Correio Braziliense
A escolha obedece à realidade eleitoral da Paraíba.
O presidente da Câmara precisa preservar influência, renovar seu mandato e
eleger o pai, Nabor Wanderley, para o Senado
O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta,
à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expõe a ambiguidade eleitoral do
Republicanos. Formalmente, o partido decidiu permanecer neutro na disputa pelo
Palácio do Planalto, não indicar o candidato a vice de Flávio Bolsonaro nem
integrar nenhuma coligação presidencial. Na prática, liberou seus dirigentes e
diretórios estaduais para escolherem publicamente o lado mais conveniente às
respectivas circunstâncias locais. É uma salvo-conduto para múltiplas alianças
regionais, inclusive com forças antagônicas.
Foi o que permitiu a Hugo Motta anunciar o apoio a Lula sem romper com a direção partidária. “A tendência nossa aqui na Paraíba é que caminhemos com o presidente Lula”, declarou, acrescentando que o petista representa aquilo que seu grupo considera “o melhor para o país”. O presidente da Câmara aguardou deliberadamente a decisão nacional do Republicanos para somente então revelar sua posição. O Republicanos da Paraíba apoiará a reeleição de Lula, segundo Motta.
A escolha obedece à realidade eleitoral da
Paraíba. Motta precisa renovar seu mandato, preservar a influência nacional
conquistada na Presidência da Câmara e eleger o pai, Nabor Wanderley, para o
Senado. Seu grupo participa da aliança que sustenta o governador Lucas Ribeiro,
do PP, herdeiro da coalizão liderada anteriormente por João Azevêdo, do PSB, e
apoiada por Lula. Embora o atual governador não pertença à esquerda, governa
com uma composição na qual PT e PSB exercem grande influência. O que também
explica a neutralidade do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).
Romper com Lula na Paraíba significaria
desafiar um eleitorado majoritariamente lulista e colocar em risco a própria
sobrevivência política do grupo de Motta. Os números explicam o movimento. Na
pesquisa Genial/Quaest, Lula ampliou de 57% para 64% sua votação num eventual
segundo turno no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro recuou de 31% para 25%. A
diferença de 39 pontos transforma qualquer tentativa de impor um palanque
bolsonarista exclusivo na região em aventura de alto risco.
Nacionalmente, Lula aparece com 39% no
primeiro turno, contra 30% de Flávio, e vence o segundo por 44% a 39%. Flávio
cresceu e reduziu a distância, mas ainda não conseguiu transformar a
polarização social existente no país numa coalizão partidária equivalente
àquela que sustentava seu pai.
São Paulo e Minas
A decisão do Republicanos também revela uma
estratégia que mira as eleições de 2030. Tarcísio de Freitas, principal
liderança da legenda e candidato à reeleição em São Paulo, depende do
eleitorado bolsonarista para se manter no Palácio dos Bandeirantes, mas não
deseja subordinar completamente seu futuro político ao projeto pessoal de
Flávio.
Tarcísio mira 2030, quando o cenário poderá
ser definido pela sucessão simultânea de Lula e de Jair Bolsonaro como grandes
polos organizadores da política nacional. Para chegar competitivo a essa
eleição, precisa conservar o apoio da direita, dialogar com o centro, cultivar
relações institucionais com o governo federal e não se tornar mero coadjuvante
do clã Bolsonaro. O Republicanos procura ocupar simultaneamente o governo e a
oposição, o Nordeste lulista e o Sudeste conservador, a eleição de 2026 e a
sucessão de 2030.
O mesmo fenômeno aparece em Minas Gerais,
onde a candidatura camaleônica de Cleitinho Azevedo ao governo embaralhou os
palanques presidenciais. O senador do Republicanos chegou a ser impedido pelo
próprio partido de concorrer, reagiu publicamente e acabou reconduzido à
disputa depois da intervenção de dirigentes interessados em sua capacidade de
puxar votos para as chapas proporcionais.
Cleitinho lidera a corrida mineira com 35%,
muito à frente de Alexandre Kalil, com 12%, e Patrus Ananias, com 10%. No plano
presidencial, porém, Minas está dividida: Lula tem 30% e Flávio, 29%, no
primeiro turno; num eventual segundo turno, o petista aparece com 38% e o bolsonarista,
com 35%, ambos em empate técnico. A pesquisa mineira mostra a liderança isolada
de Cleitinho e o equilíbrio entre Lula e Flávio.
Qual é a do Cleitinho? Ele necessita dos eleitores bolsonaristas, mas não pode hostilizar a parcela lulista de Minas nem atrelar completamente sua candidatura a um presidenciável que aparece numericamente atrás no estado. Nos bastidores, prevalece a expectativa de que abra o palanque, permitindo que aliados e candidatos proporcionais façam campanha para Flávio ou Lula segundo suas bases.

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