quarta-feira, 10 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Teimosia de Biden amplia favoritismo de Donald Trump

O Globo

Presidente americano não dá sinal de desistir da reeleição, apesar da pressão e das evidências de declínio cognitivo

O encontro que celebra os 75 anos da Organização do Tratado do Atlântico Norte acontece em Washington com todos os olhos voltados ao anfitrião, Joe Biden. O mundo vive uma situação crítica, com guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, a ascensão de regimes autoritários e a pressão sobre a democracia por toda parte. E, apesar de tudo isso, a principal preocupação do governo da maior potência planetária é mostrar que Biden, aos 81 anos, tem plena capacidade cognitiva e silenciar quem exige que desista da reeleição.

O objetivo do debate na TV entre Biden e Donald Trump em junho era acabar com qualquer dúvida a respeito de suas faculdades mentais. A voz rouca e titubeante, as frases sem nexo e os silêncios repentinos surtiram o efeito oposto. Seu desempenho constrangedor e suas aparições posteriores só fizeram crescer a pressão para que abra mão da candidatura. Publicações de prestígio, como The Economist, The Wall Street Journal, The Boston Globe, The Washington Post ou The New York Times — este último duas vezes—, defenderam em editoriais a desistência de Biden. De acordo com pesquisa da CBS e da YouGov, 72% dos eleitores acham que ele não tem a saúde mental e cognitiva necessária para o cargo de presidente, sete pontos percentuais a mais que antes do debate. Num levantamento da Morning Consult, 60% defenderam a troca por outro candidato. Na sondagem New York Times/Siena College, Trump ampliou sua vantagem na preferência dos eleitores, abrindo diferença de seis pontos percentuais (49% contra 43%). Em todos os subgrupos — demográfico, geográfico ou ideológico —, a maioria considera Biden inepto ou senil.

Elio Gaspari - Milei é um provocador

O Globo

Lula perdeu tempo na segunda-feira ao responder às provocações do presidente argentino, Javier Milei, mesmo sem citá-lo. Foi diplomaticamente elíptico, mas, mesmo assim, era isso que Milei queria. O presidente hermano tornou-se uma ausência relevante na reunião do Mercosul em Assunção. Sua ausência teve peso superior a uma eventual presença. Para um presidente performático, melhor negócio não há.

As relações do Brasil com a Argentina sempre tiveram altos e baixos mas, pela primeira vez, numa das pontas está um provocador interessado em tirar proveito do tumulto. Caso típico de fanático sem causa.

O Brasil já se meteu nos assuntos argentinos impedindo que o ex-presidente Juan Perón descesse em Buenos Aires, em 1964. A Argentina, nos anos 1970, dedicou-se à tarefa impossível de barrar a construção da hidrelétrica de Itaipu. (As duas ditaduras só se entenderam quando colaboraram para sequestrar e assassinar brasileiros e argentinos.)

Bernardo Mello Franco - Tarcísio em Camboriú

O Globo

Governador usou encontro da extrema direita para se projetar como candidato em 2026

Na quinta passada, a Polícia Federal indiciou Jair Bolsonaro no inquérito das joias. Dois dias depois, Tarcísio de Freitas foi à quermesse da extrema direita em Balneário Camboriú. No palanque, ignorou o escândalo e se apresentou como um soldado a serviço do capitão.

“Nós tivemos um professor. Nós tivemos a oportunidade e o privilégio de conviver com o presidente Bolsonaro quando ele estava à frente do nosso Brasil. Quanta inspiração! Quanta motivação!”, derramou-se.

O governador descreveu o ex-chefe inelegível como um estadista injustiçado. “Ele nos ensinou a amar o verde e amarelo, a cantar o hino”, exaltou. Em seguida, disse se aconselhar com o padrinho para comandar o estado mais rico do país. “Ele é a pessoa que dá fortaleza para nós. É a pessoa a quem a gente recorre quando está com dúvida, quando está com problema”, adulou.

Luiz Carlos Azedo - Ao negociar dívidas, Pacheco empareda o governo

Correio Braziliense

Haverá uma queda de braços entre a Fazenda e os governadores, principalmente Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Cláudio Castro (RJ), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO).

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), apresentou proposta para renegociar dívida dos estados, o que pode fazer com que o governo perdoe R$ 28 bilhões por ano desses débitos. R$ 764,9 bilhões ficariam congelados. Segundo Pacheco, o objetivo é dar uma solução efetiva ao problema das dívidas dos estados, permitindo que eles façam investimentos e paguem os débitos com a União.

São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás lideram a lista dos maiores devedores. Para Pacheco, “isso gera um grande desconforto, um grande problema nacional, com os estados perdendo sua capacidade de investimento, perdendo suas condições de sobrevivência”. O Programa de Pleno Pagamento da Dívida abre a possibilidade de os estados usarem seus ativos para o abatimento da dívida e propõe mudanças no seu indexador de correção. O senador Davi Alcolumbre (União-AP) será o relator do projeto.

Fernando Exman - Os caminhos para a PEC da Segurança Pública

Valor Econômico

Lewandowski e sua equipe buscaram produzir um texto simples e enxuto

Aguarda-se, em gabinetes dos três Poderes, uma decisão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao destino da PEC da Segurança Pública.

Há urgência para combater o crime organizado. No Rio de Janeiro, facções já passaram a utilizar “drones” na guerra urbana, reproduzindo o terror vivido na Ucrânia e no Oriente Médio. É também crescente a preocupação de autoridades federais com o avanço desses grupos sobre as estruturas municipais de poder no pleito de outubro, sobretudo as câmaras de vereadores. Mas o envio da PEC pode acabar ocorrendo somente em agosto, depois do recesso parlamentar e antes do início formal da campanha eleitoral, evitando assim a contaminação da pauta legislativa no momento que a Câmara corre para concluir a regulamentação da reforma tributária.

Ainda assim, mantido esse cronograma, o governo demonstrará compromisso com o combate de um problema crônico em todas as regiões do país.

Lu Aiko Otta - Sem choque pelo lado das despesas

Valor Econômico

O corte a ser anunciado dia 22 funcionará como um termômetro da disposição do governo em cumprir as metas fiscais

Como na máxima do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, o ajuste das contas públicas é ele e sua circunstância. Não será o que se espera, mas o que for possível.

Há exasperação nos bastidores da equipe econômica quando o mercado se agita diante dessa constatação. A leitura é que parece haver uma torcida por um choque no orçamento pelo lado das despesas.

Não será bem assim, avisa-se. A opção é por “fazer o ajuste de maneira justa”, e não partir para o “tudo ou nada” que parece ser cobrado.

Num governo de DNA avesso à austeridade fiscal, emparedado por taxas modestas de popularidade e sem base de apoio em um Congresso Nacional cada vez mais empoderado, o ajuste fiscal tende a ser feito como o consumo de um prato de mingau quente: pelas bordas e aos poucos.

Fábio Alves - O bloqueio, a meta e Lula


O Estado de S. Paulo

Circulou nos bastidores a disposição do governo de anunciar bloqueio de R$ 10 bilhões, o que não seria suficiente

Mesmo com as declarações recentes do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o cenário ainda é o de que a pressão de alta sobre as expectativas de inflação e de desvalorização do câmbio deve prosseguir. Isso porque quase ninguém hoje aposta que o governo irá anunciar um bloqueio de gastos no valor necessário para dissipar totalmente o temor de que, até o fim do ano, a meta fiscal de déficit primário zero em 2024 será alterada.

Na semana passada, o dólar chegou perto de R$ 5,70 no auge das críticas de Lula ao Banco Central e de suas declarações indicando resistência a cortar gastos. Com o estresse, Lula interrompeu os ataques ao BC e mudou de tom em relação ao fiscal, autorizando, após reunião com Haddad, o corte de quase R$ 26 bilhões para 2025 em despesas obrigatórias com um pente-fino em cadastros de benefícios sociais.

Zeina Latif - As diferentes respostas da política

O Globo

O populismo não entregou o prometido, vida digna a todos e prosperidade. Melhor buscar concorrência e renovação da política

O embate entre esquerda e direita não parece ser a melhor forma de analisar o cenário político no mundo – e tampouco no Brasil, onde a diferença programática entre os partidos é opaca e as classes populares desconfiam das elites.

Nas últimas eleições parlamentares na Europa, prevaleceu o desejo de mudança por conta da decepção de eleitores com os governantes, acrescido do sentimento de vulnerabilidade diante de temas diversos, como questões ambientais, geopolíticas e de empregabilidade dos trabalhadores pelo uso de novas tecnologias.

Há muita inquietação, inclusive com apelo para o populismo, e não exatamente simpatia pela esquerda.

No Reino Unido, os Trabalhistas derrotaram o Partido Conservador de forma esmagadora, após 14 anos de governo. Não sem razão. Ficou claro para a sociedade o alto custo econômico do Brexit, quadro agravado pela inflação alta e pela insatisfação com a saúde pública na Inglaterra.

Mansueto Almeida* - Contas públicas são desafio ao país

O Globo

Desequilíbrio das contas pode atrapalhar o crescimento, nos levar a um cenário de juros altos e inflação fora da meta

É preciso que todos entendam que temos um problema fiscal no Brasil e que esse desequilíbrio das contas pode atrapalhar o crescimento, nos levar a um cenário de juros altos e inflação fora da meta. Nesse cenário, todos perdem.

O Brasil tem hoje um déficit primário estrutural (receita menos despesas do governo central sem incluir pagamento de juros) por volta de 1% do PIB e, quando se inclui o pagamento de juros, um déficit nominal de mais de 6% do PIB. Com esses números, mesmo com crescimento da economia entre 2% e 2,5% ao ano, a dívida bruta e a dívida líquida do setor público crescerão todos os anos neste governo.

Terminaremos o atual mandato presidencial, em 2026, com a dívida bruta em 82% do Produto Interno Bruto (PIB), crescimento de pelo menos dez pontos em relação a 2022. Esse ritmo de crescimento da dívida não é sustentável no médio e longo prazos.

O ajuste fiscal necessário para colocarmos as dívidas bruta e líquida numa trajetória de queda é de pelo menos três pontos do PIB (R$ 350 bilhões) — e precisa ser feito ao longo dos anos. Fazer ajuste fiscal não é mágica. Envolve, necessariamente, aumento de receita e/ou corte de despesas.

Vinicius Torres Freire - A república não é a do Brasil

Folha de S. Paulo

Política francesa entretém e alarma, mas líder golpista é o maior cabo eleitoral neste país

Alguns brasileiros estamos entretidos com as reviravoltas da política francesa. Alguns estivemos alarmados com as ameaças à liberdade, à igualdade, à fraternidade e à dignidade humana em geral, postas em risco pela possibilidade de vitória do partido Reunião Nacional, de Marine Le Pen, de ultradireita ou o nome que se dê.

Um rótulo político qualquer não vai esconder que se trata de um partido adversário da república, ideia para a qual jamais demos muita bola, mas que na França ainda comove muita gente. A república envolve princípios e direitos reais e muito caros para massas de pessoas; sua instituição periclitou por um século e meio e custou muito sangue e guerra civil.

Faz menos de dois anos, vimos aqui no Brasil assaltos até contra o direito de termos um sistema eleitoral democrático, que é um meio para se chegar a uma democracia substantiva e à república.

Bruno Boghossian - O 'caixa dois' das joias

Folha de S. Paulo

Em áudio obtido pelos investigadores, chefe de departamento diz que alguns presentes não eram registrados oficialmente

Polícia Federal descreve no inquérito das joias o funcionamento de uma máquina que reproduz marcas conhecidas da relação de Jair Bolsonaro com o poder. Uma delas é o uso das estruturas oficiais do governo para fins particulares. Outra é a confusão deliberada entre bens públicos e patrimônio privado.

Esses dois desvios aparecem no que poderia ser descrito como uma espécie de "caixa dois" de presentes recebidos pelo então presidente. Segundo a PF, o departamento responsável pela catalogação desses bens deixava de registrar certos itens quando Bolsonaro manifestava interesse neles.

Hélio Schwartsman - Irredutivelmente autoritário

Folha de S. Paulo

Política de governo paulista para cracolândia abusa de internações involuntárias, que deveriam ser excepcionais

Deu na Folha que o número de internações involuntárias de usuários de crack na capital paulista disparou no último ano. Ao que tudo indica, isso é um reflexo da política de combate às drogas adotada pelo governo de Tarcísio de Freitas.

Há poucas coisas tão complexas e difíceis quanto os transtornos mentais. Se, em condições normais, a marca do ser humano já é a diversidade, ela ganha escala logarítmica quando falamos de doenças mentais.

Aí, cada caso é um caso. O que funciona para um paciente ou mesmo para muitos pacientes não funciona para outro grupo, de modo que o sistema precisa ter abertura para lidar com múltiplas situações.

Wilson Gomes - O dilema de Marine Le Pen

Folha de S. Paulo

Se os franceses se entregarão ao canto dessa sereia, o tempo é quem dirá

É raro, mas acontece muito. Debates tipicamente acadêmicos entre especialistas na nova onda de partidos e movimentos extremistas no mundo se tornam temas de divergências no jornalismo.

Em toda parte, acontece o debate se Marine Le Pen e seu partido devem continuar sendo classificados como de extrema direita ou se, após um enorme esforço de reabilitação de imagem, agora podem ser considerados como uma direita republicana, ainda que nacionalista.

A "desdiabolização", para usar a expressão que os franceses empregam, é um tipo de normalização que consiste na remoção de certas características presentes em uma imagem pública, no deslocamento de outras para o segundo plano ou na adição de novos predicados que tornem o partido ou movimento mais palatável ao gosto médio dos eleitores.

No caso francês, foi crucial a remoção do antissemitismo, antissionismo e do racialismo, a moderação dos radicais do partido, a oferta de políticas sociais e um novo discurso sobre gênero.

É preciso reconhecer que Marine Le Pen fez um esforço explícito e consciente para reabilitar o movimento herdado do pai, Jean-Marie. Sinal de que entendeu que não havia esperanças de superar o sarrafo republicano ainda alto da maioria dos franceses com uma oferta ideológica que seduzia apenas os feios, sujos e malvados.

Poesia | Soneto XVII, de Pablo Neruda

 

Música | Boca Livre - Ponteio (Edú Lobo e Capinan)

 

terça-feira, 9 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Voto útil barrou extrema direita, mas enfraqueceu Macron

O Globo

Estratégia funcionou para deter avanço do RN. Persiste, porém, incerteza sobre o futuro na França

A estratégia do voto útil, que uniu legendas da centro-direita à extrema esquerda nas eleições legislativas da França, conseguiu barrar a vitória do Reunião Nacional (RN), de extrema direita. Com um comparecimento eleitoral recorde de 67%, os franceses mais uma vez impuseram um limite à ascensão ao poder do partido extremista, que saíra vitorioso no primeiro turno. O RN registrou um crescimento histórico e obteve 143 das 577 cadeiras da Assembleia Nacional — ou 25%, percentual que só havia superado no segundo turno de eleições presidenciais —, mas ficou longe do primeiro lugar e da maioria absoluta que pareciam a seu alcance.

Ainda que tenham se dissipado os temores sobre uma vitória do RN, ainda persiste a ansiedade sobre o futuro. Nenhum grupo obteve a maioria necessária para formar um governo. A coalizão mais votada, do esquerdista Nova Frente Popular (NFP), somou 182 deputados. Mas trata-de de um grupo heterogêneo. Fazem parte dele a legenda de extrema esquerda França Insubmissa (FI), com 74 deputados desse total, os socialistas, com 59, os verdes, comunistas e outros partidos, com 47. Em segundo lugar ficou o grupo de centro do presidente Emmanuel Macron, com 168 deputados. Em terceiro, o RN.

Pedro Cafardo - Real foi um plano genial, mas não perfeito

Valor Econômico

Justas homenagens sobre os 30 anos da estabilização monetária pecaram pela falta de crítica aos problemas que o plano não conseguiu resolver

O país comemorou nas últimas semanas os 30 anos do Plano Real, que livrou os brasileiros da hiperinflação. Foram justas as comemorações e corretos os inúmeros elogios ao grupo de jovens economistas que estruturaram o plano, hoje todos com cabelos brancos.

Justas e apropriadas foram também as homenagens ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na época ministro da Fazenda e braço firme de sustentação do programa perante o governo do então presidente Itamar Franco.

Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos críticos do plano naquela época, visitou Fernando Henrique, hoje com 93 anos, num implícito reconhecimento de sua posição equivocada 30 anos atrás.

Quem viveu aqueles anos terríveis em que as remarcações eram contínuas e os salários não acompanhavam a corrida dos preços tem a obrigação de testemunhar a genialidade do modelo que promoveu a estabilização monetária no país. Aquilo ressuscitou o Brasil.

Andrea Jubé - Lula testa novo bordão para evangélicos

Valor Econômico

Aposta agora é no uso da palavra ‘família’

Sem alarde, enquanto as atenções voltavam-se para suas declarações sobre o equilíbrio fiscal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a testar, há poucos dias, uma nova estratégia para tentar melhorar a interlocução com a população evangélica. Esse público representa cerca de um terço dos brasileiros e aderiu em massa ao bolsonarismo.

“Se tem uma coisa que eu aprendi com a [minha mãe] dona Lindu foi responsabilidade fiscal, cuidar do meu pagamento, cuidar do meu salário, cuidar da minha família”, discursou Lula na sexta-feira (5), na inauguração de novo prédio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Osasco (SP). “E hoje a minha família é o Brasil”, exaltou.

Carlos Andreazza - Orçamento secreto imbrochável

O Estado de S. Paulo

De Bolsonaro a Lula, sempre com Lira e Alcolumbre, Parlamentarismo orçamentário vigente não perde a energia

Imbrochável mesmo – com “tesão de 20 anos” – é o Parlamentarismo orçamentário vigente. De Bolsonaro a Lula, sempre com Lira e Alcolumbre, sem perder a energia. Aula de transição e continuidade.

Marca das gestões dessa rapaziada à frente do Congresso? A institucionalização do orçamento secreto, ora já sob a terceira fachada. O Parlamento administrador de fundos orçamentários crescentes sobre cujos usos pervertidos não tem qualquer responsabilidade.

Atenção ao que se arma. As regulamentações da reforma tributária como objeto circunstancial para os negócios. A instrumentalização das pressas a todo vapor. Tem de aprovar antes do recesso. Corrida de dez dias. Emboladas as jorrações dos bilhões em emendas e dos lobbies pela cesta básica – imposto do pecado para os outros pecadores. Ninguém reclamará agora do regime de urgências. É pela boa causa.

Rubens Barbosa - Uma política externa para o mundo atual

O Estado de S. Paulo

A visão de que estava havendo a restauração de uma política externa ativa e altiva minimizou ou ignorou as mudanças pelas quais o Brasil, a América do Sul e o mundo estão atravessando

O Brasil voltou. O presidente Lula da Silva, no início de seu governo, repetiu essa afirmação como o recomeço da política externa depois de um período, no governo anterior, em que as atitudes e posições brasileiras isolaram o País e o então Brasil foi visto como um pária no cenário internacional. A visão de que estava havendo a restauração de uma política externa ativa e altiva, como caracterizada nos dois primeiros mandatos, minimizou ou ignorou as mudanças e transformações pelas quais o Brasil, a região sul-americana e o mundo estão atravessando. Sem falar nos desafios e nos riscos para perseguir as novas oportunidades que estão se abrindo ao País.

Martin Wolf - As escolhas difíceis de Keir Starmer no Reino Unido

Financial Times / Valor Econômico

O desafio para o Partido Trabalhista não é apenas governar bem, mas restaurar a confiança ao fazê-lo

Keir Starmer conquistou uma enorme maioria parlamentar com um apoio surpreendentemente frágil. O Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos. A mudança no apoio aos conservadores desde sua grande vitória de 2019 também demonstra a inconstância extrema do eleitorado.

Talvez o mais perturbador seja o fato de um novo relatório do National Centre for Social Research afirmar que “a confiança nos governos nunca esteve tão baixa”. Os detalhes são preocupantes: “45% dos participantes ‘quase nunca’ acredita que os governos britânicos de qualquer partido colocam as necessidades da nação acima dos interesses de seus próprios partidos; 58% ‘quase nunca' acreditam que os políticos de qualquer partido no Reino Unido dizem a verdade quando se encontram em uma situação difícil; e 71% acreditam que a economia está pior por causa do Brexit, a principal política do governo conservador”.

Merval Pereira - Longa negociação

O Globo

A França escapou de um governo de extrema direita, mas está às voltas com um Parlamento fragmentado, o que torna o cenário político indefinido

A vitória da esquerda na França e no Reino Unido mostrou que o presidente Lula sabe em teoria o que fazer politicamente para enfrentar a extrema direita brasileira, encarnada em Bolsonaro, embora sua prática tenha se mostrado ineficiente até agora. Tanto para montar uma coalizão partidária viável, quanto para colocar em ação um governo de união democrática.

Lula disse que os resultados eleitorais reforçam a importância do diálogo entre os segmentos progressistas, “em defesa da democracia e da justiça social”. O presidente classificou de “demonstração de grandeza e maturidade das forças políticas da França que se uniram contra o extremismo nas eleições legislativas”.

Joel Pinheiro da Fonseca - Democracia e moderação salvaram a França

Folha de S. Paulo

Será preciso mostrar à sociedade que a direita nacionalista não tem respostas para os problemas

Macron e todos os que acreditam numa sociedade aberta e plural respiram aliviados com o mau resultado do Reunião Nacional nas eleições legislativas francesas. Foi —é preciso lembrar— o melhor resultado de sua história, mas ficou aquém da esperada maior bancada e ainda mais de uma maioria de parlamentares.

Apesar disso, não parece que o discurso nacionalista, anti-imigração e anti-integração global (ou, no caso da UE, continental) vá desaparecer. Ele segue forte e, se seus adversários não conseguirem entregar resultados e narrativas mais persuasivas, crescente. Marine Le Pen declarou que sua vitória foi "apenas postergada". Está nas mãos de Macron e da coalizão entre esquerda e centro enterrar ou cumprir essa profecia.

Dora Kramer - A direita se prepara

Folha de S. Paulo

Já a esquerda dá uma relaxada, talvez por não achar que deva maiores explicações ao eleitorado

Obediente à dinâmica da comparação mútua, Jair Bolsonaro (PL) se inspira no exemplo de Luiz Inácio da Silva (PT) para fazer de conta que poderá ser candidato a presidente em 2026.

Tudo é possível, embora seja altamente improvável como se viu em 2018, quando a candidatura de Fernando Haddad (PT) foi registrada na última hora.

No entanto, o dado concreto não conta nessa história relatada sob os auspícios da ideia de manter esperançosa a militância de direita acomodada no guarda-chuva do que se chama de bolsonarismo.

Hélio Schwartsman - Cordão sanitário

Folha de S. Paulo

Aliança entre esquerdistas e centristas na França barra ainda que momentaneamente avanço da ultradireita

O "cordon sanitaire" funcionou mais uma vez. O partido de ultradireita francês Reunião Nacional (RN), que saíra à frente no primeiro turno das eleições legislativas, foi bloqueado por uma aliança de esquerdistas e centristas e acabou ficando em terceiro lugar. Nos distritos em que a disputa se dava entre três ou mais candidatos (no sistema francês, todos os que obtêm mais de 12,5% dos votos passam para o segundo turno), aqueles que estavam em pior situação abandonaram a corrida, facilitando a escolha do eleitor que desejava barrar a RN.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro adota estilo 'roubei sim, e daí?'

Folha de S. Paulo

Indiciamento no caso das joias atrapalha candidatos do capitão

Se em São Paulo a disputa prossegue embolada, repetindo-se o cenário das últimas eleições presidenciais, com Ricardo Nunes e Guilherme Boulos cabeça a cabeça, no Rio o bolsonarismo caminha para o abismo. Caso nada mude até outubro, desenha-se, mais do que uma derrota, uma lavada histórica em seu próprio berço de nascimento.

O Datafolha espanta: Eduardo Paes, aliado de Lula, tem 53% das intenções de voto, muitas das quais de bolsonaristas. Alexandre Ramagem aparece em terceiro, com 7%, perdendo para Tarcísio Motta, do PSOL, com 9%. Para se ter uma ideia da mudança de humor dos cariocas, em 2020 Marcelo Crivella, tido e havido como um dos piores prefeitos da cidade, conseguiu ir para o segundo turno contra Paes.

Ricardo José de Azevedo Marinho - Paixão pelo Possível

Blog Voto Positivo

A compostura política não deve ser confundida com a social, que, embora aparente ser menos importante para o futuro das sociedades, carrega um papel sobejo. A compostura social refere-se às regras de boas maneiras, à ideia de bom gosto e às normas de comportamento social que começam a ser estabelecidas no século XV e que são bem descritas pelo mestre da história dos costumes Norbert Elías (1897-1990) e às quais o grande filósofo Erasmo de Rotterdam (1466-1536), que deixando fluir por um momento seu grande gênio, dedicou em 1530 um pequeno livro que fez muito sucesso a época, De civilitate morum puerilium (Da civilidade pueril), um livro curioso e divertido aos nosso olhos, em que desenvolve o conceito de civilidade também caro ao saudoso Emmanuel Le Roy Ladurie (1920-2023), um conjunto de bons costumes válido para se comportar na vida e que opera para toda a sociedade.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Apropriação privada e liberdade de expressão

Toda essa polêmica aberta pelos políticos, em tempos pré-eleitorais, sobre a velada intenção de privatizar as praias brasileiras, espaço de descanso, diversão e lazer de quase 100 milhões de brasileiros, provoca uma boa mobilização. Faz-me lembrar do esquecido artista plástico Ricardo Saunders, que desencadeou, em   Florianópolis, uma campanha, de denúncia contra a apropriação particular de quase sessenta praias da Ilha. Foram ocupadas pelas imobiliárias, entre 1960 e 1970, entusiasmadas com a enorme atração que exerciam sobre os argentinos. Em São Paulo já surgiam os primeiros condomínios privados.

Saunders, de origem paraense, morava em Brasília, mas casara-se com a pintora catarinense, Vera Sabino, e vivia agora em Florianópolis. Era encantado com a paisagem da Ilha. Durante três anos caminhou solitário pelo seu entorno, carregando cavaletes, tintas e pincéis, tentando recompor, em telas, a paisagem original daquelas belíssimas praias, protegidas como   terrenos de Marinha.  Seus quadros desapareceram rapidamente. 

Raul Jungmann - Imposto é obstáculo à transição energética

O Globo

O caminho para uma economia de baixo carbono é impossível sem a ampliação da eletrificação

A mineração brasileira tem papel estratégico na transição energética do mundo e pode contribuir para que o país se torne seu principal protagonista. O caminho para uma economia de baixo carbono é impossível sem ampliar a eletrificação, seja por meio de baterias, aerogeradores ou placas solares. Tudo isso exige minerais críticos e estratégicos, como lítio, nióbio, terras-raras e cobre. O minério de ferro, de que nosso país é um dos maiores produtores mundiais, é estratégico para a descarbonização do planeta não apenas na produção dos equipamentos mencionados, mas também como insumo primordial para o aço verde, que será viável a partir do hidrogênio verde, usado como substituto do coque (um produto fóssil) no alto-forno siderúrgico.

Luiz Carlos Azedo - Tudo começou com Luís XIV: "O Estado sou eu"

Correio Braziliense

Na Presidência, Bolsonaro comportou-se como se fosse a personificação do Estado, imaginou que os presentes que recebeu na Arábia Saudita fariam parte do seu patrimônio pessoal

A frase L'État c'est moi, no original em francês, é atribuída ao Rei Luís XIV (1638-1715), também conhecido por Rei-Sol, que governou a França e Navarra entre 1643 e 1715. É a síntese do absolutismo, no qual a centralização do poder na figura do rei possibilitou a consolidação dos Estados nacionais, em aliança com a burguesia comercial, que seria fundamental para a expansão europeia e o desenvolvimento do mercantilismo. A oração completa é je suis la Loi, je suis l'État; l'État c'est moi (eu sou a lei, eu sou o Estado; o Estado sou eu!). Na monarquia absolutista, o rei controlava a segurança, as contas do governo, as alianças internacionais, o Exército, a Marinha e o espaço público.

Míriam Leitão - Os detalhes que chocam e revelam

O Globo

O farto relatório da PF mostra que o ex-presidente Bolsonaro não só sabia, mas coordenou todo esquema de venda das joias

O ex-presidente Jair Bolsonaro sabia em minúcias de todo o esquema da venda das joias que pertenciam ao patrimônio público, a ponto de comemorar com o notório “Selva”, quando o seu então ajudante de ordens enviou o link do leilão. Ele recebeu em mãos e fracionada, diretamente do general Mauro Lourena Cid, a quantia de US$ 68 mil. A Polícia Federal trouxe fartos documentos, diálogos, trocas de mensagens e evidências para sustentar o pedido de indiciamento de todos os 12 envolvidos neste escândalo. As câmaras da Receita Federal mostraram como se tentou entrar furtivamente com presentes oficiais. A saída das joias também foi na surdina. O dinheiro da venda dos bens públicos, provavelmente, foi o que sustentou os gastos do ex-presidente no exterior, dado que ele não movimentou as próprias contas. Portanto foi feito em proveito próprio.

Poesia | O constante diálogo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Pecado Capital , Paulinho da Viola

 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adiamento do PNE expõe dificuldade do Brasil na educação

O Globo

Incapacidade de traçar metas para o futuro é tão grave quanto não ter cumprido as traçadas no passado

A Câmara aprovou na semana passada a prorrogação do atual Plano Nacional de Educação (PNE) até 31 de dezembro de 2025 (ele expirou em 26 de junho). A decisão, tomada em comum acordo com o governo, é menos deletéria que a proposta original de estendê-lo até 2028. Mas não se pode dizer que seja positiva. As diretrizes traçadas dez anos atrás, quando a realidade educacional no Brasil era outra, ainda valerão por um ano e meio. A dificuldade de traçar novas metas é sintoma da dificuldade do Executivo e do Legislativo para cuidar da agenda de um setor prioritário.

A execução do plano atual, que atravessou quatro governos — Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva — se revelou um fracasso. Nenhuma das 20 metas estabelecidas em 2014 foi alcançada. Um balanço feito pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação mostrou que, de 38 indicadores, não mais que quatro foram atingidos. O Ministério da Educação sustenta que, na média geral, a execução de cada um dos objetivos foi de 77%. Mas isso não atenua o fiasco. Seria razoável não cumprir todas as metas. Não atingir nenhuma é injustificável.

Bruno Carazza - O mapa da mina da eleição municipal

Valor Econômico

Distribuição de recursos do fundão revela as estratégias de cada partido nas eleições municipais

Recife, São Paulo, Vitória, Rio de Janeiro, São Gonçalo, Contagem, Guarulhos, Fortaleza, Salvador e Feira de Santana. Na eleição de 2020, o Partido dos Trabalhadores (PT) aplicou R$ 39,4 milhões nas campanhas a prefeito dessas dez cidades - o equivalente a 20% do valor gasto pelo partido (R$ 196,6 milhões) em todas as candidaturas para prefeituras e câmaras de vereadores nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

A taxa de aproveitamento desse investimento foi bastante baixa naquele ano. Dos dez candidatos com os maiores aportes petistas, apenas Marília Campos, de Contagem-MG, se elegeu. Marília Arraes (Recife), João Coser (Vitória), Dimas Gadelha (São Gonçalo), Elói Pietá (Guarulhos) e Zé Neto (Feira de Santana) tombaram no segundo turno; os demais (Jilmar Tatto, Benedita da Silva, Luizianne Lins e Major Denice) nem lá chegaram.

Fernando Gabeira - Os alarmantes ventos do norte

O Globo

Temo sobretudo pela intensidade das mudanças climáticas. Negacionistas podem voltar ao poder num grande país

O Sudoeste é um vento de chuva, aprendi no Rio. Se pudesse aplicar esse ensinamento à política, diria que os ventos anunciam mau tempo, furacões e tempestades no planeta. É fácil senti-los soprando nos Estados Unidos, com o fiasco de Biden no debate e a consciência crescente de que ele perdeu a capacidade cognitiva para governar o país de novo.

Isso aumenta as chances de Trump num momento em que a Suprema Corte chega a uma decisão aterradora. Decidiu que Trump tem imunidade parcial em processos a que responde. A sentença foi criticada pela juíza Sonia Sotomayor: “O presidente é, agora, um rei acima da lei”. Acusado de vários crimes, ele pode assumir a Presidência blindado pela própria Corte.

Demétrio Magnoli - Metamorfoses da direita

O Globo

Partido de Marine chegou ao limiar do poder, acabando barrado no turno final

Nos dois lados do Atlântico Norte, a direita tradicional experimenta crises profundas. A interpretação habitual coloca ênfase na ascensão de partidos da extrema direita. Mas a tendência principal é outra: a ocupação do espaço eleitoral da direita democrática e conservadora por uma “nova direita” organizada ao redor do nacionalismo.

O fenômeno manifesta-se nos Estados Unidos pela conversão do Partido Republicano num “partido de Trump”. Desde 2016, o movimento Make America Great Again (MAGA) tomou de assalto a antiga fortaleza republicana. O instrumento da conquista foi o sistema de primárias, pelo qual uma base militante minoritária tem a prerrogativa de selecionar as candidaturas às eleições gerais.

Dani Rodrik e Thomas Frickel* - Do Consenso de Washington ao de Berlim

Valor Econômico

Enfrentamos agora uma escolha entre uma reação populista protecionista, com todos os conflitos que isso implica, e um novo conjunto de políticas que atendem às preocupações das pessoas

As mudanças de paradigma no pensamento econômico dominante geralmente acompanham crises que exigem novas respostas, como ocorreu depois da estagflação - baixo crescimento e inflação elevada - ter atingido as economias avançadas na década de 1970. E pode estar acontecendo novamente, à medida que as democracias liberais confrontam uma onda de desconfiança popular na sua capacidade de servir aos seus cidadãos e enfrentar as múltiplas crises - que vão das alterações climáticas às insuportáveis desigualdades e aos grandes conflitos globais - que ameaçam o nosso futuro.

As consequências podem agora ser vistas nos Estados Unidos, onde o ex-presidente Donald Trump tem boas chances de vencer as eleições presidenciais de novembro. Da mesma forma, um governo de extrema direita poderia assumir o poder na França após as antecipadas próximas eleições. Para evitar políticas populistas perigosas que exploram a raiva dos eleitores e para evitar grandes danos à humanidade e ao planeta, temos de abordar urgentemente as profundas causas do ressentimento das pessoas.