O Globo
A VPN da Proton aumentou em 800% o número de clientes brasileiros na semana passada. A maioria nem sequer desconfia do que seja uma VPN. Isso aqui, no Brasil. Em países como Rússia, Turquia, Irã ou China, todo mundo sabe. Afinal, VPN é um serviço que você contrata, instala no computador ou celular, e aí faz parecer que usa a internet de outro canto. Parece que vem de Londres, do Canadá, das Ilhas Canárias — de onde for. Serve para driblar proibições de uso em países com censura a sites específicos. Quando a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) decidiu que o Discord não poderia fazer mais lives, no Brasil, a plataforma impôs uma barreira ao território nacional. Aos computadores que vêm daqui, vídeo ao vivo está bloqueado. Vale para todo mundo — menos para os que usarem VPN. Pois é. Muito pouca gente sabe de que serve a VPN. Mas quem sabe inclui a garotada que comete crimes virtuais. O Discord está restrito para todo mundo, mas não para aqueles a quem a proibição se dirigia.
Isso é importante. Compreender que VPNs
existem é fundamental para conhecer a natureza da internet. A rede não funciona
com a lógica do mundo analógico. Um jornal se censura. Põe um censor na
redação, um policial na gráfica, aquilo que não for para ser publicado não
chega às páginas. Com internet, não é assim. O bloqueio nacional de uma função
ou mesmo de uma plataforma inteira não é absoluto. É tecnicamente impossível
que seja absoluto.
No Brasil, o Rumble, plataforma de
transmissões de vídeo ao vivo, está proibida. Não dá para assistir nada ali
desde fevereiro de 2025. É de onde transmitem youtubers banidos como Monark, um
conspiracionista, ou Allan dos Santos, um dos bolsonaristas que mais
incentivaram a tentativa de golpe em 2022. É, também, uma plataforma onde
ganhar dinheiro produzindo conteúdo é mais fácil que no YouTube ou similares.
Muita gente perde com sua ausência por aqui. Mas, para quem tem muita vontade
de assistir a Monark ou a Allan, basta instalar uma VPN. Serão, justamente, os
mais radicalizados no público. Os mais suscetíveis a agir. Se o objetivo da
ação judicial de proibir acesso era impedir que esses elementos partissem da
ideia à ação, o bloqueio é pouco eficaz. Clipes de Allan ou Monark circulam
pelos zaps fartamente porque são assistidos por gente o bastante.
Existe uma diferença entre a empresa Rumble e
a empresa Discord. Há um grupo de empresários, no mundo da tecnologia, que é
libertário. Consideram toda interferência estatal uma forma de violência. É seu
direito. Mas o Brasil tem leis. Os executivos do Rumble ignoram decisões da
Justiça brasileira. Aí, quando há recusa em seguir as leis de um país, é
difícil defendê-los. Não é, porém, o caso dos executivos do Discord. Estes já
mostraram mais de uma vez que estão dispostos ao diálogo. E que acatam decisões
da Justiça rápido.
Censura na internet é possível e acontece a
toda hora. As plataformas censuram. Fazem isso não mostrando a ninguém
mensagens razoáveis e mantendo uma torrente de vozes radicais viralizando a
toda hora. Quem apela ao sectarismo, ao ódio do outro, sempre aparece. As ondas
de cancelamento pelos grupos sectários são outra forma de censura. Por
intimidação. Falar algo que questione dogmas de esquerda ou direita exige
disposição para enfrentar muito ataque digital simultâneo. Um bom naco da
sociedade, cansado com a bestialidade da polarização afetiva on-line, se fecha
em silêncio. Não comenta, não se manifesta e julga ser minoritário. Não é. A
mecânica das redes é que cria a ilusão.
Então, sim, precisamos de regras para a
internet. É necessário que as empresas digitais cumpram a mesma lei que
quaisquer outras. Mas é preciso, igualmente, inteligência para agir. O problema
está nos algoritmos, e ele não se resolve com despachos de juiz. Precisamos de
menos Supremo e de mais Congresso. Temos, porém, Supremo demais e Congresso
cada vez mais ausente. Não vai funcionar.
É evidente que a censura é tentadora. Cale o
jornalista, cale o blogueiro, cale a plataforma, e o problema vai embora.
Sofremos uma tentativa de golpe, em 2022. Parecemos convencidos de que
evitaremos a radicalização da direita em todas as suas formas impondo silêncio
à força. E se estivermos fazendo o oposto? Empurrando-os para os cantos em que
conversam sem ser vistos, sem ser expostos. Democracia é um balanço. Quando
fraca, favorece seus inimigos. Quando autoritária, idem. Quando corrupta demais
— também.

Um comentário:
Perfeito.
Postar um comentário