terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Governo federal tem dever de enfrentar o crime

O Globo

Ministério da Segurança é necessário para o Brasil poder desbaratar facções criminosas de alcance transnacional

Se algo une hoje o Brasil, é a sensação de insegurança. Cotidianamente o país é sacudido por assassinatos, latrocínios, estupros, feminicídios, sequestros, roubos, furtos e uma profusão de golpes que deixam marcas profundas. Sai governo, entra governo, a situação pouco muda. Avanços e retrocessos costumam acontecer menos como resultado de políticas públicas e mais em razão dos armistícios entre as quadrilhas do crime organizado que amedrontam a população indefesa. A violência se mantém em patamares vergonhosos.

De acordo com a última comparação internacional disponível, o Estudo Global sobre Homicídios 2023, divulgado neste mês pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), o Brasil registrou 22,4 homicídios intencionais por 100 mil habitantes em 2021, quase quatro vezes a média mundial (5,8 por 100 mil). A taxa supera a média das Américas (15 por 100 mil) e da África (12,7 por 100 mil), as regiões mais violentas. De 458 mil homicídios computados no mundo em 2021, 10,4% aconteceram no Brasil, país que reúne 2,5% da população global. No ano passado, foram 47.400 assassinatos, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A cada hora, pelo menos cinco brasileiros foram mortos. Os estupros chegaram perto de 75 mil, mais de 200 por dia. Mais de 22 mil crianças sofreram maus-tratos. Mesmo os crimes de menor gravidade expuseram números exorbitantes: houve quase 1 milhão de furtos ou roubos de celulares e 1,8 milhão de estelionatos. Não se pode achar normal essa calamidade.

Míriam Leitão - A cor do Brasil e a longa travessia

O Globo

A maioria negra registrada pelo Censo é mais do que estatística. É o momento em que os números mostram que o país se afasta da negação

Foi a travessia de uma fronteira a que o Brasil cruzou no último Censo ao se reconhecer majoritariamente como pardo e preto. A caminhada veio de longe e parte dela ocorreu em pouco mais de vinte anos. Do ano 2000 para cá aumentou em 42,3% os que se declaram pretos, 11,9% os que se definem como pardos. Juntos formam a maioria dos brasileiros. Sempre foi assim, sempre fomos um país de maioria negra. Mas o pertencimento veio aos poucos e tem um profundo impacto em todos os níveis da vida pessoal, cívica, social e econômica. Quem viu a intensidade desse processo não pode deixar de ter esperanças de um dia o país vencer o racismo em todas as suas formas e perversidades.

Os negros sempre lutaram por reconhecimento e respeito. Das heroicas lutas da escravidão aos primeiros levantes na República. No fim dos anos 1940 e início de 1950, houve o Teatro do Negro, o jornal Quilombo, um rico movimento cultural liderado, entre outros, por Abdias Nascimento. Nos anos 1970, o Movimento Negro foi voz forte contra o racismo e contra a ditadura e, entre as figuras importantes, a lendária Lélia Gonzalez.

Carlos Andreazza - Papai Noel de plantão

O Globo

Não sei como foi seu Natal. O dos irmãos Batista, Joesley e Wesley, foi ótimo. Em 19 de dezembro, a Aneel aprovou o negócio por meio do qual a Âmbar, dos donos da J&F, será a intermediária na aquisição de energia venezuelana para Roraima.

O Brasil poderia ter feito a operação sem a iniciativa privada. Era o que se imaginava em curso, até duas reportagens, da Folha e da piauí, informarem — em dezembro — o que o governo omitia ao menos desde março.

Ao menos desde março a Âmbar tratava da compra com uma empresa privada venezuelana (de identidade desconhecida). Desde março porque foi o mês em que a companhia comunicou ao governo o início da negociação. Não se sabe por que o governo tratou sigilosamente a participação dos Batistas no negócio.

Em maio, sem mencionar a empresa ou hipótese de intermediação, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciaria a pretensão de retomar a importação de energia da Venezuela. Lula e Maduro se reuniram e declararam a respeito. Em agosto, o presidente assinou decreto em que autorizava a compra. Em setembro, a Âmbar formalizou ao governo a sua proposta, aceita em outubro — e remetida à Aneel. Que a aprovou faz uma semana.

Marcello Averbug* - Falta ímpeto ao governo

O Globo

Nada de relevante foi anunciado em áreas essenciais como educação, saúde, meio ambiente, ciência e tecnologia

No momento em que Luiz Inácio Lula da Silva completa o primeiro ano de mandato, torna-se oportuno destacar a escassez de políticas públicas entusiasmantes anunciadas ao longo desse período. Embora seja inegável o nível satisfatório de inflação e compreensível o modesto crescimento da economia, falta ímpeto empreendedor ao governo.

Até agora, o único objetivo explicitado claramente por um ministro foi o déficit zero, mesmo assim sob contestação dentro do próprio PT. Apesar de ser cedo para avaliar o resultado desse objetivo, Fernando Haddad tem o mérito de haver proposto algo concreto.

No âmbito dos demais ministros, paira um marasmo enfadonho. Duas alternativas podem explicar esse fato: a) o governo vem trabalhando sem divulgar suas atividades; ou b) o governo encontra-se emaranhado numa rotina infrutífera. Se a primeira alternativa é verdadeira, então as autoridades federais vêm se omitindo em manter a população informada sobre o que realizam.

Pedro Cafardo - Maior profeta da economia errou muito sobre 2023

Valor Econômico

Algumas previsões equivocadas feitas por analistas do mercado financeiro chamaram atenção

Não há no Brasil o hábito de conferir o acerto de previsões feitas para o ano. E isso se justifica, porque o ideal é olhar para frente em matéria de economia. Mas, com 2023 ficando para trás, chamaram a atenção nos últimos meses algumas previsões equivocadas feitas por analistas do mercado financeiro.

Quando IBGE divulgou o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, por exemplo, foi uma surpresa. Os analistas esperavam em média expansão de 0,3%, mas o resultado veio muito melhor: crescimento de 0,9% na comparação com o primeiro trimestre, impulsionado principalmente pelas commodities industriais. Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, a expansão foi de 3,4%, também bastante acima das expectativas do mercado, de 2,7%. Com o resultado, analistas passaram a prever um crescimento do PIB superior a 3% em 2023.

No terceiro trimestre, nova surpresa, embora menos significativa. Na véspera do anúncio oficial, o Valor havia ouvido 71 consultorias e instituições financeiras e a expectativa média era de uma queda de 0,2% no PIB. Mas o resultado veio melhor: 0,1% de crescimento em relação ao trimestre anterior. O que evitou um índice negativo foi a demanda, com o consumo das famílias crescendo 1,1%, algo não previsto pelos analistas.

Andrea Jubé - Lula quer mais ‘Guimarães Rosas’ em 24

Valor Econômico

“Vocês, jovens, gostam de ler livros?”, questionou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma plateia de estudantes do Instituto de Matemática Pura Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. “É bom ler, sabe por quê? Porque se vocês ficarem só no português do Twitter [atual X], vai diminuir o vocabulário de vocês”, alertou em discurso no dia 6 de dezembro.

O IMPA organiza a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Lula defendeu que o Brasil forme mais profissionais nas áreas de matemática, engenharia e física. Mas reclamou que “até hoje se fala que a meninada do Brasil não é boa de redação, não consegue interpretar um texto”.

Desde a primeira edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em 2000, o Brasil patina com notas bem abaixo da média da OCDE nas três áreas examinadas: Matemática, Português e Ciências.

Rubens Barbosa* - Integração física sul-americana

O Estado de S. Paulo

Corredores bioceânicos na América do Sul são resposta ao deslocamento do eixo mais dinâmico da economia mundial do Atlântico Norte para o Pacífico

Uma das principais prioridades da política externa do atual governo é a relação com a América do Sul. Políticas equivocadas ao longo dos últimos quatro anos resultaram no isolamento, perda de influência do Brasil na região e redução da participação de produtos brasileiros na pauta de exportação e de importação com os países vizinhos, agravada pela perda de competitividade e pela concorrência com produtos chineses.

Do governo Lula da Silva, esperam-se políticas que apoiem a integração regional, não só através do melhor funcionamento do Mercosul e do aproveitamento da Área de LivreComércio, criada na América do Sul com a rede de acordos comerciais negociados no âmbito da Associação LatinoAmericana de Integração (Aladi), mas também de iniciativas que promovam a integração física na região.

Joel Pinheiro da Fonseca - Por 2024 sem ilusões

Folha de S. Paulo

Coincidem a deterioração da hegemonia americana no mundo e a revolução tecnológica que dá mais poder aos indivíduos

À distância, no oceano, banhistas veem um navio cargueiro. Uma menina comenta que o navio parece estar vindo em direção à praia, mas o pai prontamente rejeita essa opinião; deve ser só impressão. Algumas horas depois, o navio já está bem mais próximo, mas o pai ainda segue dando garantias à família: alguém deve estar tomando conta disso, ninguém iria permitir esse desastre. Até que o navio, gigantesco, está a poucos metros da praia, vindo a toda a velocidade, e só resta à família correr em pânico numa fuga desesperada.

Essa cena, parte do segmento de abertura do filme "O Mundo Depois de Nós" da Netflix —um filme-catástrofe com subtexto político—, retrata bem o momento em que vivemos. O navio que se aproxima é 2024. O mundo assiste incrédulo às preparações para as eleições americanas. Poucos se permitem reconhecer o que é cada vez mais provável: Trump vai vencer e sua volta ao poder terá um impacto profundo tanto na democracia americana quanto na ordem mundial.

Dora Kramer - De pernas para o ar

Folha de S. Paulo

Cenário em SP confirma o dito de que a política se movimenta ao ritmo das nuvens

Não é mero chavão aquela história de que a política se movimenta ao ritmo das nuvens. É expressão da realidade: a gente olha, está de um jeito, e no minuto seguinte está de outro.

Assim ocorre no quadro pré-eleitoral em São Paulo, onde se desenhava disputa consolidada entre Guilherme Boulos (PSOL) e Ricardo Nunes (MDB). Agora não há mais certeza de nada.

Em matéria de eleição, nunca convém tomar como definitivos cenários antecipados. As pesquisas, que tampouco são oráculo de Delfos, ainda não registram alterações, mas a entrada de novos e significativos personagens em cena indica a possibilidade de reviravoltas.

Até outro dia o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) considerava inabalável seu apoio à reeleição do prefeito. Pois há uma semana sinalizou possível revisão do acordo. Não quer entrar em bola dividida.

Hélio Schwartsman - Epicuro na veia

Folha de S. Paulo

Lançamento de Política Nacional de Cuidados Paliativos é boa notícia, mas é preciso mudar a cultura

"A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e, quando existe a morte, não existimos mais." A frase, de Epicuro, captura o que há de mais essencial sobre a morte. Seu corolário é que precisamos aproveitar a vida, buscando prazeres, cultivando amizades e tentando sempre agir de forma virtuosa. É preciso também evitar a dor e o sofrimento.

Nesse último item, o Brasil fracassa miseravelmente. No ranking de qualidade de morte da Universidade Duke, o Brasil ocupou, em 2022, a 79ª posição entre os 81 países estudados. O índice é bem ecumênico. O item que mais pesa é o controle da dor, mas também entram acesso a tratamentos, gentileza da equipe de saúde e até conforto espiritual para quem deseja. O Reino Unido, primeiro colocado na lista, obteve 93,1 pontos. O Brasil fez míseros 38,7, ficando à frente apenas do Líbano e do Paraguai.

Alvaro Costa e Silva - A cultura segundo Nikolas e Janones

Folha de S. Paulo

No país que não lê, deputados lançam livros que silenciam sobre seus problemas na Justiça

Pesquisa da Câmara Brasileira do Livro aponta que apenas 16% da população consome livros, e o principal motivo para motivar a compra é o preço. Na classe com maior poder aquisitivo, há quase um desprezo pela leitura: 66% não compraram nenhum livro nos últimos 12 meses. Mesmo assim, dois deputados, entre os mais influentes e midiáticos do país, resolveram publicar brochuras culturais neste fim de ano.

Nikolas Ferreira lançou "O Cristão e a Política: Descubra Como Vencer a Guerra Cultural". O autor, de acordo com a resenha de Anna Virginia Balloussier, investe contra o feminismo, o movimento LGBT e as universidades: "Sobra também para Paulo Freire, Karl Marx, Antonio Gramsci e a Escola de Frankfurt". Obrigado, mas eu passo.

Com enfado, li "Janonismo Cultural: O Uso das Redes Sociais e a Batalha Pela Democracia no Brasil". Ao longo de 172 páginas, André Janones faz de tudo para se colocar num pedestal de herói da pátria. Um herói dos tempos atuais: "Afinal, sei como as redes funcionam". Só faltou dizer que, se não fosse pelo seu desempenho digital, Lula teria fracassado nas eleições de 2022.

Poesia | Gato que brincas na rua - Fernando Pessoa com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Incompatibilidade de Gênios (João Bosco e Aldir Blanc) - Duda Maia e Orquestra Som do Nordeste

 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasil precisa ser realista sobre presidência do G20

O Globo

Embora liderar o bloco traga visibilidade, é difícil haver avanço em toda a agenda defendida por Lula

Brasil acaba de assumir, pelo período de um ano, a presidência rotativa do G20. Trata-se de um espaço especial. O G20 congrega as principais economias do mundo, incluindo países de todos os continentes. Durante o mandato à frente do bloco, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer levar três itens para a agenda de discussões: combate à fome e à desigualdade, desenvolvimento sustentável e reforma da governança global. Há, é certo, uma impossibilidade prática de converter as intenções em realidade. Mas isso não justifica que se abandone a defesa de boas ideias.

O primeiro item é aquele em que parece haver mais consenso. Ninguém discorda de que seja preciso acabar com a fome e melhorar o padrão de vida da população mundial. Tais temas são sempre levantados por Lula, ainda que o fim da miséria no planeta dependa de transformações nas regiões afetadas, nem sempre ao alcance de organismos multilaterais. Os esforços terminam canalizados para ações assistencialistas, também necessárias, mas raramente suficientes. Para o discurso não se tornar vazio e repetitivo, a pregação contra a fome e a miséria precisa apontar as barreiras que impedem o crescimento econômico e a distribuição de renda nas regiões mais pobres.

Fernando Gabeira - Lições de um ano violento

O Globo

Hoje é dia de refletir sobre o Natal. Mas o Natal não pode ser comemorado em Belém, onde Jesus nasceu. É a guerra

O ano que acaba foi muito violento. Outros também foram, mas nem tanto. O ataque sangrento do Hamas e as consequências dele assombram os últimos meses de 2023.

Depois de tudo o que vi e li, estupros, execuções covardes, corpos infantis sendo resgatados dos escombros, escolas e hospitais bombardeados, cheguei a escrever que perdi minha fé no ser humano. Ao longo dos dias, ajudado por algumas leituras, concluí que minha fé no ser humano era apenas uma ilusão, o tipo de ilusão que talvez valha a pena manter com a ressalva de que estamos conscientes dela.

Num texto de John Gray sobre os astecas, constato uma nova maneira de ver a violência. Para eles havia um caos subjacente, e a violência do Estado refletia a violência do cosmo e dos deuses. Matavam gente em larga escala, em sacrifícios ritualescos. Foi como se percebessem que não podiam abrir mão da violência e decidiram santificá-la. Segundo Gray, conferiam um lugar central para os impulsos, algo que o pensamento moderno nega.

Edu Lyra - Solidariedade para a vida toda

O Globo

Ser solidário exige um engajamento mais sério com a causa social, pois a pobreza não será vencida sem um esforço constante

No começo de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da emergência provocada pela Covid-19, que passou a ser considerada mais uma doença endêmica como tantas outras. Era, por assim dizer, o fim “oficial” da pandemia.

Isso significa que 2023 foi o primeiro ano em que pudemos realmente voltar à normalidade. É claro que, desde as bem-sucedidas campanhas de vacinação, a crise sanitária já estava controlada. Desde o ano anterior, vivíamos em clima de relativa normalidade, mas 2023 selou essa conjuntura como primeiro ano pós-pandemia de fato.

Com isso, pudemos enfim respirar e atravessar um período sem grandes crises humanitárias, certo? Infelizmente, não.

Ao menos duas tragédias ocorridas em 2023 ficarão na memória dos brasileiros: no feriado de carnaval, temporais devastaram o litoral paulista, com deslizamentos arrastando bairros inteiros de São Sebastião. Mais tarde, em junho, um ciclone extratropical atingiu os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, provocando alagamentos que se tornariam, segundo a Defesa Civil do RS, o maior desastre natural em quatro décadas.

Demétrio Magnoli - Gonet e a hidra descontrolada

O Globo

A mera vontade das autoridades não será suficiente para sanar a anarquia institucional provocada pela politização do MP

A sombra da Lava-Jato pairou sobre a cerimônia de posse de Paulo Gonet. O Ministério Público (MP) “não pode achar que todo político é corrupto”, advertiu Lula, pedindo-lhe que seja “o mais honesto possível, o mais duro possível, mas ao mesmo tempo o mais justo possível”. O novo procurador-geral (PGR) respondeu que “no nosso agir técnico, não buscamos palco, nem holofotes”. Tudo isso faz sentido — mas passa longe da reforma indispensável.

Conduzidos por um impulso de idealismo ingênuo, os constituintes de 1988 desenharam os contornos de uma hidra, criando um Quarto Poder sem controle e atribuindo-lhe as mais amplas, genéricas e vagas funções. O MP ganhou, entre outras, a prerrogativa de proteção “de outros interesses difusos e coletivos” — o que significa tudo e qualquer coisa. Daí, bastou um passo para que jovens procuradores entusiasmados, institucionalmente livres de amarras legais, vestissem a fantasia de justiceiros reformadores da sociedade.

Camila Rocha* - 2024 promete disputa acalorada

Folha de S. Paulo

Conquistar a prefeitura da capital não será tarefa fácil para Boulos

Previsões entusiasmadas de setores da esquerda, baseadas nas últimas pesquisas de intenção de voto, apontam a vitória de Guilherme Boulos (PSOL) para a Prefeitura de São Paulo como altamente provável. Há também quem aposte que o retorno de Marta Suplicy ao PT, e sua presença na chapa de Boulos como vice, é garantia de vitória.

No entanto, com ou sem Marta na chapa, conquistar a prefeitura da capital não será tarefa fácil para o candidato do PSOL. Afinal, é preciso levar em consideração que a esquerda perdeu a capilaridade que possuía em seus próprios redutos eleitorais ao longo dos últimos dez anos.

Em 2016, João Doria, então filiado ao PSDB, conquistou a prefeitura no primeiro turno, alavancado pelo antipetismo galopante e pelo sentimento antipolítica que precedeu o crescimento do bolsonarismo no país. Quatro anos depois, os tucanos permaneceram no comando da cidade após Bruno Covas (PSDB) obter mais de 1 milhão de votos a mais que Boulos no segundo turno.

Marcus André Melo* - A política da imperfeição

Folha de S. Paulo

Como a mudança nas regras foi aprovada, se havia múltiplos atores com poder de veto?

O ministro Fernando Haddad afirmou que a Reforma Tributária aprovada não é perfeita porque é parte de um esforço coletivo. Para o presidente Lula, deveu-se a Deus todo-poderoso e à arte da negociação. Na realidade, são outras as razões que explicam por que ela foi aprovada e por que é imperfeita.

Lembro Maquiavel sobre a sina de reformas que impõem custos concentrados a setores específicos e benefícios difusos para toda a sociedade: "Não há nada mais difícil, perigoso e de resultado mais incerto do que começar a introduzir novas leis, porque o introdutor tem como inimigos todos aqueles a quem aproveitam as antigas e como frouxos defensores quantos viriam a lucrar com as novas".

Sylvia Colombo* - Peru vive normalidade instável

Folha de S. Paulo

País sul-americano construiu verdadeira ojeriza da política e tem recuperação difícil após protestos com dezenas de mortos

Dezembro de 2022 foi um mês duro para o Peru. E, um ano depois, com uma situação algo instável, segue existindo um sentimento de revolta e tensão em várias regiões do país que, a qualquer momento, poderia se transformar em um novo pico de convulsão social.

A situação inicial foi provocada pela tentativa de autogolpe do presidente Pedro Castilho em 7 de dezembro do ano passado. O esquerdista tomou essa decisão depois de pressionado e alvo de tentativas de impeachment por parte do Congresso em seu curto período de um ano de governo. Castillo terminou preso e julgado.

Uma vez que era popular no setor rural, as manifestações contra sua saída do cargo foram iniciadas por camponeses que rumaram à capital, Lima, e a outras grandes cidades peruanas, recebendo o apoio de setores urbanos. Os protestos duraram meses.

Ruy Castro* - O raro e o antigo

Folha de S. Paulo

Nem todo livro antigo é raro, e alguns dos grandes clássicos não são tão raros como se pensa

Há dias arrematei num leilão um exemplar da 1ª edição do romance "1984", de George Orwell. A original, inglesa, da Secker & Warburg, de 1949. E nem me custou tanto —para citar dois marcos de Copacabana, mais caro do que um prato de empadinhas no Caranguejo e mais barato do que uma porção de picles no Copacabana Palace. E só por isso pude disputá-lo: por ser um troféu da literatura, mas não tão raro que o tornasse proibitivo para jornalistas órfãos e desamparados.

"O quê?", dirá você. "Então uma 1ª edição de ‘1984’ não é rara?". Nem tanto. Orwell já era famoso e vinha do enorme sucesso de "Animal Farm" (no Brasil, "A Revolução dos Bichos"), em 1946. "1984" já era esperado antes mesmo de sair. E não posso garantir qual foi a tiragem inicial, mas sabe-se que foi grande e vendeu tudo. Desde então, aqueles exemplares correram mundo nas mãos de particulares, leiloeiros e donos de sebo, e muitos sobreviveram, como o que comprei. Uma 1ª edição de "Animal Farm" rende mais ao martelo.

Carlos Pereira - Fim da reeleição é presente de grego

O Estado de S. Paulo

O risco de perder o poder é justamente a força motriz que tem o potencial de gerar o bom governo

Está em curso um movimento pelo fim da reeleição. O Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que vai colocar em pauta uma proposta que prevê o fim da reeleição para cargos no Executivo. Argumenta que existiria uma vantagem desproporcional do incumbente, tanto por ser mais conhecido, como pelo risco de manipular a máquina pública para se reeleger.

Por outro lado, a reeleição poderia ser interpretada como uma chance de o eleitor avaliar retrospectivamente a performance de um governante, premiando ou punindo pelo seu desempenho. Ou seja, a reeleição, ao ampliar o horizonte temporal do governante no poder, cria uma estrutura de incentivos para o bom comportamento e para que o governante alinhe a sua conduta às preferências do eleitor mediano.

Sérgio Augusto* - As palavras de 2023

O Estado de S. Paulo

Todo dezembro, os dicionários de maior prestígio no Ocidente apontam a ou as palavras que mais se destacaram durante o ano. As mais faladas, escritas e abusivamente usadas, ao sabor de acontecimentos e modismos passageiros.

Embora rito lexical de origem alemã, americanos e britânicos se apossaram da ideia e, beneficiados pela língua franca que trazem do berço, a universalizaram.

Não cultivamos esse hábito entre nós. Os franceses tampouco, preferindo destacar apenas as palavras anualmente incorporadas ao Larousse, ao Robert e congêneres. NFT, acrônimo em inglês de “token não fungível”, só chegou agora ao Larousse, com as letras JNF e duas temporadas de atraso em relação ao Collins Dictionairy.

Se já não falamos tanto, por motivos óbvios, em “pandemia” e “quarentena”, em compensação ainda ouvimos em demasia “desmatamento”, “polarização”, “fake news”, “narrativa”, “feminicídio”, e temo que tão cedo não nos livraremos de “icônico”, “robusto”, “surreal”, “camada” – e talvez nunca de “interessante”, o mais anódino e onipresente dos adjetivos, placebo semântico com maior ibope entre os comentaristas de nossa TV. “Interessante” é um qualificativo que nunca desceu do muro.

Celso Ming - O Natal e a mentalidade ocidental

O Estado de S. Paulo

Se nos ativermos à chamada mentalidade ocidental, as representações que os humanos fazem das coisas começaram lá atrás com a luta entre gigantes, ou gigantomaquia, tal como representada no altar do templo de Zeus na antiga Pérgamo, hoje oeste da Turquia. Depois vieram as diatribes dos heróis, como nos contam as obras de Homero. Pouco a pouco, emerge da representação das coisas a vida dos mortais comuns.

Na antiguidade, o entendimento era o de que os deuses conviviam em concórdia com os humanos, como nas bodas de Cadmo e Harmonia. Depois veio a ruptura entre os habitantes do Olimpo e os da terra, só tentativamente remediada por meio do sacrifício.

Lula | Mensagem de fim de ano

 

Poesia | Poesia de Natal - Cora Coralina

 

Música | Orquestra Filarmônica de Berlim - Bachiana n°5 - Villa Lobos

 

domingo, 24 de dezembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Em vez de gastar mais, Estado precisa saber gastar melhor

O Globo

Orçamento é aprovado com a preocupação de elevar a despesa, e não a eficiência da máquina pública

Mesmo sustentado por uma carga tributária muito além da razoável para um país emergente, o Estado brasileiro é conhecido por prestar serviços públicos de baixa qualidade. Gasta muito e gasta mal. Para o ano que vem, o Orçamento prevê uma despesa primária da União — sem considerar o pagamento de juros da dívida pública — de R$ 2,1 trilhões. Ainda assim, a meta de déficit zero orçada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não é considerada viável dentro do próprio governo. Para não falar nos gastos de estados e municípios.

Chama a atenção que, mesmo com tanto dinheiro, o Estado não preste serviço de qualidade à população. A série de reportagens “Estado eficiente”, publicada pelo GLOBO, expôs alguns aspectos que tornam o Estado disfuncional. Ele gera burocracia quando deveria facilitar a vida de cidadãos e empresas. Atua de forma débil na ajuda à Federação em áreas essenciais como saúde, segurança e educação. Ao tentar fazer de tudo — há até estatais para hemoderivados e semicondutores —, paradoxalmente deixa o brasileiro desamparado naquilo de que mais precisa. E, sem avaliação consistente das políticas públicas, cria um sem-número de ralos por onde o dinheiro público escorre sem controle.

Tome-se o exemplo dos investimentos em obras públicas. De 21 mil contratos com alguma participação de recursos federais, 40% estão parados. Há uma escalada nas paralisações. A proporção de canteiros abandonados cresceu de 29% em 2020 para 38,5% em 2023. Obras sem continuidade representam um investimento de R$ 32,2 bilhões, R$ 8,2 bilhões dos quais já pagos. O resto são recursos públicos congelados, que deixam de gerar empregos, renda e melhoria nos serviços. Puro desperdício.

Luiz Sérgio Henriques - O tempo da solidariedade

O Estado de S. Paulo

O que há de socialismo no mundo, para sair da atual posição defensiva, deve ir além da democracia política. Reelaborar, de modo laico, os valores da solidariedade próprios de todas as religiões

O dito segundo o qual todas as épocas estão a igual distância de Deus muito provavelmente já não nos serve pelo menos desde que se abriu a era atômica. Em linguagem secular, a ser verdade o dito, os tempos valem uns pelos outros, os males são aproximadamente os mesmos, as atribulações humanas essencialmente não se alteram – e beiram o absurdo. A partir de Hiroshima e Nagasaki, no entanto, passamos a carregar um peso infinitamente maior derivado da possibilidade de autodestruição do planeta e da espécie. E, agora, a aceleração vertiginosa inerente à condição pós-moderna, ou hipermoderna, acena para o fato de que a cada dia nos tornamos ainda mais perigosos para nós mesmos. Estaremos, pois, a uma distância maior de Deus.

Este é o vasto contexto no qual as chamadas grandes narrativas entraram em crise irreversível. Não há mais a ilusão de um único pensamento totalizante capaz de apreender, ainda que tendencialmente, o conjunto das determinações da realidade. O marxismo – mesmo tendo sido uma dessas extraordinárias construções totais que buscaram seguir, como sombra incômoda, a mercantilização do mundo – não existe mais como a filosofia insuperável do nosso tempo, na famosa observação de Sartre. E, apesar de ter se afirmado como potente crítica da economia, desde o princípio terá tido a lacuna de uma incompreensão substantiva da política e do Estado. Uma lacuna cheia de consequências, como se sabe.

Dorrit Harazim -Devaneios são permitidos

O Globo

Ver a Terra como ela realmente é, um pálido e lindo ponto azul flutuando num eterno silêncio, deveria ter nos aproximado mais uns dos outros

Não é que falte assunto de relevo neste final de ano — a Humanidade, mais uma vez, não caminhou rumo ao que dela era esperado. Ver a Terra como ela realmente é, um pálido e lindo ponto azul flutuando num eterno silêncio, deveria ter nos aproximado mais uns dos outros, estreitado nossa interdependência como passageiros de um mesmo mundo, confirmado a relação paradoxal entre distância espacial e proximidade emocional. Não foi bem isso que ocorreu em 2023. Mas é justamente em período de início de férias, com festejos a todo vapor e desatenção geral típica de véspera de Natal, que devaneios são permitidos — ótima oportunidade para poder divagar sobre algo impalpável, evanescente e atemporal, apenas bonito: a cor azul e nossos estados d’alma.

Wassily Kandinsky, William Gass (“On being blue”), Carl Sagan, Goethe, Maggie Nelson (“The colour blue as a lens on memory and loneliness...”), Maria Popova e Leonardo da Vinci são apenas alguns dos pintores e naturalistas, escritores, pensadores ou poetas que se debruçaram sobre essa que é chamada de “a cor da mente emprestada ao corpo, a cor da consciência quando a acariciamos”. Para a ensaísta americana Rebecca Solnit, autora de uma elegante reflexão sobre como encontrar a si mesmo no desconhecido (“Um guia para se perder”, Martins Fontes, 2022), a relação entre o azul, a melancolia e a solidão humanas está por toda parte onde há distância e desejo.

Paulo Celso Pereira* - Lula em mares nunca antes navegados

O Globo

É na esteira da inação do governo que a oposição parece começar a descobrir flancos para agir. O alvo agora é a segurança pública

Dois meses depois das eleições mais apertadas da História brasileira, e a dois dias da posse de Lula, o Banco Central divulgou seu último boletim Focus de 2022. O relatório trazia a expectativa dos principais nomes do mercado financeiro para o ano subsequente. O cenário para 2023 era nebuloso: a previsão era que o primeiro ano do governo Lula terminaria com baixo crescimento econômico, 0,8%, inflação acima do teto da meta, 5,3%, dólar batendo R$ 5,27 e taxa de juro em 12,25%.

A vida real acabou sendo bem melhor do que projetavam os operadores, majoritariamente críticos ao petista: a economia deverá crescer cerca de 3% neste ano, a inflação está dentro da meta, em 4,5%, o dólar abaixo de R$ 5, e a taxa de juros fechará o ano em 11,75%. Para completar, o desemprego caiu, e a renda média dos trabalhadores subiu.

Bernardo Mello Franco - O ano do alívio

O Globo

Desde janeiro, país tem uma ministra da Saúde que acredita na vacina, um ministro da Defesa que não ataca as urnas e um chanceler que não sonha em nos fazer párias

O ano começou mal. Sete dias depois de Lula vestir a faixa, bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes. A tentativa de golpe não visava só derrubar o governo eleito nas urnas. A extrema direita queria rasgar a Constituição e impor uma nova ditadura, sonho do capitão desde os tempos de recruta.

A intentona de 8 de janeiro fracassou. Não graças aos militares, como dizem arautos da caserna, mas apesar deles. Oficiais de alta patente protegeram um movimento ilegal, que conspirou e tentou destruir as instituições. Responsabilizá-los é tarefa necessária para consolidar a democracia.

Até aqui, o Supremo condenou 25 pessoas entre mais de 1.400 denunciados pelos atos antidemocráticos. Todos estavam na base da pirâmide do extremismo. Idealizadores e financiadores do golpe continuam impunes. A ver se serão incomodados pelo novo procurador-geral da República.

Míriam Leitão – Eventos recentes na visão dos militares

O Globo

O ano complicado, que começou com o ataque de 8 de janeiro, termina com a percepção de ameaça às instituições se dissipando, avaliam oficiais

O ano começou turbulento para a relação entre civis e militares e está terminando, na visão de alguns oficiais que ouvi nas três forças, muito melhor do que começou. Por isso, dizem que vão com tranquilidade para as comemorações que o governo prepara para o 8 de janeiro. “A democracia saiu fortalecida”, me disse um oficial superior. Os militares admitem que houve “contaminação” de parte das Forças Armadas pelas ideias do bolsonarismo, mas o mais importante, segundo eles, é não ter havido um único movimento de tropas. O Exército, afirmou um general, tem 680 estabelecimentos militares e não houve um único ato.

O que um dos oficiais me disse é que o 8 de janeiro serviu para arrefecer o ímpeto antigoverno. “Se havia alguma indignação com a eleição do presidente Lula, passou a haver reprovação ao que houve em 8 de janeiro e um arrefecimento das críticas ao presidente Lula”. A explicação é que quem levantava bandeiras contra a esquerda ficou constrangido diante da evidente ilegalidade dos atos.

Elio Gaspari - A erudição de Toffoli

O Globo

Na decisão que aliviou as multas impostas à J&F dos irmãos Batista de R$ 10,3 bilhões para R$ 3,5 bilhões, o ministro José Antonio Dias Toffoli deu-se a uma reflexão literária. Açoitou a Operação Lava- Jato comparando-a à desdita de Jean Valjean, o personagem de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e a Edmond Dantès, o “Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. São dois romances magistrais.

Na visão de Toffoli, os irmãos Joesley e Wesley Batista, como Valjean e Dantès, foram heróis vitimados por penas abusivas e violentas.

Nas suas palavras:

“Na literatura, Dantès supera seu amargo destino transformando-se no Conde de Monte Cristo, enquanto Valjean passa a reconstruir sua vida quando se vê livre, estabelecendo inesperadas relações entre diferentes tipos de miseráveis na Paris do século XIX.

A vingança iminente e nunca satisfeita em plenitude une os heróis e nos separa da literatura romântica, afinal, quando se trata de uma injustiça verídica no Brasil da Lava-Jato, é o STF quem tem cumprido a função do narrador que nos deixa a par do quão abusivo e injusto fora o processo e mitiga, na medida do que é processualmente possível, os danos desta que pode ser considerada a Operação mais abusiva de que se tem notícia sob a égide da Constituição de 1988.”

Rolf Kuntz - Sem gastança, um ano novo feliz

O Estado de S. Paulo

Gestão pública saudável pode até causar incômodo, de vez em quando, mas é uma das condições para muitos bons anos novos

Com mais empregos, melhores condições de consumo e algum alívio no endividamento, os brasileiros podem ter um Natal mais tranquilo que o do ano passado, mas um feliz ano novo ainda vai depender de Brasília, onde a tentação da gastança e da irresponsabilidade é permanente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez cara feia quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou a intenção de reduzir a zero o déficit primário, sem gastar mais, portanto, que o valor da arrecadação em 2024. Os programas sociais serão preservados, prometeu o ministro. A arrumação das contas federais dependerá, em parte, de um aumento da receita tributária, mas alguma austeridade será indispensável. Se o plano funcionar, o endividamento público será contido e a redução de juros será mais fácil, favorecendo o crescimento econômico – mas falta o governo convencer o mercado financeiro de suas boas intenções.

Vinicius Torres Freire - Fantasmas de Natais passados

Folha de S. Paulo

Lula, o Brasil e uma pequena história dos erros de interpretação do que foi, é e será

No Natal de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva previa um 2004 "difícil". O governo seria "mais cobrado" e o ano não seria dos seus "sonhos", embora melhor. O país não parecia conturbado —2004 viria a ser quente nas ruas. Havia uma espécie de alívio, algo desanimado, dentro e fora do governo.

Lula e PT assumiram sob descrédito, em um país com as contas externas quebradas. Juros e inflação haviam aumentado de modo preocupante; cairiam um tanto, sob uma política macroeconômica idêntica à de FHC 2 (com grande superávit primário, note-se).

PIB ficaria quase estagnado. Mas, ao final daquele 2003, previa-se que o crescimento de 2004 seria de 3,5%. Foi de 5,8%. Nos cinco anos de 2004 a 2008, a renda (PIB) per capita aumentaria 20%, inédito desde 1980. Tal avanço e o Bolsa Família mudariam a história política do país de modo que então não imaginávamos.

Celso Rocha de Barros - O papa e os LGBTs

Folha de S. Paulo

Decisão de Francisco ajuda a tirar o alvo da testa de casais homossexuais

papa Francisco autorizou sacerdotes católicos a abençoarem casais homossexuais.

Para o Estado laico, o respeito à liberdade individual é mais do que suficiente para garantir aos LGBTs o direito à igualdade matrimonial civil. Além disso, a bênção aprovada pelo papa não equivale ao casamento, que continua a ser um sacramento celebrado entre homens e mulheres.

Por outro lado, os LGBT católicos ficaram felizes com a notícia. No fundo, passaram a ter mais ou menos, digamos, o mesmo status dos casais heterossexuais formados por divorciados. Também a eles o papa autorizou que se abençoe.

Nos dois casos, a situação é vista como irregular pelo catolicismo. Mas se os cristãos só condenarem os LGBTs na mesma proporção que condenam divorciados que se casaram de novo, como Jair Bolsonaro, será um progresso. O papa ajudou a apagar o alvo que o conservadorismo contemporâneo desenhou na testa dos LGBTs.