O Globo
Será que a região Norte poderá aproveitar
melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no
Litoral Fluminense?
O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para
mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se
apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175
quilômetros da costa do Amapá e pretende
abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do
Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.
Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.
É preciso ver a contradição como do tipo não
antagônico, dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição
que segue seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção
com o meio ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre,
que querem resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma
região que o próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.
Tive a oportunidade de viajar pela região
para documentar no Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi
também um texto para o belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte.
Os manguezais são impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da
mata com fieiras de enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança,
o caranguejo era o principal prato.
A região concentra 80% dos manguezais do
Brasil. Até 2005, pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em
Bangladesh. Um mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa
Amazônica: aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se
bem, são berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco
ignorados, mas sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa
ser encontrado ali.
Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital
até Oiapoque, simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição:
“Aqui começa o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do
Rio Oiapoque, diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do
Rio, como Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão
construídos. No entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é
bastante precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do
quadro hospitalar, a saída foi a automedicação.
Oiapoque abriga hoje o centro veterinário
construído pela Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em
caso de vazamento. O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de
debate pode ser a comparação com os resultados do pré-sal nas cidades
litorâneas do Rio. Ele vai se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de
renovação. Será que a Região Norte poderá aproveitar melhor a transitória
riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?
O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso. Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova aventura com o petróleo.

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