domingo, 30 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa

Por O Globo

Ao jornalismo profissional cabe relatar e esclarecer os fatos; não adivinhá-los

Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”. Vale, porém, aprofundar a questão.

A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

Em qualquer parte do mundo, uma investigação desse porte ganharia uma cobertura extensa e intensa ao longo de toda a duração dos procedimentos. Os agentes da lei tinham fé pública, e os réus jamais deixaram de ser ouvidos pela imprensa. O jornalismo profissional não é adivinho — e a ele é vedado grampear ilegalmente juízes ou promotores, como acabou sendo feito por um hacker.

Esses grampos ilegais de fato revelaram que juiz e promotores não agiram de forma isenta e que havia conluio entre eles. A imprensa, inclusive a Globo e os demais veículos do Grupo Globo, deu ampla cobertura a essas revelações, como podem demonstrar os arquivos. O Supremo Tribunal Federal acabou por declarar a suspeição do juiz Sergio Moro, depois anulou todos os processos que pesavam contra Lula e outros ex-agentes públicos (e, novamente, tais fatos foram objeto de coberturas extensas). Não à toa, na entrevista ao Jornal Nacional na eleição de 2022, o jornalista William Bonner, então apresentador do telejornal, relatou tais fatos e disse a Lula: “Portanto o senhor não deve nada à Justiça”.

Mas, na sequência da mesma pergunta, Bonner lembrou que a Petrobras teve de registrar em balanço o prejuízo bilionário causado pela corrupção. E perguntou se o PT reconhecia que houve corrupção. Lula, embora criticando as delações premiadas por permitirem que os corruptos ficassem com parte do roubo, reconheceu: “Deixa eu lhe dizer uma coisa: você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram”.

Há décadas a Globo e os demais veículos do Grupo Globo dão amplo espaço para a cobertura de desvios de governos, independentemente da ideologia de seus ocupantes. O público é testemunha de que escândalos de corrupção mereceram toda a atenção no governo Lula, mas também, e com a mesma intensidade, nos governos Dilma, Temer e Bolsonaro, apenas para citar os deste século. Nas entrevistas e sabatinas, os candidatos à Presidência vêm sendo igualmente questionados. Como disse Renata Vasconcellos: o Grupo Globo cumpre sua missão de informar bem.

Não há do que se desculpar.

Normas mais rígidas no Pix não podem esvaziar sua utilidade

Por O Globo

Adesão maciça fez dele o ambiente preferido de estelionatários. O melhor para enfrentá-los é educar os usuários

Por ter se tornado o meio mais usado para pagamentos e transferências por via eletrônica, o Pix passou a atrair criminosos e golpistas. O Banco Central (BC), desenvolvedor da ferramenta e responsável por sua manutenção, estabeleceu regras rígidas de segurança. Mas agora pretende reforçá-las para que o Pix mantenha a confiança da população. É preciso tomar cuidado para que as restrições impostas não esvaziem a utilidade dessa ferramenta essencial para o país.

Perto de 150 milhões de brasileiros usam o Pix. Trata-se do maior instrumento de inclusão financeira desde o Plano Real. Em 2020, ano de seu lançamento, 87,5% da população adulta tinha conta bancária. No ano passado, 96,4%. Com a adoção maciça, golpes e fraudes cresceram na mesma proporção. Só em 2023 e 2024 os prejuízos causados via Pix somaram de R$ 2,7 bilhões, segundo a Federação Brasileira de Bancos. Entre julho de 2024 e junho de 2025, 24 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes.

Entre os mais comuns estão a venda de produtos que jamais serão entregues ou as promessas falsas de ganho rápido num investimento que precisa ser feito de forma urgente. Até redes sociais como WhatsApp costumam ser clonadas para que “parentes” ou “amigos” aleguem necessidade de ajuda emergencial e peçam uma transferência rápida. A esses e a outros golpes, somam-se agora os que usam inteligência artificial (IA) para produzir áudios e vídeos fraudados e induzir a vítima a fazer um Pix.

Nenhum desses golpes depende necessariamente do Pix, mas a existência de um meio instantâneo e irreversível de transferência bancária pode incentivar trapaças do tipo. Por isso o BC já tomou diversas medidas para aumentar a segurança da população e das empresas. Transferências de alto valor são sempre instantâneas, mas o banco pode retê-las para análise por uma hora, caso encontre indícios de crime. Agora se estuda estabelecer um prazo de 72 horas como regra para analisar movimentações elevadas durante a madrugada. Os defensores da mudança alegam que é o tempo necessário para investigar fraudes e roubos em casos de sequestros-relâmpago. Mas a mudança não pode significar um transtorno desnecessário para quem precisa da transferência instantânea.

O Pix já dispõe de diversas regras para transferências de altos valores e conta com um Mecanismo Especial de Devolução (MED), à disposição de qualquer cliente de banco. O indicador de fraudes, baseado no acionamento do MED, está em queda. É verdade que o MED pode ser aperfeiçoado, mas o meio mais eficaz para lidar com os riscos é educar os usuários para estabelecer limites compatíveis com seu uso corrente, sem prejudicar a agilidade da plataforma que garante comodidade.

Alvo do lobby de bandeiras de cartões de crédito americanas que reclamam de concorrência desleal, o Pix se tornou um dos meios de pagamento mais eficazes do mundo, essencial para cidadãos e empreendedores. Por isso merece toda a atenção do BC e de qualquer governo.

País das exceções ameaça reforma tributária louvável

Por Folha de S. Paulo

Balanço do marco dos impostos é positivo, mas isenções e atrasos em definições de alíquotas geram custos

Benefícios para Viagra e filé mignon beiram o absurdo; médicos e advogados tem reduções, enquanto cabeleireiros pagam alíquota cheia

De perto ninguém é normal, diz a canção de Caetano Veloso. Vista através da lupa que revela detalhes e idiossincrasias, nenhuma reforma econômica no Brasil costuma mostrar-se inteiramente virtuosa. Veja-se o caso do marco tributário prestes a vigorar após 30 anos de debate parlamentar.

Não há dúvida sobre seus méritos no balanço geral. A barafunda de 27 legislações estaduais para o ICMS (circulação de mercadorias) e de milhares de municipais para o ISS (serviços), além de quatro tributos nacionais, dará lugar a uma contribuição federal (CBS), um imposto sobre o consumo (IBS) a ser dividido entre estados e municípios e um tributo seletivo, incidente sobre produtos como cigarro e bebidas.

Outra mudança modernizadora será a incidência dos tributos só sobre a parcela que for acrescentada em cada etapa da cadeia produtiva. O princípio de gravar apenas o valor agregado deixa de onerar proporcionalmente mais aquelas mercadorias e serviços de elaboração mais extensa. A alocação de recursos na economia ficará menos dependente das diferenças de taxação e mais associada aos fatores de mercado.

Distribuição mais racional de fábricas e trabalhadores pelas regiões do país também será estimulada pelo novo regime com a coleta do tributo no local em que o bem ou o serviço for consumido, não mais onde for produzido. Tende ao fim a guerra fiscal.

A efetivação de promessas enxergadas a 30 mil pés de altitude, no entanto, fica mais matizada quando se desce ao solo acidentado da regulamentação e da implementação dos nobres princípios. Lobbies de sempre deixarão cicatrizes e custos incômodos.

Como pobres e ricos muitas vezes consomem os mesmos alimentos, isentar uma cesta desses produtos acaba beneficiando quem poderia e deveria pagar o imposto. A distorção fica palpável quando entram no rol de isenções picanha, filé mignon e queijos parmesão e provolone. Entre os medicamentos, o Viagra se livrou da taxação cheia.

Médicos, advogados e dentistas ganharam de presente 30% de redução na alíquota por um critério alheio à objetividade. Cabeleireiros, entre outros prestadores em geral mais mal remunerados, não tiveram essa sorte. Serviços essenciais como o saneamento básico tampouco escaparam.

Cabe ficar atento à implantação da reforma, marcada para começar em janeiro. Num quadro de asfixia de crédito e juros que esfolam, um tributo que era recolhido mais de um mês após a venda será pago à vista. Empresas tendem a necessitar de mais empréstimos para girar seus negócios.

As firmas terão de adaptar rapidamente seus sistemas de apuração e coleta, outra fonte de custos extraordinários. Se todos os parâmetros já fossem conhecidos, vá lá. Mas, a quatro meses do início do novo marco, ainda não foram definidas nem sequer as alíquotas, que serão escorchantes dadas a gastança dos governos e a farra das isenções e reduções.

O mito do modelo Bukele de segurança

Por Folha de S. Paulo

Política repressiva do salvadorenho, apoiada por candidatos de direita no Brasil, carece de estudos

Facções brasileiras são transnacionais, dispersas e têm negócios mais diversificados, sem contar as relações com o poder público

Segundo pesquisa do Datafolha de 2025, a segurança pública é o principal problema do país para 19% da população, atrás apenas da saúde (21%). Outra sondagem do instituto, de março deste ano, indica que 41% dos brasileiros dizem perceber atuação do crime organizado no bairro onde vivem.

Como resposta, candidatos de direita à Presidência —como Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Flávio Bolsonaro (PL)— advogam o sistema linha-dura que Nayib Bukele implantou em El Salvador. A proposta punitivista tem grande apelo popular, mas falta a ela o suporte em evidências, sem o qual políticas públicas tendem à ineficácia.

Dentre as críticas de especialistas, está a formulada pelo pesquisador canadense Robert Muggah, que mora no Brasil desde 2011.

As facções salvadorenhas, como MS-13 e Barrio 18, dependem mais do controle de bairros, onde obtêm receita por meio de extorsões, tráfico local e outros crimes.

As brasileiras PCC e CV também dominam territórios, mas operam em redes muito mais amplas, com participação no tráfico internacional, lavagem de dinheiro e conexões logísticas e financeiras que ultrapassam as áreas sob seu controle direto.

Assim, enquanto as gangues de El Salvador são mais localizadas, e seus integrantes, mais facilmente identificáveis, as facções aqui têm estrutura transnacional, dispersa e com negócios mais diversificados —sem contar as relações com o poder público.

Estudo de 2025 estimou que, em 2022, esses grupos criminosos no Brasil faturaram R$ 146,8 bilhões no mercado de combustíveis, ouro, cigarros e bebidas. Isso representa 42% da receita total, enquanto a projeção da cifra obtida com cocaína equivale a 4%.

Se a taxa de homicídios dolosos em El Salvador despencou de 106 por 100 mil habitantes para 2,3 por 100 mil, entre 2015 e 2023, isso se deu com um modelo de encarceramento em massa baseado em afrontas ao devido processo legal e aos direitos humanos.

Não à toa, Bukele passou a governar sob estado de exceção a partir de 2022. Desde lá, ao menos 470 pessoas morreram sob custódia do sistema, de acordo com a ONG Anistia Internacional.

Candidatos precisam propor políticas racionais para a realidade local que respeitem o Estado democrático de Direito. É preciso integrar polícias e incrementar a inteligência investigativa, com cruzamento de dados e recursos tecnológicos, para desmantelar as redes de sustentação do crime organizado, que se espalham por setores legais da economia e pelo poder público.

As lições de casa de quem ensina

Por O Estado de S. Paulo

A educação de qualidade no Brasil não só é possível, como em vários lugares já é uma realidade. O próximo passo é converter exemplos dispersos em aprendizado para o sistema inteiro

O levantamento do Todos Pela Educação sobre o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025 encontrou em Joinville (SC) uma das melhores aprendizagens entre as grandes redes municipais nas quatro comparações: Português e Matemática, no 5.º e no 9.º ano. No Brasil, metade dos alunos do 5.º ano alcança o nível adequado em Matemática; no 9.º, a proporção cai para 18,8% e, ao fim do ensino médio, para 8,5%. O avanço obtido nos anos iniciais se dissipa justamente quando os conteúdos ficam mais complexos.

Joinville oferece o fato novo, porém está longe de ser um acidente solitário. Sobral (CE), Teresina e outras redes obtêm bons resultados em regiões, escalas e condições sociais muito diferentes. A diversidade desautoriza o conforto fatalista segundo o qual pobreza ou território condenariam os alunos ao fracasso. Também enfraquece a procura por um programa milagroso. Os nomes das políticas variam; o traço comum está no modo como elas se encaixam.

As redes que ensinam mais organizam a escola e a secretaria em torno da aprendizagem de cada aluno. Um currículo claro determina o percurso. Avaliações próximas da sala de aula revelam onde ele foi interrompido e provocam uma resposta antes que a dificuldade se acumule. A formação dos professores trabalha os erros encontrados, enquanto diretores e equipes técnicas ajudam a transformar o diagnóstico em novas aulas. Outra avaliação verifica se houve avanço.

Teresina mostra essa engrenagem em movimento. A Prova Teresina situa os estudantes por nível de aprendizagem e desencadeia respostas diferentes: quem está abaixo do básico recebe uma hora adicional diária de Português e Matemática; alunos no nível básico têm reforço aos sábados. Os resultados orientam a formação quinzenal dos professores. Nas visitas às escolas, superintendentes observam aulas e ajudam os diretores a ajustar a intervenção. O dado percorre um caminho curto entre a prova e o aluno.

Sobral acrescenta uma dimensão menos vistosa, mas decisiva: o tempo. Depois de descobrir, em 2000, que quase metade das crianças do 2.º ano não lia, o município fez da alfabetização uma prioridade. Em torno dela, estruturou currículo e materiais, preparou professores e diretores e preservou o rumo por mais de duas décadas. Continuidade, nesse caso, significou acumular competência e corrigir instrumentos, em vez de rebatizar a política a cada eleição.

O teste mais duro vem na passagem aos anos finais. Aos 11 ou 12 anos, o professor de referência cede lugar a vários especialistas que muitas vezes pouco conversam entre si, justamente quando o adolescente mais precisa de vínculo e orientação. O currículo comum, o acompanhamento individual e a coordenação entre docentes precisam impedir que essa mudança dissolva a responsabilidade pelo aluno. Alfabetizar abre o caminho; a rede ainda terá de mantê-lo transitável.

Essa combinação requer cuidado ao ser reproduzida. Se a cobrança por resultados for mal desenhada, a rede pode estreitar o currículo, engessar o professor e premiar a manipulação. A régua deve alcançar o conhecimento efetivo e cada criança que ficou para trás. Médias altas e aprovação quase universal podem esconder alunos abaixo do básico, escolas negligenciadas e conteúdo raso.

Entre as experiências já testadas para dar escala à qualidade, o Ceará oferece o exemplo mais sólido. O Estado levou aos municípios avaliação, materiais, formação, assistência técnica e incentivos, aproveitando lições e quadros surgidos em Sobral sem retirar das prefeituras a execução cotidiana. Deu, assim, às redes mais frágeis uma capacidade que dificilmente construiriam sozinhas. A União deveria exercer função semelhante, concentrando apoio onde a competência local é menor.

O novo levantamento acrescenta Joinville a um mapa que já contém experiências variadas e conhecimento acumulado. As boas redes brasileiras mostram que ensinar depende da capacidade de descobrir uma lacuna e mobilizar todo o sistema para fechá-la, ano após ano. Os programas precisam adaptar-se ao lugar, mas seus princípios podem viajar. Há pontos suficientes no mapa da boa escola pública. Cabe ligá-los para que a aprendizagem dependa menos da sorte do endereço.

Yanomamis: uma ferida ainda aberta

Por O Estado de S. Paulo

Lula chamou de ‘genocídio’ a crise humanitária que herdou de Bolsonaro. Quase quatro anos e mais de 1.100 mortes depois, os avanços não dispensam seu governo da mesma régua moral

Poucas causas foram incorporadas pelo terceiro governo Lula com carga moral comparável à dos yanomamis. Em janeiro de 2023, diante da calamidade que encontrou em Roraima, o presidente denunciou um “genocídio”. Um ano depois, prometeu priorizar a solução como “questão de Estado”. Nos três primeiros anos de seu governo, porém, o Ministério da Saúde registrou 1.138 mortes na Terra Yanomami: 187 a mais que as 951 registradas nos três primeiros anos de Jair Bolsonaro. As suspeitas de subnotificação impõem cautela à comparação, mas ela ajuda a dimensionar a distância entre a promessa e uma crise que está longe de ter sido vencida.

Houve avanços importantes. O contingente de saúde de quase 700 profissionais em 2023 subiu para mais de 2,1 mil em 2025. No primeiro semestre de 2023, foram registrados 224 óbitos, ante 158 no mesmo período de 2026. As mortes por desnutrição recuaram 75%. Um monitoramento do Instituto Socioambiental indica que a abertura anual de novas áreas degradadas pelo garimpo caiu drasticamente.

O próprio governo, porém, fixou critérios mais ambiciosos. Quase um ano depois de decretada a emergência, Lula reuniu seus ministros para definir “de uma vez por todas” a resposta federal. A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, anunciou “ações permanentes” para converter a força-tarefa em presença estatal duradoura.

Um acórdão de maio deste ano do Tribunal de Contas da União (TCU) dá uma medida do atraso dessa transição. Ao monitorar 24 deliberações do fim de 2023 sobre a saúde indígena, o tribunal considerou 16 não cumpridas, 6 parcialmente cumpridas e 2 em andamento. No Distrito Sanitário Yanomami, parte das equipes continuava inadequadamente dimensionada, e havia evidências de que a situação epidemiológica, as necessidades de saúde e as características geográficas de cada polo não foram adequadamente consideradas.

O plano apresentado ao TCU para levar equipes a todas as comunidades não deixava claras as ações a executar, seus responsáveis e prazos. As remoções médicas continuavam controladas em planilhas locais e os atendimentos ainda eram registrados em papel, e só depois eram inseridos nos sistemas oficiais – quando eram. Expulsar garimpeiros exige helicópteros, inteligência e força policial. Fazer o Estado funcionar todos os dias exige algo menos vistoso e igualmente decisivo: equipe bem escalada, planejamento, registro confiável e fluxo de informações.

A comparação entre as mortes registradas sob Lula e sob Bolsonaro requer ressalva. Há indícios documentados de subnotificação na gestão anterior. Mas se é temerário afirmar categoricamente que a mortalidade real foi maior sob Lula, tampouco há base segura para afirmar que foi menor. Não é impossível que haja subnotificação agora mesmo. De todo modo, a incerteza recomenda cautela bem diferente da distância moral que Lula estabeleceu entre os dois governos, e torna ainda mais grave que, quase quatro anos depois, persistam as deficiências de informação apontadas pelo tribunal.

Há limites objetivos para qualquer governo na Terra Yanomami. O território é remoto, a logística é cara, redes criminosas se adaptam e parte do passivo ambiental e sanitário precede Lula. Esses fatores ajudam a explicar por que a recuperação não seria rápida. Eles explicam muito menos, perto do fim do mandato, sistemas fragmentados, registros em papel, transparência precária ou equipes mal dimensionadas. Em julho de 2026, o Senado aprovou um relatório que reconheceu os avanços no combate ao garimpo e na saúde, mas ainda concluiu que a presença permanente do Estado precisava ser fortalecida para consolidá-los.

Lula estava certo ao considerar intolerável a situação que recebeu. Seu governo mitigou parte daquela calamidade. Mas foi o próprio presidente quem prometeu tratar os yanomamis como questão de Estado, e foi sua gestão que anunciou a passagem da emergência para ações permanentes. Quase quatro anos depois, a cobrança já não pode se limitar à melhora em relação ao fundo do poço de 2023. A promessa era construir uma presença estatal capaz de durar. O TCU mostrou o quanto dessa tarefa ainda está por fazer. Não há injustiça alguma em tomar as palavras de Lula a sério.

Senador por acaso

Por O Estado de S. Paulo

Como senadores são cotados para ministérios, é bom saber quem são os suplentes

Os paulistas podem votar em Simone Tebet (PSB), Marina Silva (Rede), Guilherme Derrite (PP), André do Prado (PL) ou Ricardo Salles (Novo) e, algum tempo depois, se surpreender ao assistir a uma sessão do Senado e encontrar um desconhecido, de quem quase ninguém ouviu falar, ocupando uma das cadeiras pertencentes a São Paulo.

Nada de novo. O eleitor paulista até deveria estar acostumado. Em 2018, por exemplo, Major Olímpio foi eleito senador com mais de 9 milhões de votos. Morreu de covid-19 em março de 2021 e foi substituído por Alexandre Giordano, empresário praticamente desconhecido fora dos círculos políticos e que nunca havia disputado uma eleição. Olímpio precisou convencer 9 milhões de paulistas a lhe dar uma cadeira no Senado. Giordano precisou convencer só um par de caciques partidários que montaram a chapa de Olímpio.

A lei permite. Cada candidato ao Senado leva consigo dois suplentes, que não recebem votos em seus próprios nomes. O eleitor vota no pacote. Se o titular sai, não assume outro candidato escolhido nas urnas, como ocorre na Câmara pela lógica do sistema proporcional. Fica com a cadeira quem veio junto na chapa e, dependendo do momento da substituição, pode passar quase oito anos nela. É uma das excrescências do sistema eleitoral brasileiro.

Neste ano há um motivo a mais para prestar atenção aos coadjuvantes. Alguns dos principais candidatos ao Senado por São Paulo são cotados para integrar eventuais governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL), como mostrou reportagem do Estadão. Ninguém sabe se isso acontecerá. Mas não é novidade que um senador recém-eleito troque a cadeira no Congresso por um ministério. No início do terceiro governo Lula, por exemplo, nada menos que sete senadores migraram para o primeiro escalão do Executivo.

Entre os primeiros suplentes das chapas paulistas neste ano, há um advogado goiano que nunca disputou uma eleição, um ex-integrante do governo Bolsonaro demitido após usar avião da FAB em viagem internacional e um ex-prefeito que responde a processo por corrupção ativa. Nenhuma dessas circunstâncias impede alguém de exercer um mandato. O espantoso é que qualquer um deles talvez exerça o mandato sem jamais ter precisado pedir diretamente ao eleitor um voto para isso.

Este jornal já apontou outra deformação produzida pela suplência. Não faltam candidatos que escolhem mãe, mulher, marido, filho ou irmão para acompanhá-los na chapa. Mandato não é patrimônio familiar, como já dissemos. Uma vaga que pode valer quase oito anos no Senado virou peça de composição partidária justamente porque o eleitor mal sabe quem a ocupa.

E talvez esteja aí a maior comodidade do sistema. Discutem-se a vida, o passado, as propostas e até as frases infelizes de quem disputa o Senado. O suplente passa quase despercebido. Depois da eleição, porém, basta uma nomeação para o Ministério ou uma secretaria estadual, uma renúncia ou uma fatalidade para que o figurante vire senador. Convém, portanto, conhecer o figurante antes que ele vire protagonista.

Em defesa dos direitos indígenas

Por O Povo (CE)

Os conflitos envolvendo comunidades indígenas no País são originados, em grande parte, da falta de respeito histórico à cultura e às terras habitadas ancestralmente pelos povos indígenas. Esse ciclo de preconceito e desrespeito precisa ser combatido dia a dia

Causa indignação saber do caso denunciado pela Associação Indígena do Povo Anacé do Planalto Cauípe por crimes ambientais, violação de direitos indígenas e ameaça ao Território Sagrado (Terra Indígena Anacé Kauype). Se comprovadas, as denúncias mostrariam que um empreendimento estaria promovendo "severos danos socioambientais na região", destacando os impactos de um loteamento e de suas atividades para a comunidade e o meio ambiente.

É lamentável observar que, dentre os fatos e os crimes ambientais denunciados, estão o desmatamento irregular e a derrubada de carnaúbas (Copernicia prunifera), além da privatização de bens públicos e comunitários. A denúncia se refere ao Loteamento Lago Eco Lotes, em Caucaia.

A queixa dos anacés abarca também a supressão ilegal de vegetação nativa, incluindo a derrubada em massa de carnaúbas, árvore considera símbolo da região e protegida por lei. Em entrevista publicada no O POVO, as lideranças Paulo Anacé e Marcelo Anacé, do povo anacé, que são conselheiros da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Cauípe, afirmaram que o avanço dos impactos da especulação imobiliária na região se intensificou por volta de 2016.

A questão do desrespeito aos povos indígenas no Brasil é um problema considerado estrutural e histórico. É manifestado por meio de diversos tipos de violência, além da física. A invasão de territórios ancestrais e a omissão estatal são alguns deles. É sempre válido lembrar que a Constituição Federal de 1988 garante explicitamente, no seu Artigo 231, o direito à sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e às terras que tradicionalmente os indígenas ocupam. Ainda assim, a realidade cotidiana dessas comunidades é marcada por graves violações de direitos humanos até os dias de hoje.

Como resultado da denúncia, a Justiça do Ceará determinou, na sexta-feira, 28, a suspensão imediata do evento "Lago Nautic Festival - Wind Experience - Cauípe 2026", previsto para sábado, 29, no empreendimento Lago Living, em Caucaia, área objeto da causa. Proferida pela Vara Estadual do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), a ação fora apresentada pela Defensoria Pública do Estado.

A medida foi publicada no mesmo dia em que a Associação Indígena do Povo Anacé do Planalto Cauípe denunciou o empreendimento ao O POVO. Isso mostra também o papel dos meios de comunicação como mediadores de causas sociais e conflitos em busca de justiça.

Os conflitos envolvendo comunidades indígenas no País são originados, em grande parte, da falta de respeito histórico à cultura e às terras habitadas ancestralmente pelos povos indígenas. Esse ciclo de preconceito e desrespeito precisa ser combatido dia a dia, na defesa da demarcação das terras, no reconhecimento da identidade indígena e na luta por políticas que valorizem os direitos das comunidades.

Alerta para a saúde mental

Por Correio Braziliense

Fenômeno complexo, o suicídio passou a ser visto como a manifestação do indivíduo na sua relação com a coletividade.

A próxima terça-feira marca o início da campanha Setembro Amarelo, lançada anualmente desde 2014 para alertar sobre a necessária vigilância à saúde mental na sociedade. Originária dos Estados Unidos, a partir da morte de um jovem de 17 anos que gostava de ajudar os outros e tinha um Mustang amarelo, a iniciativa está presente atualmente em mais de 40 países.

Além de orientações para identificar possíveis sinais de suicídio, o movimento procura combater o estigma contra quem passa por algum tipo de sofrimento. Chamado de Yellow Ribbon (laço amarelo), o programa preconiza dois princípios de enorme relevância na prevenção do suicídio e de transtornos mentais. O primeiro: "Não há problema em pedir ajuda", uma mensagem de acolhimento para quem passa por algum tipo de dificuldade. O segundo: "Be a link" (Seja um laço), o incentivo para ter uma postura proativa em relação a quem se encontra em situação vulnerável. Trata-se de uma ajuda comunitária que pode salvar vidas antes de procurar o atendimento de profissional em saúde mental.

No Brasil, estima-se que 14 mil pessoas cometam suicídio todos os anos. Os casos ocorrem em todos os estratos da sociedade, independentemente da origem, classe social, idade, orientação sexual ou identidade de gênero dos indivíduos. Fenômeno complexo, o suicídio passou a ser visto como a manifestação do indivíduo na sua relação com a coletividade. Os estudos de Émile Durkheim, um dos fundadores da sociologia, ainda hoje são considerados referência.

Uma importante iniciativa é conduzida pelo Centro de Valorização da Vida. Em parceria com o Sistema Único de Saúde, o serviço funciona 24 horas por dia no telefone 188, com ligações gratuitas. Especialistas reforçam na importância de uma rede de apoio e assistência a quem está em sofrimento, mas em razão de várias circunstâncias, não consegue pedir ajuda.

A chegada da campanha Setembro Amarelo é oportuna para aprofundar o debate sobre um tema contemporâneo: os riscos à saúde mental de crianças e adolescentes provocados pelas redes sociais. O Brasil tem acompanhado, nos últimos dias, o embate entre os órgãos fiscalizadores e a plataforma Discord, após uma adolescente de 13 anos ter sido induzida ao suicídio no Mato Grosso do Sul. Cinco adolescentes e um adulto de 18 anos foram presos, suspeitos de integrar um grupo criminoso que aborda crianças e adolescentes no ambiente virtual.

Nos Estados Unidos, a Meta aceitou pagar uma indenização de US$ 16 bilhões, o equivalente a R$ 86 bilhões, para encerrar processos judiciais móvitos por 29 estados norte-americanos. A gigante da tecnologia era acusada de utilizar mecanismos, em suas redes sociais, que provocam dependência nos usuários e prejudicam a saúde mental de jovens.

Episódios como esses reforçam a necessidade de se implementar uma regulação às redes sociais, de modo a conter a ganância por lucros bilionários às custas da saúde mental da sociedade, além de proteger os mais vulneráveis de grupos criminosos que agem nas sombras do ambiente digital.

Em um mundo no qual as relações pessoais se veem cada vez mais fragilizadas, a campanha Setembro Amarelo oferece oportunidade para a reaproximação, o diálogo e a ajuda. Mais presença, menos distância. É o que a humanidade mais precisa neste século marcado pela revolução tecnológica.

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