Está sob diversos tipos de desafios. Um, por
exemplo, advinda da revolução tecnológica que afeta vertiginosa a vida de
nossas sociedades, outra diretamente por causa da percepção política dos
cidadãos e seus níveis de aprovação e/ou desilusão com o sistema democrático,
suas regras e seus valores.
Embora entre aqueles que vivem nesse sistema
haja uma maioria que o prefira e o considere o melhor sistema de governo e
convivência social que a sociedade criou, essa maioria tem diminuído.
Essa tendência descendente quase sempre não resulta de um exercício de reflexão profunda, as respostas nem sempre têm uma relação próxima com a questão; muitas vezes reflete a percepção das pessoas sobre a capacidade do sistema de resolver seus problemas, satisfação e/ou frustração com o cumprimento da promessa de liberdade. igualdade e bem-estar que esperam dela (e nada com cada qual), quando as coisas não vão bem, consideram isso não cumprido e o apego aos seus princípios e valores diminui.
Quando os tempos tendem a ser difíceis como
os de hoje, que são turbulentos, incertos e decepcionantes, há uma queda no
entusiasmo pela democracia que se traduz em desilusão com a qualidade de vida
que levamos.
O sistema democrático não agrada a todos, tem
inimigos abertos, outros disfarçados e outros dentro dele, porque é o único
sistema que permite que aqueles que não têm convicções democráticas participem
dele, com plenos direitos.
Aqueles que a atacam abertamente são aqueles
regimes em que aqueles que governam se consideram portadores de uma verdade
absoluta.
A natureza pluralista da democracia, seus
procedimentos complexos, a proteção dos direitos dos cidadãos, representam
obstáculos inaceitáveis para aqueles que tendem a pensar que representam uma
verdade irrefutável para liderar um país, seja em nome de uma ideologia da
esquerda e/ou da direita, de uma missão divina, de um grupo étnico e/ou de
representar a alma da Nação.
Outros inimigos da democracia entendem a
necessidade de incluir a palavra democracia em sua narrativa como um elemento
de legitimação, usando formas de democracia de forma oportunista, mas
esvaziando seu conteúdo. É um ato de transformismo (interventores, impostores,
pinguelas entre outras formas) que realmente nega a democracia.
Democracias iliberais sem contrapesos
institucionais, mídia independente e esmagamento social das minorias.
Democracias soberanistas, semelhantes às
anteriores, negando regras universais em nome de um carisma nacional.
Democracias plebiscitárias e/ou populistas
que substituem as regras pela fusão de líder e povo.
Democracias orgânicas que substituem regras
pela relação entre chefe e corporações, órgãos sociais, próximos às raízes
fascistas.
Democracias protegidas onde o ditador protege
à força o povo de sua própria vontade, e outras formas imaginativas que têm o
autoritarismo em comum.
Mas o sitiador mais surpreendente, poderoso e
perigoso acabou sendo a atual gestão de Donald Trump, que lidera a democracia
moderna mais antiga e, ao mesmo tempo, a principal potência mundial, pelo menos
por enquanto.
O paradoxo é que Trump não tem convicções
democráticas, todos conhecemos sua relação narcisista com o poder, seu dito
nacionalismo ultra forte e sua concepção de supremacia para cumprir sua vontade
quebrando as regras democráticas que, para ele, são, sem dúvida, um obstáculo
irritante.
Em seu discurso sobre o estado da nação, ele
lançou, um ataque ao coração do sistema norte-americano, denunciando uma
verdadeira crise de segurança do mecanismo eleitoral, que faz com que os votos
sejam manipulados e manipuláveis pela interferência ativa da China, Rússia, Irã
e Coreia do Norte. A isso se soma a traição do “estado profundo” que conhece a
fraude e a esconde e a cumplicidade da grande mídia que não revela a verdade,
porque fazem parte de uma conspiração real.
Com isso, Trump antecipa uma derrota eventual
nas eleições de meio de mandato, apresenta a democracia como um grande engano
e, portanto, ilegítima. Com isso, tudo se torna possível.
Assim, os cidadãos são convidados a escolher
outras alternativas naturalmente antidemocráticas e, se for para isso, quem é
mais adequado do que ele para salvar o país?
Um momento difícil para a democracia, que
parecia impossível de imaginar.
O Brasil teve duas longas experiências
ditatoriais (uma contra a outra), mas conseguiu recuperar sua democracia e tem
seguido um caminho bem-sucedido. Em 2018, quando enfraquecida, as ameaças à sua
estabilidade democrática surgiram novamente, originadas na extrema-direita.
Isso não é indiferente ao fato de que hoje
temos um governo de origem democrática cujo comando tem um caráter não
inovador, e, que respeita a democracia.
Nem as abordagens dos setores mais extremos
que são opositores ao governo, que propõem a revisão sobre questões culturais
como a Lei Rouanet e o debate dito purificado do ethos cultural nacional.
Por outro lado, é razoável que, na política
externa, preservemos nossa tradição de autonomia, prudência e cooperação
plural, sem submetimento a estratégias externas, e que a oposição tem se
confundido com seus amigos alterados e com companheiros de viagem à revelia dos
interesses do Brasil.
Isso responde aos nossos interesses
estratégicos, ainda mais quando eles tratam as tarifas como espingardas.
Na democracia, o que produz progresso e
desenvolvimento é conduzir com parcimônia, sem impor as supostas verdades
absolutas.
Até aqui esse 2026 já mostrou que as pessoas gostam disso, e é esse o processo que fortalece nossa democracia.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário