sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Fernando Gabeira: A passagem dos bárbaros

O Estado de S. Paulo

Fúria destruidora de Bolsonaro pode se acentuar este ano, na medida em que antevê sua derrota, com aliados saltando do barco

As pesquisas de opinião deste fim de ano revelam, entre outras, uma situação difícil para Bolsonaro. Ele é rejeitado pela maioria e é considerado o pior presidente da história por quase metade dos entrevistados. Tudo isso num momento em que o Chile se volta para a esquerda, como já se voltaram Argentina, Peru e Bolívia. Nas suas circunstâncias, Estados Unidos e Alemanha também mudaram e desenham um quadro desfavorável para a extrema direita.

Nesta virada de ano, existe uma esperança real de que Bolsonaro seja varrido do mapa. No entanto, há todo o ano de 2022 para carregar e nem todas as suas perspectivas parecem boas. O ano termina com mais uma batalha entre o negacionismo oficial e a ciência. Depois de negar a gravidade do vírus, o número de mortos, a importância da vacina, a vacinação de adolescentes, o passaporte sanitário, Bolsonaro bloqueia, com sua ignorância, a vacinação das crianças.

Com uma boa performance na imunização de seu povo, o Brasil conseguiu respirar um pouco no segundo semestre. Mas a pandemia não acabou. A variante Ômicron que atingiu a Europa e os Estados Unidos tem um grande poder de contaminação, embora, ao que tudo indica, não seja tão letal. Os últimos números na cidade de São Paulo indicam um crescimento de internações e a metrópole é uma referência para o Brasil, que, em algumas cidades, vive também um surto de influenza.

Vera Magalhães: Sob o domínio do descaso

O Globo

Há uma semana escrevi neste espaço, com prematuro alívio, que a vacina havia nos protegido de danos ainda maiores que Jair Bolsonaro poderia impingir ao país no trato da pandemia e que, graças a ela, era possível vislumbrar um fim para o pesadelo de dois anos que o Brasil e o mundo atravessam.

Não contava, mesmo com o retrospecto do presidente de turno e de seu estafe, que estaríamos para começar um novo calvário, em tudo semelhante ao de um ano atrás, para garantir que nossas crianças de 5 a 11 anos tenham acesso a essa mesma garantia de salvação.

Mesmo diante de todas as evidências científicas, aqui e lá fora, de que as vacinas foram responsáveis pela queda consistente nos casos de Covid-19 e de que, mesmo diante de mutações do vírus, estão contendo a incidência da forma grave da doença e dos óbitos, Bolsonaro insiste em boicotá-las e em dificultar o acesso da população a elas.

Bernardo Mello Franco: A falta que faz um presidente

O Globo

Depois que o Supremo Tribunal Federal proibiu o governo de ignorar o passaporte da vacina, Jair Bolsonaro encontrou outra forma de sabotar a saúde pública. Lançou uma cruzada contra a imunização de crianças, que já está avançada na Europa e nos Estados Unidos.

A Anvisa aprovou na semana passada a vacinação da faixa de 5 a 11 anos de idade. Em vez de comemorar a notícia, o presidente passou a atacar os técnicos da agência. Ameaçou divulgar seus nomes na internet, numa clara tentativa de intimidação.

Não satisfeito, o capitão inventou duas exigências para aplicar a vacina: autorização dos pais e receita médica. A primeira não faz sentido, porque as crianças não iriam sozinhas aos posto de saúde. A segunda pune as famílias mais pobres, que não têm um pediatra ao alcance do celular.

Federações terão que superar impasses regionais

Federações à vista: Partidos tentam superar impasses regionais e miram formação de federações já para a eleição de 2022

PT, PSOL, PV e Rede já aprovaram debate com outras siglas e buscam atrair PSB; PSDB e Cidadania vão retomar conversas em janeiro

Bianca Gomes e Gustavo Schmitt / O Globo

SÃO PAULO — A possibilidade de formar uma federação, instrumento que permite a dois ou mais partidos atuarem como um só por quatro anos, deve mexer com as negociações para as eleições de 2022 nos próximos meses. As direções de PT, PSOL, PV e Rede aprovaram recentemente iniciar a discussão com diferentes siglas e buscam atrair também o PSB. Já PSDB e Cidadania têm conversas adiantadas. Impasses regionais, no entanto, ainda precisam ser superados para que as negociações se concretizem.

Regulamentada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no último dia 14, a federação permite que os partidos possam se unir sem precisarem recorrer à fusão, processo mais complexo, que envolve a criação de uma nova sigla, como o União Brasil, que deve surgir da integração de DEM e PSL.

Legendas menores veem no instrumento a chance de manter acesso ao dinheiro do fundo partidário. Essas siglas foram atingidas pela cláusula de barreira, adotada em 2018 para limitar repasses a partidos que não conseguirem um mínimo de votos. Já as siglas maiores aumentam o tempo de propaganda na TV e podem ganhar puxadores de voto na disputa pelo Legislativo.

Por outro lado, o número total de candidatos de cada partido numa federação tende a ser menor, segundo Michel Bertoni, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político:

— A federação pode lançar o mesmo número de candidatos nas eleições proporcionais que cada partido poderia lançar isoladamente. Assim, terá de haver muito critério na composição das listas proporcionais — afirma.

Vinicius Torres Freire: Destruição dos últimos dias de 2021

Folha de S. Paulo

Mesmo vadiando mais, governo estraga vacinação, Orçamento e apanha de hackers

A véspera de Natal e as antevésperas de outras festas seriam dias para falar de outro assunto ou de meditação. Mas somos perseguidos pelos demônios, muitos soltos ou definitivamente desavergonhados desde 2018. Desculpem os maus modos neste dia, em que as notícias de ruína continuam.

Jair Bolsonaro tem passado os dias fazendo aquilo de que mais gosta: nada e vociferando atrocidades, com seu esgar demoníaco e seu riso rábido. Apesar da laborfobia desavergonhada, é muito eficiente na destruição. Considerem as realizações de fim de ano.

Greve do funcionalismo.

elite da burocracia federal ameaça greve por aumento de salários e por causa do governo atroz. Não, não é momento de reajustar salários, ainda menos na elite do funcionalismo, pois o país anda arruinado e os salários médios nos empregos e trabalhos privados caem. Mas o pior vereador da história do Brasil, Bolsonaro, arrumou um reajuste para policiais federais, uma de suas "bases" eleitorais. Esse favor para amigos detonou a ira dos demais servidores.

Centenas de funcionários da Receita entregam cargos de chefia. Na Educação, muitos entregavam cargos por causa do programa de destruição do governo. No Ambiente, servidores decentes foram calados ou ignorados. Etc. A destruição toma corpo.

Herodes contra a vacina.

Jair Herodes Bolsonaro, seu capacho na Saúde e as falanges do bolsonarismo fazem o que podem para atrasar, desmoralizar e desacreditar a vacinação dos 20,5 milhões de crianças de 5 a 11 anos. Essa indecência ameaça não apenas as vidas e a saúde de meninas e meninos, mas de todos os seus cuidadores, mães, pais, avós, professores etc. Não há urgência, diz o tipo da Saúde. Enquanto isso, há notícias de repiques de Covid pelo país.

Bruno Boghossian: A econômica no retrovisor

Folha de S. Paulo

Em mau sinal para Bolsonaro, 65% dos brasileiros dizem que situação piorou nos últimos meses

Após quase dois anos de um justificado pessimismo, as expectativas econômicas dos brasileiros voltaram ao nível pré-pandemia. Na última pesquisa do Datafolha, 46% dos entrevistados disseram esperar um aumento da inflação, e 35% responderam que o desemprego deve subir. É bem menos que os quase 80% da fase aguda da crise.

Esse alívio mexeu pouco no cenário político. Quem mais mudou de ideia sobre o futuro da economia foram os mais pobres: nesse grupo, o percentual de eleitores que diziam que a situação do país vai melhorar subiu de 27%, em setembro, para 43%. No mesmo período, a popularidade de Jair Bolsonaro nesse segmento continuou no chão (17%), e as intenções de voto caíram (de 20% para 16%).

Hélio Schwartsmen: Covid-19 está se tornando endêmica

Folha de S. Paulo

É mais fácil prever o que vai acontecer no longo prazo do que no curto

ômicron já está entre nós e se espalha rápido. O impacto que ela terá em termos de morbimortalidade ainda é incerto. Curiosamente, é mais fácil prever o que vai acontecer no longo prazo do que no curto.

Em mais dois ou três anos, a Covid-19 deverá ser uma doença endêmica. São dois os mecanismos que podem fazer com que isso ocorra. O mais polêmico deles é redução da patogenicidade do vírus. Na prancheta dos biólogos, doenças cujo vetor de transmissão seja humano podem sofrer pressão seletiva para tornar-se menos virulentas. Num contexto em que diferentes cepas de um patógeno disputam a mesma população, leva vantagem competitiva, tudo o mais constante, aquela que provoca quadros menos graves, que permitam ao vetor continuar circulando e disseminando a moléstia.

Ruy Castro: A festa dos Bolsonaros

Folha de S. Paulo

Nada que cheira a podre neste governo acontece só por ideologia. Envolve também muito dinheiro

Neste Natal, ninguém desejará boas festas a Jair Bolsonaro e aos seus. Eles não precisam. Já estão festejando desde que seu líder sentou-se na cadeira em 2019 e, para gáudio dos papalvos, anunciou o fim da mamata. Três anos depois, as mamatas abundam e para todos os gostos —algumas escandalosas, baratinhas; outras fora do radar, mas de bilhões.

No primeiro grupo, está o uso que os Bolsonaros, seus ministros, aliados e amigos fazem dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) para fins turísticos. É um festival de pândegas em resorts, ilhas e praias, envolvendo lanchas, jet skis, cavalos e outros luxos, com pilotos, gasolina e manutenção pagos por você. No ano passado, no auge da pandemia, o filho 01 levou a família para um hotel na praia de Taíba, no Ceará, com diárias a partir de R$ 3.500. Foi aquela viagem em que, ao tirar um fino de um banhista na areia, 01 capotou com seu quadriciclo e esbodegou ombro e omoplata.

Flávia Oliveira - Um Natal carioca

O Globo

O Rio de Janeiro inteiro na quadra do Império Serrano. Aconteceu no domingo, o último antes do Natal 2021, pelas mãos de Carla Aniceto, presidente do Instituto Sol, organização que assiste famílias da comunidade Buriti-Congonha, em Madureira, Zona Norte carioca, uma das capitais do samba na cidade. A temporada de pandemia escancarou desigualdades, catapultou o desemprego, multiplicou a miséria. Mas não matou a festa. Professora, conselheira tutelar, integrante do clã de Aniceto do Império (1912-1993), um dos fundadores da tradicional escola de samba da Serrinha, foi ela que idealizou a ação de apadrinhamento social para oferecer roupa e calçado e brinquedo a 105 crianças e adolescentes do morro.

No Sol, Carla atende com parceiras e voluntários duas centenas de meninas e meninos. Oferecem psicoterapia, exames de vista, orientação sobre primeiros socorros, aulas de capoeira e maquiagem. Desde novembro, a organização abriga uma biblioteca comunitária que leva o nome da jornalista que vos escreve. Para o Natal, a neta de José Aniceto, primo do sambista, estivador e líder do Sindicato dos Arrumadores, tinha ajuda para 51 crianças. Pela rede social, pediu socorro. De uma legião de amigos, surgiram madrinhas e padrinhos para todos os pequenos, de 5 meses a 14 anos.

Pedro Doria: O Brasil está sendo atacado

O Globo

É Natal e deveríamos poder falar de temas mais leves. Mas alguém viu aí Lula ou Geraldo Alckmin falando sobre segurança digital? Talvez Sergio Moro? Ciro Gomes ou João Doria? O governo de Jair Bolsonaro, nós já sabemos, não tem ideia a respeito do assunto. E, no tempo do comércio eletrônico, na antevéspera de Natal, quem precisou rastrear uma encomenda pelo site dos Correios não pôde. Você precisa saber se tem de dar um pulo com urgência numa loja para comprar o que não chegará em tempo? A informação não existe, houve mais um ataque hacker. O colapso digital do Ministério da Saúde está a caminho da terceira semana, e o desastre segue. Enquanto isso, o presidente cortou a verba de investimento em tecnologia da Receita Federal para dar um aumento às polícias. Que ideia excelente.

Se não está ainda claro, deveria: o Estado brasileiro está sob ataque de um grupo hacker.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS:

Queiroga frustrou esperança de gestão técnica na Saúde

O Globo

A chegada do médico Marcelo Queiroga ao Ministério da Saúde, em 23 de março, foi vista com alento, após a gestão desastrosa do general Eduardo Pazuello. Questionado sobre sua política à frente da pasta, Queiroga, presidente licenciado da Sociedade Brasileira de Cardiologia, foi direto: “A política é do governo Bolsonaro, e não do ministro da Saúde. O ministro a executa”. Embora não tivesse o mesmo impacto da subserviente declaração de seu antecessor (“Um manda, e o outro obedece”), não se imaginava que o sentido da frase fosse tão literal.

Não chega a ser novidade a falta de autonomia dos ministros da Saúde de Bolsonaro. Luiz Henrique Mandetta e seu sucessor, Nelson Teich, deixaram o governo por não aceitar a interferência do presidente na pasta, em especial a pressão para uso da cloroquina no tratamento da Covid-19, quando estudos científicos comprovavam que o medicamento era ineficaz contra a doença e podia causar efeitos adversos graves. Mandetta — que expôs as vísceras dos desmandos de Bolsonaro no livro “Um paciente chamado Brasil” — e Teich tinham uma biografia por que zelar.

É verdade que Queiroga assumiu em cenário de terra arrasada. No dia de sua posse, o Brasil registrou 3.158 mortes em 24 horas (hoje são menos de 200). A campanha de imunização, iniciada de forma trôpega, era um caos, com falta de vacinas e negociações espúrias para compra de doses. Queiroga acertadamente elegeu a vacinação como prioridade, a despeito da campanha de desinformação tocada por Bolsonaro.

Poesia | Vinicius de Moraes - Poema de Natal

 

Música | Simone: Então é Natal

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Merval Pereira: Sem gosto

O Globo

A estratégia do ex-presidente Lula de chamar o ex-tucano Geraldo Alckmin para seu vice aparentemente é boa para dar a sensação ao eleitorado de centro-direita de que seu eventual terceiro governo não será radical. Mas qual é a garantia de que Alckmin representará o grupo político que o apoiava? Qual será o papel dele num governo petista? 

A aparência, porém, é diferente da realidade. Sempre houve composições partidárias heterodoxas na recente política brasileira, mas sempre a composição tinha o objetivo de melhorar a governança do eleito, fossem eles os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso ou Lula, pois ambos fizeram composições com consequências claras. Até mesmo Tancredo Neves foi buscar na dissidência da Arena seu vice, a fim de poder governar.
O então presidente da Arena, José Sarney, rebelou-se contra o governo militar do general João Figueiredo e levou consigo para a Frente Liberal um grupo de políticos de peso que deu a vitória a Tancredo no Colégio Eleitoral. Sarney acabou presidente da República com a morte de Tancredo. Com o Plano Real, Fernando Henrique poderia ter vencido a eleição sem o apoio do PFL, mas, para governar, foi buscar no maior partido de direita na ocasião seu vice, Marco Maciel.

Malu Gaspar: A democracia e o cheque em branco

O Globo

Há um certo encanto nos setores progressistas, e de modo geral entre todos os que desejam ver Jair Bolsonaro fora do Palácio do Planalto, com a chapa Lula-Geraldo Alckmin em 2022.

Para muita gente, é um lance genial, tacada de mestre, a vacina da Pfizer contra a imagem de um Lula extremista, a verdadeira frente ampla que faltou em 2018. Se até Alckmin, um dos maiores antipetistas do passado, está “lulando”, por que não o resto do eleitorado?

De fato, é excelente para a democracia que dois atores tão relevantes da política se proponham a um diálogo e a uma aliança, especialmente neste estágio preocupante da vida nacional. Sem dúvida é boa jogada tanto para Lula como para Alckmin.

Os benefícios para o primeiro estão descritos acima. O segundo anda descrente de suas chances de vitória na eleição para o governo paulista no ano que vem. Vê na dobradinha com Lula a oportunidade de voltar a ter protagonismo nacional sem precisar disputar voto com a potente máquina estadual comandada por João Doria e Rodrigo Garcia.

O risco é se deixar levar pelo otimismo e esquecer de fazer perguntas cruciais. Ok, Lula e Alckmin se juntarão para ganhar de Bolsonaro e salvar a democracia. Mas em que bases será construída essa aliança? Para fazer o que a partir de 1º de janeiro de 2023? O que significa afinal essa “guinada para o centro” que Lula se propõe a dar?

Míriam Leitão: O orçamento das escolhas erradas

O Globo

O presidente Bolsonaro fez uma intervenção explícita e truculenta na Polícia Federal. Desde aquela reunião ministerial em 2020 na qual ele avisou “vou interferir”, já houve de tudo na PF. Troca de comando por diretores submissos, exoneração e remoção de delegados, punição para os que desagradam o presidente. Agora, no orçamento do ano eleitoral, o presidente ofereceu aos policiais federais um “cala boca”. Esse foi o único assunto pelo qual Bolsonaro se mobilizou, chegando a telefonar para o relator e pedir. Não é por acaso. É mais do que o atendimento de interesses corporativistas. Bolsonaro quer agradar à Polícia Federal e à Polícia Rodoviária Federal porque quer contar com as forças de segurança para seu projeto autoritário. A intervenção e o reajuste se completam como parte do mesmo plano. E ele usa o orçamento para isso.

O investimento público no ano que vem será o menor da história. A maior fatia irá para o Ministério da Defesa, como foi no ano passado. É parte do mesmo projeto. A bolsonarização é o nível mais degradante a que chegaram as Forças Armadas desde o fim da ditadura. Como é uma corporação fechada, sabe-se que há divergências internas, mas elas não são explícitas.

Igor Gielow: O valor do chuchu

Folha de S. Paulo

Na aliança com Lula, ex-governador cumpre sua sina de picolé sem gosto, mas a custo baixíssimo

Grande novidade desta etapa embrionária da corrida de 2022, ao lado da entrada de Sergio Moro no páreo, o balé entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin para que o ex-tucano vire o vice do petista engrenou.

Desde o ponto em que era um balão de ensaio, observadores se perguntam o que cada lado tinha a ganhar, dado que Alckmin parecia sair de uma posição algo confortável para disputar o governo paulista.

Após o jantar em que ele cruzou o Rubicão com Lula no domingo (19), a única certeza é a de que os grandes favorecidos com essa novela estão no chamado campo vermelho.

Bruno Boghossian: Alckmin e o efeito Biden

Folha de S. Paulo

Nos EUA, democratas ampliaram base com candidato entediante para vencer a insensatez de Trump

Nos primeiros lances do processo de escolha de um candidato a presidente para a eleição de 2020, o Partido Democrata se dividiu. Uma ala queria Bernie Sanders, que conseguia energizar sua base com uma plataforma de justiça social e valores progressistas. O campo moderado tentava vender Joe Biden como uma escolha segura e previsível –um candidato entediante para enfrentar a insensatez de Donald Trump.

Um cálculo simples levou à opção pelo atual presidente americano. O partido precisava ampliar seu eleitorado para não repetir a derrota da disputa anterior. Biden foi um aceno a americanos que não se identificavam com itens da plataforma democrata, mas aceitavam votar num nome mais suave com o objetivo de tirar Trump do poder.

Ruy Castro: Governo a coices

Folha de S. Paulo

Golpe com os cascos traseiros? Estilo de Bolsonaro? Sim, e também o recuo da arma ao detonar

"Coice. S. m. Pancada que certos quadrúpedes, especialmente os equinos, desferem com os cascos traseiros firmando as patas dianteiras no chão." Com poucas alterações, é como os dicionários Aurélio e Houaiss definem uma prática dos cavalos, jumentos, mulas e outros equídeos. A diferença é que esses infelizes —a espécie animal mais brutalizada pelo homem na história— fazem isso como autodefesa. Mas as futuras edições dos dicionários terão de acrescentar uma nova acepção ao verbete: "Sistema de governo a patadas inaugurado por Jair Bolsonaro (2019-22) para intimidar os adversários, destruir as instituições democráticas e tentar se eternizar no poder no Brasil."

Desde sua posse na Presidência, há quase três anos, não se passou um dia em que Bolsonaro não escoiceasse contra algo ou alguém. É como ele se comunica com o mundo —falando através de uma ferradura. Mas será um erro compará-lo aos irracionais em que se inspira. Cada golpe de seus cascos é pensado antes de desferido e programado de modo a que o alvo o receba pelas costas.

Vinicius Torres Freire: Mais gente na UTIs de Covid em SP

Folha de S. Paulo

Novas hospitalizações vão a 400 por dia; já foram 3.000, mas é preciso vacinar crianças

Mais gente voltou a ser internada em UTIs de Covid no estado de São Paulo. O aumento parece agora inequívoco e da ordem de 50% desde 10 de dezembro. É preciso dizer desde já que esses "50%" não são alarmantes como teriam sido em momentos mais terríveis da doença. Ainda assim, é preciso tomar medidas como a vacinação de 20 milhões de crianças, logo, o que Jair Herodes Bolsonaro quer atrapalhar.

Pelo menos por enquanto, não é assim tão alarmante. Trata-se de um crescimento de cerca de 270 novas internações em UTI por dia para algo perto de 400. O estado já teve 3.000 novas internações por dia em fins de março, pico do horror.

Mas parece haver pelo menos um repique da doença, a partir de patamar menor. Os dados de internados em UTIs da cidade de São Paulo seguem mais ou menos a mesma tendência.

William Waack: Os perdedores de Lula

O Estado de S. Paulo

Os grupos que estiveram contra o petismo em 2018 ainda não sabem como se rearticular

A força de Lula nas pesquisas criou até aqui dois relevantes grupos de perdedores. Um é o segmento de agentes da economia nos setores financeiros, da agro indústria e indústria que viram em 2018 em Bolsonaro a possibilidade de transformação da economia brasileira. O outro é a atual geração de comandantes militares opostos ao lulopetismo por razões ideológicas mas, também, por considerarem que tinham um projeto melhor de País.

Ambos retardaram demais o abandono da barca bolsonarista, na qual subiram por um misto de circunstâncias e conveniências – e falta de lideranças.

Ambos pareciam emprestar ao governo Bolsonaro impulsos de modernização e eficiência de planejamento e gestão. O fracasso do presidente expôs também as dificuldades desses dois grandes segmentos em articular agendas abrangentes.

A adesão desses vários agentes a Bolsonaro foi mais circunstancial do que de fundo. Empresários e empreendedores tinham a esperança de um ambiente de negócios melhor em todos os sentidos (alguns acreditavam até em aumento de produtividade geral da economia, estagnada há décadas). Os militares viram inicialmente em Bolsonaro sobretudo um freio à volta do PT ao poder, depois do desastre dilmista.

José Serra*: O futuro é agora

O Estado de S. Paulo

Sistema eleitoral está no topo da lista de problemas perenes de nossa democracia, exigindo enfrentamento imediato

O Natal é depois de amanhã e o ano novo está próximo. Muitos aproveitam para um retrospecto ou para alinhar propósitos. Prefiro falar do futuro, um grande desafio, já que em nosso país nada é hoje previsível nem garantido, e no próximo ano passaremos por uma troca geral de poderes no Executivo e no Legislativo.

Tendo de enfrentar em nosso dia a dia uma sucessão de impasses, é impossível planejar bem o amanhã quando não se sabe como terminará o dia, seja do ponto de vista sanitário, de segurança jurídica ou de segurança econômica. E isto mesmo sobre questões consensuais, como a urgência de adotar um programa de renda básica ou de aumentar a qualidade, a eficiência e a honestidade do serviço público.

Incerteza sobre o futuro não justifica inação. Temos um conjunto de problemas permanentes que, enquanto não forem reconhecidos e bem debatidos, jamais serão enfrentados, negociados e compactuados. O contexto de uma campanha presidencial pode ser ocasião para essa reflexão que, infelizmente, não está sendo encarada pelas candidaturas já anunciadas.

Maria Cristina Fernandes: Raspado o tacho, que venha o eleitor

Valor Econômico

No Orçamento de 2022, os “investimentos” do Congresso e da União se equivalem. Só a chegada do sócio majoritário, o eleitor, pode chacoalhar esta sociedade

O Orçamento aprovado para o último ano do governo Jair Bolsonaro tem o dom da ubiquidade. Não apenas resume 2021 como antecipa o ano que está para começar e ainda dá pistas sobre a encrenca à espera do herdeiro em 2023.

Trata-se de uma peça orçamentária fruto de acordo com o Executivo. E isso não é óbvio. Basta lembrar que aquele em vigor foi aprovado apenas no fim de março deste ano. Boa parte das contendas derivou da disputa pelo comando da Comissão Mista de Orçamento, reflexo da eleição para as mesas diretoras, principalmente a da Câmara.

Com a eleição de um comando parlamentar mais alinhado ao Planalto, deu-se a convergência que explica quase tudo. Do represamento dos 143 pedidos de impeachment que se acumularam nesses três anos de bolsonarismo, mais da metade dos quais apresentados este ano, até o arrefecimento das pressões contra Paulo Guedes.

O ministro da Economia começou o ano na berlinda e o terminou nos braços do Centrão. E não foi o bloco que mudou. Foi Guedes quem fez concessões. A lista é infinita, mas o Orçamento lhe oferece um bom resumo.

A pedra estava cantada desde reação do Congresso à sua offshore. A montanha pariu um rato. O ministro foi ouvido em comissão na Câmara, confessou evasão fiscal, não convenceu da inexistência de conflito de interesse e foi embora como se nada tivesse acontecido. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PL-AL), achou que já estava tudo explicado e dispensou seus esclarecimentos ao plenário.

Cristiano Romero: Brasil: quem paga ‘pra’ gente ficar assim?

Valor Econômico

Depois do “boom”, da recessão e do ajuste, para aonde vai o Brasil?

O Brasil é um país tão acostumado ao desassossego que difícil mesmo é ter estabilidade por muito tempo. Depois que os militares devolveram a Presidência da República aos civis, em 1985, o período mais estável, tanto do ponto de vista político quanto econômico, se deu entre 1995 e 2010, durante os quatro mandatos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Observar em perspectiva como conquistamos a estabilidade e por que ela vem sendo ameaçada há quase dez anos é um exercício útil neste fim de 2021, véspera de um ano eleitoral cujo desenlace é impossível antecipar neste momento.

A transição do regime militar para o democrático se deu num ambiente econômico conturbado. A inflação de 1984 chegou a 192,1% e, em 1985, primeiro ano de um governo civil depois de 21 anos de ditadura, esticou para 226%. Depois da longa e profunda recessão de 1981-1983, provocada pelos efeitos da segunda crise mundial do petróleo em sete anos, o Produto Interno Bruto (PIB) voltou a crescer de forma acelerada - no biênio 1984-1985, avançou 5,3% e 7,9%, respectivamente - mas, com inflação naquele nível, nem a turma do IBGE, responsável pelo cálculo das contas nacionais, quis saber de comemoração.

Maria Hermínia Tavares*: No Chile, novos ventos à esquerda

Folha de S. Paulo

Desde já a vitória de Boric mostra que outra esquerda é possível

O discurso de Gabriel Boric, tão logo as urnas o transformaram no 66º presidente do Chile, é bem mais do que uma bela peça de retórica política. Traz um cardápio completo e coerente de compromissos de uma esquerda sintonizada com o mundo. Além disso, é inédito por estas bandas, dada a forma como une, em pé de igualdade, a defesa do ambiente, o reconhecimento de direitos de grupos identitários e a promessa de políticas de proteção social que desde sempre caracterizaram a social-democracia.

Aos 35 anos, o jovem presidente eleito foi bem claro ao falar de um Chile verde frente às ameaças trazidas pela crise climática; do papel político das mulheres e de seu direito ao próprio corpo; do combate à violência e à discriminação contra minorias; do apreço pela riqueza cultural dos povos originários, do compromisso com a garantia dos direitos humanos; e da importância da segurança cidadã e da luta contra o narcotráfico.

Guga Chacra - Chile pode virar ‘Portugal’

O Globo

Não sabemos se o presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, terá sucesso em seu governo. Enfrentará uma série de obstáculos. Mas podem ter certeza de que o jovem líder chileno não é similar a figuras esquerdistas no poder em outros países da América Latina como Venezuela, México, Nicarágua e Peru. O futuro ocupante do Palacio de La Moneda, em Santiago, está mais em sintonia com a esquerda europeia, como a portuguesa.

Pedro Castillo, presidente do Peru, é marxista. Isso não significa em hipótese alguma que carregue bandeiras da esquerda europeia e dos EUA. O líder peruano se posiciona contra o direito ao aborto, à legalização da maconha e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Religioso, gosta de ler passagens bíblicas. Compare com Boric, um agnóstico assumido que adota posições antagônicas às do seu vizinho do Norte.

López Obrador, do México, foi eleito como esquerdista por suas posições econômicas. Mas, assim como Castillo, pode ser descrito como extremamente conservador nos valores. Além disso, o presidente mexicano é entusiasta de Donald Trump e se aliou ao então presidente americano para renegociar o Nafta e implementar políticas restritivas a imigrantes na fronteira. Na pandemia, segue como um notório negacionista.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O festival da bondade orçamentária

O Globo

Talvez a única virtude da Lei Orçamentária de 2022, recém-aprovada no Congresso, seja ter sido concluída antes do exercício a que se destina — é preciso reconhecer. Mas é só. A razão para a presteza insólita nada tem de virtuoso. Trata-se da avidez com que, uma vez rompido o teto de gastos, Brasília se lançou afoita, na antessala do ano eleitoral, sobre a chance de distribuir agrados. O principal mecanismo para isso são as emendas parlamentares que somarão R$ 37,5 bilhões, incluindo aí as famigeradas emendas do relator, o mecanismo por trás do orçamento secreto, no total de R$ 16,5 bilhões. Mesmo que, graças à ação do Supremo Tribunal Federal (STF), estas últimas se tornem mais transparentes, ainda permitirão ao governo enviar dinheiro a todo tipo de interesse paroquial que lhe traga dividendos políticos.

O festival da bondade orçamentária não ficou por aí. O fundão eleitoral foi orçado em R$ 4,9 bilhões, quando R$ 2,1 bilhões (valor gasto em 2018 corrigido pela inflação) bastariam para bancar as campanhas. Os policiais federais levaram um reajuste que custará R$ 1,7 bilhão aos cofres públicos. Apenas extinguindo as emendas do relator, esse aumento descabido para a PF e restringindo o fundão, teria sido possível economizar R$ 21 bilhões dos R$ 113 bilhões estimados para o estouro do teto.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Organiza o Natal (por Ivan Lima)

 

Música | Casuarina / Teresa Cristina: - Dia de Graça (Candeia)

 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: O Brasil colocou o futuro no prego

O Globo

A discussão do Orçamento de 2022 é a coroação de toda a deterioração do processo de definição de políticas públicas e planejamento de longo prazo que o Brasil vem sofrendo nos últimos anos.

A pandemia apenas agravou essa distorção absurda, que cada vez mais parece difícil de reverter, de prioridades diante das emergências do país.

O que os congressistas, em alinhamento com o governo Bolsonaro, trataram de consumar neste restinho de ano foi a confissão de que, diante de um barco à deriva, a ordem é salvar tudo o que for possível para a própria sobrevivência da classe política e deixar para ver se há algo a salvar ou reconstruir depois das eleições.

Aparentemente são fatos desconexos a demora proposital em começar a vacinar crianças contra a Covid-19 e a destinação de bilhões de recursos públicos a propósitos tão paroquiais quanto fundo eleitoral e emendas do orçamento secreto — mas não são.

Ambos os movimentos têm como origem um governo que abriu mão deliberadamente de salvar o futuro, colocou-o no prego das faturas eleitoreiras para tentar se salvar de uma derrota até aqui mais provável.

Bernardo Mello Franco: Alianças e botinadas

O Globo

Em setembro de 2018, Geraldo Alckmin jurou que nunca se aliaria ao PT. “Jamais terão meu apoio para voltar à cena do crime”, atacou. Três anos depois, ele parece ter mudado de ideia. Quer ser candidato a vice-presidente na chapa de Lula.

O petista já ensaia o discurso em defesa da dobradinha. “Não importa se no passado fomos adversários, se trocamos algumas botinadas, se no calor da hora dissemos o que não deveríamos ter dito”, penitenciou-se, na noite de domingo.

Lula custou a aceitar que não chegaria ao Planalto só com os votos da esquerda. Depois de três derrotas seguidas, mudou a estratégia e se juntou a um grande empresário. A guinada abriu caminho para a vitória de 2002.

No poder, ele se aproximou de velhos desafetos, como José Sarney e Fernando Collor. Na disputa municipal de 2012, radicalizou de vez no pragmatismo. Foi à casa de Paulo Maluf e tirou a célebre foto em troca do apoio a Fernando Haddad.

Alianças heterodoxas fazem parte da política. A chapa com José Alencar irritou setores da esquerda, mas ajudou Lula a subir a rampa. A foto com Maluf teve saldo mais controverso. Haddad ganhou um minuto e meio de TV, mas passou a campanha inteira explicando as novas companhias.

Luiz Carlos Azedo: Lula é o franco favorito, mas Bolsonaro não morreu

Correio Braziliense

Até agora, Bolsonaro mantém uma posição segura eleitoralmente para chegar ao segundo turno, como principal adversário de Lula. Dez meses até as eleições são uma eternidade. 

Musashi, o livro de Eiji Yoshikawa, em dois volumes de 900 páginas cada, é um romance publicado no Brasil pela editora Estação Liberdade, no qual se aprende um pouco sobre a história e os costumes do Japão antigo, por meio da primeira metade da vida do samurai Miyamoto Musashi, uma lenda para os japoneses e os praticantes de kenjutsu e outras artes marciais mundo afora. A obra é inspirada em fatos históricos, mas romanceada ao misturar personagens reais e da imaginação do autor.

No final de sua vida, com câncer, Musashi se isolou numa caverna da ilha de Kyushu, onde ficou por 1 ano e oito meses, período em que escreveu Gorin No Sho, ou O Livro dos Cinco Anéis, como é conhecido no Ocidente, concluído em 1645, antes de morrer, aos 61 anos. No xogunato Tokugawa, do qual foi chefe militar, o Japão se unificou, todos os senhores feudais foram obrigados a morar em Edo, a capital na época. Os portugueses foram expulsos do Japão, o catolicismo foi proscrito e os holandeses passaram a monopolizar o comércio com o Ocidente, como aconteceu com o Brasil, de 1624 a 1654, ou seja, até à Insurreição Pernambucana.

Elio Gaspari: Os avisos de Mourão e Santos Cruz

Folha de S. Paulo / O Globo

Com pandemia e inflação, ninguém precisa de mais encrencas

Bolsonaro encrencou com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária porque ela recomendou a vacinação das crianças. A Anvisa é presidida por um almirante-médico que ele indicou.

Ganha um fim de semana num garimpo ilegal da Amazônia quem souber qual é a utilidade pública dessa canelada, seguida por ameaças feitas aos funcionários da agência.

Ganha um lote desmatado quem for capaz de responder a qualquer uma dessas perguntas:

Qual foi a utilidade de se praticar uma diplomacia de caneladas com a China?

Que interesse tinha a diplomacia brasileira metendo-se na eleição americana e recusando-se a reconhecer a vitória de Joe Biden por 38 dias?

Que interesse essa mesma diplomacia defendia quando Bolsonaro hostilizou o candidato peronista Alberto Fernández? Ele se elegeu.

Por que Bolsonaro garantiu que o governo não compraria a vacina chinesa? Comprou.

Ganha dois lotes quem souber por que Bolsonaro disse em março de 2020 que a Covid seria uma "gripezinha". Mais um lote para quem souber por que ele disse, em dezembro, que a pandemia estava no "finalzinho". De lá para cá morreram mais de 400 mil brasileiros.

Nilson Teixeira: O que não ocorrerá em 2022

Valor Econômico

Afora o bem-vindo declínio da inflação, a chance de o ambiente doméstico em 2022 ser melhor do que o de 2021 é pequena

Em 23 de dezembro do ano passado, apresentei nesta coluna minhas previsões sobre o que não ocorreria no Brasil neste ano. Minha esperança era terminar errando ao menos algumas dessas projeções. Não foi o caso. Apresento agora minhas expectativas do que não ocorrerá em 2022, em particular para os temas que discuti na última coluna de 2020:

Nenhuma medida relacionada à Reforma Administrativa foi aprovada pelo Congresso neste ano. A probabilidade dessa reforma evoluir em 2022 é próxima a zero.

Nenhuma parte da Reforma Tributária foi aprovada no Congresso em 2021. A Câmara dos Deputados até que aprovou mudanças da legislação do Imposto de Renda, mas, de tão ruins, não foram adiante no Senado. A esperança é de que ao menos o tema seja debatido nas duas casas legislativas e entre os candidatos à Presidência da República em 2022 de forma a aumentar a chance de aprovação em 2023.

As renúncias tributárias que beneficiam os principais grupos de interesse não foram reduzidas neste ano. Em 2022, não haverá alteração desses privilégios.

O Brasil não implementou neste ano nenhuma medida estrutural para sair do grupo de países com os piores indicadores de qualidade da educação. Nada relevante foi feito pelo Ministério da Educação para recuperar a enorme perda de aprendizado provocada pela pandemia. O foco do governo definitivamente não é a educação e, portanto, não haverá nenhum progresso na área em 2022.

Luísa Martins: STF pondera o peso dos longos mandatos

Valor Econômico

Corte teme dar poder demais a fantoches políticos

Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) certa vez compartilhou uma lição aprendida anos antes com um professor de direito: de dez em dez anos, um docente deve jogar fora todas as suas fichas de aula, repensar o conteúdo do zero e reformular seu modo de ensinar. Não deveria ser diferente, apontou esse magistrado, com a composição da Corte constitucional brasileira.

O ex-advogado-geral da União, ex-ministro da Justiça e “terrivelmente evangélico” André Mendonça foi o terceiro jurista consecutivo a alcançar o STF aos 48 anos. Antes dele, Nunes Marques e Alexandre de Moraes tomaram posse com a mesma idade, em 2017 e 2020, respectivamente. Prevista na Constituição, a aposentadoria compulsória aos 75 lhes garante que, se assim desejarem, serão homens poderosos - capazes de alterar os rumos políticos da República - por mais de 25 anos.

A perspectiva de longas jornadas nas cadeiras amarelas do STF ressuscitaram na Corte, como um burburinho que passa de gabinete em gabinete, um debate que até agora estava restrito aos corredores do Congresso Nacional: a conveniência de limitar a duração dos mandatos dos ministros. Não que os atuais integrantes estejam dispostos a entregar seus cargos antes do previsto, mas conversas internas sugerem haver ao menos uma simpatia pela “oxigenação”.

Como as nomeações para o Supremo cabem ao presidente da República, os holofotes se voltam às eleições de 2022. Os ministros sabem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera as pesquisas. Mas a avaliação é a de que, com muitas incógnitas ainda em jogo, a reeleição de Jair Bolsonaro ou mesmo a vitória de Sergio Moro não são hipóteses descartáveis.

José Nêumanne*: Amazônia, Minamata, Chernobyl

O Estado de S. Paulo.

Poluição em garimpo criminoso em rios da bacia do Amazonas pode repetir Minamata, e o governo não está nem aí

Há um mês, 300 balsas ocupadas por garimpeiros invadiram o rio Madeira e ameaçaram publicamente impedir a ordem da Polícia Federal (PF) de não garimparem em territórios reconhecidos como de posse e usufruto de tribos indígenas. A imagem nos jornais e emissoras de televisão daquele momento causaram forte impacto no Brasil, pela audácia do desafio à lei e à ordem e pelo abusado desprezo ao poder de fogo da PF, temido por traficantes de drogas, da política e da gestão pública. A barreira, contudo, se desfez e logo caiu no esquecimento um fato alarmante e secreto, como o orçamento clandestino do bolsolão. A morte insidiosa desliza no lugar das balsas na composição química de um metal tão precioso como o ouro, que os balseiros pretendem “bamburrar”, como se dizia nos tempos de Serra Pelada, sob o domínio do Major Curió. Ao contrário do novo coronavírus, que parou o Brasil e o mundo, o mercúrio não atua acobertado pela surpresa.