sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Vera Magalhães: Fábrica de Centrões

O Globo

O instituto das federações partidárias foi concebido para que pequenas legendas ameaçadas de extinção a partir do estabelecimento de cláusulas de desempenho, ou de barreira, sobrevivessem. Mas a negociação em curso para a criação de vários desses agrupamentos passou a levar em conta uma outra lógica, a sobrevivência parlamentar dos partidos no próximo governo. O que se tem são fábricas em que são projetadas novas versões do Centrão, ao gosto do próximo freguês, ops, presidente.

O sucesso do Centrão atual, comandado por Arthur Lira, que tem como satélites partidos como o PL de Jair Bolsonaro, o Republicanos e outros que ora o integram, ora se afastam, foi tal que será inexorável que o eleito em outubro conte com algo parecido para ter alguma capacidade de governar.

Já escrevi aqui, e as declarações subsequentes do cacique do Centrão atual corroboraram: qualquer um que vença o pleito não terá sucesso em desarmar a bomba do Orçamento secreto, na prática o principal motor das relações entre Executivo e Legislativo hoje. Todos os candidatos prometerão fazê-lo, mas é bem provável que o vencedor nem chegue a tentar.

Míriam Leitão: O recuo democrático do Brasil é organizado e comandado de dentro do Planalto

O Globo

O Brasil vive um recuo democrático? Afinal as instituições seguem funcionando, dizem muitos. A revista "Economist" diz que a nota da democracia brasileira diminuiu e que América Latina foi a região em que houve o maior recuo democrático. Eu concordo com a revista. A democracia corre riscos no Brasil.

Quero usar um exemplo que está hoje publicado neste jornal: "A Polícia Federal afirmou ao Supremo Tribunal Federal que uma milícia digital atua contra a democracia e as instituições usando a estrutura do chamado gabinete do ódio”, assim abre a matéria do Aguirre Talento e Mariana Muniz, hoje no "O Globo".

Isso significa que dentro do Palácio do Planalto, essa é a suspeita da PF e há muitos indícios disso, funcionários públicos que, como todos sabem, trabalham sob o comando informal do vereador e filho do presidente, Carlos Bolsonaro, disparam mensagens de ódio contra as instituições brasileiras. Entre os alvos, o principal é o Supremo Tribunal Federal. que é colocado como inimigo da atual administração. A imprensa é outro alvo.

Reinaldo Azevedo: Qual a saída? É a política, estúpido!

Folha de S. Paulo

Considerar Lula e Bolsonaro ‘faces do mesmo mal’ é demofobia eleitoral

Falemos de futuro em vez de alimentar as ideias mortas que ainda matam. É preciso cultivar nosso jardim. Sempre me incomoda quando os tais "mercados" —às vezes, com cara; com frequência, sem ela — resolvem comparecer ao debate público para demonizar a política, como se a empresa de expectativas chamada "Brasil" fosse uma potência massacrada por interesses mesquinhos, que têm de ser exorcizados.

No que há de sincero nessa conversa, trata-se de uma ilusão entre tecnocrática e autoritária. No que há de insincero, é só o vício de sempre se vendendo como virtude, muitas vezes na pena de rufiões da opinião. Isso tem custo. Observo, à partida, que nem sei direito quem é esse "ente" que fala.

As vozes parecem vir de alguma racionalidade empírea, que nos faz o favor de baixar lá do mundo das ideias para nos libertar das correntes da escuridão. Na última vez em que esses arautos julgaram ter visto a luz para nos relatar a verdade do mundo, escolheram Jair Bolsonaro e Paulo Guedes para nos tirar da caverna. Deu no que deu.

Bruno Boghossian: A carta de princípios de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Presidente recicla promessas para reter apoio de policiais, conservadores e agronegócio

Os três últimos anos foram intensos para Jair Bolsonaro. O presidente gastou toda a sua energia política e a verba pública que tinha à disposição para se segurar no cargo, atacar adversários, sabotar a vacinação e passear de jet ski. Faltou força para executar um programa de governo.

O Planalto decidiu reciclar as propostas feitas pelo capitão em 2018 e na permanente campanha pela reeleição que conduziu desde então. Numa portaria publicada na quarta-feira (9), o governo informou que daria prioridade a 45 projetos no Congresso nesta reta final de mandato. A lista foi feita sob medida para agitar alguns dos principais alvos de Bolsonaro na disputa eleitoral.

Vinicius Torres Freire: Não olhe para cima

Folha de S. Paulo

Tem festinha na Bolsa e dólar em baixa, mas asteroide do juro dos EUA é um risco

Aqui na terrinha, o Ibovespa continua em alta, indiferente ao tombo dos irmãos americanos. Para surpresa quase geral, o dólar caiu da casa dos R$ 5,60 de dezembro para perto dos R$ 5,20. Se a gente olhar para cima, porém, verá que o asteroide dos juros americanos ficou mais próximo. Mesmo quando apenas passa perto, costuma causar confusão.

A inflação nos Estados Unidos chegou a 7,5% ao ano em janeiro, a maior em 40 anos, sem sinal de esfriar. As taxas de juros lá deram saltos raros nesta quinta-feira. Agora, se discute em que ritmo o Fed, o Banco Central deles, vai elevar a taxa básica de juros, ora próxima de zero. Muito analista velho de guerra, reputado e administrador de muito dinheiro diz que o Fed está atrasado. Portanto, teria de aumentar muito mais seus juros, para compensar o atraso no controle da inflação.

Aumentos rápidos, grandes e sem hora para acabar podem ser um problema. Além de bater na economia "real", podem causar acidentes. Isto é, pegar gente graúda de calças curtas, em aplicações grandes e erradas, provocando estouros. Não é profecia. É só a cautela de qualquer um que já deu uma olhada na história de viradas financeiras.

Luiz Carlos Azedo: Melhor legalizar o lobby e fazer tudo às claras no Congresso

Correio Braziliense

Todos são políticos profissionais, mas há uma diferença nada sutil entre ser remunerado com um salário de parlamentar ou ter esse salário multiplicado pelo fato de representar grandes interesses privados

Uma das características da política em Brasília é o fato de que o outro lado do balcão não muda muito em matéria de lobbies no Congresso. O que muda é a composição da Câmara e do Senado, a cabeça de quem manda na pauta das duas Casas e a correlação de forças a favor e/ou contra os interesses em jogo. Nos bastidores, os lobistas que atuam a favor desses interesses são muito conhecidos. Quando são flagrados fazendo coisa errada, são rapidamente substituídos por outros.

Há todo tipo de lobistas. Os mais sérios atuam com competência na discussão de mérito e na articulação política. Os bandidos engravatados são os que operam as malas da propina. Como não há regulamentação da prática de lobby, todos acabam estigmatizados pela opinião pública. Por isso, talvez a mãe de todas as prioridades do Centrão deveria ser a regulamentação do lobby, como acontece nos Estados Unidos e muitos países da Europa. Haveria mais responsabilidade e transparência na tramitação das propostas.

O sociólogo alemão Max Weber, na célebre palestra A política como vocação, divide os políticos em duas categorias: os que vivem para a política e os que vivem da política. Na primeira categoria estão aqueles que veem a política como bem comum, ou seja, não são financeiramente remunerados pelos projetos que votam em favor de interesses privados ou corporativos. Na segunda, os que têm a política como verdadeiro negócio, na acepção da palavra, pois se beneficiam financeiramente das leis que aprovam. Muitas vezes são empresários do ramo ou agentes remunerados diretamente pelo engajamento em projetos empresariais. O Centrão é formado por parlamentares que veem a política como negócio.

Eliane Cantanhêde: Tucanos com Lula?

O Estado de S. Paulo

Lula amplia apoios ao centro e à direita, mas adesão de tucanos ao petista é esquecer a história

Como todos os caminhos levavam a Roma, o PT quer fazer crer que todas as articulações levam a um apoio ao ex-presidente Lula. Lula está sedimentando a esquerda e ampliando seus horizontes à direita, é verdade. Mas que todos os partidos estejam indo em fila, bovinamente, para apoiá-lo no primeiro turno, é exagero.

Geraldo Alckmin, tucano desde criancinha, é o troféu de Lula para conversar com líderes de MDB, PSD e Centrão, incluindo o PP do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, que é do Nordeste, onde Lula e o PT são campeões de votos. Mas a grande novidade é a aproximação de Lula com tucanos históricos.

Essas conversas com o arquirrival PT, com José Dirceu na jogada, podem estar por trás do jantar desta semana de quatro ex-presidentes do PSDB em busca de alternativas à candidatura de João DoriaPimenta da Veiga e Aécio Neves (MG), Tasso Jereissati (CE) e José Aníbal (SP). Tasso considera apoiar Lula desde a vitória de Doria nas prévias. Zé Aníbal é o mais radical contra esse apoio.

Entrevista| ‘O PSDB não é mais uma referência nacional’, diz Aloysio Nunes

Quadro histórico do partido afirma que prioridade este ano é evitar a reeleição de Bolsonaro

Eduardo Kattah e Pedro Venceslau |O Estado de S. Paulo

Tucano histórico, o atual diretor da SP Negócios, Aloysio Nunes Ferreira, foi um dos líderes tradicionais do PSDB procurados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em aceno ao centro neste ano eleitoral. Em entrevista ao Estadão, Aloysio defendeu como prioridade impedir a reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

Ex-senador e ex-ministro da Justiça e das Relações Exteriores, Aloysio disse ver potencial na candidatura do governador João Doria ao Palácio do Planalto, mas destacou que, se o tucano “não decolar”, não há opção viável na “terceira via”.

Ao analisar a crise interna do partido – uma ala contrária à candidatura própria à Presidência tem pressionado a pré-campanha de Doria –, o ex-chanceler afirmou que o PSDB “não é mais uma referência nacional”.

O ex-presidente Lula teve uma série de encontros com líderes históricos do PSDB – o sr. foi um deles. Qual é o simbolismo desses encontros?

Durante o processo de impeachment (de Dilma Rousseff), o antipetismo acabou se transformando em uma segunda natureza do PSDB. Isso nos fez andar em muito má companhia. Agora, diante do desastre que foi a eleição do Bolsonaro – um desastre até previsível – e do seu governo de destruição sistemática, vem a ideia de que é preciso retomar um diálogo que houve ao longo do tempo com forças de esquerda, como o PT. Talvez o PT tenha sido anti-PSDB, e a campanha Fora FHC é um exemplo disso, mas nós, do PSDB, antes desse processo de radicalização, sempre tivemos a compreensão da importância do PT na vida política brasileira como expressão do movimento popular. Ainda que não houvesse um papel escrito, houve convergência em muitas coisas importantes.

Quais, por exemplo?

No tema dos direitos humanos houve toda uma legislação que nós aprovamos. Lei da Imigração, Comissão da Verdade, Lei de Proteção de Dados, Marco Civil da Internet. Houve um diálogo das forças democráticas, e não só PT e PSDB. O Código Florestal foi um mutirão envolvendo gente do MDB, do PT, do PSDB e do PFL. Mesmo na política externa, fui presidente da Comissão de Relações Exteriores (do Senado), e meu vice era o Jorge Viana (do PT), que fazia constantemente a ligação entre a pauta do plenário e da comissão. A luta contra a pobreza extrema e a transferência de renda. Tudo isso foi feito com uma colaboração não formalizada, mas existente na vida real. São duas vertentes da social-democracia brasileira: uma mais à esquerda, representada pelo PT, e uma mais direita, cada uma com seu sistema de alianças. Aí chega Bolsonaro e destrói isso. Nesse processo de radicalização, que vem de antes do impeachment, uma parte do nosso eleitorado foi embora. Perdemos um componente importante dos nossos eleitores, de uma direita civilizada e moderada.

Entrevista: “Há ilusão de ótica, pois são a segunda via”, afirma Lavareda

Para Lavareda, candidatos à direita disputam o controle da segunda via e devem ter clareza de que o adversário principal é Bolsonaro, sem desperdício de energia com ataques a Lula

Por Cristian Klein / Valor Econômico

Rio - A seguir os principais pontos da entrevista do presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe), Antonio Lavareda:

Valor: Qual é a chance dos candidatos da terceira via?

Antonio Lavareda: Terceira via significa, de saída, um formato triangular, e hoje estamos próximo disso. Na verdade, temos mais. Nos votos válidos, há quatro candidatos [Lula, Bolsonaro, Moro e Ciro] com mais de 10%. Isso já configura quatro candidatos competitivos, ou seja, com mais de dois dígitos. Hoje há um formato quase quadrangular.

Valor: Não temos um quadro de polarização?

Lavareda: Pode ser um formato quadrangular, como tivemos nas eleições de 1989 e 2002. As pesquisas estão batendo na trave. Eu desconfio que vai ser reduzido para um formato triangular, como foi em 1998, 2010, 2014 e 2018, havendo risco de ir para o formato bipolar, como ocorreu em 1994 e 2006. Acredito que a lógica do segundo turno vai se impor, vai se imiscuir no final da disputa do primeiro turno.

Valor: Que fatores prejudicam a terceira via?

Lavareda: Qual é a plataforma que impulsiona a candidatura de Bolsonaro? É a incumbência, que é o magneto do debate público. Qual é a plataforma que impulsiona Lula e o lulismo? É a ex-presidência.

Candidatos atacam Lula e Bolsonaro. Mas não estão disputando com os dois. O adversário deles é o bolsonarismo

Valor: Como os concorrentes podem se destacar numa eleição tão baseada nesse voto retrospectivo?

Lavareda: Mais que desafio, o problema dos candidatos da terceira via é que, para protagonizarem a disputa eleitoral, eles ficam batendo à direita e à esquerda. Atacam Bolsonaro e atacam o Lula. Esses ataques nem sempre desgastam os dois candidatos, mas com certeza atraem a ira dos eleitores desses dois candidatos.

Entrevista | “Desafio é captar votos menos convictos de Lula”, diz Cavallari

Para diretora do Ipec, chance da terceira via é muito difícil, mas não impossível

Por Cristian Klein / Valor Econômico

Rio - A seguir os principais pontos da entrevista da diretora da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), Márcia Cavallari:

Valor: Qual a chance dos candidatos da terceira via?

Márcia Cavallari: É um desafio muito grande, porque Bolsonaro e Lula são candidatos fortes, e para ter alguma chance teriam que tirar voto dos dois. Mas eles ainda são desconhecidos. O Ciro, que é o mais conhecido, tem um quarto da população que fala que não o conhece o suficiente para votar nele ou não. Para os outros, o índice aumenta ainda mais.

Valor: Concorrentes à direita, como Moro e Doria, precisam desbancar Bolsonaro?

Cavallari: É, mas tem gente que está declarando voto no Lula hoje porque não quer o Bolsonaro e pode sair do Lula e ir para um deles. O Lula não está colocado como um candidato de extrema esquerda em oposição à extrema direita de Bolsonaro.

Valor: Ao tentar ocupar o centro, Lula também tem mais chance de perder esse eleitor eventualmente?

Cavallari: Sim, se aparecer um candidato com 10%, 12%, que efeito vai ter? Esse eleitor pode dizer: “Ah, nunca gostei do Lula mesmo”, e vem essas ondas... Há um típico eleitor do Lula que não está vendo outra opção, mas se de repente começa um movimento [para outro candidato], quantos vão fazer isso? Quando começa, vira uma onda e aí ninguém segura.

Esse eleitor pode dizer: ‘Ah, nunca gostei do Lula mesmo’, e vem essas ondas... Quando começa, ninguém segura. É possível"

Valor: Ainda seria possível?

Cavallari: Já vimos, não em eleição presidencial ainda. Temos várias eleições a prefeito e governador que começam de um jeito e terminam de outro. O Witzel, no Rio em 2018, assim como outros, foi na carona do bolsonarismo. Mas no caso de Bolsonaro, ele já vinha crescendo, a força maior veio em setembro, depois da facada.

Fernando Abrucio*: Bolsonaro depende da polarização

Valor Econômico

Lógica da campanha bolsonarista não visa só a uma vaga no segundo turno, mas a cristalizar uma polarização paralisante na política brasileira

Diante da enorme impopularidade e das grandes dificuldades políticas que terá em 2022, o presidente Bolsonaro escolheu estratégias muito claras para a disputa eleitoral. Seu provável modelo de campanha, no entanto, vai além da conquista de votos para a chegada ao segundo turno. O bolsonarismo quer consolidar a polarização como lógica principal do jogo político brasileiro, haja a reeleição ou não. Isso causará não só uma disputa com um caráter bélico inédito no Brasil, como também poderá ter consequências para o próximo mandato presidencial.

Tomando como base o que ocorreu desde a criação da reeleição, Bolsonaro é um candidato atípico. Seu objetivo inicial não é liderar a disputa, mas obter algo entre 20% a 25% dos votos no primeiro turno, viabilizando desse modo seu lugar na rodada final. A montagem de suas estratégias passa, primeiro, pela aposta na fragilidade de qualquer tipo de terceira via. A fragmentação das candidaturas assim denominadas e a dificuldade de elas entenderem que o tema geral da eleição é um plebiscito contra o bolsonarismo têm facilitado a vida do atual presidente. Além disso, há o risco de uma vitória de Lula no primeiro turno, e a meta bolsonarista é evitar isso a qualquer custo, inclusive usando armas, digamos, heterodoxas de campanha.

José de Souza Martins*: O salário do medo

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

A degradação das relações de trabalho e a difusão do direito à violência privada no caso do linchamento de jovem congolês

O linchamento de Moïse Mugenyi Kabagambe, na noite de 24 de janeiro, jovem congolês de família legalmente refugiada no Brasil, indica mudanças preocupantes nas características dessa prática de violência de turba no Brasil.

Entre nós, os linchamentos têm raízes estruturais, com vestígios fortes das práticas da Inquisição e das normas e valores das Ordenações Filipinas. Os avanços da sociedade brasileira no plano do Direito não foram suficientes para eliminar sua prática. Ao contrário, ela deixou de ser excepcional e anômala para se tornar normal e corrente.

Nos últimos 70 anos, o número de linchamentos cresceu muito. Hoje são, pelo menos, dois linchamentos e tentativas por dia.

Estudei em detalhe 2.028 casos ocorridos no Brasil inteiro e realizei, no respectivo local, três estudos de casos ocorridos no Oeste de Santa Catarina, na Alta Mogiana, em São Paulo, e no Sertão da Bahia por serem casos que continham os mais altos índices de crueldade.

Janaína Figueiredo*: Como a esquerda fará sem recursos?

O Globo

O líder da bancada do agora governista Partido Social-Democrata alemão, Rolf Mützenich, viajou para o exterior pela primeira vez na pandemia esta semana, para participar de um seminário em Montevidéu intitulado “Quem disse que tudo está perdido?”. A pergunta provocadora reflete a enorme expectativa que existe em vários países da região e do mundo sobre o que muitos chamam de uma nova onda progressista ou de esquerda na América Latina.

Que líderes de esquerda são favoritos em eleições de peso, ninguém discute. O jovem Gabriel Boric derrotou o ultradireitista José Antonio Kast no fim do ano passado e será empossado como presidente do Chile no próximo dia 11 de março. Sentado ao lado de Mützenich, na capital uruguaia, esteve Giorgio Jackson, ex-líder estudantil como Boric, nomeado ministro da Secretaria-Geral da Presidência chilena.

Mas duas perguntas se impõem quando a torcida pela esquerda mostra tanta euforia: o que veremos será uma onda de proporções similares à que tivemos nos primeiros anos deste século? Ou apenas uma marola? Como farão os novos governos de esquerda, com menos recursos do que tiveram outros presidentes no passado (atualmente vive-se uma alta de preços, mas não uma explosão de commodities como a ocorrida entre 2000 e 2010), para enfrentar demandas sociais mais desafiadoras e populações mais impacientes?

Pedro Doria: Nazistas do pão e circo

O Globo / O Estado de S. Paulo

Esta é uma coluna sobre o Partido Nazista — mesmo que não pareça.

Toda filosofia que temos para refletir a respeito de liberdade de expressão parte do pressuposto de que há uma barreira de entrada para alcançar um público grande. Fosse para publicar um texto e distribuir ou, mais recentemente, falar na TV aberta, sempre foi difícil chegar lá. Hoje, exige apenas a compra de um aparelho celular. E quem decide o alcance de uma mensagem não é um ser humano. É um programa — e esse programa é um editor de imprensa marrom de quinta que privilegia incentivar conflitos.

Nos séculos XVIII, XIX e XX, o tempo de existência das democracias, levar sua opinião a muita gente era uma corrida de obstáculos. Conseguiam falar com muitas pessoas apenas aqueles que desenvolvessem uma ou mais capacidades. Estudavam muito ou sofisticavam suas habilidades políticas ou desenvolviam um carisma quase mágico. Fundamentalmente, tudo isso demorava tempo e incluía convencer muita gente de que valia a pena levar sua voz a muitos. O século XXI não tem nada disso.

Bernardo Mello Franco: Outras palavravas

O Globo

Ainda vai longe o debate sobre a liberação de paródias musicais nas eleições. Na quarta-feira, o Superior Tribunal de Justiça voltou a analisar o processo da editora de Roberto Carlos contra o deputado Tiririca. O ministro Luis Felipe Salomão considerou que o palhaço não precisa pagar indenização por ter imitado o Rei na campanha de 2014. O julgamento foi interrompido por um pedido de vista.

Em mensagem enviada à coluna, Caetano Veloso se mostrou preocupado com as consequências da disputa judicial. “Nunca deixarei, se me for permitido impedir, que a melodia de ‘O leãozinho’ ou ‘Odara’, ‘Você é linda’ ou ‘Alegria, alegria’ seja usada para fazer eleitores votarem em figuras que representem o que eu abomino”, afirmou.

“Tampouco quero que qualquer canção minha sirva para vender produtos que eu considere malignos. Eu, que até hoje não vendi nem uma nota ou sílaba para publicidade”, prosseguiu. “Suponho que tenho direito moral personalíssimo sobre minhas composições.”

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

‘PL do Veneno’ traz riscos para a saúde e o meio ambiente

O Globo

Foi irresponsável a aprovação, pela Câmara, do projeto de lei 6.299/02, apelidado de “PL do Veneno” por flexibilizar o controle e a autorização de agrotóxicos no país. A pretexto de modernizar e desburocratizar as normas do setor, a proposta, mais uma das tantas “boiadas” que o governo Bolsonaro passa por cima da legislação e do bom senso, embute riscos seriíssimos ao meio ambiente e à saúde. A desfaçatez é tamanha que chega a trocar a nomenclatura de “agrotóxico” para “pesticida”, como se isso pudesse mudar os efeitos das substâncias químicas.

O projeto contém inúmeras aberrações. A primeira é conferir ao Ministério da Agricultura a competência exclusiva para autorizar novos agrotóxicos. Hoje, essa atribuição é compartilhada com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — que cuida da saúde dos brasileiros — e com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) — que trata dos riscos ambientais. Pelo novo projeto, Anvisa e Ibama continuarão se pronunciando, mas não terão mais poder de veto. Infelizmente, se rompe o equilíbrio necessário num tema que não pode ser analisado de forma unilateral.

Poesia | Manuel Bandeira: Velha Chácara

A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.

Música | Marisa Monte: Depois

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Merval Pereira: Forçando o limite

O Globo

A banalização, pela repetição de argumentos vulgares, de certas situações que já mereceram, ou mereceriam, repúdio por parte da sociedade, é marca desse nosso mundo digital, em que qualquer um tem a seu alcance instrumento de amplificação de seus pensamentos, que antes não iam além das mesas de botequins ou conversas privadas, que só afetavam seus participantes.

Parece ser o caso do podcaster Monark, um ignorante a quem milhares deram um microfone e um canal de internet, e do deputado Kim Kataguiri, um liberal “à outrance”, que não distingue os limites razoáveis para suas posições. Esse regime de “vale-tudo”, na cabeça de Kataguiri, levaria a que o nazismo não fosse criminalizado para que a sociedade debatesse abertamente seus conceitos e objetivos e os repudiasse nas urnas.

A contrapartida seria termos que ouvir políticos do Partido Nazista defendendo a morte de judeus, ciganos, negros, homossexuais, pessoas com deficiência, questão já superada pela ética da convivência humana em sociedades minimamente civilizadas, que leva à empatia com os sofredores e à solidariedade com as minorias, que devem ser protegias pela lei.

Arnaldo Niskier*: Abaixo o nazismo!

O Globo

Parecia improvável que aparecesse no Brasil alguém com a coragem ou a irresponsabilidade de defender o nazismo. Pois é que isso surgiu, na pessoa do podcaster Monark (Bruno Aiub), com o apoio do deputado federal Kim Kataguiri (Podemos-SP).

São dois perturbados que envergonham a vida brasileira. O primeiro deles, ao ser punido com a perda de seus patrocinadores, colocou a culpa na bebida que havia ingerido em excesso. Não tem desculpa, pois seguramente passou do ponto e deve ser punido severamente. Seu arrependimento não traz o perdão. A repulsa a seu gesto é o mínimo que se pode desejar.

Monark foi desligado do Estúdio Flow, que tachou de inadmissíveis seus comentários racistas. Ele mesmo, depois do que fez, considerou os comentários “muito burros”, o que provocou enorme reação. É incrível que essa ocorrência tenha sido confundida com “liberdade de expressão”. Sabendo-se do que foram capazes os nazistas (só de judeus na Europa foram mortas cerca de 6 milhões de pessoas). Esse gesto de agora foi uma total irresponsabilidade.

Malu Gaspar: O cafezinho de Bolsonaro

O Globo

Diz uma das mais antigas máximas da política que, quando o presidente da República está fraco, já perto de deixar o poder, o cafezinho começa a chegar frio à mesa. Poderia já ser o caso de Jair Bolsonaro.

No último ano de mandato e em posição delicada nas pesquisas, o presidente assiste a aliados fazerem jogo duplo em seus estados, especialmente no Nordeste. Até o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), evitou mencionar o nome do chefe durante o lançamento de seus candidatos majoritários no Piauí —estado governado pelo PT — no último final de semana.

O ministro Tarcísio de Freitas, candidato de Bolsonaro em São Paulo — estado que o presidente considera vital para sua reeleição — até agora não tem um partido. Há muita resistência a apoiá-lo entre líderes locais do Centrão, que preferem seguir com o vice de João Doria, o tucano Rodrigo Garcia.

Em Brasília, a perspectiva de uma vitória de Lula vem fazendo algumas figuras-chave se mexerem. O mesmo comandante da FAB que meses atrás reforçou a posição de Bolsonaro contra a CPI da Covid, ao dizer que as Forças Armadas não aceitariam ataques institucionais e que “homem armado não ameaça” dar golpe, agora afirma que os militares prestarão continência a Lula ou qualquer outro presidente eleito em 2022.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, começou discretamente a executar uma estratégia de reposicionamento de imagem, tentando criar fatos que demonstrem combatividade e sugerindo a interlocutores próximos, em conversas de pé de ouvido, que não cometerá o suicídio político de chegar a uma eventual transição de poder amarrado à âncora bolsonarista.

Míriam Leitão: Assalto eleitoreiro aos cofres públicos

O Globo

O governo está brincando com fogo perto do tanque de gasolina. A inflação está alta, disseminada e persistente. As projeções dos economistas indicam queda nos próximos meses, mas essas previsões podem mudar porque o cenário está mudando. Há um ano, o mercado previa 3,5% para a inflação de 2021 e deu mais de 10%. O governo patrocina propostas que representam gastos de R$ 50 bilhões a R$ 100 bilhões e prepara novos truques para burlar as regras fiscais. Isso alimenta a inflação futura. As bombas fiscais estão sendo armadas pelo próprio governo Bolsonaro, por desespero diante das pesquisas de intenção de voto que são todas desfavoráveis ao presidente.

IPCA de janeiro desacelerou em relação a dezembro, mas disso já se sabia. O acumulado em 12 meses voltou a subir para 10,38%. Pior, a inflação dos mais pobres foi de 0,67% e o acumulado, 10,60%. Um índice nesse nível é sensível a qualquer nervosismo, a qualquer choque, como dizem os economistas. Cenas explícitas de populismo eleitoreiro e sinais de que o ministro da Economia foi esvaziado são combustíveis para a alta do dólar que alimenta a escalada dos preços.

A inflação está generalizada. Dos nove grupos, oito subiram. O único que não subiu foi por fatores específicos. Caíram os preços do grupo transportes, por causa da gasolina, das passagens aéreas e da diminuição do gás. Houve ainda a redução da conta de luz por causa do bônus para quem cortou o consumo. Mas isso não se repetirá.

Luiz Carlos Azedo: Agenda do Centrão é passar a boiada antes de apagar a luz

Correio Braziliense

O périplo pelo Nordeste para melhorar a imagem de Bolsonaro foi um tiro no pé. Ontem, inaugurou um novo trecho da transposição do Rio Francisco com tanta pressa que não deu tempo de a água chegar.

O Centrão está com pressa. As coisas não vão bem para o presidente Jair Bolsonaro no Nordeste, reduto dos principais caciques do PP, principalmente o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PI), e o presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), que resolveram pôr em pauta no Congresso o que consideram prioridades do governo neste ano eleitoral. É uma agenda para “passar a boiada”, como diria o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, flagrado autorizando a venda de madeira ilegal pelas autoridades dos Estados Unidos. O PP quer apagar a luz e desembarcar do governo, na campanha eleitoral, antes que seja tarde demais.

Na pesquisa Genial/Quaest, divulgada ontem, os números são péssimos para o presidente no Nordeste: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 61% de intenções de voto no primeiro turno, enquanto Bolsonaro tem 13%. Ciro Gomes vem logo atrás, com 8%. Sergio Moro tem 3%; João Doria e André Janones, 2%; e Simone Tebet, 1%. Mesmo com o Auxílio Brasil, a capacidade de pagar as contas piorou para 64% dos eleitores da região.

William Waack: Briga de irmãos

O Estado de S. Paulo

Centrão e setores do mercado não enxergam diferenças entre Bolsonaro e Lula

Há setores do mercado que vivem no curtíssimo prazo e que pulam de Bolsonaro para Lula e vice-versa com a rapidez com que se especula por resultados imediatos. Os setores com horizontes mais distantes não enxergam diferenças significativas entre os dois líderes das pesquisas.

Mais de um grande fundo já disse isso aos cotistas. O mais recente foi o respeitado Verde, para o qual Lula e Bolsonaro “são irmãos gêmeos, separados no nascimento”. Ambos, diz carta redigida pelo fundo, recorrem ao mesmo “populismo eleitoreiro barato totalmente irresponsável”.

Essa afirmação resultou da análise “técnica” (levando em conta apenas modelos econômicos) dos instrumentos pelos quais o governo Bolsonaro pensa conseguir baixar preços de energia em geral e combustíveis em particular. Conclusão similar ao alerta feito pelo próprio Banco Central, segundo o qual a maneira pela qual o Planalto quer baixar preços e inflação arrisca a produzir o resultado contrário – obrigando o BC a subir mais ainda os juros.

Eugênio Bucci*: Desesquecer

O Estado de S. Paulo

Para termos direito à memória, lutar por isso, temos de investir no trabalho duro para construir as vias de acesso ao passado

Ao final de Mães paralelas, o novo filme de Pedro Almodóvar (que está em cartaz em São Paulo e logo entra em exibição na Netflix), surge na tela uma frase do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Em letras brancas sobre fundo preto, as palavras cumprem a função de resumir a moral da história, como se fossem um post scriptum ou uma espécie de envoi:

“Não há história muda. Por mais que a queimem, que a dilacerem, por mais que mintam, a história humana se nega a calar a boca.”

Parece uma oração. Parece uma profecia. Parece um poema. Parece verdade. Mas será verdade?

Mães paralelas narra os encontros e desencontros de duas mulheres que dão à luz no mesmo dia, na mesma maternidade e ficam hospedadas no mesmo quarto. As duas não se conheciam até despencarem em suas camas emparelhadas. Elas vêm de formações distintas, classes apartadas, universos desconectados. Uma não tem nada a ver com a outra, até que a trama encadeada por Almodóvar começa a embaraçar as duas em laços bem atados, definitivos e belos.

O filme não traz (quase) nenhum toque de comédia. Nesse ponto é diferente dos grandes sucessos do cineasta espanhol. O andamento grave combina algumas notas de romance com uma crítica severa ao esquecimento das atrocidades cometidas pelos fascistas (franquistas) durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). O enredo pesa e comove. As duas mulheres, as tais “mães paralelas”, vivem a experiência da maternidade enquanto descobrem a si mesmas: Ana (Milena Smit) quer se libertar da família burguesa, enquanto Janis (Penélope Cruz), mais velha que a companheira de quarto, está empenhada em encontrar o lugar em que foi sepultado o seu bisavô, executado na Guerra Civil por tropas do franquismo.

José Serra*: Amazônia: desafios e oportunidades

O Estado de S. Paulo

É preciso encarar a Amazônia como um problema vital de alta complexidade, que não pode ser objeto de políticas setoriais

A Amazônia é o mais gritante símbolo da crise que hoje corrói nosso País, política, sanitária e economicamente. Nos veículos domésticos e internacionais de informação, a sobrevivência da Amazônia, seja da floresta, de suas populações, ou de sua economia, é encarada como em risco de extinção.

Independentemente da correção das informações, parece não ter limites a lista de denúncias sobre o descontrole do combate ao desmatamento, à exploração e comércio ilegais da fauna e da flora, passando pelo garimpo ilícito, negligência do poder público com relação à sua população e as limitações dos serviços de saúde e educação. Na prática, qualquer pendência internacional com o Brasil, real ou imaginária, acaba sendo automaticamente associada, na opinião pública internacional, aos riscos à segurança global atribuídos às políticas de governo e às atividades econômicas na Amazônia. O que propicia pretextos para diferentes formas de embargos e sanções comerciais e financeiras.

Existem limites para sanções unilaterais que redundam no uso do comércio como instrumento de pressão geopolítica e no uso de pressões geopolíticas como instrumento de disputa comercial ou financeira. A diplomacia brasileira domina os instrumentos de defesa de suas exportações e do acesso de seus investimentos a outros mercados.

Bruno Boghossian: As dores da centro-direita

Folha de S. Paulo

Números indicam espaço estreito para uma candidatura alternativa a Bolsonaro nesse campo

Sem segredo, uma ala do PSDB trabalha para derrubar a candidatura de João Doria ao Palácio do Planalto. Tucanos que sempre nutriram antipatia pelo governador paulista querem aproveitar seu desempenho quase insignificante nas pesquisas para trocá-lo por outro nome na corrida presidencial.

Os desafetos de Doria dizem que ele tem poucas chances de vitória e que há nomes mais competitivos, como a senadora Simone Tebet (MDB) e o governador gaúcho Eduardo Leite (numa possível mudança para o PSD). O argumento inicial faz sentido, mas há poucas razões para acreditar no segundo ponto.

Muitos tucanos são contra a candidatura de Doria porque, de fato, ele parece ser um candidato fraco. Mas a razão principal para fazê-lo desistir é financeira: sem um nome na corrida ao Planalto, o partido teria mais dinheiro para campanhas de deputados, senadores e governadores.

Vinicius Torres Freire: Lula é o Salvador do Brasil?

Folha de S. Paulo

Não é, mas Brasil barato e PT centrista devem render dinheiro, se diz no mercado

"Is Lula Brazil’s Savior?", no original, é o título de um relatório publicado nesta semana pela consultoria internacional BCA, de matriz canadense, que orienta clientes sobre o que fazer com o dinheiro em mercados emergentes. Não, Lula não é.

Mas, para os estrategistas da BCA, dá para ganhar algum tutu se um Lula "centrista" se eleger presidente, dado além do mais o fato de que o "Brasil está barato". Isto é, na média, as ações estão com valor baixo, considerado o histórico e os retornos das empresas. Os títulos de dívida estão baratos, outro modo de dizer que as taxas de juros estão altas.

Para dar um exemplo mais "pop". A senhora e o senhor que se interessam aí pelo Tesouro Direto devem ter notado que há títulos do governo com vencimento em 2026 pagando 5,21% ao ano além da inflação; em 2035, 5,61% mais IPCA. Isso é uma vergonha, receita para governo e país irem à breca. Mas passemos.

Maria Hermínia Tavares: Delírio ou desfaçatez

Folha de S. Paulo

Desmatamento na Amazônia subiu 56,6% de agosto de 2018 a julho de 2021

No domingo (6/2), os leitores desta Folha foram apresentados ao que seria o rascunho de um cartapácio da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, contendo nada menos de 200 diretrizes de ação governamental. Não ficou claro, porém, se foram imaginadas para ser cumpridas nos meses que podem restar a Bolsonaro no Planalto, como plataforma de candidato à reeleição, ou só para não deixar ociosos os comandados do almirante Flavio Rocha, chefe do órgão.

De toda forma, as presumíveis propostas surpreendem pela distância entre o que sugerem e o que tem sido dito e feito —ou, não— pelo governo do ex-capitão. Abrem alas o compromisso expresso com a eliminação do desmatamento ilegal; o fomento à bioeconomia e à floresta em pé; o aumento da capacidade de monitoramento dos biomas e a afirmação da sustentabilidade como eixo do desenvolvimento. Delírio ou desfaçatez —dá no mesmo.

Ruy Castro: Sob o Bolso-Reichnaro

Folha de S. Paulo

As próximas eleições dirão exatamente quantos brasileiros ergueram o braço dentro da urna

Na segunda-feira (7), o youtuber Bruno Aiub, vulgo Monark, e o conhecido Kim Kataguiri, vulgo deputado federal (DEM-SP), defenderam o direito de existência no Brasil de um partido nazista. Na terça, um ex-BBB, vulgo comentarista político, tratou do assunto em seu canal e ergueu o braço à maneira nazista. Diante do clamor nacional, todos amarelaram. Um estava "bêbado", outro foi "mal interpretado" e o terceiro queria ser "galhofeiro". Quem não sabe beber, se expressar ou fazer galhofa não deve descer para o play. Inúmeras vozes responsáveis repudiaram as declarações. Só Jair Bolsonaro, vulgo presidente da República, não se manifestou.

Mas há mais debaixo disso do que a irresponsabilidade de três patetas. Desde 2019, em vários estados, sujeitos têm passeado em shoppings com suásticas no braço, abanado bandeiras nazistas na janela e enviado emojis referentes a Adolf Hitler. Um professor, temo que com jovens sob sua influência, decorou o fundo da piscina com uma suástica.

Maria Cristina Fernandes: Federar ou federar

Valor Econômico

Mudança de regras, polarização da disputa presidencial e recursos das grandes legendas empurram para a concentração do quadro partidário

O prazo de 2 de abril correu o risco de ficar para 5 de agosto, mas findou em 31 de maio. O adiamento, ainda que mitigado, no prazo de registro das federações partidárias deu alento à tese de que o mecanismo não terá vida longa. Aposta-se que se os partidos não conseguiram se coordenar para as deliberações internas da federação até aqui, não o farão em nova legislatura e sob outro governo.

Parece difícil imaginar, numa conjuntura de tantas divisões internas no governo e nos partidos, a prevalência de uma força centrípeta. Corrobora ainda o rechaço à ideia de impor coerência ao sistema político por decreto, como o fez a verticalização em 2002, obrigando as coligações presidenciais a se reproduzirem em todo o país. Assim como aquela decisão não se sustentou, esta tampouco ficaria de pé.

Os céticos apostam que os partidos não abrirão mão da autonomia para reger seu ordenamento interno. Ignoram, porém, que a mudança de regras sobre o sistema partidário já aconteceu. A federação, na verdade, é um balão de oxigênio para partidos a serem vitimados pelo fim das coligações e pelo estabelecimento da cláusula de desempenho, mudanças cujas consequências sobre o sistema político têm sido subestimadas.