sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Fernando Abrucio* - Reconstruir o país pelo equilíbrio

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Brasil só vai ter futuro melhor se incorporar mais grupos em sua governança, estabelecendo diálogo entre eles

O aspecto que chama mais a atenção na comemoração dos 200 anos de Independência é a falta de uma celebração coletiva e plural da sociedade brasileira. O que sobrou são poucos festejos oficiais, sendo que Bolsonaro fez pior do que a ditadura militar: usa os recursos do Estado para dividir a nação e fazer campanha personalista em prol de sua reeleição.

A questão é que o sectarismo bolsonarista impede a reflexão sobre a trajetória passada e recente do país, destrói as instituições e enfraquece o sentimento de pertencimento nacional. Para sair dessa enrascada, o Brasil só vai ter um futuro melhor se incorporar mais grupos em sua governança, estabelecendo diálogo entre eles e criando um novo equilíbrio político.

Sair da situação sectária e sem diálogo em que estamos é fundamental para reconstruirmos as instituições políticas e as políticas públicas atingidas por Bolsonaro. Há uma longa lista de tarefas. Em primeiro lugar, setores governamentais foram, em maior ou menor grau, desmontados.

Esses são os casos do Sistema Único de Saúde (SUS), da política educacional, da longa tradição diplomática, da burocracia e da legislação ambientais, da área de cultura, da proteção das comunidades indígenas, dos serviços e programas de assistência social, dos programas habitacionais, do embrionário modelo do Sistema Único de Segurança Pública e das ações no campo dos direitos humanos. Quase todo o Estado brasileiro sofreu um processo de deterioração institucional.

Em cada uma dessas políticas públicas será necessário apaziguar o conflito gerado pelo bolsonarismo, retomar o diálogo com os atores estratégicos, trazer de volta o que havia de bom e corrigir o que precisa se adequar às novas demandas do século XXI. De todo modo, o objetivo é sair da lógica das guerras culturais e estruturar os programas governamentais de forma profissional, baseando-se em evidências e no expertise de técnicos governamentais e especialistas que trabalham há anos com o assunto.

Vera Magalhães - O crime ruidoso acua e compensa

O Globo

Quando abusos de um populista são endossados por um público grande e radicalizado, as instituições têm receio de agir

Jair Bolsonaro foi um mestre ao arquitetar o 7 de Setembro e fazer com que ele ocorresse exatamente segundo o que planejou. Mais de um mês antes, disse que a micareta seria na Praia de Copacabana, que favoreceria a mistura proposital dos militares e do povo. Disseram que o Exército não aceitaria, o prefeito Eduardo Paes tentou resistir, mas, no fim, tudo ocorreu como ele designou.

O presidente formulou discursos sem xingamentos, mas cheios de mensagens subliminares, conhecidas como “apitos de cachorro”. Estava lá a ameaça velada de trazer para as tais “quatro linhas” aqueles que estão agindo fora dela, ou seja, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Isso não foi casual, tampouco sinal de moderação, algo impossível no bolsonarismo e no caldo altamente radicalizado que está sendo curtido nas redes — e que deu as caras nas ruas de Brasília e do Rio, nas mensagens presentes em cartazes e guindastes.

Nos dias anteriores aos atos, mensagens nos grupos públicos bolsonaristas de WhatsApp já avisavam aos “patriotas” que não haveria agressões aos ministros do Supremo porque o Judiciário, que seria aliado da esquerda, estaria “provocando” Bolsonaro com atos como a proibição de celulares e armas no dia da eleição, na expectativa de que a reação do presidente ensejasse interpretações de que ele pretende dar um golpe.

César Felício* - O #EleNão bolsonarista

Valor Econômico

Mobilização e radicalização andam de mãos dadas

O 7 de setembro, de um certo modo, foi o equivalente ao #EleNão do bolsonarismo. O golpismo teve ampla guarida no público vestido de verde e amarelo anteontem na praia de Copacabana, como mostrou o levantamento de um núcleo da USP, publicado no site do jornal “O Globo”, mas esta não foi a tônica das ruas.

Muito mais forte na retórica do presidente Jair Bolsonaro foi a diatribe contra o nove-dedos, o carniça, o cachaceiro, o ladrão, o comunista, o ameaçador das tradições, o pervertedor das famílias.

A aposta nas ruas implica naturalmente em radicalismo, não há outra maneira de se conseguir uma mobilização. Prega-se aos convertidos. Bolsonaro ontem reuniu uma plateia de aficcionados - 91% dos presentes votaram nele em 2018, de acordo com a pesquisa divulgada pelo “O Globo”. O saldo mais concreto em termos eleitorais é uma energização da base que leva o seu eleitor a se empenhar mais na persuasão ou intimidação de quem pensa diferente.

José de Souza Martins* - Álibis políticos da corrupção

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O homem comum tem dificuldade para perceber que em países como o Brasil há ladrões honestos, isto é, os que são corruptos nos procedimentos que redundam em seu enriquecimento

O destino político do Brasil tem sido hipocritamente decidido pelo retorno cíclico da suposta honestidade de alguns contra a suposta corrupção de outros. Em havido, até, governantes eleitos na presunção autoproclamada de que são honestos, de uma imaculada honestidade que salvará o país da suposta roubalheira dos demais. Corrupto é sempre o outro. Temos até corruptos bentos. Ninguém explica, porém, que corrupção é essa nem que honestidade é essa. E políticos provavelmente íntegros e melhores têm deixado de ser candidatos e até de ser eleitos porque não conseguem provar e convencer que não são desonestos. Coisas de um país do avesso.

Para entender esse país anômalo, cada vez mais rico e mais pobre ao mesmo tempo, cujas irracionalidades econômicas, sociais e políticas são produzidas, apoiadas e estimuladas pelo próprio governo, é preciso compreender sua estranha e persistente formação.

Sua base histórica é o município. Desde os primeiros anos da Conquista, tornou-se ele a base da estrutura política brasileira e fundamento da superestrutura da administração pública, mesmo quando ela se desdobrou nos poderes das províncias, dos estados e da nação. Criou uma cultura política.

Claudia Safatle - Mobilidade social e populismo

Valor Econômico

Parece que elevador social do mundo desenvolvido quebrou

Cresce no mundo a preocupação com o encolhimento das oportunidades de trabalho da classe média na estrutura de ocupações, por avanço tecnológico. Há, porém, um aumento nas ocupações do estrato alto (associadas com o pensamento crítico, solução de problema, criatividade, interação com pessoas) e, em menor escala, nas do estrato baixo (transporte, serviços simples, cuidados pessoais).

É a polarização do trabalho que, em íntima associação com o aumento da mobilidade social descendente da classe média, formam a raiz do populismo que se instalou em parte do mundo, cujos líderes eram e são: Donald Trump (EUA), Boris Johnson (Reino Unido), Alexis Tsipras (Grécia), Viktor Orbán (Hungria), Recep Erdogan (Turquia), Vladimir Putin (Rússia), Rodrigo Duterte (Filipinas), Evo Morales (Bolívia), Pedro Castillo (Peru), Andrés Manuel López Obrador (México), Hugo Chávez e Nicolás Maduro (Venezuela), Cristina Kirchner e Alberto Fernández (Argentina), Gabriel Boric (Chile), Lula e Jair Bolsonaro (Brasil).

Essa é a síntese de trabalho elaborado por José Pastore e apresentado em debate recente na Fipe (Fundação instituto de Pesquisa Econômica). Na Europa, nos EUA, na América Latina e no Brasil, em particular, o fenômeno se repete e fragiliza a democracia.

Eliane Cantanhêde - O Dia da Pátria que não houve

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro jogou a rede e colheu o 7 de Setembro, o bicentenário e toda a mídia

O presidente Jair Bolsonaro não só implodiu a Constituição e as leis, sequestrou o 7 de Setembro e o bicentenário da Independência do Brasil e pôs a estrutura, os recursos, os funcionários públicos e as Forças Armadas a serviço da reeleição como também capturou toda a mídia nacional e os jornalistas com a armadilha da “princesa” e o “imbrochável”.

Não há uma só referência do presidente ao Dia da Pátria e à Independência na quarta-feira, em que rádios, televisões, internet e nós, editores, comentaristas, colunistas, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas demos ao candidato Bolsonaro uma exposição que nenhum de seus concorrentes terá em toda a campanha, na cobertura e na propaganda eleitoral.

“Trending topics” do Twitter e citado até no The New York Times, o “imbrochável”, difícil de traduzir, foi o sucesso do Dia da Pátria. Tão abjeto quanto o presidente comparar sua mulher e a dos adversários e convocar solteiros a casar com “princesas”. Ou quanto o então presidente Lula se referir-se ao “ponto G” feminino numa entrevista com o americano George W. Bush em São Paulo. Isso tudo diminui homens, mulheres e o País.

Laura Karpuska* - A bandeira é nossa.

O Estado de S. Paulo

Excluir quem não apoia o governo é uma tentativa de desmonte da nossa identidade nacional

Na quarta-feira pela manhã passei próximo à Avenida Paulista. Ambulantes vendiam bandeiras do Brasil para apoiadores do presidente que iam chegando aos poucos. Era uma onda verde-amarela.

Comemoramos 200 anos da nossa independência, mas a celebração era partidária. Era pró-Bolsonaro. A exceção talvez tenha sido a feliz reinauguração do Museu do Ipiranga. O resto foram eventos com tom golpista e repletos de falta de decoro.

A apropriação das cores da bandeira por um grupo político não é apenas uma infelicidade para quem quer torcer na Copa pela Seleção, mas não quer ser confundido com um apoiador do presidente. É também uma forma de enfraquecer nosso tecido social.

Simon Schwartzman* - O Golpe da Independência

O Estado de S. Paulo

É triste quando um povo celebra sua identidade e sua história desfilando tanques e cultivando cadáveres.

Cem anos atrás, o Brasil comemorava um século da independência com uma grande exposição internacional no Rio de Janeiro, em que se celebrava a entrada do País na modernidade do rádio e da eletricidade. Havia nela o Pavilhão da Estatística, dedicado à “ciência da certeza”, que apresentava os resultados do censo brasileiro de 1920, o primeiro em quase 50 anos (*). Fake news, nunca mais! 1922 foi, também, o ano da Semana de Arte Moderna, em que pintores e escritores se propunham a mostrar o Brasil como ele era e falava de verdade, do Macunaíma de Mário de Andrade aos operários de Tarsila do Amaral, livres das amarras da pintura clássica e do português castiço das velhas elites educadas em Coimbra.

O tema era o Brasil do futuro, e ninguém olhava muito para o dia em que, cem anos antes, a Família Real dera um golpe de Estado contra a revolução liberal portuguesa, que limitava seus poderes, e colocara a coroa brasileira na cabeça do herdeiro, Pedro I, “antes que um outro aventureiro o faça”, como diz a lenda. Mas a República Velha não se movia, e o povo, que havia assistido bestializado ao fim do Império, continuava sem entender o que República e mundo moderno lhe traziam.

Vinicius Torres Freire – Dinheiro grosso está calmo na eleição

Folha de S. Paulo

Parece que a atitude média dos donos do dinheiro é: 'depois do tombo, deste chão não passamos'

campanha eleitoral parece não ter efeito negativo algum em indicadores financeiros, até agora: taxa de câmbio ("preço do dólar"), taxas de juros de prazo mais longo, Bolsa, por exemplo. Nos últimos dois meses, houve discreta melhora. Parece que a atitude média dos donos do dinheiro é: "depois do tombo, deste chão não passamos". Até novembro, ao menos.

As taxas de juros de prazo mais longo, dois anos em diante, baixaram. Tanto que a direção do Banco Central deu um grito nos povos dos mercados, para que não ficassem tão animadinhos com a perspectiva de queda precoce da Selic. As taxas de câmbio reais saíram do fundo do poço de meados de 2020. Até o Ibovespa saiu do buraco de julho, embora ainda longe do pico do ano, em abril.

Negociadores de dinheiro grosso dizem que a eleição, em si, pode ser um "não evento". Embora não tenham programa animador ou, no que interessa para a finança, programa quase algum, os candidatos principais, Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) teriam histórico "conhecido".

Bruno Boghossian - O roubo do ano

Folha de S. Paulo

Em busca de voto não ideológico, campanha do PL precisa tomar 1 milhão de eleitores por semana

Jair Bolsonaro precisa roubar mais do que um punhado de votos de Lula para ter a chance de um novo mandato. Se a disputa for ao segundo turno, o presidente só vence se conquistar 100% dos indecisos, virar todos os votos nulos e ainda tomar do petista 4 milhões de eleitores. Sem os nulos, a tarefa é mais difícil: Bolsonaro teria que atrair 9 milhões de eleitores que estão com Lula —mais de 1 milhão por semana.

Não há caminho possível para Bolsonaro nesta corrida que não passe pela tomada de pelo menos alguns territórios pintados de vermelho. A missão é particularmente complicada numa eleição marcada por uma cristalização do voto e um alto índice de rejeição ao presidente.

Hélio Schwartsman - O nó górdio do TSE

Folha de S. Paulo

Grilagem do bicentenário por Bolsonaro põe TSE em encrenca

Como previsto, Bolsonaro transformou as comemorações do bicentenário em comício eleitoral. Nunca entendi o fascínio humano por números redondos. Não vejo por que 200 anos mereçam celebração mais vistosa que 193 anos, por exemplo. Eu particularmente prefiro números primos a redondos. O fato, porém, é que Bolsonaro não só grilou a data cívica como também pôs a estrutura do Estado, Forças Armadas incluídas, a serviço de sua candidatura. Como previsto, partidos representaram contra ele, e o TSE vai ter de decidir.

Reinaldo Azevedo - Pobres, democracia e imprensa

Folha de S. Paulo

Sociedade está desaparelhada para enfrentar assalto às instituições

O Datafolha vai dizer daqui a pouco se a cruzada criminosa de Jair Bolsonaro no 7 de Setembro interferiu de forma importante na decisão do eleitorado. Estava em curso já um movimento de discreta aproximação entre os líderes das pesquisas. Tendo havido uma aceleração, pode-se especular que a "demonstração de força" tenha surtido efeito.

TSE não vai cassar a chapa encabeçada pelo presidente. Ou sobreviria o caos. O populismo em tempo de redes é novo, mas a prática é antiga: acuar as instituições ou cooptá-las, a exemplo da Procuradoria-Geral da República. Os inquéritos hoje sob a relatoria de Alexandre de Moraes são a única barreira de contenção. Moraes se tornou um dos alvos da imprensa.

A extrema-direita populista que fala diretamente às massas por intermédio das redes sociais, sem qualquer mediação, populariza, como é sabido, teses e pautas as mais obtusas e reacionárias. O algoritmo virou senhor da razão e critério para aferir a verdade.

Luiz Carlos Azedo - A Rainha Elizabeth II deu sobrevida ao império

Correio Braziliense

O fracasso do Brexit e a guerra da Ucrânia abalam a economia do Reino Unido, agora sem sua icônica rainha. A estabilidade política é vital à manutenção da Commonwealth sob a liderança de Charles III

“Chegou no porto um canhão/ De repente matou tudo, tudo, tudo/ Capitão senta na mesa/ Com sua fome e tristeza, esa, esa/ Deus salve sua rainha/ Deus salve a bandeira inglesa”. Sul da Bahia, década de 1930, um aventureiro sem nome nem passado, sete vezes baleado, sorridente, trovador e feroz, intromete-se na luta dos grandes coronéis pela posse da terra e do cacau. Está disposto a acirrar a guerra de interesses econômicos e tomar o lugar do coronel Santana, sua mulher e seu dinheiro. Precipita um banho de sangue, no qual sucumbem sertanejos simples e os próprios usineiros. O homem parece conseguir o seu intento, mas seu destino também está assinalado pelos deuses.

O enredo do filme Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, com trilha sonora de Milton Nascimento, autor da descrição acima, tem como pano de fundo o colonialismo britânico, daí a exaltação à rainha. Lançado em 1970, o filme era uma alegoria do regime militar e da atuação dos Estados Unidos, que haviam substituído o império britânico como força hegemônica no mundo após a II Guerra Mundial. O filme foi saudado pelo The New York Times como um “western tropical”, que misturava o japonês Akira Kurosawa com o italiano Sérgio Leone, tendo a temática do cacau na saga descrita por Jorge Amado.

Bernardo Mello Franco - A rainha e o capitão

O Globo

No sexto mês de governo, Jair Bolsonaro acusou o Congresso de tratá-lo como uma Elizabeth II sem coroa. O capitão estava invocado com um projeto de lei para dar aos parlamentares o poder de indicar diretores de agências reguladoras. “Querem me deixar como a rainha da Inglaterra?”, esbravejou.

A fala do presidente reproduziu um engano comum: a ideia de que a rainha britânica só teria papel decorativo. No Reino Unido, o governo é exercido por representantes eleitos, mas o monarca tem atribuições relevantes. É o chefe de Estado, exerce funções diplomáticas e serve de anteparo em crises políticas.

Em 70 anos no trono, Elizabeth II conviveu com 15 primeiros-ministros. Todos cumpriram o ritual de visitá-la semanalmente para relatar problemas, pedir conselhos e dividir decisões. Essas audiências inspiraram peças e filmes, mas nunca foram gravadas, filmadas ou vazadas à imprensa. Permanecem como a caixa-preta do reino, na definição do jornalista e biógrafo Andrew Marr.

Flávia Oliveira - Nunca esquecer

O Globo

Rainha foi a gestora que manteve de pé a Firma e liderou o mais bem-sucedido projeto de marketing da monarquia no planeta

Sou consumidora voraz das histórias e da produção audiovisual sobre a folhetinesca monarquia britânica. Aos 11 anos, em julho de 1981, passei horas diante da TV assistindo ao casamento de Diana Spencer com o príncipe Charles. O vestido de tafetá e renda marfim, com mangas bufantes e cauda de 7,6 metros, povoou meu imaginário a ponto de, uma década depois, ter eu mesma fugido do branco total radiante na minha cerimônia religiosa. Acompanhei delícias e dores — mais estas que aquelas — da princesa de Gales até a derradeira madrugada em Paris, em 1997. Quatro anos atrás, madruguei para acompanhar o casamento do então príncipe Harry, caçula do agora rei, com Meghan Markle. Emocionou-me, por familiar, a emoção de Doria Ragland, uma mãe negra americana, sem cônjuge, na cerimônia que uniu à filha um integrante da monarquia britânica.

De férias em Londres, em 2012, durante os Jogos Olímpicos, passeei por salões e pelo gramado de Buckingham. Festejavam-se os 60 anos de reinado de Elizabeth II. Nos meses de calor, quando a rainha se retirava para a residência de verão, o palácio se abria à visitação de súditos e turistas. Ali comprei a mais cara peça da coleção de canecas de viagens que iniciei em 1993. Custou dez libras esterlinas — moeda forte é outra coisa. Conto tudo isso para revelar a consumidora voraz que sou da saga folhetinesca da família real britânica sob o comando de Elizabeth II. E, claro, maratonei “The Crown”, a série da Netflix.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Elizabeth II foi mais que uma mera rainha da Inglaterra

O Globo

Ela soube dar um rosto moderno à monarquia — instituição que estava ameaçada quando subiu ao trono

Apenas o francês Luís XIV ficou mais tempo no trono que Elizabeth Alexandra Mary Windsor, a rainha Elizabeth II do Reino Unido, morta ontem aos 96 anos. Ao longo dos 70 anos, sete meses e dois dias de seu reinado, houve sete papas, 16 primeiros-ministros britânicos, 14 presidentes americanos e 18 brasileiros (sem contar interregnos). Foram 17 Copas do Mundo e 18 Olimpíadas. No início havia dúvidas de que aquela jovem de 25 anos conseguiria dar sobrevida à instituição que andava moribunda depois da Segunda Guerra. Elizabeth II desafiou as expectativas e deu um rosto moderno à monarquia britânica.

Pelo sistema político sui generis em vigor no Reino Unido (e nos demais países por onde se espalham súditos do trono britânico), o papel do monarca é simbólico, cerimonial, quase decorativo. Mas Elizabeth II foi mais que uma mera “rainha da Inglaterra”, na expressão pejorativa consagrada para designar os governantes sem poder. Conciliou a obrigação de manter distância de disputas políticas à necessidade de conferir a seu país — uma potência em declínio — um novo papel no Pós-Guerra. Viajou o mundo (Brasil inclusive), levando a mensagem de que os britânicos, ainda que não comandassem mais o “Império onde o sol nunca se põe”, continuavam relevantes.

Poesia | Joaquim Cardozo - Chuva de Caju

 

Música | Tom Jobim - Chega de saudade (Ao Vivo em Montreal)

 

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Merval Pereira - Sem noção

O Globo

Bolsonaro feriu o decoro presidencial e deveria ser punido. Usou o 7 de setembro para fazer campanha

Passou o 7 de Setembro sem maiores danos à democracia. Quer dizer que superamos mais um obstáculo rumo à eleição do próximo presidente da República. O presidente Jair Bolsonaro teve o razoável senso de evitar um enfrentamento com as instituições republicanas, o que mostra que ele não rasga dinheiro quando a situação se aproxima do limite possível dentro da democracia.

Bolsonaro é capaz de cometer um “sincericídio” ao reger um coro de “imbrochável”, é capaz de fazer comparações grosseiras entre primeiras-damas, agora contra Janja, mulher de Lula, anteriormente contra a mulher do presidente francês Emmanuel Macron, mas tem juízo para saber que seu limite havia sido traçado. Tentou confundir as comemorações do Bicentenário da Independência com sua campanha eleitoral, mas não obteve receptividade nem mesmo dos militares, que se arriscaram a ver-se misturados com os bolsominions quando a festa era da Pátria e não foi comemorada à altura pela aleivosia do próprio Bolsonaro, que se utilizou das forças militares e de seus seguidores para dar um tom patriótico de sinal trocado. Não citou uma vez sequer Dom Pedro I.

O verde e amarelo foi mais uma vez usurpado para se transformar nas cores da campanha de Bolsonaro, quando não é possível aceitar que as cores brasileiras sejam sinônimo de qualquer campanha eleitoral. Bolsonaro deu mostras de que não está à altura de ser o presidente da República ao puxar um coro de “imbrochável” em plena Esplanada dos Ministérios. Feriu o decoro presidencial e deveria ser punido por isso, não apenas pelo palavreado chulo, mas também por ter usado a parada de 7 de setembro para benefício de sua campanha.

Míriam Leitão - O dia da infâmia de Jair Bolsonaro

O Globo

Bolsonaro abusou do poder de chefe de Estado, usou recursos públicos para campanha, dividiu o país e, sim, ameaçou com golpe de Estado

Houve o esperado, mas nem por isso é menos ilegal, ilegítimo e perigoso. O presidente Bolsonaro tomou para si o que era coletivo, fez uma apropriação indébita de uma data nacional, usou todos os recursos do Estado em campanha eleitoral. Tudo o que Bolsonaro fez ontem é inaceitável. O golpismo esteve presente nas falas, nos convidados aos quais ele deu mais destaque, nas palavras de ordem dos seus apoiadores, no aparato do qual se cercou com a ambiguidade de sempre. Mas o pior foi que ele repetiu ameaças às instituições.

Bolsonaro deu a demonstração de força que queria dar. Conseguiu levar muita gente para a rua, verdadeiras multidões. Isso era importante para ele, porque estava começando a perder apoio político e financeiro. Pode ter novo fôlego a partir de agora. Por outro lado, terá de enfrentar as consequências jurídicas do dia da infâmia, em que ele transformou o Sete de Setembro.

A fala dele de que recolocará de “volta às quatro linhas quem ousou ficar fora dela” deve ser entendida dentro da realidade paralela de Bolsonaro e seus assessores. Na visão deles, o governo joga dentro das quatro linhas, quem não joga é o Supremo e a imprensa. Por isso, Bolsonaro falou, em Brasília, essa expressão se referindo ao STF e, no Rio, depois de uma fala sobre a imprensa.

Malu Gaspar - Bolsonaro conseguiu o que queria

O Globo

Presidente conseguiu fazer os comícios mais assistidos da história das campanhas eleitorais brasileiras travestidos de atos cívicos

Em fevereiro de 2018, numa entrevista ao jornalista americano Michael Lewis, o guru da extrema-direita Steve Bannon explicitou, com surpreendente sinceridade, sua estratégia para multiplicar a mensagem do trumpismo: “Os democratas não importam”, disse Bannon. “A oposição real é a mídia. E a forma de lidar com eles é inundá-los com nossas merdas”.

A finalidade dessa tática, segundo outra frase de Bannon que ficou famosa, nunca é esclarecer ou impor a verdade: “Não se trata de persuadir, e sim de desorientar”.

O que se viu neste 7 de Setembro foi a execução perfeita do método Bannon por Jair Bolsonaro, num momento crítico da campanha eleitoral. Desde que começou a planejar a comemoração oficial dos 200 anos da Independência e os atos no Rio e em Brasília, o presidente sabia que precisaria deles para demonstrar força.

Também sabia que teria de dominar a atenção do país durante todo o dia para que seus atos não fossem vistos como um fracasso na comparação com os do ano passado, quando ele colocou o Brasil em suspenso com a ameaça golpista mais descarada que já se viu após a redemocratização.

O que seria dito ou feito neste 7 de Setembro dependeria, obviamente, do cenário político e eleitoral. E eis que a conjuntura combinou uma estável e folgada liderança de Lula nas pesquisas com altas taxas de rejeição a ele, Bolsonaro, além do surgimento de novas informações sobre a compra de imóveis em dinheiro vivo por integrantes da família presidencial.

Luiz Carlos Azedo - Para não dizer que não falei do Imbrochável

Correio Braziliense

Bolsonaro não fez ataques diretos ao Supremo e se esforçou para seduzir o eleitorado feminino, que está inviabilizando a sua reeleição. Mas quando falou das mulheres, foi um desastre

Espirituoso, zombeteiro, gracejador, como o próprio apelido diz, o português Francisco Gomes da Silva desembarcou no Rio de Janeiro em 1808, como um dos 15 mil integrantes da Corte que acompanharam a fuga de D. João VI de Portugal. Era filho bastardo de Francisco José Rufino de Sousa Lobato, Visconde de Vila Nova da Rainha, e de sua empregada doméstica Maria da Conceição Alves, uma moça pobre, que foi mandada para a África, enquanto Antonio Gomes da Silva, protegido de Lobato, registrava o menino como filho legítimo.

O pai biológico não abandonou o filho, que estudou no seminário de Santarém, onde aprendeu francês, inglês, italiano e espanhol. Em 1807, acabou expulso pelo reitor e veio com a família real para o Brasil, onde acabou faxineiro do Palácio São Cristóvão.

Chalaça e uma dama da Corte foram flagrados nus num dos quartos do Palácio pelo próprio D. João VI. Expulso de São Cristóvão, onde era visto como espião pela rainha Carlota Joaquina, abriu uma barbearia na rua do Piolho (atual rua da Carioca), mas logo voltou ao serviço da Corte, após o retorno da família real para Portugal, porque era amigo de D. Pedro I.

William Waack - Ofensiva no limite

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro usou todas as armas, mas não conseguiu ainda virar o jogo

No jargão militar a palavra “culminar” significa atingir o ponto máximo, mas sem ter alcançado o objetivo. Nesse sentido, o que aconteceu no 7 de Setembro foi um sinal de que a atual ofensiva de Jair Bolsonaro culminou.

A demonstração de força gerou as pretendidas imagens de nutrido apoio. E a sensação, entre apoiadores de Bolsonaro, de que as pesquisas “mentem”. Como não acreditar que está com a reeleição garantida, se foi capaz de colocar tanta gente na rua?

Manifestações dessa magnitude ajudariam, teoricamente, a virar um jogo eleitoral até aqui desfavorável para Bolsonaro. O problema é a distância em que ele se encontra de um ponto de inflexão em relação a Lula.

Eliane Cantanhêde - O 7 de Setembro pode virar a ‘facada’ de 2022?

O Estado de S. Paulo

As manifestações gigantescas que o presidente Jair Bolsonaro proporcionou para o candidato Jair Bolsonaro à custa do 7 de Setembro e do bicentenário da Independência podem se transformar na facada de 2022, criando um “antes e depois” na eleição presidencial. Ou, em outras palavras, agora é ou vai ou racha.

Como já escrito neste espaço, Bolsonaro se preparou para o “maior espetáculo da Terra”, enquanto a expectativa dos adversários, principalmente do PT, era de que o dia da Pátria, usado como dia de Bolsonaro, fosse o último cartucho, ou munição, ou bala em busca da reeleição.

As próximas pesquisas dirão, mas até lá precisamos nos ater aos fatos: os atos do Rio e de Brasília foram, sim, os maiores já vistos ao longo desta campanha, talvez até de muitas, e cumpriram o objetivo de dar uma baita demonstração de força para uma campanha que vinha cambaleante, ganhando um ponto daqui, outro dali, sem jamais ameaçar o principal candidato, o petista Lula.

Eugênio Bucci* - A pauta ainda pauta

O Estado de S. Paulo

Os fatos que mais mobilizam a opinião pública no debate eleitoral são aqueles descobertos, verificados e reportado pela imprensa profissional

À medida que se aproximam as eleições de outubro, vai ficando mais e mais patente que somos um país atolado em fake news (uma delas nos governa e atazana). Olhe à sua volta e verá. Corre por aí o boato criminoso dizendo que os opositores do presidente da República acalentam um plano de fechar igrejas pelo Brasil afora. Muita gente acreditou. Há, também, aquela história estapafúrdia de que Lula quer acabar com o trabalho por aplicativos, uma propaganda que só serve para aterrorizar.

Entre tantas mentiras industrializadas, a pior é a demonização das vacinas. O alvo não são apenas as da covid-19, mas todas. De onde vem tanta crueldade? Como será que alguém pode fazer isso, mesmo sabendo que vai prejudicar a saúde de gente desavisada? A resposta é tão simples quanto chocante: os patrocinadores da extrema-direita antidemocrática se convenceram de que, se insuflarem a repulsa aos imunizantes, desmoralizarão os cientistas, e, se desmoralizarem os cientistas, fortalecerão a imagem do mitômano que querem ver reeleito. Fanáticos, metidos a salvadores da Pátria, não hesitam em espalhar o pânico. Financiam a ignorância fabricada e sabotam as campanhas de vacinação, que já não alcançam os mesmos patamares do passado. Matam seus conterrâneos e nem ligam.

Mônica Sodré* - O que houve, então, com a nossa democracia?

O Estado de S. Paulo

Não parece exagero afirmar que estamos diante de um processo de autocratização, que se expressa em várias frentes

As democracias são uma conquista civilizatória relativamente recente, de trajetória não linear, e nada garante que vão durar. Hoje, 80% da população mundial vive em países só parcialmente livres ou não livres e o nível de liberdade global tem caído por 16 anos consecutivos.

No Brasil, somos apontados desde 2019 como um dos dez países com maior tendência autocrática do mundo. Há 7 anos deixamos de ser classificados como uma democracia liberal – nas quais há eleições livres, regulares, direitos de expressão e associação e respeito ao Estado de Direito – e caímos uma categoria, sendo classificados como democracia eleitoral pelo Varieties of Democracy (V-DEM), um dos think tanks globais mais prestigiados. No relatório de 2021, figuramos como uma das cinco lideranças globais no processo conhecido como “autocratização”, acompanhados por Hungria, Polônia, Sérvia e Turquia.

A literatura sobre regimes democráticos no mundo nos permite afirmar que estamos diante de uma nova onda de autocratização, cuja característica é singular: ela é lenta e a ruptura democrática se dá gradualmente e sob disfarce legal, num processo que envolve elementos políticos e de justiça. Aqui, não parece exagero afirmar que estamos diante deste processo, que se expressa em várias frentes.

Maria Hermínia Tavares* - O que o Chile tem a ensinar

Folha de S. Paulo

Boric se curvou à vontade dos cidadãos, saudando-a como expressão da democracia

A fala do presidente do Chile, Gabriel Boric, conhecidos os resultados do plebiscito sobre a nova Constituição nacional, o alça ao diminuto rol dos estadistas democráticos que a América Latina conheceu ao longo de sua conturbada e não raro trágica história.

Rejeitado por robusta maioria, o texto era mais do que uma proposta para substituir aquele herdado da ditadura pinochetista (1973-1990) e emendado pelos governos livres que a sucederam. Em mais de três centenas de artigos, expressava a utopia de uma esquerda democrática e renovadora que Boric encarna.

De fato, a sua eleição e a chamada Convenção Constitucional resultaram ambas da imensa vaga de protestos de 2019-2020, que os chilenos chamam de "el estallido" (o estrondo) e que pareceu destroçar um sistema partidário conhecido por sua solidez e previsibilidade.

Vinicius Torres Freire – A massa de Bolsonaro na rua

Folha de S. Paulo

Presidente corrompeu 7 de Setembro, mas é o único político que reúne multidões

O olhômetro é precário, mas a avenida Paulista do 7 de Setembro bolsonarista de 2022 parecia ter pelo menos tanta gente quanto o comício golpista de 2021. Era gente do povo, com cara de metrô lotado às seis da tarde, um tanto diferente daquela que pedia a cabeça de Dilma Rousseff em 2016.

Jair Bolsonaro corrompeu a coisa pública a fim de se apropriar da data nacional, levar multidões às ruas, ocupar quase sozinho o tempo de cobertura jornalística e fazer vídeos de campanha. Teve sucesso.

Bolsonaro poderia, pois, ser objeto de vários processos de crime eleitoral, se houvesse Procuradoria-Geral. Provavelmente não dariam em nada, como tem sido o caso nestes últimos quatro anos, dos pedidos de impeachment que apodrecem no Congresso aos inquéritos que mofam no Supremo. A delinquência de Bolsonaro faz parte da paisagem política. Um sucesso.

O candidato do PL, o partido nacional-mensalista, começou o dia dizendo que 1964 pode se repetir. Fez campanha por meio da TV estatal, aquela que prometera fechar em 2018.

Bruno Boghossian - Os gatilhos de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Presidente usa insinuação golpista para agitar militantes e sustentar imagem de candidato competitivo

Jair Bolsonaro acordou neste 7 de Setembro com um golpe de Estado na cabeça. Ainda no café da manhã, o presidente tentou agitar seus apoiadores com uma lista de "momentos difíceis" do passado. Citou revoltas, o impeachment de 2016, a eleição de 2018 e também o ano de 1964, que inaugurou a ditadura militar. "A história pode se repetir", emendou.

Não era um alerta, era uma promessa. Bolsonaro incorporou insinuações de ruptura à plataforma de sua campanha. Depois de cultivar ameaças de atropelar as regras e ampliar seus poderes, o presidente pediu um segundo mandato para fazer exatamente isso, à moda de outros autocratas contemporâneos.

Mensagens desse tipo se tornaram um ativo eleitoral importante para Bolsonaro. Elas servem para reforçar o figurino de adversário do sistema político e, principalmente, manter seus apoiadores mobilizados num momento em que sua chance de vencer no voto não é das maiores.

Thiago Amparo - Imbrochabilidade ou prisão

Folha de S. Paulo

A nação imaginada por Bolsonaro é composta por homens de bem com pânico de brochar, mulheres como meros adereços políticos e oponentes extirpados

A nação imaginada por Bolsonaro é composta por homens de bem com pânico de brochar, mulheres como meros adereços políticos e oponentes extirpados. O panteão bolsonarista do 7 de Setembro --burlesco e descontrolado como um paraquedista caindo desgovernado entre os prédios de Copacabana-- é mais fiel à história do país como ela de fato ocorreu do que o ufanismo do quadro mítico "Independência ou morte!", de Pedro Américo, de 1888.

A cafonice da motociata de Bolsonaro faz as vezes do burro sobre o qual d. Pedro 1º devia estar assentado (e não no cavalo imponente do quadro de Américo) naquele 7 de setembro. Sobre isso, ver o novo livro de Schwarcz, Junior e Stumpf, "O Sequestro da Independência".

Fernando Exman - Aposta na inação da Justiça Eleitoral impulsiona campanhas

Valor Econômico

Bolsonaro aproveitou-se da estrutura montada para a comemoração do Bicentenário da Independência e realizou dois atos de campanha

Mês passado, às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e televisão, um aliado do presidente Jair Bolsonaro previu a interlocutores que não demoraria para que as candidaturas presidenciais lançassem mão de estratégias que sabidamente poderiam colidir com a legislação eleitoral. Seria inevitável, disse ele, que os postulantes ao Palácio do Planalto incorressem em alguma conduta questionável de forma consciente, com o simples propósito de produzir imagens para a campanha. O importante seria assegurar a produção de material audiovisual que pudesse ser veiculado pelo menos uma vez na TV e depois replicado, de forma incontrolável, na internet.

Em outras palavras, diante da perspectiva de que a Justiça Eleitoral pouco poderia fazer para impedir eventuais irregularidades ou até mesmo puni-las depois que elas fossem cometidas, os candidatos fariam um cálculo de custo-benefício e possivelmente escolheriam se arriscar. Foi o que se viu nesta quarta-feira.

Maria Cristina Fernandes - A virilidade de um acuado

Valor Econômico

Bolsonaro coloca-se em primeiro plano para deixar o Brasil em segundo

Foi um presidente acuado que subiu ao palanque para conclamar sua própria virilidade no palanque do 7 de setembro. No ano passado estava sob cerco do Judiciário. Permanece, haja vista a ausência dos chefes de Poderes no palanque da parada militar, mas quem, de fato, o acua este ano - e mais compromete seu futuro - é o eleitor. Nenhuma pesquisa séria considera sua reeleição o cenário mais provável.

O presidente Jair Bolsonaro afrontou não apenas o Estado, mas a nação aniversariante e a Justiça Eleitoral ao fazer do Bicentenário um palanque. Nem se tivesse xingado os ministros, como o fez no ano passado, teria afrontado tanto o TSE. Teve extensa cobertura ao vivo das TVs e redes sociais, numa flagrante desigualdade de exposição em relação aos demais candidatos. A 26 dias da eleição, porém, dificilmente sete ministros serão capazes de tirá-lo do jogo. No limite, o impedirão de usar as imagens no horário eleitoral.

Em 2021, o ministro Alexandre de Moraes, comandante do inquérito dos atos antidemocráticos, era o “canalha”. Este ano, Bolsonaro chamou para si o atributo. Depois dos ataques em série a mulheres jornalistas, é possível que Bolsonaro enxergue uma valoração eleitoral na definição, supostamente autorreferenciada, de “imbrochável”. Sua nora, Heloisa Bolsonaro, foi orientada no mesmo sentido, dias atrás, quando, num evento em Porto Alegre, conclamou a submissão das mulheres aos maridos.

Cristiano Romero* - 2023: a importância da lua de mel

Valor Econômico

Dilma ignorou capital político da reeleição

No Brasil, a lua de mel de presidentes eleitos com os eleitores e a classe política, inclusive, com os partidos aliados que apoiaram sua chegada ao poder, dura muito pouco tempo, em geral, apenas 12 meses. No segundo ano do mandato, há eleições municipais, e estas, embora intrinsecamente ligadas a questões locais, funcionam como um teste de popularidade e força política do primeiro mandatário. Ademais, a escolha do prefeito de São Paulo, terceiro orçamento do país, menor somente que o da União e o do governo paulista, tem sempre repercussão nacional.

Todos os presidentes eleitos desde o retorno da eleição direta, em 1989, usaram o primeiro ano de mandato para propor, ao Congresso Nacional, agenda de mudanças institucionais. A única exceção foi Dilma Rousseff, em seu segundo mandato (2015-2016) - no início do primeiro (2010-2014), a presidente, a menos ambiciosa em termos de propostas, encaminhou a regulamentação da reforma da Previdência aprovada em 2003, igualando as regras de aposentadoria entre funcionários públicos contratados a partir dali e as do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que regem a previdência dos trabalhadores do setor privado, e iniciou a privatização dos aeroportos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Manifestações foram mais do mesmo e não ‘Dia D’

Valor Econômico

Atos políticos de ontem não parecem ter muita força para acelerar a ascensão de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro nada fez para as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil que não fosse em proveito próprio, eleitoral. Bolsonaro reduz a nação a sua pessoa e os interesses nacionais aos de sua família e de sua facção radical antidemocrática. Ontem, em Brasília, o presidente deixou de lado a data e saiu à caça de votos, além de puxar um inacreditável coro autocongratulatório de “imbrochável”. Em 200 anos de festejos alusivos à data nunca se viu nada igual. O bicentenário serviu de paisagem para novas pregações eleitorais do presidente, que continua atrás nas pesquisas e pode ser derrotado nas eleições de outubro.

Institucionalmente, para os festejos não moveram uma palha os ministérios da Educação e a rebaixada secretaria da Cultura, sucessivamente ocupados por ideólogos incompetentes. Nada se poderia esperar de uma pasta que teve um ministro que disse que os brasileiros eram “canibais”, quando queria dizer que eram cleptomaníacos (o que não melhora as coisas), e um secretário que imita o nazista Goebbels.

Bolsonaro convocou seus apoiadores, que o atenderam em manifestações pacíficas e concorridas, especialmente em Brasília, para, “pela última vez”, declarar um basta às ações do Supremo Tribunal Federal, em defesa da “liberdade”, na versão peculiar do presidente - ausência de limites para os que pensam como ele. Bolsonaro completou em entrevista à TV Brasil, no início do dia, seu ideário de sempre: contra a liberação das drogas, a legalização do aborto e a ideologia de gênero. Mais tarde, deu uma estocada indireta no STF, citou datas em que houve crises institucionais, disse que “a história pode se repetir”, mas com final feliz: “O bem sempre venceu o mal”. E, claro, atacou diversas vezes seu rival Lula e o PT.