O Estado de S. Paulo
Em média, a despeito da melhora observada nos
últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel essencial que
dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos
É auspicioso o avanço do Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) anunciado na semana passada pelo
Ministério da Educação. Aferido a cada dois anos, o Ideb é o principal
indicador da qualidade do ensino brasileiro. Baseia-se nas notas alcançadas
pelos estudantes em Português e Matemática e nas informações sobre aprovação e
reprovação.
Ainda assim, o Ideb não alcançou metas que deveriam ter sido atingidas em 2021 pelo final do ensino fundamental (do 5.º ao 9.º ano) e pelo ensino médio. A pandemia da covid-19 é apontada como a principal causa do atraso. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o impacto das políticas do governo ainda não foi captado pelo Ideb (relativo a 2025), mas deverá ter reflexo na próxima avaliação. Quanto ao ensino médio, Barchini lembrou que, em 1988, apenas 7% dos matriculados no primeiro ano concluíam o curso; o índice atual é de 80%. “É uma escola tardia no Brasil, a gente está aprendendo a fazer o ensino médio agora.”
A presidente-executiva do Todos Pela
Educação, Priscila Cruz, destaca que a melhora do Ideb foi observada em todos
os Estados, mas mais em alguns do que em outros. Naqueles em que o avanço foi
maior do que a média nacional, houve ativa participação dos governos estaduais,
diz Priscila Cruz. Ela aponta um “contraste revelador” no ensino médio.
Trata-se de São Paulo, o Estado mais rico da Federação, cujo índice avançou
apenas 0,1 em dois anos.
Em média, porém, a despeito da melhora
observada nos últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel
essencial que dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos.
Ao menos é o que sugere outra pesquisa divulgada há pouco, o Atlas da
Mobilidade Social.
A mais recente edição desse estudo, realizado
pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), mostrou que, dos
nascidos em famílias que compõem os 25% mais pobres do Brasil, 48% continuam nessa
faixa de renda quando chegam à vida adulta. É como se nascessem condenados a
serem pobres. Continuarão na mesma situação que a de seus pais. Se nada mudar,
seus filhos terão o mesmo destino, assim como os filhos de seus filhos.
Em contraste, filhos de famílias do grupo dos
25% de renda mais alta têm 54,5% de possibilidade de continuarem nessa situação
e 30,9%, de subir para o grupo restrito dos 10% de renda mais alta.
É muito baixa a mobilidade social no Brasil.
“Apesar da melhoria na educação dos jovens e de boa taxa de participação deles
no mercado de trabalho, o fato é que nossa juventude ainda tem escolaridade
baixa, tem inserção ruim no mercado de trabalho com ocupações informais e
empresas formais de baixa produtividade”, diz o IMDS. “Quando ficar mais velha,
essa geração sairá precocemente do mercado por obsolescência precoce da força
de trabalho. Tudo isso impacta direta e negativamente a produtividade média do
trabalhador brasileiro e limita suas possibilidades de ascensão e mobilidade.”
“A sociedade brasileira é, lamentavelmente,
uma sociedade fechada”, disse ao jornal Valor o diretor-presidente do IMDS,
Paulo Tafner. “A educação é um fator fundamental para a mobilidade. No Brasil,
ela melhorou em quantidade, mas o grau de aprendizado ainda é muito baixo.”
Essas observações não invalidam nem contestam
avanços observados nos últimos anos. É expressiva a transformação do sistema de
ensino, como é animadora a evolução do mercado de trabalho, com o aumento do
número de empregados e a redução do desemprego para os níveis mais baixos da
história.
É preciso, no entanto, considerar que a
persistência de um índice muito alto de informalidade no mercado de trabalho –
e na economia, em geral – tem consequências negativas relevantes sobre a renda
dos trabalhadores, a arrecadação tributária, a eficiência produtiva e a
mobilidade social.
Como observa o IMDS, “parte significativa dos
jovens, sobretudo os de mais baixa escolaridade, ingressa no mercado de
trabalho informal, muitas vezes por meio de empresas informais”. Isso afeta
toda a trajetória profissional dessas pessoas e resulta em baixa produtividade
de parte expressiva dos trabalhadores.
É uma anomalia histórica da evolução
brasileira. Durante muito tempo o excesso de burocracia e regulamentação, o
peso dos tributos e o custo excessivo e não explícito da contratação formal do
trabalhador, entre muitos fatores, foram apontados como causas da informalidade
e da baixa produtividade da economia brasileira.
Muitas dessas causas foram eliminadas ou
amenizadas. Procedimentos administrativos foram simplificados ou eliminados,
leis trabalhistas e tributárias foram modernizadas. Nem assim, porém,
conseguimos crescer mais do que modestos 2% ao ano. É como se, num arremedo da
situação da população condenada a reproduzir a cada geração os padecimentos
econômicos e sociais da anterior, a economia só conseguisse repetir, ano após
ano, sua mediocridade. •

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