terça-feira, 25 de agosto de 2026

O dilema da exploração na Margem Equatorial, por Fernando Gabeira

O Globo

Será que a região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

É preciso ver a contradição como do tipo não antagônico, dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição que segue seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção com o meio ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre, que querem resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma região que o próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.

Tive a oportunidade de viajar pela região para documentar no Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi também um texto para o belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte. Os manguezais são impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da mata com fieiras de enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança, o caranguejo era o principal prato.

A região concentra 80% dos manguezais do Brasil. Até 2005, pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em Bangladesh. Um mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa Amazônica: aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se bem, são berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco ignorados, mas sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa ser encontrado ali.

Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital até Oiapoque, simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição: “Aqui começa o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do Rio Oiapoque, diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do Rio, como Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão construídos. No entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é bastante precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do quadro hospitalar, a saída foi a automedicação.

Oiapoque abriga hoje o centro veterinário construído pela Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em caso de vazamento. O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de debate pode ser a comparação com os resultados do pré-sal nas cidades litorâneas do Rio. Ele vai se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de renovação. Será que a Região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso. Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova aventura com o petróleo.

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