O Globo
Empresa não existe para fazer justiça, mas
para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela
A ideia de diversidade dos defensores da
causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para
dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é
constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre
busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render,
parte do lucro volta para reinvestir.
Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.
A Parada do Orgulho de São Paulo foi de 11
patrocinadores em 2025 para quatro na edição de 30 anos. A Marcha do Orgulho
Trans não aconteceu, por falta de patrocínio. O primeiro corte caiu sobre quem
tem menos poder de barganha.
Sempre achei frágil o discurso da diversidade
e fui mal compreendido por isso. Ou talvez atrapalhasse a venda da narrativa. A
palavra virou pacote: mulher, pessoa preta, pessoa com deficiência, pessoa
LGBTQIA+, periferia, como se fosse uma experiência só. Não é. Cada trajetória
tem demanda, obstáculo e solução próprios. Empacotar não é ofensa, é reflexo da
imprecisão. Na vida social das causas, isso é fácil de administrar. Numa
empresa, imprecisão na gestão custa caro.
No setor público e no privado, causa não pode
virar departamento. Este serve para pontuar: a nota da empresa, a posição na
Bolsa, o mercado internacional. No público, a boa foto para o gestor e o cargo
no conselho para o representante. A causa se perde em representatividade sem
força política, decorativa e sazonal, sem perenidade na cultura corporativa nem
continuidade no ambiente estatal. Nada obriga o processo a chegar a salário,
promoção, orçamento, contrato e sociedade.
Se é para funcionar na lógica do negócio, que
entremos no plano de negócio. Se dou audiência, quero parte da receita. Da
mesma forma, se aumento o consumo e se atraio investimento, quero parte da
receita. Se elejo mandato, quero poder político e caneta com orçamento. Quero
ser contratado como serviço e contabilizado como investimento. E, se o discurso
político que cita nossas causas for sério, que apareça na divisão dos fundos
eleitorais e nos cargos de gestão. Se garanto receita, quero parte do lucro
para reinvestir. Repito: não sou gasto. Sou investimento.
A marca faz campanha com corpo preto e da
favela, mas contrata a produtora de sempre e paga ao criador menos que ao
influenciador de bairro nobre de mesmo alcance. A favela é locação, não
fornecedora. Coadjuvante da própria história.
O valor é gerado num lugar e realizado
noutro. Na economia criativa, setor que mais vende a própria pluralidade,
pessoas negras são 42% da força de trabalho, ante 55% do mercado nacional, e
ali homem branco ganha R$ 7,1 mil, mulher preta R$ 2,2 mil. A renda não
acompanhou o trabalho.
O máximo que ocorre é uma onda George Floyd,
e todo mundo vira antirracista até ela passar ou até a próxima tragédia. Talvez
seja hora de dizer bye bye. Não para a diversidade, fato da vida brasileira,
mas para a palavra que junta gente diferente numa caixa só e para a caixa que
só serve de nota em planilha. Fica o que muda quem decide, quem fornece, quem
lucra, quem governa e quem reinveste. A diversidade não precisa estar na moda,
e sim no plano de negócio e no orçamento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário