domingo, 24 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Ondas de calor pressionam o setor elétrico

O Globo

Técnicos temem que oferta de energia não seja capaz de atender à demanda crescente em 2025

Com os termômetros acima dos 40 °C e a sensação térmica em patamares superiores a 60 °C, o consumo de energia dispara. Apagões se sucedem país afora, e o sofrimento dos moradores da região central de São Paulo, alguns às voltas com mais uma semana de interrupção no fornecimento, é apenas o drama mais recente. Ao mesmo tempo, surge a preocupação com a capacidade de o sistema elétrico resistir ao crescimento de demanda. Neste momento de virada de estação, do verão para o outono, com temperaturas recordes, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem aumentado a previsão de crescimento da demanda de março, um salto próximo de 6% ante o mesmo mês do ano passado.

De acordo com o ONS, todas as regiões consumirão mais energia neste mês em relação a março de 2023: Nordeste, 8,8%; Norte, 8,5%; Sudeste/Centro-Oeste, 5,8%; Sul, 1,5%. No último dia 15, o consumo bateu o recorde do ano, com 102.477 megawatts (MW). Na superfície, a situação parece sob controle. As hidrelétricas respondem por mais da metade da produção de energia, e a geração eólica e solar, somadas, mais de 20%. Não se pode esquecer, porém, que a geração no Brasil continua dependendo de chuva no momento certo, na região certa. As oscilações do clima, que vieram para ficar, não dão uma garantia firme de que isso aconteça.

Luiz Sérgio Henriques* - 1964, o passado que não passa

O Estado de S. Paulo

É preciso reconhecer que há estrada a percorrer antes que se possa constatar, com serena confiança, o amadurecimento democrático das forças fundamentais da esquerda brasileira

Há longos 60 anos, a rememoração dos “idos de março” tem atormentado a memória e pesado como capa de chumbo sobre os pósteros e os cada vez mais raros sobreviventes. Culpa irremissível – dirão – da conciliação em torno da anistia ou da obediência aos ditames da abertura tal como formulada por próceres da ditadura. Como se sabe, na sua formulação original, ela deveria ser “lenta, segura e gradual”, numa espécie de retirada ordenada que estrategicamente sempre constitui feito de notável valor para os que estão na defensiva.

O fato é que mesmo quem discorda, no todo ou em parte, desta avaliação negativa do processo de abertura, afirmando ao contrário que foi muito além da intenção daqueles próceres, não consegue por vezes esconder certo desconforto. É como se fatos e personagens de outro tempo se recusassem teimosamente a deixar o terreno da política para passarem à História, âmbito no qual os dramas, sem ser cancelados, admitem tratamento analítico, se não menos apaixonado, pelo menos mais rigoroso. Vigoraria também em nosso contexto a intuição poética de um William Faulkner, pela qual, na verdade, o passado nunca está morto e nem sequer é passado.

Elio Gaspari - Dois americanos de 1964

O Globo

Os 60 anos da deposição do presidente João Goulart são um bom pretexto para lembrar o papel de diplomatas que tiveram papel relevante naqueles dias

Os 60 anos da deposição do presidente João Goulart são um bom pretexto para lembrar o papel de dois diplomatas americanos que tiveram papel relevante naqueles dias. Um é Lincoln Gordon, o professor de Harvard que o presidente John Kennedy mandou para o Brasil em 1961 como seu embaixador. Falava muito, sempre. Adquiriu tamanha proeminência que o jornalista Otto Lara Resende propôs: “Chega de intermediários, Gordon para presidente.”

O outro é Thomas C. Mann, ex-embaixador no México e secretário de Estado adjunto a partir de dezembro de 1963. Esteve em todas: na armação do golpe que derrubou o presidente da Guatemala em 1954, foi uma das molas do desembarque de tropas americanas na República Dominicana, em 1965, e deixou digitais nos golpes do Brasil e da Bolívia. Atribui-se a ele o que seria a Doutrina Mann de apoio a governos militares na América Latina. Falava pouco.

Mann era um texano conservador e resolvido. Os liberais detestavam-no e a recíproca era verdadeira. Gordon era um liberal atormentado e os dias de 1964 fizeram dele uma figura trágica. Morreu em 2009, aos 96 anos, repetindo que, ao colaborar com a queda de Jango, não preconizava a ditadura. De fato, condenou-a, mas ninguém o ouvia.

Na sua cerimônia fúnebre, a filha Anne lembrou: “Apesar de ter sido um democrata progressista que apoiou o New Deal de Franklin Roosevelt, (....) na minha opinião seu antagonismo diante dos movimentos reformistas de esquerda, foi imediatista e acabou prejudicando o povo da região.”

Míriam Leitão - Cid, os golpes e o governo Lula

O Globo

O governo precisa administrar bem o país, e não ficar olhando ponteiro de pesquisa, e assim marcar diferença com o mandato que usou a máquina apenas para preparar um golpe

Quando o tenente-coronel Mauro Cid chegou para depor na sexta-feira, às 13 horas, diante do juiz auxiliar de Alexandre de Moraes, a Polícia Federal já havia representado contra ele junto ao próprio STF. E o país estava dividido novamente, agora sobre se os áudios postados pela revista “Veja” desmoralizavam ou não a delação. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, me disse, na sexta de manhã, que a PF viu com gravidade “o que as falas acusam”. Contou que havia representado ao STF para que se esclareça “já que fomos levianamente acusados”. E completou: “Ninguém acusará a PF e o STF dessa forma e ficará incólume.” De tarde, Cid terminou o depoimento preso e com o celular apreendido. O que tudo isso informa sobre a situação política atual?

Merval Pereira - O STF em seu domínio

O Globo

O STF tem que criar um mecanismo que evite conflitos desnecessários

Estamos numa situação em que, passada a maluquice de Bolsonaro, já está na hora de dar um passo atrás. Uma linha tênue, num caso desses, é possível poder concordar. Quando o Supremo abre uma porta, e em outras ocasiões passam soluções com as quais não concordamos, é um problema. O Supremo tem que criar padrões que ele mesmo tem que respeitar.

O STF tem que criar um mecanismo que evite conflitos desnecessários. Nos Estados Unidos chamam de rightness, em que a causa não está madura. O país tem uma diversidade de opiniões, e o Congresso reflete isso, é conservador e em determinados momentos retrógrado.

Se você não aceita a decisão do legislador, tem que mudar o legislador. Isto é, mudar o Congresso. Senão, no fundo, você não acredita na democracia. Na França, a aprovação do aborto na Constituição teve mais de 80% de votos. Aqui no Brasil, um ministro do Supremo disse em uma palestra que, aqui, nem voto para aprovar uma lei têm.

José Eduardo Agualusa - As forças da desordem

O Globo,23/03/2024

Numa democracia saudável é importante que exista espaço para a direita e para a esquerda, para convergências, para divergências

O triunfo do Chega nas recentes eleições em Portugal não foi uma surpresa. Porém, doeu a muitos como se fosse. A ideia romântica de que Portugal estaria, de alguma forma mágica, protegido do avanço da ultradireita, caiu por terra com escândalo e fragor.

Como em tantos outros países, incluindo o Brasil, a ascensão da ultradireita prejudicou em primeiro lugar os movimentos conservadores tradicionais. Antes de Donald Trump ser um nome conhecido no mundo, havia em Portugal uma direita urbana e civilizada, com personalidades amáveis e de grande cultura, respeitadas por toda a gente, como Diogo Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires ou Adriano Moreira.

Bernardo Mello Franco - Cem dias de motosserra

O Globo

Choque imposto por novo governo anima mercado, mas agrava crise social na Argentina

Javier Milei completou cem dias no poder sem desligar a motosserra. Ao celebrar a data, o presidente argentino reforçou a aposta no confronto e na divisão. Insultou adversários políticos, repetiu a pregação contra a “casta” e ameaçou retaliar os congressistas que votarem contra seus interesses. “São inimigos da sociedade”, sentenciou.

Eleito com discurso ultraliberal, Milei prometeu um choque para reduzir o tamanho do Estado e acabar com o déficit público. Seu pacote animou o mercado, mas agravou a crise social. A inflação, que já era alta, disparou nos primeiros dois meses de governo. Os salários perderam valor, as famílias foram obrigadas a cortar despesas básicas, e a pobreza passou a atingir 57% da população — o maior patamar em mais de duas décadas.

Dorrit Harazim - Idos de março

O Globo

Temos motivos em dobro para temer turbulências climáticas assustadoras. Vivemos o Antropoceno, cria nossa

Não estamos na Roma Antiga, nem no longínquo ano de 44 a.C., em que Júlio César foi esfaqueado 23 vezes. Ainda assim, o verso shakespeariano “cuidado com os idos de março” continua a ter mil e uma utilidades. Naquele 15 de março de outrora, contava-se que até o Sol desaparecera — não apenas brevemente, como num eclipse, mas por um ano inteiro. Exagero de uma superstição da era pré-científica? Conexões imaginárias da mente humana da época? Até que não. Em 1983, dois cientistas do Instituto Goddard de Estudos Espaciais publicaram um trabalho de História interdisciplinar que explica boa parte do que os romanos vivenciaram. Hoje, apesar de uma compreensão mais aguçada dos fenômenos que nos cercam, temos motivos em dobro para temer turbulências climáticas assustadoras. Vivemos o Antropoceno, cria nossa. E não há como fugir dele. Na semana passada, foi a vez de as regiões Sul e Sudeste serem mantidas em alerta máximo diante da previsão de tempestades bíblicas.

Luiz Carlos Azedo - Inquérito do golpe de Bolsonaro pode resultar em nulidades

Correio Braziliense

Não se sabe quem vazou os áudios de Mauro Cid, mas os principais beneficiados são o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais denunciados pelo ex-ajudante de ordens

Até o chamado “Mensalão”, que resultou de uma denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de que haveria na Casa Civil da Presidência um esquema de compra de votos de votos na Câmara para apoiar o governo Lula, quase não se tinha precedentes de deputados federais e senadores condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Seus processos eram mantidos em sigilo de justiça; a maioria dos réus acabava absolvida por falta de provas, erros processuais ou se livrava de condenação por decurso de prazo.

Jefferson era acusado de participar de licitações fraudulentas nos Correios que originaram uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI, na qual deputados e senadores investigaram e puniram os próprios colegas, em 2006. Lula negou que soubesse do Mensalão. O próprio Roberto Jefferson o poupou das acusações. Enquanto seus homens fortes caiam, Lula conseguiu se reeleger, em 2006.

Eliane Cantanhêde - Cid: armadilha ou conluio?

O Estado de S. Paulo

Xandão não é Moro, Gonet não é Aras, a PF não é boba. Logo, áudios de Cid não são a ‘Vaza Jato’

Os áudios do tenente-coronel Mauro Cid acusando o ministro Alexandre de Moraes e a Polícia Federal de usá-lo só para confirmar uma “sentença já definida” e uma “narrativa pronta” podem ser comparados a uma “Vaza Jato” dos vários inquéritos contra Jair Bolsonaro, seus ministros, generais e aliados. A “Vaza Jato” definiu (ou foi o pretexto para) o fim da Lava Jato. Os bolsonaristas tentam agora usar as gravações de Cid para anular tudo o que já está amplamente provado sobre, por exemplo, a trama do golpe de Estado.

O objetivo da Vaza Jato e dos áudios é o mesmo: disseminar que os processos foram viciados, impregnados de interesses políticos. A Vaza Jato revelou mensagens entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato e deu certo. Com os áudios de Cid, dará? Xandão não é Sérgio Moro, no currículo, na personalidade, nem no trânsito político. E Paulo Gonet não é um Augusto Aras na PGR.

Rolf Kuntz - Novo país, só com novo crescimento

O Estado de S. Paulo

Se quiser produzir, em seu governo, um legado relevante, o presidente Lula terá de se empenhar nestes dois investimentos, o físico e o social

O morticínio em Gaza, a guerra na Ucrânia e as lambanças atribuídas ao ex-presidente Jair Bolsonaro são muito mais interessantes que a pífia taxa de investimento – 14,7% do Produto Interno Bruto (PIB) – estimada para o mês de janeiro pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mas os cricris da imprensa, da Faria Lima e da academia podem apontar mais um detalhe sinistro. Além de pífia, essa taxa é menor que a mísera média mensal, de 16,3%, do período iniciado em janeiro de 2015. O presidente Lula pode ter excelentes motivos, ainda mais como presidente do Grupo dos 20, para dar mais atenção àqueles assuntos do que a uns números medíocres. Ministros da área econômica talvez possam, ou devam, gastar algum tempo com essas ninharias. Mas serão, mesmo, ninharias?

Celso Ming - Sob o domínio do medo

O Estado de S. Paulo

O medo é o mais primário sentimento do ser humano. Move o mundo, espalha destruição e vai produzindo monstros, como o Leviatã, denunciado pelo filósofo Thomas Hobbes.

A história universal nos vai repassando inúmeros fatores de medo que extrapolam os indivíduos, tomam corpo coletivo e produzem consequências: medo da guerra, da fome, da peste, da morte, dos terremotos, de assalto, do diabo, das bruxas, do estrangeiro, da mulher, da solidão, medo do fim do mundo.

O noticiário diário está carregado de manifestações equivalentes. Por toda parte chegam reações hostis ao grande afluxo de imigrantes e de refugiados. O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, quer aniquilá-los. As levas de africanos diariamente despejados no litoral da Europa vêm fortalecendo movimentos xenofóbicos em países que se julgavam culturalmente avançados e livres de preconceitos selvagens desse tipo.

Celso Rocha de Barros - Lula deve recalibrar Lula

Folha de S. Paulo

Presidente deveria falar menos de Bolsonaro e buscar falar diretamente com evangélicos

A popularidade do governo caiu. O Datafolha de sexta-feira mostrou que a aprovação de Lula (35%) está mais ou menos empatada com sua rejeição (33%). Não é um resultado ruim, mas piorou desde o ano passado.

Muita gente correu para colocar a culpa na área de comunicação do governo, em especial no ministro Paulo Pimenta. Não há dúvida de que há o que melhorar. Mas o trabalho da Secretaria de Comunicação é apenas uma pequena parte da comunicação do governo.

É Lula quem faz a maior parte do trabalho. Quando ele fala, é o governo falando. É dele que cobramos explicações quando algo dá errado. Por isso, quem tem mais margem de manobra para melhorar a comunicação do governo é o próprio presidente.

Igor Gielow - Atos desconexos retratam dilema da polarização à frente do atual presidente

Folha de S. Paulo

Presidente aposta em Bolsonaro como espantalho, mas receita mostra sinais de exaustão

Os previsivelmente desconexos e esvaziados atos da esquerda contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) neste sábado (23) são menos relevantes no contexto das potencialidades dos campos rivais da polarização brasileira, mas retratam um dilema colocado à frente de Lula (PT).

Desde que assumiu o governo, com a grande ajuda dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o presidente aposta sistematicamente na divisão do eleitorado para manter sua base de apoio magnetizada.

Bolsonaro, mesmo tendo perdido os direitos políticos até 2030, é tratado como ameaça existencial. Com isso, o governo gira politicamente em torno da manutenção desse espantalho. Nada de novo aqui: o ex-presidente fez o mesmo com Lula ao longo de seu mandato.

Não só: ambos os líderes jogam uma partida de retroalimentação da importância do rival. O resultado fica evidente na constante polarização do país registrada pelo Datafolha, que na mais recente pesquisa mostrou o mesmo nível de divisão do eleitorado —no caso, 41% se dizem muito ou algo petistas, 30% o mesmo no registro bolsonarista.

Muniz Sodré* - A política no pântano

Folha de S. Paulo

Massa falida e as oligarquias pactuam com uma forma sociopata de liderança

Na cerimônia do Oscar, o apresentador Jimmy Kimmel rebate uma crítica de Trump: "Já não está na hora de você ir para a cadeia?". Se avaliada em termos tradicionais, seria resposta moralmente arrasadora a um ex-presidente americano, novamente candidato, bancando papagaio de pirata online no evento de teledifusão mundial que é a maior premiação cinematográfica dos EUA.

Hoje, o cardápio trumpista de política despreza a moral, a vergonha própria e prospera na metabolização da repulsa dos adversários, mais do que na afeição dos adeptos, pois esse é o combustível do seu ódio.

Bruno Boghossian - Beco sem saída

Folha de S. Paulo

Pragmatismo faz parte do jogo, mas esquerda precisa forçar debate e enfrentar agenda na segurança pública

Qualquer presidente de esquerda sabe que governar com um Congresso de direita significa escolher algumas batalhas e abrir mão de muitas outras. O pragmatismo é parte do jogo, mas só uma overdose de resignação é capaz de transformar brigas perdidas em presentes generosos para a oposição.

O governo entregou os pontos na votação do projeto que restringe a saída temporária de presos, aprovado na Câmara e no Senado. Sob o argumento de que aquele não era um tema de interesse do Planalto, os líderes de Lula no Congresso cederam a adversários um raro momento de protagonismo nacional numa área considerada delicada.

Vinicius Torres Freire - Aborto e drogas, aberração nacional

Folha de S. Paulo   

Descriminalização perde mais apoio, diz Datafolha; ideologia explica pouco das atitudes

Os brasileiros ficaram ainda menos propensos a aceitar mudanças em leis sobre aborto e a posse de um pouco de maconha, diz pesquisa Datafolha de março. Por exemplo, 67% acham que a posse de pequenas quantidades de maconha não deveria deixar de ser crime (ante 61% em setembro de 2023).

A maioria dos brasileiros está mais "conservadora" ou inclinada a apoiar a restrição de direitos individuais? Conservador ou antiliberal em relação a quê?

Datafolha de maio de 2022 que investigou opiniões sobre economia e comportamento registrava que 49% dos eleitores eram de esquerda, a maior taxa em nove anos; 34% eram de direita. Para 83%, o uso de drogas deveria ser proibido, 61% eram contra a pena de morte, 79% diziam que a "homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade". Para 63%, a posse de armas deve ser proibida.

Hélio Schwartsman - Olhe de novo

Folha de S. Paulo

Livro destrincha os efeitos psicológicos da habituação e defende que aprendamos a nos desabituar

A Lava Jato não passa de uma criação da CIA. Essa asserção e variantes são demonstravelmente falsas, mas petistas as repetem tão amiúde que já há quem as tome por verdadeiras. O nome do fenômeno é "efeito da verdade ilusória", que pode ser definido como a tendência de acreditar que informações falsas estão corretas após exposição repetida. Incrivelmente, funciona.

"Look Again" (olhe de novo), de Tali Sharot e Cass Sunstein, explica essa e outras facetas da habituação, um dos mais fascinantes atributos da psique humana. Tecnicamente, a habituação é uma forma de aprendizado, caracterizada pela diminuição da intensidade com que respondemos a um estímulo à medida que a exposição se prolonga. A habituação é uma bênção e uma maldição.

José Paulo Cavalcanti Filho* - Camões, 500 anos

Revista Será?

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos, quando possível, às vezes em troca de gorjeta. Ou comida. 

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda que sugira começos de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524, agora completando essa data 500 anos. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Elis Regina - O Mestre-Sala dos mares (João Bosco e Aldir Blanco)

 

sábado, 23 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Calamidade no saneamento perdura no Brasil

O Globo

Ao enfraquecer legislação, governo contribuiu para manter população em condição insalubre por mais tempo

É desolador o quadro traçado no último ranking sobre o saneamento nas cem maiores cidades brasileiras do Instituto Trata Brasil. No ritmo verificado pelo estudo — alta de 55,8% para 56% na coleta de esgoto e de 51,2% para 52,2% no tratamento —, a universalização levará décadas, com consequências nefastas para a população e para o meio ambiente. Diariamente, o equivalente a mais de 5,2 mil piscinas olímpicas de eflúvios sem tratamento é despejado na natureza. Das 20 cidades com pior classificação, 11 estão nesse grupo há dez anos.

Os 20 municípios mais bem colocados estão espalhados pelo Brasil. Maringá (PR) está em primeiro lugar. São Paulo, em sétimo, é a capital na melhor situação. Uberlândia, em quinto, é a melhor cidade em Minas Gerais, e Niterói, em sexto, no Rio. Em comum, essas cidades investiram e investem altos valores per capita em saneamento. Não existe outra alternativa para a insalubridade.

Carlos Góes - O fim do milagre chinês?

O Globo

Talvez você tenha lido alguma notícia sobre a crise migratória na fronteira dos Estados Unidos com o México. Mas eu duvido que o leitor consiga adivinhar a nacionalidade que teve mais crescimento no número de detenções migratórias: os chineses.

Ao fim de 2023, o número de imigrantes chineses detidos na fronteira era quase 600% maior do que no mesmo período do ano anterior. Mas como há um crescimento percentual tão forte no número de pessoas que estão saindo de um país que está a 11 mil quilômetros para imigrar por terra? Eu, que moro nesta fronteira, também me fiz essa pergunta.

Pablo Ortellado - Hipocrisia americana

O Globo

A esperança é que o Senado pare e reflita sobre os vários impactos da proibição do aplicativo nos Estados Unidos

Na semana passada, a Câmara dos Estados Unidos aprovou com folgada maioria um projeto de lei que obriga a empresa chinesa ByteDance a vender o TikTok ou a sair do mercado americano. O projeto ainda precisa da aprovação do Senado, mas a votação muito expressiva na Câmara, com raro apoio bipartidário, mostrou que a proposta tem boas chances de prosperar. Biden sinalizou que, uma vez aprovado o projeto, não o vetará. Se implementada, a medida consolidará uma perigosa dinâmica de balcanização do mercado de tecnologia, seguindo divisões geopolíticas.

O banimento do TikTok foi proposto por um deputado republicano sob a alegação de que a difusão de um aplicativo controlado por uma nação adversária dos Estados Unidos trazia riscos à segurança nacional. No debate, dois tipos de argumento se destacaram. O primeiro é que a ByteDance, por ser chinesa, responderia em última instância ao Partido Comunista da China e poderia, a qualquer momento, transferir dados de cidadãos americanos ao governo chinês. Além disso, alegou-se que o TikTok poderia alterar o algoritmo de apresentação dos vídeos na plataforma, manipulando o debate político nos Estados Unidos.

Eduardo Affonso - Um cálculo estrutural

O Globo

Bolsonaro seria fruto de uma engrenagem perversa, análoga àquela que gera machistas estruturais, racistas estruturais

Já não há mais qualquer dúvida (se é que algum dia houve) de que Jair Bolsonaro tenha tramado, costurado, alinhavado e arrematado um golpe — não consumado por motivos de incompetência (sem trocadilho) generalizada. Diante dos depoimentos prestados à Polícia Federal por ex-colaboradores e das provas encontradas em gavetas e celulares, não lhe será possível recorrer à tradição milenar de negar até o fim, contra todas as evidências. Nem reabilitar a tática que se popularizou há alguns anos e alegar que o golpe não era seu, mas de um amigo.

Carlos Alberto Sardenberg - Aniversários, de vida e de morte

O Globo

Judiciário não apenas abateu a operação de Curitiba, mas afastou do cenário todo o sistema de combate à corrupção

A Lava-Jato estaria completando dez anos se não tivesse sido abatida pelo Judiciário, incluindo, principalmente, o Supremo Tribunal Federal. Não apenas abateu a operação de Curitiba, mas afastou do cenário todo o sistema de combate à corrupção.

Formou-se uma ampla aliança de políticos dos velhos métodos, da direita à esquerda, com empresários, todos apanhados em corrupção, para interromper a Lava-Jato e, mais, eliminar seus efeitos. Condenações à prisão, multas, devolução de dinheiro, acordos de leniência, tudo isso vem sendo anulado. Ninguém foi absolvido. Simplesmente os processos foram anulados, com base no cipoal de formalidades da Justiça. Provas, mesmo evidentes, foram declaradas imprestáveis.

Esse pessoal, portanto, comemora uma morte.

Mas há quem lamente. São aqueles — entre os quais me incluo — que observam nesse retrocesso a volta da velha política e do capitalismo dos amigos. Nesse regime, prosperam não as empresas mais produtivas, mas as que pagam as maiores propinas.

Bolívar Lamounier* - Ainda a reforma política

O Estado de S. Paulo

Sem Plano Marshall, com imprestáveis partidos e nenhuma liderança comparável à de De Gaulle ou Mário Soares, entre nós o semipresidencialismo resultaria numa sesquipedal anarquia

Não expressarei desânimo, porque não é de meu feitio, mas cautelas e advertências sempre se fazem necessárias. Uma breve vista d’olhos sobre o atual cenário brasileiro permite discernir ao menos cinco riscos e entraves a meu juízo incontrovertíveis:

1) a chance de retomarmos o crescimento econômico com rapidez e em bases sustentáveis é muito menor que a acelerada subida do nível de conflitos na sociedade, perceptível, desde logo, pelo aumento da criminalidade e por aberrações como o recorde do feminicídio atingido em 2023;

2) incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o Brasil não percebe que poderá despencar num buraco profundo dentro de 15 ou 20 anos; refiro-me, aqui, à “armadilha do baixo crescimento”;

3) para superar a mencionada armadilha, não basta aumentar o investimento e, além do mais, não conseguiremos fazê-lo na escala necessária;

4) isso posto, além de aumentar o investimento e a produtividade do trabalho, teremos de fazer, gostando ou não, reformas enérgicas na máquina do Estado, fortalecer o setor privado e aumentar, sem vacilação, o nível de abertura da economia ao exterior (comprar mais e vender mais);

5) além das reformas acima referidas, de caráter estrutural, teremos de reformar o sistema político, embora saibamos que a Constituição de 1988 bloqueou quase tudo o que poderíamos imaginar a esse respeito.

Oscar Vilhena Vieira* - Pessoa jurídica não tem cor

Folha de S. Paulo

STF contribui para reduzir a detecção de violações nas relações de trabalho

Em 1905, a Suprema Corte norte-americana declarou inconstitucional lei do estado de Nova York que estabelecia limites à jornada de trabalho nas panificadoras. Para a maioria dos juízes, a legislação consistia numa interferência inaceitável no "direito de livre contratação entre empregadores e empregados". Não caberia ao estado, mesmo sob o fundamento de proteger o bem-estar dos trabalhadores, interferir na autonomia da vontade dos contratantes. Coube ao grande juiz Oliver W. Holmes, pai do realismo jurídico, apontar que seus colegas estavam transformando suas opiniões sobre a economia em direito.

Alvaro Costa e Silva - PL passa com louvor na prova do golpe

Folha de S. Paulo

Chefe do partido milionário, Valdemar acusa deputados e Bolsonaro

Baseado nas informações de que a estrutura do PL foi utilizada para manter Bolsonaro no poder após a eleição de Lula, o Ministério Público de Contas junto ao TCU pediu a inclusão do partido como réu numa ação civil que solicita que os envolvidos em atos golpistas sejam condenados a pagar R$ 100 milhões. Para a maioria dos mortais, é uma fortuna. Para o grupo chefiado por Valdemar Costa Neto –que só de fundo para as eleições municipais tem à disposição R$ 863 milhões–, é troco.

O que se deduz das investigações da Polícia Federal é que o PL se qualifica como um dos eixos do golpe civil-militar que deu com os burros n’água. Um plano que, apesar da febre negacionista que hoje acomete seus articuladores e defensores, poderia sim ter se desfechado, com consequências previsíveis, uma das quais o fechamento do Congresso.

Dora Kramer - Questão de estilo

Folha de S. Paulo

Nísia e Lewandowski não se encaixam nos perfis ideais aos cargos que ocupam

Na turbulência que assola o Ministério da Saúde, o presidente da República acerta em dois pontos: na resistência em ceder às pressões para abrir a pasta ao balcão de negócios e nas cobranças que faz por melhoria no desempenho.

Luiz Inácio da Silva deu respaldo a Nísia Trindade contra o apetite de governistas e oposicionistas que pretendem derrubar a ministra para tomar posse da poderosa estrutura. Isso não a exime de fazer frente à cobrança de Lula.

Hélio Schwartsman - O presidente e os puxa-sacos

Folha de S. Paulo

Em 2022, antes da posse, Lula pediu para ser criticado, afirmando que não precisava de tapinhas nas costas

Lula criticou a imprensa, que qualificou ironicamente como "gloriosa" e "democrática". Para o presidente, os meios de comunicação não divulgam adequadamente as realizações de seu governo. Ele pediu então a seus ministros que o façam.

A declaração contrasta com uma outra, de dezembro de 2022, dada entre a eleição e a posse. Ali, falando a simpatizantes, ele pediu para ser criticado: "Eu sei que vocês vão continuar nos ajudando e cobrando. Isso é importante. Não deixem de cobrar. Porque se vocês não cobram, a gente pensa que está acertando.E muitas vezes a gente está errando e continua errando porque as pessoas não reclamam. Vou dizer em alto e bom som. Nós não precisamos de puxa-sacos. Um governo não precisa de tapinhas nas costas".

Demétrio Magnoli - O STF diante do golpe de verdade

Folha de S. Paulo

Julgamentos dos líderes do golpe dirão quem somos como nação

Sabemos, hoje, que o golpe de verdade seria assestado em dezembro de 2022, não no 8 de janeiro de 2023. A trama foi virtualmente desvendada, por meio de provas documentais e testemunhais. O que o STF fará com os golpistas?

Compara-se, geralmente, o 8 de janeiro de Brasília com o 6 de janeiro de 2021 de Washington, o dia da invasão do Capitólio pelas hordas de Trump. As semelhanças saltam à vista de todos: um presidente autoritário contestando sua derrota eleitoral, a invasão dos edifícios-símbolos do poder democrático por uma turba de vândalos. Contudo, há uma diferença crucial entre os dois eventos: no 6 de janeiro deles, Trump ainda ocupava a Casa Branca; no nosso 8 de janeiro, a presidência já havia sido transferida a Lula.

Luiz Gonzaga Belluzzo*- Economias e insatisfações crescem

CartaCapital

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos

As pesquisas de opinião apontam insatisfação dos cidadãos americanos e brasileiros com suas vidas, a despeito do bom desempenho de suas economias. Desempenho revelado pelo crescimento do PIB, criação de empregos, aumento no valor médio das remunerações insuflado pela expansão da massa de rendimentos.

Em artigo na Folha de S.Paulo, Paul Krugman não esconde sua perplexidade diante do desgosto dos cidadãos americanos com as realizações exibidas nos dados que festejam as proezas da economia de Joe Biden.

Há que indagar as razões que promovem esse descompasso entre as cifras positivas da economia e as percepções negativas de contingentes significativos das sociedades.

Um vídeo distribuído pelo WhatsApp apresenta declarações de cidadãos americanos, políticos conservadores, senhoras e senhoritas idem. Começamos com Donald Trump:

Marcus Pestana* - Qualidade de vida no ambiente urbano

Insisto aqui na importância estratégica para o país das escolhas que faremos nas próximas eleições.

Para além das políticas públicas estruturantes, há um trabalho rotineiro, repetitivo, pontual, a que se deu o nome recentemente de zeladoria. Nos meus tempos de vereador e secretário municipal não chamávamos assim. Mas é verdade, uma das facetas – não a única – do prefeito municipal é ser um zelador, um sindico do condomínio chamado cidade.  Cuidar da limpeza pública, ter uma eficiente operação tapa-buracos, limpar os bueiros, manter bem parques e jardins são tarefas obrigatórias e primárias de todo gestor municipal. 

Orlando Thomé Cordeiro* - Propaganda eleitoral em rádio e TV ainda é relevante?

Correio Braziliense (22.3.2024)

Também não faltam pesquisas com dados que ajudam nessa reflexão. Para tanto, destaco a seguir aspectos de duas, cujos resultados foram divulgados em 2023

Há alguns anos, analistas têm procurado entender as novas bases da comunicação em tempos de redes sociais. Também não faltam pesquisas com dados que ajudam nessa reflexão. Para tanto, destaco a seguir aspectos de duas, cujos resultados foram divulgados em 2023.

A primeira em julho, da empresa YouGov, referência internacional em pesquisas de mercado on-line, que apresentou um estudo com avaliação sobre o perfil de consumo de notícias pela população brasileira. O resultado mostra que 64,2% acessam a TV, enquanto 55,4% escolhem as redes sociais. Já o rádio é a fonte para 30% dos respondentes.

Cristovam Buarque* - O golpe da democracia

Correio Braziliense (20.3.2024)

O artigo do Luiz Carlos Azedo deste domingo nos provoca a refletir sobre a farsa de certos gestos políticos que tentam repetir fatos históricos. A tentativa de golpe no final do governo Bolsonaro é um exemplo claro desta interpretação como farsa: ficará como opera bufa, mas por muito pouco ela não teve sucesso, e o simples fato de ter sido tentada, demonstra a fragilidade da democracia. Porque, depois de 40 anos, o regime democrático ainda não tomou as medidas necessárias para vacinar as FFAA contra o vírus golpista que a contamina desde o início da República.

Poesia | Aniversário, de Fernando Pessoa

 

Música | Fundo de Quintal, Luiz Carlos da Vila - Doce refúgio

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sexta-feira, 22 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Lula precisa de feitos, não de comunicação

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que se esvaiu saldo entre aprovação e reprovação ao petista; governo deveria cuidar do Orçamento

Pesquisa realizada pelo Datafolha detectou alguma piora da avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A queda do prestígio do presidente é mais notável no saldo entre avaliações positivas e negativas.

Em dezembro, a parcela do eleitorado que considerava o governo Lula ótimo ou bom atingia 38%; no levantamento deste março, são 35%. Já aqueles que avaliam a gestão como ruim ou péssima passaram de 30% para 33%.

Trata-se, a rigor, de variações no limite da margem de erro da pesquisa. A diferença entre aprovação e reprovação, entretanto, caiu de 8 pontos para meros 2 pontos percentuais —no melhor momento de Lula 3, em junho de 2023, o saldo chegava a 10 pontos.