecida. Portanto, choques de oferta seriam casuais e não deveriam preocupar, pois seus efeitos se dariam apenas no curto prazo.

Riqueza é poder, por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

A fragilidade econômica das camadas mais pobres é expressa numa deficiência na sua representação política

O mais recente relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostrou avanços importantes em diversas áreas. Resultado do trabalho conjunto de diferentes organizações e entidades não governamentais, o relatório, com dados de 2025, mostrou melhoria em 71% dos indicadores avaliados. Entre esses indicadores estão insegurança alimentar, desnutrição infantil, porcentagem da população em situação de extrema pobreza, homicídios entre jovens e desmatamento. Em média, a vida melhorou em relação ao ano anterior.

No caso de um importante indicador econômico e social, entretanto, o Observatório constatou não a persistência de um quadro ruim, mas sua piora. Já muito elevada no Brasil, que por isso ocupa uma posição destacada entre os países socialmente mais desiguais do mundo, a concentração de renda se acentuou. Não foi muita coisa, mas aumentou. O rendimento médio do grupo das pessoas que compõem a faixa dos 1% mais ricos correspondia a 30,2 vezes o rendimento dos 50% mais pobres; em 2025, a 31,5 vezes. Isso quer dizer que a renda apropriada por 2,1 milhões de ricos equivale a mais de 31 vezes o total recebido por 106 milhões de brasileiros na faixa de renda mais baixa.

A pior eleição desde 1989, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula não tem marca, Flávio não tem nada, Caiado perdeu o trem e o resto virou o resto

O debate da Band e do Estadão, o primeiro entre candidatos à Presidência neste ano, foi importante por expor uma síntese triste, dolorosa, de como a eleição de 2026 tende a entrar para a história como a mais desanimada e mais desanimadora entre as nove desde a primeira direta na redemocratização. Logo, também a pior.

Com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro polarizando a campanha, não houve espaço para alternativas competitivas. O ex-senador e ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que tem 5%, no terceiro lugar, tenta discutir programas e propostas, mas fica falando sozinho.

Ausentes presentes, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula preferiu recolher a bandeira de defesa da democracia contra a ameaça golpista materializada pelos Bolsonaro – aquela com que se elegera em 2022 e pela qual terá ido a todos os debates. Imagina-se que considere já inexistente a ameaça, motivo em função do qual terá renunciado à chance de falar ao País e defender a continuidade de seu governo. A outra hipótese é a de que o empunhar desse estandarte fosse conveniência superada pela condição confortável de presidente.

O debate – na TV, como o conhecemos – talvez já não exista mais, transtornado pelo discurso franco-atirador marçalista. Caso em que candidaturas favoritas, como as de Lula e Flávio Bolsonaro, teriam razões adicionais para considerar que as consequências negativas de lhe faltar seriam menores do que os riscos da exposição em ambientes não controlados.

Uma janela para a realidade, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Debates eleitorais são oportunidade para avaliar candidatos em ambiente com menos filtros

Como potencial de dano é real, candidatos mais bem-posicionados preferem fugir do embate

São raros os debates presidenciais que mudaram o curso de uma eleição. O caso sempre citado é o do embate entre Kennedy e Nixon em 1960. O republicano foi mal. Não tanto pelo que disse, mas por exalar nervosismo. Suava profusamente enquanto seu adversário foi capaz de projetar uma imagem de dinamismo. No Brasil, temos o confronto entre Collor e Lula em 1989. Além do conteúdo do debate propriamente dito, pesou a edição pró-Collor que a Globo fez do evento.

Fuga de debate denota medo do contraditório, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ausência dos favoritos põe em xeque a utilidade dos embates entre candidatos a presidente

Quando recusam a controvérsia, Lula e Flávio deixam rastro de desdém ao discernimento do eleitor

Os candidatos a presidente da República mais visados, prediletos e, ao mesmo tempo, mais rejeitados nas pesquisas fizeram "forfait" no primeiro debate de televisão desta campanha. Não compareceram, alegadamente por razões estratégicas de proteção mútua.

Por óbvio, as ausências foram exploradas livremente com variações entre críticas e grosserias, com a desvantagem de os alvos não estarem ali para exigir direito de resposta a ofensas pessoais que claramente feriam as regras do embate.

O Rio dos megashows, helicópteros e aluguéis por temporada, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Cidade não é pensada para seus moradores e sim para o turismo de massa

Livro em torno de Fernando Sabino mostra as transformações de Copacabana ao longo do tempo

Mestre e doutora em Letras pela PUC-Rio, a professora e atriz Teresa Montero conduz, desde 2008, passeios culturais que exploram a presença da literatura nas ruas do Rio de Janeiro. Uma espécie de pequeno turismo na cidade que, hoje, é pensada e planejada não mais para os seus moradores —e sim para o turismo de massa, para os megaeventos.

Os passeios idealizados por Teresa já renderam os livros "O Rio de Clarice" (2018) e o recém-lançado "O Rio de Fernando Sabino", ambos publicados pela Autêntica. São dois guias íntimos e afetivos, que recomendo não só aos visitantes da cidade como àqueles que se interessam pela sua transformação ao longo do tempo.

O cronista da minha devoção, por Ivan Alves Filho

Católico fervoroso, tendo São Francisco de Assis por santo de sua devoção, ele dedicou sua vida à Literatura. Cronista, poeta, homem de teatro, radialista e jornalista, trabalhou em órgãos de grande prestígio à época, como Fon-Fon, Dom Casmurro e Ilustração Brasileira (da qual foi diretor), Diretrizes e Para Todos, esta última, ligada ao Partido Comunista.

Poesia | Cada um de nós é por enquanto a Vida, de José Saramago

 

Música | Elis Regina - "Dois pra lá, dois pra cá"