sábado, 1 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Julgamento mais importante de Trump será na urna

O Globo

Condenação criminal inédita do ex-presidente lança disputa eleitoral deste ano em território desconhecido

Momentos depois de tornar-se o primeiro ex-presidente americano a ser condenado por um crime, ainda nas dependências de um tribunal em Nova York, Donald Trump declarou que o veredito será dado pelo povo em 5 de novembro, dia da eleição americana. Trump é conhecido por proferir mentiras em série, mas até o mais inflamado de seus críticos será obrigado a concordar que desta vez falou uma verdade: apenas as urnas terão o condão de decidir seu destino — e o de todo o país.

Os Estados Unidos não contam com lei semelhante à da Ficha Limpa, portanto, mesmo condenado, o nome de Trump estará nas cédulas depois de referendado na convenção republicana de julho. A sentença será proferida também em julho, dias antes da convenção. Como Trump não tem antecedentes criminais, é remota a chance de ser preso. O cenário mais provável é uma multa acompanhada de liberdade condicional. Ainda assim, o ineditismo da situação lança desde já a disputa deste ano em território desconhecido.

Oscar Vilhena Vieira -Desenraizamento institucional

Folha de S. Paulo

Nesta semana assistimos a mais um festival de deslealdades com o nosso combalido Estado de Direito

O ambiente institucional brasileiro vem passando por um preocupante processo de degradação na última década, que se reflete numa dificuldade cada vez maior de a lei servir como instrumento de determinação de condutas e estabilização de expectativas. E onde a lei não impera, prevalecem o arbítrio, a violência, o oportunismo, o mandonismo e uma perversa forma de extrativismo institucional.

A fragilidade do direito brutaliza a vida das pessoas, especialmente daquelas que estão mais vulneráveis ao crime, ao arbítrio e à negligencia do Estado ou mesmo à ação predatória de algumas poderosas corporações. A fragilidade da lei deteriora a eficácia das políticas públicas, das instituições democráticas e, por consequência, a confiança na democracia. A fragilidade da lei, por fim, reduz a eficiência dos mecanismos de mercado, inibe investimentos e emperra processos de desenvolvimento econômico e social mais sustentáveis e equitativos.

Dora Kramer - Sem rumo nem prumo

Folha de S. Paulo

Lula deixou o Congresso no vácuo, semeou descaso, natural que colha derrotas


Ainda na campanha, quando indagado sobre seus planos para se relacionar com um Congresso cheio de novos poderes, o então candidato Luiz Inácio da Silva (PT) não demonstrava preocupação. Dizia que resolveria tudo com muita conversa.

Transcorrido praticamente um ano e meio de governo, o presidente muito discursou, mas não resolveu nem conversou na forma e no conteúdo exigidos pela atual configuração do Parlamento.

Hélio Schwartsman - Trump condenado

Folha de S. Paulo

Veredicto do júri não deverá mudar muito as pesquisas eleitorais e mesmo assim poderá mostrar-se decisivo

Como a condenação criminal de Donald Trump afeta a eleição presidencial? A resposta tem algo de paradoxal. Não se esperam grandes movimentações nas pesquisas de intenção de voto. Com a polarização afetiva, eleitores fiéis ao ex-presidente devem tornar-se ainda mais trumpistas. Verão na decisão do júri nova-iorquino um ato de perseguição política, uma nova tentativa de "roubar" a Presidência ao magnata laranja. Já os democratas tenderão a ler o episódio como uma confirmação do que sempre souberam: Trump não passa de um bandido, indigno de ocupar o cargo mais alto do país.

Guga Chacra - Condenado, mas ainda admirado por republicanos

O Globo 

Apesar do sólido apoio entre apoiadores do seu partido, ainda é cedo para saber qual será impacto a condenação do ex-presidente e candidato terá no eleitorado como um todo

“Nada na Constituição (dos EUA) impede um criminoso condenado de ocupar a Casa Branca. E, para a base de Trump, ele não é apenas um homem, mas um movimento. Quantos mais problemas ele enfrenta na Justiça, mais seus apoiadores o reverenciam. Na campanha, a expectativa é de que ele aproveite a imagem de ídolo fora da lei, usando a sua condenação para se retratar como um prisioneiro político e vítima de uma conspiração democrata”, escreveu o New York Times em seu artigo para a posteridade na edição histórica do jornal desta sexta-feira, com a manchete de "GUILTY" ("culpado", em português), em fonte gigantesca, ocupando todo o topo da capa do jornal.

Pablo Ortellado - Chico Bosco tem razão!

O Globo

As universidades são mesmo muito de esquerda. Mas esse problema não foi gerado por uma conspiração

Na semana passada, Francisco Bosco concedeu ao jornal O Estado de S.Paulo uma entrevista sobre seu novo livro, “Meia palavra basta”. A certa altura, observou que nas universidades predominam visões políticas de esquerda e reconheceu que, com respeito a esse ponto específico e sem que tenha dito da melhor maneira, Olavo de Carvalho tinha razão. A menção ao infame ideólogo do bolsonarismo acendeu a fábrica de cancelamentos, e o necessário debate sobre a pluralidade política na universidade foi trocado pela condenação moral do ensaísta.

Carlos Alberto Sardenberg - A destruição das federais

O Globo

Professores e funcionários, no geral, não topam conversa sobre ganhos de produtividade, avaliação de desempenho

A greve dos docentes das universidades federais chega a 60 dias, aproximando-se do movimento de 2015, que deixou as faculdades paradas por mais de cem dias. Há muitas semelhanças: o governo é do PT, e os professores são representados por dois sindicatos que não se entendem, um petista (Proifes), outro mais à esquerda (Andes).

O Ministério da Gestão, petista, acertou um acordo com o Proifes (reajuste salarial e fim da greve), mas o Andes foi à Justiça e derrubou o acerto. Estaca zero.

Reparem: 60 dias de greve em escolas públicas, que vivem do dinheiro do contribuinte, era para ser um desastre nacional. Milhares de alunos sem aulas e tudo bem? Dinheiro público pode ser assim tratado?

Eduardo Affonso - A vingança de Machado

O Globo

Escritor continua moderno depois de os modernistas terem saído de moda. Não para de surpreender velhos leitores

Em 2023, a Fuvest decidiu deixar na geladeira, por três anos, os escritores que portassem (ou tivessem portado) cromossomos Y. O x da questão para estar na lista de autores a ser lidos para o vestibular não era o gênero literário, mas o biológico. Saíram Carlos Drummond e Machado de Assis, entre outros, e entraram, entre outras, Djaimilia Pereira de Almeida e Conceição Evaristo.

Num país onde as escolas tratam a leitura (e a literatura) a pontapé (vide os resultados do Pisa), os livros indicados para o vestibular costumam ser o primeiro contato dos futuros universitários com a obra (ou pelo menos um livro inteiro) de autores fundamentais —caso de Machado e Drummond. (Pausa para um flashback: fui apresentado a Osman Lins e Ivan Ângelo, aos contos de aprendiz de Drummond e ao narrador além-túmulo de Machado nas leituras obrigatórias, em 1976. Obrigado, UFMG!)

Alvaro Costa e Silva - Amor e ódio em Chico Buarque

Folha de S. Paulo

Dois livros abordam a relação do compositor com a censura e a sociedade brasileira

Em 1973, os censores da ditadura escandalizaram-se com a letra de "Flor da Idade", em que Chico Buarque arma uma ciranda amorosa —Dora amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca— inspirada no poema "Quadrilha", de Drummond, àquela altura já clássico.

O regime preparava a "distensão lenta e gradual", mas nada mudara entre Chico e a censura. O jogo de gato e rato se estendeu ao longo de três décadas, com episódios de repressão artística explícita e outros de ridículo universal —a proibição de a escola de samba Canarinhos da Engenhoca exibir um enredo em homenagem ao compositor, em 1974.

Miguel Reale Júnior - Em proteção da verdade

O Estado de S. Paulo.

Exemplos justificam que, no vazio legislativo, o TSE tenha vindo a proibir abusos prováveis comprometedores da legitimidade das eleições

A ministra Cármen Lúcia assume segunda-feira a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e é sua preocupação principal prevenir e reprimir as fake news, mormente com o uso da inteligência artificial (IA). Por ora, há frágil controle de conteúdo na internet, no art. 19 do Marco Civil (Lei n.º 12.965/2014). Dois projetos sobre a matéria esperam votação: o projeto n.º 2.630, aprovado no Senado, está paralisado na Câmara dos Deputados; e o projeto n.º 2.338 do Senado, sobre sistemas de inteligência artificial, encontra-se na Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial no Brasil, sendo relator o senador Eduardo Gomes.

Carlos Alberto Longo - Reinvenção da política no Brasil

O Estado de S. Paulo

Uma democracia representativa com trinta e tantos partidos torna-se prisioneira de manobras de facções, escorrega para o assembleísmo e cai no populismo

A globalização está na raiz da crise que abala não só o comércio e as finanças mundiais, mas também a legitimidade da democracia representativa praticada no Ocidente. Os problemas e o diagnóstico da crise política no Brasil são idênticos aos de quando se olhava para as eleições de 2018. A polarização entre os partidos de esquerda e de direita não arrefeceu, ao contrário, promete se intensificar nos próximos anos. A crise dos partidos, do sistema político e da democracia representativa não é um problema só nacional.

Uma agenda para contornar a nossa crise e reinventar a política já foi exposta com clareza pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas com uma importante restrição: desde que se admita que, no futuro, deverá prevalecer um regime liberal “contemporâneo”, ou seja, formas democráticas menos “verticalizadas”. Isso porque a disseminação de novas tecnologias de informação e comunicação potencializou a voz e a influência dos cidadãos.

Carlos Andreazza – Lira reformando

O Estado de S. Paulo

Presidente da Câmara executa plenamente o seu modelo de atividade legislativa

Barbas de molho para a reforma tributária. A Câmara já trata do primeiro projeto de regulamentação, que definirá a composição da cesta básica e a lista de bens e serviços considerados nocivos à saúde e ao meio ambiente.

Atenção ao “imposto do pecado”, antes aos pecadores. Ainda longo o mar a atravessar. Em curso a forja e a instrumentalização das ondas, ali onde surfam os grupos de pressão influentes. A certeza: você levará o caixote – tomará o caldo.

Alíquota-padrão – alta – a definir. Quão alta será? Os tubarões – novas exceções – rodeiam. E o Planalto, cansado, boia. As condições dadas para que Arthur Lira execute plenamente o seu modelo de atividade legislativa.

Marcus Pestana - O foco em resultados na gestão hospitalar

A administração estatal tradicional gerou uma enorme e lenta máquina, focada em controle dos meios, dos processos, dos carimbos e das formalidades. A administração gerencial procura jogar luzes sobre os resultados para a população. Com esse artigo, eu encerro a série em defesa dos modelos de gestão flexível.

Como já dito, não se trata de questão nova e nem ideológica. Gestões do PT, na Bahia e no Governo Federal, introduziram, inclusive, experiências de parcerias com o setor empresarial. Aqui tratamos apenas de entidades sem fins lucrativos. A prefeita Marília Campos, que tem uma visão moderna de gestão, criou um Serviço Social Autônomo que faz a gestão do Complexo Hospitalar e das UPAs.

Elimar Pinheiro do Nascimento* - Fios do Tempo. Alain Touraine e o protagonismo feminino: uma homenagem

A configuração da nova sociedade ainda é imprecisa, mas para Touraine as mulheres são as atrizes principais das mudanças


Alain Touraine é um dos mais renomados sociólogos do mundo. Nos inícios de sua vida acadêmica lecionou na USP e estudou a América Latina, sobre a qual publicou alguns livros, com destaque para Palavra e Sangue (1988/1989).[1] Esteve sobretudo no Brasil e no Chile. É um dos criadores da expressão sociedade pós-industrial, presente em seu livro Société Postindustrielle (1969/1969)


Trabalhou inicialmente nos campos da sociologia do trabalho e dos movimentos sociais.  Em 1989, na sequência de suas reflexões sobre a contemporaneidade, iniciou um ciclo de publicações sobre as transformações da sociedade moderna-contemporânea, por meio de vários livros, entre os quais O que é a democracia (1994/1996); Crítica da modernidade (1989/1997);  

Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes (1997/1999); Um novo paradigma. Para compreender o mundo de hoje (2005/2011); O mundo das mulheres (2006/2008).A tese central de Touraine sobre as transformações da sociedade moderna-contemporânea encontra-se no livro Um Novo Paradigma. Segundo essa tese, no meu ponto de vista uma hipótese, a sociedade moderna-contemporânea teria conhecido três tipos de sociedade, cujos princípios organizadores (ou lógicas) são distintos entre si.

Poesia | Poema da Necessidade, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Tem nada não - Joyce Cândido (Sambabook Jorge Aragão)

 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Suspensão unilateral de planos de saúde desrespeita usuários

O Globo

Diante da omissão de ANS e Executivo, Lira negocia acordo capaz de satisfazer a cidadãos sem desequilibrar empresas

Daniel Simões, de 9 anos, fazia sessões semanais de fisioterapia e fonoaudiologia, por sofrer de paralisia cerebral. Até que seu plano de saúde foi cortado pela operadora sem motivo. Não se trata de caso isolado. Desde o início do ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) recebeu quase 6 mil queixas sobre a rescisão unilateral de contratos. Diante da multiplicação de episódios e da omissão incompreensível da ANS e do Executivo, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tomou a iniciativa de negociar um acordo para que os planos revoguem o cancelamento de contratos cujos usuários estejam em tratamento, enquanto esperam uma solução legislativa.

Fernando Abrucio* - Carta a uma jovem sobre o século XXI

Valor Econômico

Muita coisa ruim ou complicada está se espalhando, e a humanidade não está conseguindo sair desse buraco, mas o desfecho não está definido de antemão

Uma ideia não me saiu da cabeça desde que, na semana passada, ouvi uma mãe em situação de rua chamar sua filha. Andava pela avenida Paulista e via o cenário de crescimento da pobreza urbana que ganhou uma enorme magnitude a partir da pandemia - e da forma desastrosa que o Brasil lidou com ela. Não consegui compreender bem qual era o nome da menina, mas sonhei com a cena e no meu devaneio noturno ela se chamava Esperança. Daí em diante senti a necessidade de lhe falar sobre o presente nebuloso que gera um futuro incerto, quase um não futuro. Na minha impotência, o que me sobrou foi escrever uma carta:

Entrevista | Sérgio Abranches: Presidencialismo de coalizão chegou ao ‘pior dos mundos’

Por Fabio Murakawa / Valor Econômico

Para sociólogo, ante a atual fragmentação partidária, nenhum governo conseguirá formar uma maioria “minimamente coesa” para apoiá-lo

Sociólogo, cientista político pós-doutorado pela Universidade Cornell, nos EUA, foi Sérgio Abranches que, em 1988, cunhou o termo “presidencialismo de coalizão” para definir o modelo político que se desenhava na recém-nascida democracia do Brasil.

À época em que escreveu o artigo, o país escrevia a Constituição que vigora até hoje. Abranches percebeu, na composição da Assembleia Constituinte, três características que tornavam o modelo brasileiro diferente do de qualquer outro país do mundo: “Além de combinar a proporcionalidade, o multipartidarismo e o ‘presidencialismo imperial’, organiza o Executivo com base em grandes coalizões”.

“A esse traço peculiar da institucionalidade concreta brasileira chamarei, à falta de melhor nome, ‘presidencialismo de coalizão’”, escreveu à época.

Mais de 35 anos depois, esse modelo está sob questão, sobretudo com o controle cada vez maior do Orçamento público pelo Congresso. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), já chegou a defender a criação de um sistema “semipresidencialilsta”, para abandonar o atual modelo.

Nesta entrevista ao Valor, Abranches diz que o presidencialismo de coalizão vive uma crise, à medida que, ante a atual fragmentação partidária, nenhum governo conseguirá formar uma maioria “minimamente coesa” para apoiá-lo.

Eu me arriscaria a dizer que 90% dos deputados brasileiros não sobreviveriam ao parlamentarismo”

Para Abranches, o modelo está no “pior dos mundos”, em que os parlamentares alocam uma parcela substancial do Orçamento”, via emendas, sem o ônus de serem responsabilizados pelos eventuais fracassos das políticas públicas.

A seguir os principais trechos:

Luiz Carlos Azedo - Lula não tem uma agenda pactuada com o Congresso

Correio Braziliense

O governo pode ter uma agenda social liberal exequível, desde que calibrada de acordo com a correlação de forças no Congresso e com apoio dos principais agentes econômicos

As sucessivas derrotas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso, principalmente em relação a vetos como os das desonerações tributárias das folhas de pagamento e das “saidinhas” de presos, têm repercussão no mundo político e desgastam o governo na opinião pública, num momento em que quase todos os indicadores econômicos estão melhorando — entre os quais os do emprego formal e da renda. Há um descolamento da sociedade.

Em parte, essas derrotas refletem um movimento de cerco da oposição e busca de alternativas ao seu governo por parte dos adversários de sempre e de aliados contingenciais. Suas motivações ideológicas e interesses econômicos são hegemônicos no Congresso, mas não controlam o Poder Executivo. Existe, ainda, a falta de sintonia de Lula com a sua base parlamentar ampliada, que não pode ser atribuída exclusivamente aos seus articuladores políticos. Lula se movimenta de forma errática, não tem uma estratégia clara.

Vera Magalhães - Lula precisa resgatar aliança que o elegeu

O Globo

O que de pior pode acontecer a um presidente é virar um pato manco tanto tempo antes do término do governo

As sucessivas derrotas do governo no Congresso em praticamente qualquer agenda que não tenha sido abraçada previamente por Arthur Lira mostra que a governabilidade de Lula hoje é refém de um grupo que não esteve com ele em 2022.

É urgente para o presidente sair das cordas, diminuir essa dependência e resgatar a aliança que o elegeu, mas, para isso, será preciso repactuar a relação com bons nacos desse grupo.

Lira começou sua aproximação com o governo ainda em 2022, na costura e votação da PEC da Transição, movido pelo pragmatismo. Eleitor de Jair Bolsonaro e beneficiário de seu governo, viu que precisava descartá-lo para construir sua reeleição ao comando da Câmara sem sobressaltos.

Bernardo Mello Franco - Nocaute no Congresso

O Globo

Antes de novas derrotas, presidente disse viver situação de "muita tranquilidade"

Em café recente com jornalistas, Lula tentou negar a crise na articulação política do governo. “Sinceramente, não acho que a gente tenha problema no Congresso”, desconversou. “A gente tem as situações que são as coisas normais da política”, prosseguiu.

Parlamentares ameaçavam o Planalto em voz alta, mas o presidente insistiu que tudo estava sob controle. “Nós estamos numa situação, eu diria, de muita tranquilidade com o Congresso”, afiançou.

Nesta terça, a realidade voltou a se impor. Em sessão conjunta, deputados e senadores impuseram novas derrotas ao governo. Derrubaram vetos de Lula e ressuscitaram agrados de Jair Bolsonaro à sua tropa.

César Felício - Leniências saíram barato para as empresas

Valor Econômico

O impasse a respeito da repactuação dos acordos de leniência da Lava-Jato deve ter um desfecho em junho, a se cumprir os prazos estabelecidos pelo ministro André Mendonça para decidir sobre a ação apresentada pelo Psol e PC do B a favor das empreiteiras. Independentemente do que se resolva, há indícios de que os acordos, do ponto de vista de ressarcimento de danos ao erário, passaram longe de ser o retrato do “pau de arara do século 21”, para se usar a imagem criada pelo ministro Dias Toffoli ao invalidar o uso das provas produzidas pelo acordo da ex-Odebrecht em processos judiciais. Foram, em um certo sentido, não injustos, mas inúteis.

José de Souza Martins - Começar de novo

Valor Econômico

À medida que as águas baixam, emerge o principal da realidade. O problema da reconstrução social das comunidades e famílias nas áreas atingidas

A tragédia das inundações e escorregamentos no Rio Grande do Sul fez vítimas invisíveis que até este momento não foram reconhecidas pelos que se preocupam com o ocorrido. Neste caso, como em outros acontecidos no Brasil nos últimos anos, não são indivíduos. Os verdadeiros sujeitos da tragédia são sujeitos sociais, famílias e comunidades, sujeitos historicamente mais relevantes e menos reconhecidos da sociedade brasileira, cada vez mais ideologicamente individualista.

Os governos e a classe média, inquietos com essas ocorrências, pensam nos danos econômicos, nas perdas materiais, no desabrigo, no temor de que possam se tornar danos eleitorais. Desconhecem que os humanos não são coisas. São seres relacionais que se expressam em identidades sociais.

Flávia Oliveira - Jovem negro vivo

O Globo

Após adoção do equipamento em São Paulo, mortes decorrentes de intervenção policial caíram

O Ministério da Justiça (MJ), na Portaria sobre as diretrizes para uso de câmeras corporais por órgãos da segurança pública, listou oito valores a nortear as recomendações que condicionarão repasses federais a estados e municípios. A lista vai do respeito aos direitos fundamentais à promoção da cidadania; do reconhecimento aos agentes da lei aos princípios da legalidade e da transparência. Aos bem-intencionados, bastava uma justificativa: manter vivos os jovens negros favelados, vítimas (tragicamente) habituais da letalidade violenta, das abordagens policiais por perfilamento racial, do encarceramento em massa. É sobre isso a política pública que São Paulo, anos atrás, pôs de pé e ora desmonta.

Laura Karpuska – A juventude e a extrema direita

O Estado de S. Paulo

O contexto social e econômico pode deixar jovens suscetíveis a qualquer populismo

extrema direita está ganhando a mente e o coração dos jovens europeus. “Na França, surpreendentes 36% dos jovens de 18 a 24 anos apoiam o Rally Nacional (RN), de Marine Le Pen, enquanto 31% apoiam o Partido da Liberdade (PVV), de Geert Wilders, nos Países Baixos”, diz uma das reportagens mais lidas no Financial Times desta semana.

É difícil destacar um único motivo para a ascensão da extrema direita. Na história, a ascensão de grupos extremistas está correlacionada a crises econômicas. O mundo viveu uma grande crise em 2008 e, agora, com a pandemia, mais uma crise. Crises econômicas podem fazer com que expectativas sejam frustradas. Uma forma de canalizar a frustração é um descontentamento generalizado contra o “establishment”, abrindo a porta para candidatos extremistas.

Bruno Boghossian – O voto na renda média paulistana

Folha de S. Paulo

Grupo é quase tão numeroso quanto eleitorado mais pobre e, até aqui, tem corrida imprevisível

Um recorte da pesquisa Datafolha segundo a renda do eleitor fornece pistas importantes sobre a disputa pela Prefeitura de São Paulo. Com a vantagem de Guilherme Boulos (PSOL) e Ricardo Nunes (MDB) até aqui, dois segmentos ganham atenção.

O primeiro grupo é a faixa com renda de até dois salários mínimos, 43% do eleitorado. Nunes lidera com 25%, seguido por Boulos (17%) e José Luiz Datena (10%). Nenhum outro candidato passa de 6%. Outros 15% declaram voto em branco ou nulo, e 6% não sabem em que votar.

Vinicius Torres Freire - Lula 3 perde e perderá no Congresso

Folha de S. Paulo

Mesmo que azeite sua política, governo tem pouco a fazer com um Parlamento reacionário

Causou impressão o baile com rasteiras que o governo Lula tomou no Congresso nesta semana. O ano inteiro tem sido assim. A consternação era menor porque as derrotas foram espalhadas.

Não se viam tantos corpos boiando de uma vez só. Mas essa estatística de fracassos políticos não é importante. O essencial é que Lula 3 quase não tem o que fazer para mudar a situação, nem jamais teve.

É possível especular que derrotas e goleadas seriam menos frequentes caso se trocassem articuladores ou se azeitasse o sistema de pagamentos para a cooperativa de feudos e currais político-financeiros que é o Congresso.

Mas tabelas de votações mostram que dinheiros ou cargos não evitam "traições" nem mesmo daquelas parcelas dos partidos que fizeram acordos mais estáveis com o governo.

Marcos Augusto Gonçalves - Direita bate tambores e Lula leva baile político

Folha de S. Paulo

Derrota em votação dos vetos, naufrágio da articulação política e acenos de elites a Tarcísio pressionam governo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passa por momento crítico, um inferno astral que já submeteu a grande risco a possibilidade da reeleição do petista, como se comentou aqui na semana passada. O baile na votação pelo Congresso dos vetos presidenciais do mandatário e de seu antecessor, Jair Bolsonaro, veio como sinal alarmante de que a maioria parlamentar não hesitará em desestabilizar a atual gestão para impor seus interesses pecuniários e sua agenda reacionária e irresponsável.

Hélio Schwartsman - Perigos do moralismo

Folha de S. Paulo

Brasil ainda não abraçou integralmente o liberalismo, o que explica atraso no reconhecimento de direitos

Uma das primeiras providências do Taleban depois que retomou o poder no Afeganistão foi recriar o Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício. O nome vistoso não esconde a verdadeira natureza do braço estatal encarregado de impor, pela violência, se necessário, os padrões de comportamento favorecidos pelos governantes.

Ruy Castro - Descontribuição de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Seu estilo de dar os assuntos por encerrados e sem discussão infesta hoje as redes sociais

Uma das descontribuições de Bolsonaro à língua portuguesa, além do já clássico "talkei", era a forma taxativa de encerrar suas ameaças contra a ordem constituída e as instituições democráticas. Despenteado à moda Hitler e com o desvario de um anormal, bradava "Assunto encerrado!" e, com isso, decretava o silêncio da nação sobre o tal assunto. Assunto quase sempre gravíssimo, como no dia em que, aos ouvidos de militares mochos e apalermados, decretou num palanque à porta de um quartel que não acataria mais a palavra do STF.

Luiz Gonzaga Belluzzo e Nathan Caixeta - Financeirização, confusões, história

CartaCapital

No irreconhecível capitalismo de sempre, a forma financeira é onipresente

A palavra “Financeirização” passou a circular com ares de grã-fina elegante nos bailes em que se exibem as celebridades do nosso tempo. A dama Financeirização está sempre acompanhada de seu fiel companheiro, senhor Neoliberalismo, e da comadre inquieta, Dona Globalização.

Estimulados pelos demais convivas, a trinca dança ao som dos acordes e batuques da orquestra “Capitalismo Contemporâneo”. Os críticos se dividem entre simpáticos e detratores, uns e outros exibindo laivos de moralismo que turbam a avaliação do desempenho dos dançarinos.

É mister reconhecer que muitos observadores dos rodopios um tanto abruptos da senhora Financeirização tiveram a ventura de viver ou estudar os passos suaves e elegantes das dançarinas do Bem-Estar que por 30 anos ofereceram seus talentos à fruição de mulheres e homens de seu tempo.

Poesia | Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem

 

Música | Acreditar - Teresa Cristina canta Dona Ivone Lara (Sambabook Lives)

 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Economia ilegal afeta país de forma implacável

O Globo

Pirataria, contrabando, sonegação, desvio de água, luz, TV e internet drenam recursos de áreas essenciais

Práticas criminosas como pirataria, contrabando, sonegação fiscal, furto de serviços como água, luz, TV e internet têm custo alto para o país, apontou o evento “Caminhos do Brasil”, iniciativa dos jornais O GLOBO e Valor Econômico e da rádio CBN, com o patrocínio de entidades vinculadas ao setor comercial. Pelas contas do levantamento “Brasil ilegal em números”, produzido pelas maiores associações industriais brasileiras, o prejuízo chegou a R$ 454 bilhões em 2022, ou quase 5% do PIB. As perdas registradas por 16 setores econômicos somaram R$ 297 bilhões.

Os tributos que deixaram de ser arrecadados são estimados em R$ 136 bilhões. São recursos que poderiam ser destinados a setores prioritários como educação, saúde ou segurança. Só os furtos de água — equivalentes a 2,6 vezes o volume armazenado no sistema Cantareira, em São Paulo — representaram R$ 14 bilhões. Os de energia alcançaram R$ 6,3 bilhões.

Míriam Leitão - Coronelismo, emenda e voto

O Globo

O cientista político Carlos Melo diz que parlamentares se comportam como 'vereadores federais' e que, através das emendas, distorcem a relação legislativa

O Brasil está dominado pelo “coronelismo, emenda e voto” e por parlamentares que se comportam como “vereadores federais”. É o que pensa o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, sobre a crise política brasileira. Há uma hipertrofia do Legislativo e a atrofia do Executivo, que foi eleito para executar o Orçamento e já não consegue pelo crescimento das emendas parlamentares. O outro lado ruim do fenômeno é terem desaparecido os congressistas que pensavam as grandes questões nacionais, como havia no passado.

— A lógica hoje no Congresso Nacional é basicamente de interesses dos parlamentares em relação aos municípios. Outro dia, num ato falho, o presidente da Câmara falou “nos meus municípios”. É o velho patrimonialismo. Há deputados que carregam recursos em emendas para os seus municípios, seus currais eleitorais, fazem prefeitos, fazem vereadores e, portanto, garantem a base política, os cabos eleitorais, que vão reelegê-los — disse Melo, em entrevista que me concedeu na GloboNews.

Ricardo Patah* - Um novo modelo sindical

O Globo

É fundamental que existam sindicatos fortes para a defesa dos interesses dos trabalhadores num governo democrático

As mudanças no mundo do trabalho mostram um futuro cheio de desafios inéditos. Eles surgem no bojo da inteligência artificial e das tecnologias que emergem a todo instante, além das estratégias de negócios que comportam a terceirização sem limites. Tudo isso ampliado pela crise ambiental devastadora. A velocidade crescente das transformações exige que o movimento sindical promova estudos e estratégias para encará-las.

Vencer esses desafios é essencial para garantir a representatividade da classe trabalhadora. É fundamental que existam sindicatos fortes para a defesa dos interesses dos trabalhadores dentro de um governo democrático. Os sindicatos, historicamente, estão no nascedouro da democracia moderna. Vale lembrar que as democracias têm sido duramente atacadas pela ultradireita, pelo fascismo e pelo neoliberalismo, que difundem o ódio e o individualismo exacerbado.

Thiago Prado* - Marielle e a verdade que incomoda

O Globo

Sequência de problemas na investigação começa a ser questionada após meses de silêncio na esquerda

No último domingo, reportagem do Fantástico exibiu pela primeira vez os vídeos da delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa, assassino confesso da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. Com o depoimento, a Polícia Federal (PF) indiciou, e a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou como mandantes do atentado, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, além do delegado da Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa. Os três estão presos desde o fim de março, acusados pelo crime. Uma voz solitária começou a expor nesta semana a verdade incômoda só reconhecida pela esquerda em conversas reservadas. Enquanto celebravam o encerramento do caso em entrevistas e postagens na internet, parlamentares do PT ao PSOL admitiam privadamente que há uma série de problemas no fato de a investigação estar toda baseada na delação de Lessa.

Maria Hermínia Tavares - Os danos de uma decisão

Folha de S. Paulo

Se os templários da Lava Jato desmoralizaram o combate à corrupção, definitivamente não a inventaram

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), cravou mais um prego no caixão da Operação Lava Jato, ao anular todos os atos da turma de Curitiba contra Marcelo Odebrecht.

Em fevereiro último, Toffoli suspendera os pagamentos de multas que somavam bilhões de reais, estabelecidas pelo acordo de leniência firmado entre o Ministério Público e a empreiteira fundada pelo avô de Marcelo, Norberto Odebrecht.

Cinco meses antes, o mesmo Toffoli anulara as provas entregues pela Odebrecht (hoje rebatizada como Novonor). As evidências expunham a corrupção em 49 contratos firmados com órgãos públicos nacionais e em uma dúzia de países estrangeiros, nos quais a construtora reconheceu ter desembolsado US$ 788 milhões em propina.

Malu Gaspar - A sinuca de Lula

O Globo

Não chegou a ser surpresa para ninguém que acompanhe os debates no Congresso Nacional ver o governo Lula ser derrotado nas votações da autorização para a saidinha de presos e do artigo da nova Lei de Segurança Nacional que previa a punição à disseminação de fake news. Era o caminho natural num parlamento dominado pela direita, ainda mais em ano eleitoral.

Já faz tempo que a cúpula lulista compreendeu que, nas “pautas de costume”, não há o que fazer a não ser marcar posição e torcer para não perder de muito. Sempre que entram na ordem do dia, temas como saidinha, demarcação de terras indígenas, descriminalização das drogas ou restrição a fake news vão direto para a coluna dos prejuízos da contabilidade governista.