Folha de S. Paulo
Indivíduos definem seus padrões de
comportamento olhando para os pares
Sucessão de escândalos na alta política
mostra persistência da corrupção
Onde aprendemos o certo e o errado? Há
respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca
do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os
pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que
são os livros de filosofia que cumprem essa função.
Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.
Gosto dessa resposta porque ela dá conta de
diferenças entre povos e da própria história. Explica, por exemplo, por que a
escravidão foi aceita como natural durante tanto tempo. Explica até mesmo a
mudança. Já comentei aqui o processo de normalização do voto na direita
radical.
Fiz esse longo introito para falar de corrupção.
No Brasil já não temos um problema de pequena corrupção generalizada, pela qual
cidadãos são achacados para conseguir coisas básicas como uma vaga na escola
pública ou uma consulta no SUS. Nas altas esferas da política, porém, como
atesta a sucessão de escândalos envolvendo os dois polos e os três Poderes,
desvios e conflitos de interesse ainda parecem ser a regra. Os agentes olham
para o lado, constatam que todos (ou grande parte, ao menos) estão fazendo e se
sentem liberados para fazer também.
A Operação Lava
Jato foi uma tentativa de romper o padrão, mas seus condutores
cometeram erros, o sistema reagiu e, realizando a profecia de
Jucá, a sangria foi estancada com Supremo e com tudo.
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