Correio Braziliense
A chamada era da pós-verdade não é uma página
virada na história, lamentavelmente. Os ataques recentes de governantes de
turno de países amigos a instituições democráticas brasileiras ilustram a
dimensão desse desafio
O recurso à desinformação em massa e ao uso dos algoritmos e das redes sociais como armas a serviço do extremismo político é um desafio persistente para os regimes democráticos e para o exercício da política, tanto no plano interno quanto externo. Esse fenômeno tem em Giuliano da Empoli um dos mais atentos observadores, primeiramente na obra Os engenheiros do caos e, mais recentemente, em A hora dos predadores. A chamada era da pós-verdade não é uma página virada na história, lamentavelmente.
Os ataques recentes de governantes de turno
de países amigos a instituições democráticas brasileiras, e não somente à
Presidência da República e ao Executivo, mas também ao Poder Judiciário,
ilustram a dimensão desse desafio para a diplomacia e para a sociedade
brasileira em geral. Trata-se de comportamentos grosseiros e sem precedentes de
líderes estrangeiros, com ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime
democrático, típicos da "Hora dos predadores", que devem ser tratados
e repelidos como tal. E enfatizo o termo "sem precedentes" como
rigorosamente preciso para esses comportamentos, ainda que as motivações não
cheguem a constituir novidade histórica: tentar impor novamente ao mundo uma
lógica de lei da selva e de subordinação. Analisar o que acontece no momento em
matéria de agressões ao Brasil com métricas e réguas do passado é equivocar-se
na defesa do interesse nacional. O mundo mudou, mudou para pior nas redes e nas
relações internacionais, e, nessas horas, não se pode ser ingênuo nem agir unicamente
com base em métricas e padrões do passado.
O respeito conquistado pela diplomacia
brasileira ao longo de gerações, no Brasil e no exterior, deriva da lucidez na
leitura dos sinais recebidos da nossa sociedade e do mundo. E os sinais da
atualidade, no caso do Brasil, incluem ataques inauditos e virulentos, em
alguns casos instigados por brasileiros que abertamente conspiram contra o
interesse nacional. Por esse motivo, o exercício da proporcionalidade, basilar
em relações internacionais, requer respostas enérgicas do Estado brasileiro em
defesa da nossa soberania e das nossas instituições. E aqui entra o componente
da desinformação no debate público.
Percebo, no debate dos últimos dias, a
tentativa de alguns de inverter a responsabilidade pelos atos hostis que é de
única e exclusiva responsabilidade de governantes e governos estrangeiros que
os praticam, e a ninguém mais. Estão de volta os mesmos atores políticos e
sociais que fracassaram na implementação de um golpe de Estado no Brasil e
voltaram a fracassar na tentativa de maquiar ou normalizar o golpe, frustrado
pela pronta ação das instituições e da sociedade brasileira. Esses mesmos
atores agora tentam responsabilizar o governo brasileiro pelas agressões de que
é alvo e polemizar a respeito da resposta proporcional do Brasil tanto às
agressões recebidas como às declaradas manobras de ingerência externa.
Nosso país não provocou o chamado
"tarifaço" e as sanções de 2025, que tinham como declarado objetivo
pressionar o Poder Judiciário brasileiro; tampouco deu motivo para os
impropérios do presidente de país vizinho em evento político-partidário recente
em solo brasileiro, para citar dois exemplos mais gritantes, entre vários
outros. Como observou recentemente o presidente Sarney em artigo neste Correio,
do alto do seu rico legado na aproximação com a Argentina e na integração
regional, os "despautérios" recentes contra o Brasil encontram-se
totalmente "fora dos limites da civilidade". O artigo é uma aula de
história proferida por um dos principais protagonistas da construção de laços
que se fortaleceram na relação bilateral, em 40 anos de convivência
democrática, patrimônio comum que deve ser defendido neste momento.
Aqueles que tentaram normalizar o golpe
buscam agora inverter o ônus pelos ataques ao Brasil e às nossas instituições.
Fracassarão de novo porque, até mesmo na era da desinformação e da pós-verdade,
ainda continuam vivas as noções de boa educação e de certo e errado que nos
ensinaram em casa desde a infância. Agredir, ameaçar, proferir insultos ao
anfitrião, seja na casa, seja no país de quem acolhe a visita, ou conspirar
contra a própria pátria no exterior são atitudes erradas, são condenáveis, e
nada mudará essa realidade. Não se responsabiliza a vítima por uma agressão
recebida. A culpa cabe sempre ao agressor.
Tentam bater no Brasil por meio de
autoridades estrangeiras e depois esconder a mão. Não vai funcionar: o
brasileiro está atento, conhece bem a sua história e não abre mão de conduzir
os destinos do próprio país. Não será governado por controle remoto a partir de
uma capital estrangeira. O brasileiro conta com instituições democráticas
fortes para a defesa do interesse nacional em tempos de conflito, e o Itamaraty
não deixará de reagir, sempre com profissionalismo, às manobras de
desinformação e às grosserias de candidatos a predadores e seus apoiadores locais.
*Mauro Vieira — ministro das Relações Exteriores

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