terça-feira, 28 de setembro de 2021

Andrea Jubé - Previsão do tempo: dias de sol na política

Valor Econômico

Planalto pressiona por sabatina logo após 12 de outubro

Por ironia, a cena política desanuviou justamente quando o tempo fechou em Brasília, com o início das chuvas. O clima de deserto adicionava um ingrediente a mais à longeva crise de nervos dos atores políticos na capital.

Na primeira de semana do mês não bastasse a tensão com o imprevisível 7 de setembro, o calor era de secar o espelho d’água do Congresso.

Com as entranhas expostas, auxiliares presidenciais e líderes da cúpula do Centrão não disfarçavam a irritação com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que na avaliação do grupo, não agia para distensionar o ambiente político.

“Ele é candidato a presidente [da República] e está misturando propostas de interesse do Brasil com política”, reclamou à coluna, em caráter reservado, um importante líder do Centrão.

Na véspera, 1º de setembro, o Senado havia rejeitado a Medida Provisória (MP) 1.045, que promovia uma minirreforma trabalhista. Aliados do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), acusaram os senadores de descumprir acordo para aprovar a matéria.

Fabio Graner - Auxílio salva quase 6% do PIB até 2040

Valor Econômico

Política beneficiou todos os estratos de renda, diz estudo do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG

O auxílio emergencial não só evitou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro tivesse uma queda adicional de 2,4 pontos porcentuais no ano passado (a retração foi de 4,1%), como deve impedir quase 6% de perdas acumuladas para a soma das riquezas produzidas pelo país até 2040. Os cálculos são do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da UFMG, em estudo obtido pelo Valor.

“A retração da economia sem o auxílio seria de 6,52% no PIB em 2020.... Até 2040, os efeitos da ausência do auxílio gerariam um desvio acumulado negativo de 5,84%”, diz o trabalho.

O programa de R$ 291 bilhões em 2020 impediu também uma queda adicional de 5,5 pontos no consumo das famílias naquele ano e de 10,4% até 2040. “Para o investimento, sem o auxílio, essa variável desviaria negativamente 4,07% da sua taxa de crescimento observada em 2020 (-0,8%). Em 2040, os efeitos acumulados de sua ausência gerariam um desvio negativo acumulado de 11,3%.”

Joel Pinheiro da Fonseca - Um país intoxicado

Folha de S. Paulo

É tarde para recuperar vidas que se perderam, mas não para encerrar a carreira de Bolsonaro

 “A cloroquina curou meu tio.” Mereceria um Nobel da Paz quem conseguisse persuadir o grande público de que esse tipo de evidência anedótica não serve para nada. Via de regra, contudo, qualquer cura mágica, medicina alternativa ou crença infundada permanece um fenômeno marginal, que pouco interfere na saúde pública.

Com a cloroquina foi diferente. O furor na defesa desse remédio tomou o país. Ficou inclusive difícil para instituições médicas sérias testarem seus efeitos, pois os pacientes passaram a tomar por conta própria. Houve plano de saúde distribuindo o kit de presente para os associados. O médico não receitou? O paciente procurava outro médico até que algum receitasse, ou simplesmente tomava sem receita.

Vi amigos meus dizendo que não apoiar a cloroquina era falha moral. Houve quem fizesse “caridade” distribuindo kits para os pobres. O país enlouqueceu na cloroquina (e mesmo assim está no top 10 mundial em mortes por milhão de habitantes; ou seja, realmente não funciona).

Por que se criou um movimento, uma torcida organizada, uma militância, ao redor deste remédio? A resposta, como a de tantas outras tragédias recentes, é Bolsonaro. O presidente da República virou garoto-propaganda do remédio. Gastou milhões de reais para produzir, comprar, distribuir e promover uma cura falsa. E não foi a primeira vez que se fez de charlatão —enquanto deputado, aprovou projeto para incentivar a “pílula do câncer” (que, como você pode imaginar, não funciona).

Alvaro Costa e Silva – A dupla Zé Kéti e Saramago

Folha de S. Paulo

No Brasil as homenagens são esquecidas na semana seguinte

O centenário de nascimento de José Saramago será em 16 de novembro de 2022, mas a badalação já começou. Foi escolhido o logotipo: um S, sugerindo uma cabeça em que os zeros do número 100 funcionam como olhos para ressaltar o “pensamento social, político e ético” do escritor Prêmio Nobel em 1998. Mais de 400 dias de leituras, debates, conferências, seminários, simpósios, colóquios, palestras, workshops, exposições —ufa! Sem falar nos comes e bebes, mais bebes do que comes, como é a praxe nas confraternizações literárias. E haverá melhor oportunidade para vender livros?

O megaevento será realizado em Portugal, claro. Mas o Brasil —onde a obra de Saramago goza de prestígio e excelente desempenho nas livrarias— deverá pegar uma boquinha.

Hélio Schwartsman - Fora com os missionários

Folha de S. Paulo

A crença em Tupã goza da mesma proteção do Estado que a crença no Deus cristão

A bancada da Bíblia está em pé de guerra com o ministro Luís Roberto Barroso, do STF. O magistrado acaba de reafirmar uma decisão da corte que proíbe, durante a pandemia, missões religiosas de entrar em território de índios isolados ou de contato recente. Na opinião dos pios parlamentares, a decisão é “claramente orientada por ideologia declaradamente anticristã” e promove “perseguição religiosa”.

Besteira. O Supremo não proibiu apenas missionários cristãos de contatar os índios, mas “quaisquer terceiros, inclusive membros integrantes de missões religiosas”. Na verdade, ao esclarecer o alcance da decisão, Barroso até que pegou leve com os cristãos, pois permitiu que as missões que já estavam nas aldeias antes da epidemia nelas permanecessem.

Eliane Cantanhêde - Improbidade x impunidade

O Estado de S. Paulo

Com o País distraído com crises e as bobagens do presidente, a Câmara passa boiadas e jabutis

Com tantas crises, declarações e revelações absurdas, o foco nestes mil dias de governo Jair Bolsonaro foi no presidente e no governo. Enquanto isso, variadas boiadas continuaram passando pelo Congresso, especialmente pela Câmara. A mais nova foi uma drástica mudança num dos eixos do combate à corrupção: a Lei de Improbidade.

Assim como teve de devolver ao Planalto o pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes e o projeto mexendo com o Marco Civil da Internet, o Senado teve de agir firmemente também para evitar audácias da Câmara: distritão, volta das coligações partidárias e novo Código Eleitoral já para 2022. O atual desafio é evitar que a Lei de Improbidade se transforme na festa da impunidade.

O projeto da Câmara seria aprovado a toque de caixa pelo Senado na semana passada, não fosse uma articulação para uma audiência pública nesta terça-feira, 28/9, antes da votação pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), amanhã de manhã, e pelo plenário, já à tarde. Assim, rapidinho.

Toda lei é sujeita a mudanças e adaptações à realidade e à dinâmica da política e do próprio País. Foi assim, com bons propósitos, que surgiu o projeto para atualizar a Lei de Improbidade, debatido em 14 audiências públicas por dois anos e meio na Câmara. Ele, entretanto, foi trocado por um substitutivo, aprovado em surpreendentes oito minutos, em junho deste ano, unindo de bolsonaristas a petistas.

Os contrários ao substitutivo conseguiram retirar um “liberou geral” para o nepotismo, mas muitos bois, ou jabutis, como se diz em Brasília, permaneceram. Não para preservar o erário e as boas práticas administrativas e éticas, mas para criar uma blindagem, ou anistia, para os responsáveis.

Rubens Barbosa* - O Itamaraty e os desafios globais

O Estado de S. Paulo

Nos últimos anos o País não soube interpretar, segundo seus interesses, o sentido das mudanças

O discurso do presidente Bolsonaro na ONU recoloca em pauta a função e as atribuições do Itamaraty. A competência e o conselho informado para responder aos desafios que o Brasil está enfrentando foram deixados de lado. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) perdeu o lugar que sempre teve como principal auxiliar do presidente na formulação e execução da política externa e de efetivo coordenador dos temas de interesse do Brasil na área externa.

O mundo atravessa um momento de grandes transformações nas áreas política, econômica e social. A geopolítica e a geoeconomia, que foram se modificando na última década, vão passar por uma série de ajustes com a saída dos EUA do Afeganistão. Qual o lugar dos EUA no mundo? Como a China, a nova superpotência comercial, tecnológica e militar, evoluirá? Como se desenvolverá o novo polo dinâmico de crescimento econômico e de comércio exterior? Qual o impacto dos rápidos avanços tecnológicos (5G e Inteligência Artificial)? Como a preocupação global sobre meio ambiente e mudança de clima será traduzida em medidas comerciais restritivas? Como o acirramento da competição global entre China e EUA pela hegemonia política no século 21 afetará os países? Qual o efeito sobre a globalização do reordenamento produtivo, das cadeias de produção, protecionismo, autonomia soberana, revolução energética, crise no multilateralismo? Como a regionalização afetará a geopolítica e a geoeconomia global (fortalecimento das potências regionais e dos acordos regionais)? Qual o futuro papel da América do Sul – continuará na periferia? Quais os riscos criados pelas novas ameaças (terrorismo, ataques cibernéticos, guerra no espaço)?

Felipe Salto* - O fim do teto de gastos

O Estado de S. Paulo

Discutir regras fiscais é essencial. Mudá-las para gastar bilhões em ano eleitoral é outra coisa

O teto de gastos está por um fio. A manobra para ampliar despesas sem economizar um centavo tem várias facetas. Todas ferem de morte essa regra fiscal. Nada entrará no lugar. Abre-se folga de dezenas de bilhões de reais em pleno ano eleitoral.

A regra do teto, instituída pela Emenda Constitucional n.º 95, de 2016, limita o crescimento das despesas. O IPCA acumulado em 12 meses até junho corrige o teto para o ano seguinte. Essa necessidade de controlar as despesas continua presente. Pode-se discutir o melhor desenho das regras, tema que perpassa diferentes correntes de economistas. Mas é preciso zelar pela responsabilidade fiscal.

A Instituição Fiscal Independente (IFI) tem alertado, desde 2019, para o risco de rompimento do teto, situação contemplada na Emenda 95. Os chamados gatilhos – medidas automáticas de ajuste fiscal – seriam acionados no caso de descumprimento do teto. Cristiane Coelho, Daniel Couri, Paulo Bijos, Pedro Nery e eu defendemos, na Folha (4 de setembro de 2020, Regras permitem romper teto de gastos sem abandonar ajuste fiscal), que a Emenda 95 autorizava romper o teto. O projeto de lei do Orçamento seria o lugar geométrico desse evento. O governo preferiu a tese da impossibilidade. Mais realista que o rei, propôs a PEC Emergencial.

A PEC morreu e foi ressuscitada, no fim de 2020, para ser promulgada como Emenda 109 em março de 2021. A nova regra criada para acionar as medidas de ajuste fiscal nada tem que ver com o limite original. Os gatilhos só poderão ser acionados se as despesas obrigatórias ultrapassarem 95% das despesas primárias totais (que não incluem juros). A IFI mostrou que é impossível superar esse porcentual sem cortar as despesas discricionárias (custeio da máquina, investimentos e outros) ao ponto de colapsar o Estado.

Pedro Fernando Nery* - O pecado e o SUS

O Estado de S. Paulo

Com o envelhecimento da população, é preciso pensar em formas de financiar o SUS

Neste mês, comemoramos o aniversário do Sistema Único de Saúde (SUS). Sua contribuição na resposta à pandemia fez muitos levantarem os lemas #DefendaOSUS ou #VivaOSUS, populares nas postagens de vacinação. Mas, para além das hashtags que sinalizam virtude, o que significa defendê-lo? Se normalmente se evocam como ameaças o fantasma do fim de gratuidade ou a participação do setor privado (que já é abundante no sistema), há um desafio muito mais concreto: o envelhecimento da população. O custo de um sistema já deficiente irá estourar: como arranjar os recursos para defendê-lo?

É um elefante na sala que ainda não debatemos enquanto sociedade. O Brasil é um dos países que envelhecem mais rapidamente no mundo, como mostram as projeções de medidas como a idade mediana da população ou a taxa de idosos. A desgraça da pandemia representa uma óbvia exceção, mas em breve a tendência deve retornar: cada vez menos crianças nascendo de um lado, e idosos vivendo mais. 

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Pedagogia da informalidade - a título de romper tabus

Esta semana a agenda política prevê a continuidade da discussão do orçamento para 2021, acrescida da pendenga dos precatórios, dos embates da reforma administrativa, dos debates sobre a nova lei eleitoral, da flexibilização da imobilidade pandêmica e da questão do marco temporal para as terras indígenas que continua em pauta. Por incrível que pareça, Renan Calheiros, relator da CPI do Covid, tem suas velhas e cabulosas conexões emergindo nas agressões pontuais entre senadores.

Mas, o que inspira este texto não tem nada a ver com isso. É a bela reportagem publicada domingo, em um jornal de São Paulo, intitulada “Flor de Pedra”, escrita pela jornalista Laura Matos, numa entrevista com a suicidologista Karina Okajima Fukumitsu, pós-doutorada na USP , a título de romper tabus.

Assim, como a problemática da discriminação étnica, sexual e social no Brasil, a descriminalização da maconha, a violência contra a mulher, o bullying nas escolas e outros temas que os pudores e as religiosidades não permitem circular de maneira ampla, a mídia, por critérios próprios dos editores, há tempos tem levantado e alimentado questões de gênero delicadas, de tal forma que terminou por fazer  surgir organizações do tipo LGBT, sigla que vai se expandindo, ao incorporar  na sua agenda outros tipos de tratamento dado às minorias.

Congresso derruba veto à criação de federações partidárias

Câmara e Senado rejeitam decisão de Jair Bolsonaro

Julia Lindner e Bruno Góes / O Globo

BRASÍLIA — O Congresso Nacional derrubou nesta segunda-feira decisão do presidente Jair Bolsonaro que tentava impedir que partidos se unam em uma federação partidária e atuem de maneira uniforme em todo o país por pelo menos quatro anos.

A decisão foi tomada primeiro no Senado, por 45 votos a 25, e endossada pela Câmara por 353 votos a 110.

Pela proposta, diferentes siglas podem formar uma só agremiação, inclusive nos processos de escolha e registro de candidatos para eleições majoritárias e proporcionais e no cumprimento das cláusulas de desempenho. O ato beneficia as pequenas legendas, como PCdoB, PSOL, PV e Rede. A matéria vai à Câmara dos Deputados.

Ao justificar o veto, Bolsonaro afirmou que o texto vai na contramão do que se pretende para melhorar o sistema representativo e "inaugura um novo formato com características análogas às das coligações".

“O veto presidencial objetiva salvaguardar o eleitor comum, vez que, como apresentada a proposição poderia afetar, inclusive, a própria legitimidade da representação”, destacou o Planalto do Planalto em sua justificativa.

O projeto facilita o alcance da cláusula de barreira, criada para extinguir legendas que não tenham um desempenho mínimo a cada eleição. O texto também permite a partidos políticos se organizarem em federação por ao menos quatro anos, driblando esse dispositivo, criado em 2018.

Nos últimos dias, dirigentes e líderes do Centrão, como PP, PL e DEM, passaram a atuar pela manutenção do veto às federações. A decisão dos senadores, porém, impediu uma reviravolta.

No Senado, Esperidião Amin (PP-SC) disse que o seu partido havia "fechado questão" pela manutenção da decisão de Bolsonaro. Já na Câmara, o deputado Cacá Leão (PP-BA) orientou pela derrubada do veto.

— Pactuamos que respeitaríamos a decisão do Senado — discursou o líder do PP na Câmara.

Segundo um dos parlamentares que negociou o texto, parte de parlamentares do Centrão tinha o objetivo de barrar qualquer possibilidade de união entre PT, PSB e PCdoB nas próximas eleições.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Mil dias a menos

O Estado de S. Paulo

Este é um dos poucos motivos para celebrar o milésimo dia de Jair Bolsonaro no Planalto, o mais completo e desastroso desgoverno do Brasil independente

Completados mil dias, são mil dias a menos com Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Este é um dos poucos motivos para celebrar o milésimo dia do mais completo e mais desastroso desgoverno do Brasil independente. Haver sobrevivido também pode ser uma razão para festejar, se for possível conter, por algum tempo, a indignação e a dor pelos milhares de mortes atribuíveis ao negacionismo, à irresponsabilidade e a uma incompetência fora dos padrões conhecidos. Passados quase três quartos do mandato, restam, no entanto, os perigos associados à ambição de um presidente empenhado em continuar no poder – se possível, por meio de uma reeleição.

Não há por que esperar uma transfiguração de Bolsonaro, em sua luta para sobreviver politicamente e adiar, ou talvez evitar, as consequências legais de seus desmandos e omissões. Enquanto estiver na Presidência, ele tentará preservar o custoso apoio do Centrão. Além disso, continuará forçando a equipe econômica a encontrar, no Orçamento, recursos para gastos eleitoreiros. Não há por que esperar, também, um desempenho, em qualquer setor – educação, crescimento econômico, saúde, emprego e bem-estar –, melhor do que aquele registrado até agora.

O primeiro grande feito de Bolsonaro foi interromper a recuperação econômica iniciada em 2017, depois da recessão de 2015-2016. A economia cresceu apenas 1,4% em 2019, menos que no ano anterior, e já estava mais fraca no começo de 2020, antes da pandemia. O recuo de 4,1% naquele ano foi menor que o de várias economias desenvolvidas e emergentes, mas o País entrou em 2021 com desemprego de 14,7%, muito acima dos padrões dos países de renda média. Pior que isso, milhões de pessoas estavam desassistidas e dependentes de campanhas de solidariedade para comer.

Poesia | Antonio Machado(1875-1939) - O crime foi em Granada

(A Federico García Lorca)

I. O crime

Viram -no, caminhando entre fuzis

por uma longa estrada,

sair ao campo frio,

ainda com estrelas, madrugada.

Mataram a Federico

quando a luz já se elevava.

O pelotão de verdugos

não ousou olhar sua cara.

Todos fecharam os olhos;

rezaram: nem Deus te salva!

Morto caiu Federico

– sangue na fronte e chumbo nas entranhas –

...Foi lá em Granada o crime,

sabei – pobre Granada – , em sua Granada.

II. O poeta e a morte

Viram-no caminhar a sós com Ela,

sem temer sua gadanha.

– Já o sol de torre em torre; e já os martelos

na bigorna – metal, metal das fráguas.

Falava Federico,

galanteando a morte. Ela o escutava.

“Porque ontem no meu verso, companheira,

soava o golpe de tuas secas palmas,

e deste o gelo ao meu cantar, e o gume

de tua foice de prata à minha desgraça,

te cantarei a carne que não tens,

os olhos que te faltam,

teus cabelos que o vento sacudia,

os rubros lábios em que te beijavam...

Hoje como ontem, morte, minha cigana,

que bom estar só contigo ,

por estes campos de Granada, minha Granada!”

III.

Viram-no caminhar...

Talhai, amigos,

de pedra e sonho, lá no Alhambra

um túmulo ao poeta,

sobre uma fonte na qual chore a água,

e eternamente diga:

foi em Granada o crime, em sua Granada!

Música | Buena Vista Social Club en concert au Printemps de Pérouges

 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Marcus André Melo* - Política do fogo amigo

Folha de S. Paulo

Na Argentina, conflito é intrapartidário sobre o controle da Presidência; aqui, interpartidário

A derrota do governo nas primárias legislativas argentinas provocou um tsunami institucional. Quatro ministros associados à facção kirchnerista do gabinete do presidente Alberto Fernández pediram demissão. Cristina Kirchner, a vice-presidente, acionou sua artilharia e pediu a cabeça do poderoso chefe de gabinete, que foi também substituído, e do ministro da Economia.

A eleição ocorrerá daqui a dois meses, mas as primárias legislativas importam porque a Argentina é o único país em que elas são obrigatórias para o eleitor e para os partidos. Assim, espera-se que a foto de agora seja consistente com a de novembro. As eleições legislativas ocorrem no meio do mandato para renovar metade da Câmara dos Deputados e 1/3 das províncias no Senado; o governo deve perder a maioria nas duas casas.

Celso Rocha de Barros – A CPI provou tudo

Folha de S. Paulo

A CPI encontrou os documentos, fez a conta e descobriu o CPF dos culpados

A CPI da Pandemia, que se aproxima de seu fim, provou a ocorrência do maior crime da história republicana brasileira. Encontrou os documentos certos, fez as contas certas e descobriu o CPF dos culpados.

A CPI provou, com documentos, que Jair Bolsonaro se recusou a comprar as vacinas oferecidas pela Pfizer e pelo Instituto Butantan, e que só comprou metade da oferta do consórcio Covax Facility.

Tudo documentado.

Com esse número de vacinas não compradas e os documentos que provam as datas em que elas poderiam estar disponíveis, os cientistas foram trabalhar. Eles sabem o quanto o número de mortes costuma cair conforme a vacinação progride.

Mathias Alencastro - Três lições da Alemanha

Folha de S. Paulo

Sucessão de Merkel mostra caminhos para democracias liberais acometidas pela ascensão da extrema direita

Terminou a campanha eleitoral na Alemanha e, pela primeira vez, o partido que sair na frente terá de encontrar pelo menos dois outros aliados para formar o governo. O processo de formação de um novo governo deve se prolongar por alguns meses, mas um cenário de impasse a longo prazo, como nas vizinhas Holanda e Bélgica, parece descartado.

popularidade de Olaf Scholz, apontado em todas as sondagens como o mais preparado para assumir o cargo, assim como o desejo de alternância depois de 16 anos de governo CDU, confere um ascendente à SPD nas negociações com potenciais aliados. O resultado do pleito também traz ensinamentos para todas as democracias liberais acometidas pela ascensão da extrema direita.

Catarina Rochamonte - Merkel: 'Nós vamos conseguir'

Folha de S. Paulo

Com destemor, ela seguia o princípio humanitário cristão absorvido na tradição democrática

Angela Merkel está prestes a entregar o cargo de chanceler da Alemanha. É um acontecimento cuja importância vai além do seu país e da própria União Europeia: tendo sido a mais jovem personalidade a aceder a tal posto, Merkel, com seu estilo de governo racional e modesto, tornou-se, nos 16 anos em que esteve no poder, a mais forte e constante referência mundial para a liberdade, a democracia e a civilidade.

Seu protagonismo político solidificou-se na União Democrata Cristã (CDU), partido que representa, na Alemanha, o movimento político internacional da democracia cristã, surgido em meados do século 19 na Europa, a partir de associações de cristãos, trabalhadores e instituições de caridade. O partido de Merkel tem ainda forte referência em Konrad Adenauer, chanceler que foi o principal artífice do soerguimento da Alemanha no pós-Guerra.

Bruno Carazza* - Muita água a passar por debaixo da ponte

Valor Econômico

Pesquisas a um ano das eleições dizem muito pouco

Em 4/12/1988, Fernando Collor sequer aparecia nas pesquisas para as eleições presidenciais que iriam se realizar no ano seguinte. Nesse dia o Datafolha apontava Brizola na liderança, seguido de perto por Lula ou Silvio Santos, a depender do cenário.

A um ano da disputa de 1994, Lula ocupava confortavelmente a primeira colocação (31%), com quase o dobro das intenções de voto de José Sarney (16%). Fernando Henrique àquela altura amargava o quinto lugar, com 7%, atrás ainda de Maluf (12%) e Brizola (8%).

Com a emenda da reeleição aprovada, FHC surfava na onda do Plano Real e apareceu, em setembro de 1997, com ampla folga em relação a Lula: 37% a 22%. Maluf tinha 13%, Sarney 11% e o estreante Ciro Gomes apenas 5%.

Quatro anos depois Lula já surgia com chances de finalmente vencer uma eleição presidencial: com 30%, o petista estava bem à frente de Ciro (14%), Roseana (12%), Itamar (11%) e Garotinho (9%). Serra, que seria derrotado por Lula no segundo turno um ano depois, tinha apenas 7% da preferência dos entrevistados.

Alex Ribeiro - O Copom está muito otimista com a inflação?

Valor Econômico

Choques de preços podem persistir e avançar em 2022

Os analistas econômicos do mercado financeiro estão intrigados com a baixa projeção de inflação do Banco Central para 2022, de apenas 3,7%. Na realidade, o percentual estimado seria ainda menor, em cerca de 3,3%, caso a autoridade monetária adotasse a hipótese de bandeira vermelha 1 para energia elétrica, acompanhando a premissa da maioria dos economistas do setor privado.

O BC está basicamente sozinho na previsão de uma inflação tão pequena. O consenso do mercado é 4,1%. O mínimo estimado pelos 131 economistas consultados na pesquisa Focus de expectativas 3,4% para 2022. É grande a descrença de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) possa cair a praticamente um terço até o fim do ano que vem, saindo de 9,7% no período de 12 meses encerrado em agosto. Inclusive porque, na prévia do IPCA de setembro, a inflação foi a 10,05% em 12 meses.

Mirtes Cordeiro* - Basta de violência contra a mulher!

Falou e Disse

A sociedade está gravemente doente, pelo vírus e pela violência…

Descontrolada! O grito proferido na CPI da Covid-19, no Senado da República, ecoou nos ouvidos da sociedade brasileira.

A mulher atacada, agredida pelo adjetivo sempre usado para desmoralizar as mulheres, era a senadora pelo estado de Mato Grosso do Sul, Simone Tebet, que durante a semana que passou insistia, com muita competência, em apresentar documentos com provas inequívocas que indicam corrupção na compra de vacinas pelo Ministério da Saúde.

A agressão veio de uma autoridade do alto escalão do governo federal, quando viu que eram vãs as suas argumentações diante de uma mulher detentora de sólido saber jurídico fazendo jus à suas responsabilidades pelo cargo que ocupa.

A agressão atingiu todas as mulheres no país. O agressor, o ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário.

De todas as desigualdades, a mais assombrosa, a desigualdade entre homens e mulheres.

Na mesma semana, em Abreu e Lima, Região Metropolitana do Recife (RMR), noticia a morte de uma mulher com um tiro na cabeça, ao ser assaltada na loja em que trabalhava como caixa, apesar de ter entregue o dinheiro, o celular e o relógio. Em outro caso, uma jovem foi libertada após passar seis dias sendo mantida em cárcere privado, sob ameaças, pelo namorado, na zona sul do Rio de Janeiro.

Informações da Operação Maria da Penha, promovida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública do Governo Federal, entre 20 de agosto e 20 de setembro, indicam que “mais de 5,1 mil boletins de ocorrências relacionados à violência contra a mulher foram registrados no período de um mês em Santa Catarina. É como se 170 mulheres sofressem agressões por dia e denunciassem no Estado”.

Denis Lerrer Rosenfield* - Marco temporal

O Estado de S. Paulo

Trata-se de uma questão constitucional, que já deveria estar resolvida segundo a Carta de 1988.

A atual rediscussão sobre o marco temporal de demarcação de terras indígenas sofre de um viés ideológico incontestável que nada tem que ver com uma suposta injustiça originária que estaria sendo, assim, reparada. Tal como está sendo apresentada, é como se estivéssemos diante de um novo conflito entre bolsonarismo e anti-bolsonarismo, atraso versus progresso, quando se trata, na verdade, de uma questão constitucional, que já deveria estar resolvida segundo a Constituição de 1988. O politicamente correto se regozija, trazendo imensa insegurança jurídica ao País. Há, aqui, uma infeliz sobreposição temporal que termina obscurecendo a questão central.

Preliminarmente, observe-se que nossa atual Constituição, em seu artigo 231, estabeleceu claramente o marco temporal como sendo aquele quando de sua promulgação, reconhecendo territórios indígenas às tribos que, no presente, então ocupavam aquelas terras. Não se trata de qualquer ocupação passada segundo uma autoatribuição. Quando do julgamento posterior do caso da Raposa Serra do Sol, em 2009, tal posição foi referendada com um justo acréscimo, a saber, que seriam também reconhecidos como territórios indígenas os que estariam, naquela época, em conflito ou contencioso, o que configuraria um esbulho persistente. A intenção foi a de evitar que expulsões recentes destituindo os indígenas de suas terras dessem origem a um direito. Dito isso, o assunto deveria estar resolvido e pacificado, não fosse o descontentamento dos perdedores, que, desde então, lutam contra a própria Constituição. É a velha história jurídica brasileira: os perdedores abusam de recursos até serem atendidos.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Baile de escolhas: fusão na direita, campanha na esquerda, hora H no centro

A maioria das pesquisas está indicando que se a eleição fosse hoje, Lula ganharia no primeiro turno. Portanto, Bolsonaro estaria fora e ninguém da chamada terceira via decolaria. Esse é o retrato atual da realidade. Em resposta a interpretações fatalistas sobre o sentido dessa informação real, o pré-candidato Ciro Gomes lembrou que pesquisa é retrato, a vida é filme. Esta coluna tem argumentado na mesma linha há algum tempo e cheguei a usar essa mesma imagem a que o pedetista recorreu agora. Porém, as fotografias do momento têm sua relevância e vão se tornando cada vez mais persuasivas, à medida que vai ficando menor o tempo que nos separa da eleição. Daí não poderem ser ignoradas.

Um modo vesgo, no entanto, de considerar as boas notícias que pesquisas têm dado a Lula é ver, ao lado delas, como face reversa de uma mesma moeda, o que seria a “surpreendente” resiliência dos índices de intenção de voto em Bolsonaro. Essa surpresa é desatenta ao fato de tratar-se de presidente no cargo, manejando, sem senso de limites, recursos que o cargo lhe disponibiliza, não poucas vezes avançando em direção à ilicitude.  Comparativamente, sua performance pré-eleitoral tem sido menos atípica do que as derrocadas abissais acontecidas, em contextos bem diversos, nos casos de Fernando Collor e Dilma Rousseff. O argumento de que os crimes de responsabilidade do atual incumbente são incomparavelmente mais graves que os dos seus predecessores é veraz, mas não cancela a lógica do que está diante dos nossos olhos. É o exercício (o normal e o arbitrário) do poder a explicação para que, apesar dos seus crimes, Bolsonaro ainda conserve apoio político no Congresso e nível de aceitação popular para ir ficando no cargo, mesmo que a cada dia adicione, à sua maligna pobreza de espírito, a condição de alma penada. Vistas as coisas sob esse ângulo, boa parte da surpresa se dissolve. Entretanto, esse não é o ângulo político mais habitualmente adotado nas análises e sim o ângulo do espanto indignado.

Fernando Gabeira - Mostrando o dedo para o mundo

O Globo

O jornal alemão Frankfurter Allgemeine disse que o Brasil mostrou o dedo para o mundo.

Era uma alusão à posição negacionista de Bolsonaro, que não apenas recusa a vacina, como quebrou o código de honra da ONU, que esperava um encontro de imunizados. Na verdade, a manchete era uma síntese da atitude de Bolsonaro com a do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que mostrou o dedo para manifestantes contrários ao governo.

A primeira coisa que me ocorreu é que durante muito tempo falamos do brasileiro como um homem cordial. É uma visão idealizada. No entanto jamais poderíamos suspeitar que uma delegação brasileira “mostrasse o dedo para o mundo na ONU”e que isso se transformasse na manchete de um dos principais jornais alemães.

Quando Bolsonaro defendeu a hidroxicloroquina, dizendo que a História e a ciência fariam justiça ao tratamento precoce da Covid-19, lembrei-me de seu esforço no Congresso para aprovar uma pílula contra o câncer, desenvolvida por um pesquisador de São Paulo. Bolsonaro tinha pela fosfoetanolamina a mesma empolgação e é incapaz de se perguntar hoje para quem a ciência e a História deram razão.

Miguel de Almeida - Erro médico

O Globo

Na noite em que o cabo Queiroga baixou à enfermaria com Covid-19, uma frase de Honoré de Balzac por certo definiria o personagem bozofrênico:

— Quanto mais infame é a sua vida, mais o homem se importa com ela; ela se torna então um protesto, uma vingança de todos os instantes.

Queiroga (ele lembra o Sargento Garcia, do Zorro, o zonzo da história) acabara de ouvir na ONU o discurso histórico de seu capataz e, mesmo sendo um sabujo, notório escova-botas, deve ter ficado pasmado com aquela escandalosa ausência de coordenação verbal, mental e higiênica:

— Eu mesmo foi (sic) um desses que fez (sic) o tratamento inicial — leu o Bozo no teleprompter.

Ao que parece, tal trecho de defesa do tratamento precoce acabou inserido no discurso por seu filho, alcunhado Eduardo Bananinha, em aceno à base bozonazista (estimada em 11% do eleitorado). Evidencia-se aí um padrão de comando bastante rígido, qual seja, o Bozo só se cerca de gente mentalmente inferior ao seu nível.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Legislação eleitoral à la carte

O Estado de S. Paulo

Uma média de sete projetos de alteração da lei eleitoral por ano nada tem de razoável. Revela que as mudanças são um debate permanente

De 2010 a 2021, a Câmara dos Deputados aprovou nada menos do que 76 projetos que alteraram a legislação eleitoral do País, o que representa uma média de sete projetos aprovados por ano. O levantamento foi feito pelo Instituto Millenium, em parceria com a Neocortex, com base em dados da própria Casa. O mais recente desses projetos, que recebeu aval de 378 deputados há poucos dias e seguiu para o Senado, institui o novo Código Eleitoral, um calhamaço de quase 900 artigos que altera de uma só vez desde os critérios para uso dos recursos do Fundo Partidário, que se tornam bem mais flexíveis, até as regras para divulgação de pesquisas de intenção de voto, que beiram a censura e abrem perigoso espaço para disseminação de mentiras às vésperas das eleições (ver editorial A afoiteza da Câmara, publicado em 12/9/2021). Trata-se da mais profunda e perigosa alteração da legislação eleitoral e partidária em muito tempo.

Poesia | Ferreira Gullar - Homem Comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento

ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião,
e a vida sopra dentro de mim
pânica, a vida sopra de mim de modo assustador,
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

Música | Paulinho da Viola e Marisa Monte - Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha)

 

domingo, 26 de setembro de 2021

Merval Pereira - O desejo de mudança

O Globo

Diz-se que em política existem dois fatos: o novo e o consumado. Não temos fato consumado ainda na corrida presidencial, embora a polarização entre Bolsonaro e Lula seja uma forte possibilidade. Mas o fato novo pode ser o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite”. Mesmo que recebida com ceticismo, a análise da consultoria Eurasia indicando que ele pode ganhar as prévias do PSDB trouxe ao debate político a única novidade no campo da eleição presidencial do ano que vem. Uma novidade que poderá dar mais força à tese da terceira via.

Derrotando o governador João Doria dentro da máquina partidária que em teoria ele controla, Leite indicaria um desejo de renovação no PSDB, apesar de Doria também ser uma novidade na política paulista, onde surgiu em 2017 vencendo a eleição para prefeito de São Paulo. Leite, porém, tem apenas 36 anos e, embora tenha sido vereador em Pelotas com 26 anos, não está  marcado pela prática da velha política como seus eventuais concorrentes.

Paulo Sérgio Pinheiro* - Reconstrução de direitos

O Globo

O atual presidente da República sempre foi contrário aos direitos humanos. Atacou-os repetidamente durante seus vários mandatos como deputado federal e durante a campanha eleitoral para a Presidência. Para além de ações mais visíveis, tais como seus discursos de ódio e suas tentativas de mobilizar apoiadores de um golpe para botar abaixo a democracia constitucional, seu governo promove antipolíticas de direitos humanos.

Estas são implementadas de diversas formas: por meio de mudanças legais, fechamento de órgãos e colegiados, cortes orçamentários, nomeação de dirigentes ineptos com posições hostis ao funcionamento de conselhos onde tem assento a sociedade civil ou pela inação pura e simples. Desse modo, os programas nacionais de direitos humanos em andamento foram esvaziados, inviabilizados ou desviados de seus propósitos, ao mesmo tempo que outras ações tornaram precária a condição dos grupos vulneráveis protegidos por direitos, ao instigar aqueles que os atacam.

Dorrit Harazim - A última estadista

O Globo

Qual foi a última vez em que líderes do mundo inteiro sentiram uma espécie de orfandade diante do afastamento de um de seus pares do cenário global? Não vale citar o sul-africano Nelson Mandela, pois ele já estava fora do poder quando sua morte foi pranteada simultaneamente em 24 fusos horários. Tampouco vale nomear Churchill ou Franklin Delano Roosevelt, pois Stálin e Hitler lhes dedicaram atenção merecida, mas os teriam eliminado de cena se pudessem. A pergunta se refere a um vazio raro na História: uma liderança mundial que deixa o poder em vida, por vontade própria, com direito a respeito e graus variados de admiração universal.

A conservadora Angela Merkel, cuja sucessão como chanceler da Alemanha está sendo decidida na eleição deste domingo, é essa estadista. (Ótimo o vocábulo terminar em “a” e não exigir concordância no feminino, coisa rara tratando-se de posições de poder.) Por ter honrado a arte de governar nos 16 anos em que liderou o país-potência da Europa, o peso de Merkel é acentuado pela degradação da função pública no mundo. O que sobra planeta afora são meros chefes de Estado, alguns terrivelmente genocidas, outros bem-intencionados, em busca de um asterisco na História.

Elio Gaspari - O vírus da política na Prevent

O Globo / Folha de S. Paulo

Num mercado onde prevalece a promiscuidade entre maganos e agentes públicos, a Prevent atravessou a rua para escorregar em cachos de bananas

Em 1997, o deputado Ayres da Cunha, dono de uma operadora de planos de saúde e líder da bancada parlamentar que defendia os interesses do setor, disse que “na minha empresa, há um problema chamado idoso (...) Se tirássemos todos os idosos do meu plano, minha rentabilidade aumentaria muito”.

Nessa época, o médico Fernando Parrillo e seu irmão Eduardo entraram no mercado com a Prevent Senior. Ofereciam planos individuais a idosos e cobravam pouco. Parecia coisa de maluco, mas era a saudável demonstração da destruição criativa do capitalismo.

Enquanto o mercado operava sem controlar seus custos, a Prevent era fechada. Tinha seu plantel de médicos, seus laboratórios, seus hospitais e suas clínicas. Em 2017, o mercado teve autorização para aumentar suas mensalidades em 13,55%, e a Prevent subiu só 6,5%. Seu ticket médio estava em R$ 509. À época, já tinha 327 mil clientes.