quarta-feira, 27 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Socorro a estados é prêmio para má gestão

Folha de S. Paulo

Dívidas de entes federativos, que já têm juros favorecidos, serão de novo revistas; contribuinte brasileiro pagará conta

Pela enésima vez, os estados conseguirão renegociar suas dívidas com a União. Segundo o acordo preliminar negociado com o governo federal, a taxa de juros acima da inflação que incide sobre esse passivo pode baixar de 4% ao ano para até 2%, se os governos estaduais cumprirem metas de ampliação de vagas no ensino técnico.

Caso eles consigam abater o valor do principal da dívida, por meio da entrega de ativos como empresas estatais ao Tesouro, a taxa pode diminuir mais, de 0,5 a 1 ponto percentual. A taxa real de juros no país é de cerca de 6% anuais.

Há meses que entes federativos lançaram nova campanha a fim de não pagar o que devem. Fazem parecer que são espoliados, que não podem investir ou cuidar das necessidades da população por causa de pagamentos que seriam injustos, indevidos ou até ilegais.

Ameaçavam mais uma vez levar o tema à Justiça e tentavam obter novos favores do Congresso.

Elio Gaspari - O apodrecimento do Estado

O Globo

Desvendada a trama do assassinato de Marielle Franco, resulta que nela não havia um só bandido desorganizado, daqueles que assaltam, roubam casas ou celulares. Um era chefe da Polícia Civil do Rio; outro, conselheiro do Tribunal de Contas; seu irmão, deputado federal; o pistoleiro e seu motorista, ex-PMs. Essa casta não rouba carros, alguns usam veículos oficiais.

Pior: Marielle foi assassinada porque atrapalhava os negócios de grilagem de terras e as milícias dos irmãos Brazão. Novamente, os bandidos que mataram Marielle relacionavam-se com o crime que age nas frestas da ausência do Estado, quer na barafunda fundiária, quer na exploração da falta de segurança pública.

Se existisse um sindicato do crime desorganizado, ele protestaria diante da concorrência desleal praticada pelos doutores e pelos policiais. Esse mesmo sindicato defenderia a classe contra a expansão de suas atividades criminosas.

Se tudo isso fosse pouco, Marielle foi executada três semanas depois da presepada da intervenção militar na segurança do Rio, e o crime foi planejado pelo chefe da Polícia Civil do Rio, nomeado pelos generais que poriam ordem na casa.

Luiz Carlos Azedo - Lira lava as mãos na prisão de Chiquinho Brazão

Correio Braziliense

PSol, PCdoB e PT, os partidos que mais se empenharam na CCJ para acolher a decisão de Moraes, sozinhos, não têm força suficiente para influenciar a pauta da Câmara

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) adiou a decisão sobre a manutenção da prisão do deputado Chiquinho Brazão, o que gerou indignação de parlamentares do PSol, partido de Marielle Franco, e de outras legendas de esquerda, como o PT, mas não teve nenhum questionamento por parte do Centrão, com exceção do deputado Artur Maia (União-BA). A expectativa de que haveria um acordo para acelerar o processo, de parte de alguns deputados, foi frustrada pela manobra feita pelo deputado Gilson Marques (Novo-SC), que pediu “vista coletiva” do parecer do deputado Darci de Matos (PSD-SC), relator do caso, que defendeu a manutenção da prisão. Apoiaram o pedido o PL e o PR.

No início da sessão, Arthur Maia e a presidente da CCJ, Carol de Toni (PL-SC), discutiram sobre o regimento. O deputado disse que o União Brasil não pediria vista e cobrou celeridade no processo de votação. A parlamentar esclareceu que não houve acordo entre os líderes de bancada e que o pedido de vista é regimental. “Há um clamor da imprensa de que aconteça uma deliberação ainda hoje”, ponderou Maia, sem sucesso.

Bernardo Mello Franco - Fechados com Brazão

O Globo

Às vésperas do primeiro turno de 2022, o governador Cláudio Castro participou de um comício na Zona Oeste do Rio. Com as mangas arregaçadas, pediu votos para reeleger dois irmãos: o deputado federal Chiquinho Brazão e o deputado estadual Pedro Brazão. “Jacarepaguá e o Rio têm representantes legítimos, e esses são a minha querida família Brazão”, discursou.

Em agosto passado, o prefeito Eduardo Paes foi a outro ato na região. À vontade, fez piadas e mostrou intimidade com o clã. “Quem melhor representa Jacarepaguá, quem mais briga, é a família Brazão. Uma salva de palmas para essas feras aqui”, ordenou. A claque obedeceu, e ele lançou o herdeiro Kaio Brazão, de 22 anos, para vereador. “A tradição não pode parar”, gracejou.

No domingo, a Polícia Federal prendeu Chiquinho e Domingos Brazão, acusados de mandar matar a vereadora Marielle Franco. O patriarca, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, sempre teve o nome citado nas investigações. Nunca deixou de ser bajulado pela elite política do Rio, como mostram as mesuras do prefeito e do governador.

Vera Magalhães - Um longo caminho para sanear a política

O Globo

A cada eleição, o financiamento de organizações criminosas a candidatos ao Executivo e Legislativo aumenta

A resolução, que ainda pode se mostrar parcial, da trama para executar Marielle Franco revelou um grau maior de entranhamento do crime organizado no aparato político e policial do que aquele que se supunha. A participação do responsável pela Polícia Civil em todas as fases da arquitetura do assassinato foi aquele detalhe que, se não chega a surpreender, ainda choca até quem pesquisa o tema ou quem acompanhou por seis anos o vaivém das investigações, como a família da vereadora.

O comportamento da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados ontem diante da gravidade dessa infiltração é mais uma demonstração crua, rascante, de que as prisões de Domingos e Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa não chegam nem a arranhar o edifício de conluio entre o estamento institucional e diferentes organizações criminosas, do tráfico à milícia, passando pelo jogo do bicho.

Roberto DaMatta - A banalização da desconfiança

O Globo

O sistema deseja e precisa de justiça, mas, ao mesmo tempo, relaciona a obediência ao ‘bom mocismo’

Temos uma extraordinária capacidade de banalizar a corrupção e a fraude, que admitimos como males, em paralelo com a esperteza como ato de sobrevivência e, talvez o mais venenoso: um ato de malandragem e realismo político! Disso resulta um relativismo moral insuportável, expresso no sábio conselho ou projeto segundo o qual o “levar vantagem em tudo” é programa permanente.

Vale fraudar um fraudador para impedir outro fraudador. O resultado desse realismo político particularista é o rebaixamento de ideais e programas, inibidos por dissidências pessoais. É uma mostra da velha oposição, até hoje mal resolvida, entre “Estado e governo”. Entre uma instituição identificada com valores nacionais e uma engrenagem administrativa marcada por interesses particulares e datados, passageiros. Essa tendência explica a perene tentação do golpe e o consequente protocolo legal destinado a anular punições.

Marcelo Godoy - O 31 de março e a traição de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Cabe ao ministro Moraes decidir onde o ex-presidente vai comemorar a data que se aproxima

O general Antonio Carlos de Andrada Serpa produziu em 1996 uma carta aos colegas militares que hoje está esquecida em Brasília. Jair Bolsonaro, que não é homem de letras, deveria ao menos ler o documento do general. Assim como o ex-presidente, Serpa era oficial da Arma de Artilharia. Mas, diferentemente do ex-mandatário, ele esteve na guerra – comandou uma companhia de obuses de 105 mm, na campanha da Itália, participando da campanha vitoriosa, conforme contava seu amigo, o general Ruy Leal Campello.

Martin Wolf* - O fascismo mudou, mas não está morto

Valor Econômico

O que se vê hoje é um autoritarismo com características fascistas

Estamos assistindo à volta do fascismo? Será que Donald Trump, para usar o exemplo contemporâneo mais importante, é um fascista? E a francesa Marine Le Pen? Ou Viktor Orbán, da Hungria? A resposta depende do que se entende por “fascismo”. Porque o que presenciamos hoje não é apenas autoritarismo. É um autoritarismo com características fascistas.

Precisamos começar com duas distinções. A primeira é entre o nazismo e o fascismo. Como o falecido Umberto Eco, humanista e escritor, observou em um ensaio sobre “O Fascismo Eterno”, publicado na “New York Review of Books” em 1995, o “Mein Kampf de Hitler é um manifesto de um programa político completo”. No poder, o nazismo foi, tal como o stalinismo, “totalitário”: ele controlava tudo. O fascismo de Mussolini era diferente. Nas palavras de Eco, “Mussolini não tinha uma filosofia: tinha apenas retórica... O fascismo era um totalitarismo confuso, uma colagem de ideias filosóficas e políticas diferentes, um emaranhado de contradições”. Trump é igualmente “confuso”.

Fernando Exman - Saldo da PEC da imunidade a igrejas pode sair caro

Valor Econômico

É difícil acreditar que o Estado não repassará a conta, de maneira a manter a arrecadação

Estava tudo preparado para que a Câmara dos Deputados votasse nesta semana, antes da Páscoa, a proposta de emenda constitucional que amplia a imunidade tributária a igrejas. Semana Santa, período simbólico. O governo demonstrou disposição de fazer um gesto político à bancada evangélica, majoritariamente alinhada à oposição. Mas divergências entre as igrejas provocaram o adiamento da apreciação da PEC em plenário.

Cria-se, com isso, uma oportunidade para o país discutir melhor o tema e seus possíveis efeitos econômicos.

Atualmente, a Constituição já estabelece que a imunidade tributária para essas instituições vale para o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades. Mas a proposta do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), ligado à Igreja Universal, tem como objetivo ampliar essa imunidade à aquisição de bens e serviços necessários à formação do patrimônio, à geração de renda e à prestação de serviços. Ao expandir o tratamento para tributações indiretas, apontam especialistas, obras ligadas a igrejas teriam, por exemplo, isenção para a compra de material de construção.

Lu Aiko Otta - Lula e a versão regional do PAC

Valor Econômico

Presidente pretende revitalizar a interlocução com países vizinhos e discutir os projetos de infraestrutura

No esforço de retomar a presença do Brasil na região, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva programou viagens para Colômbia, Chile e Bolívia ao longo das próximas semanas. Na primeira visita a esses países em seu terceiro mandato, pretende revitalizar a interlocução com os vizinhos e discutir os projetos de infraestrutura que integram o projeto Rotas de Integração, coordenado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet.

São quatro rotas que levam a dez diferentes pontos de saída para o Pacífico e uma que interliga Manaus e os portos do Norte brasileiro às Guianas. O objetivo é dinamizar o comércio intrarregional e encurtar o tempo de viagem aos mercados consumidores asiáticos em cerca de dez dias.

A definição das rotas começou com consultas aos Estados que têm fronteira terrestre, contou à coluna o secretário de Articulação Institucional do Ministério do Planejamento, João Villaverde. A partir daí, foram selecionados projetos para serem incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Vinicius Torres Freire - O novo calote de estados no governo federal

Folha de S. Paulo

Governadores fazem campanha para não pagar dívida com União; Lula aceita negociar

Quase ninguém deu bola, mas o governo federal acaba de dizer que vai perdoar parte da dívida dos estados. Por ora, o calote está saindo barato. Mas o caldo pode engrossar no Congresso.

Os estados se dizem esfolados pelos juros excessivos. Ameaçavam pedir à Justiça sempre amiga uma nova autorização de calote. Dizer "estados", em geral, é injustiça, diga-se de passagem. A campanha pelo novo favor parte principalmente daqueles mais endividados e metidos na baderna fiscal.

O que é essa dívida? Entre 1997 e 1999, o governo federal assumiu as dívidas de estados quebrados por endividamento excessivo, má gestão ou bandalheira, inclusive com bancos públicos. A União ficou com os débitos caros e impagáveis e cobrava dos estados taxa de juros de 6% ao ano mais correção monetária (7,5% em alguns casos). Era então uma taxa de juros de pai para filho.

Wilson Gomes* - O dia 31 de março precisa ser lembrado para não ser repetido

Folha de S. Paulo

Deixar passar em branco os 60 anos do golpe de Estado que tão duramente marcou a vida do país não faz sentido

A última ditadura a que a República brasileira foi submetida completa 60 anos no domingo. Não foi a primeira na nossa breve história republicana de baixas convicções democráticas. Meu pai, nascido em 1922, viveu sua primeira ditadura aos 15 anos, e a segunda, aos 42. Trinta anos, de 73, transcorridos sem democracia.

Eu nasci às vésperas da segunda ditadura do século passado. Nem havia completado um ano quando a democracia morreu da última vez no Brasil, esmagada pelas botas de generais, brigadeiros, almirantes e suas tropas. Até os 21, eu não tinha vivido um único dia neste país sob governo civil, Estado de Direito, eleições livres, direitos políticos amplamente reconhecidos, essas coisas que a gente dá por garantidas como luz do sol e oxigênio.

Além disso, constatei com assombro na semana passada que faltou muito pouco para que a efeméride do início da ditadura de 1964 fosse comemorada com uma ditadura novinha em folha. Em vez de liturgicamente repetir o nosso "ódio e nojo à ditadura", segundo a fórmula lapidar de Ulysses Guimarães, estivemos bem perto de estar celebrando uma "nova revolução" para defender o Brasil do "comunismo" nesse "país que vai pra frente, de uma gente amiga e tão contente", como aprendi na doutrinação ideológica do regime militar desde a alfabetização.

Mariliz Pereira Jorge - A resposta aos bolsonaristas

Folha de S. Paulo

Marielle e Anderson não são as únicas vítimas do atentado que sofreram

Deu para entender a importância de saber quem mandou matar Marielle e por quê? O crime cometido contra uma vereadora da segunda maior cidade do país deveria horrorizar a todos pelo significado que ele carrega. É o retrato sombrio do impacto da presença da milícia na segurança pública, na integridade das instituições democráticas e no tecido social das comunidades afetadas.

Mas bolsonaristas, políticos e apoiadores, passaram os últimos anos questionando a relevância da investigação, apelando ao argumento reducionista de que se tratava de apenas mais um assassinato em meio a dezenas de milhares. Amparados na lógica da polarização de que a cobrança era pura politização, ajudaram a politizar um caso que deveria ser tratado como emblemático.

Bruno Boghossian - Poder, violência e corrupção criaram no Rio sistema 'pré-pago'

Folha de S. Paulo

Caso Marielle e exemplo da família Brazão mostram infiltração do aparelho do Estado por criminosos

Os negócios das milícias do Rio se sustentam num tripé formado por poder, violência e corrupção. O caso Marielle Franco e o exemplo da família Brazão mostram como o loteamento da máquina pública, o assassinato de desafetos e a cooptação de órgãos de segurança se tornaram moedas correntes nessas atividades.

Os milicianos se incorporaram à paisagem política do estado. O domínio de territórios populosos permitiu que os criminosos exercessem uma espécie de monopólio eleitoral nessas regiões e ganhassem acesso facilitado aos mandatos usados para ampliar sua influência.

Hélio Schwartsman - Papel de vítima

Folha de S. Paulo

Sem ter para onde correr, só resta a Bolsonaro tentar convencer o público de que é perseguido pelo STF

Inelegível acuado, o que resta politicamente a Jair Bolsonaro é tentar convencer as pessoas de que ele sofre perseguição judicial. Se você consegue lançar dúvidas sobre os aspectos formais de um inquérito ou julgamento, desvia a atenção do conteúdo das acusações, que, no caso do ex-presidente, são muitas e muito graves. Nessa linha, ter a prisão preventiva decretada por Alexandre de Moraes serviria para alimentar essa narrativa.

Poesia | Caminhante não há caminho, de Antonio Machado Ruiz

 

Música | Jair Rodrigues - Disparada (Geraldo Vandré e Théo de Barros)

 

terça-feira, 26 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Caso Marielle avança após 6 anos do crime

Folha de S. Paulo

Polícia Federal prende três suspeitos de terem mandado matar vereadora; processo criminal, porém, está longe de acabar

São estarrecedoras as conclusões da Polícia Federal no inquérito sobre os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, cometidos com brutalidade em 14 de março de 2018 —ainda que o processo criminal esteja longe de acabar.

De acordo com a PF, o duplo homicídio foi arquitetado por três figuras conhecidas na esfera pública: Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; seu irmão Chiquinho, deputado federal eleito pela União Brasil-RJ (o partido decidiu expulsá-lo de seus quadros); e Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio. Todos eles foram presos.

Veio do nome de Barbosa a maior surpresa dessa lista. Ao comandar apurações à época do crime, ele manteve relação próxima com a família de Marielle e prometeu ações expeditas para deslindar a trama.

Merval Pereira - Momento oportuno

O Globo

O Rio de Janeiro pode ser o projeto-piloto para uma força-tarefa de combate ao crime organizado

É crescente a sensação de que o momento social e político que permitiu a revelação dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco abriu uma brecha no muro de silêncio que os blindava, permitindo aprofundar as investigações sobre o conluio entre políticos, policiais e bandidos no submundo do crime do Rio de Janeiro.

Esse, no entanto, não é um problema apenas do Rio, mas uma chaga nacional, que precisa ser atacada para neutralizar a influência do crime organizado nas instituições federais. Como a situação do Rio é mais aguda, especialmente no momento em que ficou escancarada a ação criminosa no aparato institucional, seria importante aproveitar essa vitória do Estado de Direito para ir adiante na desarticulação.

O Ministério da Segurança Pública, que infelizmente não foi retomado pelo governo Lula, deveria ser o ponto de partida das mudanças estruturais necessárias para que a questão, que se tornou incontornável para o Estado brasileiro, seja enfrentada devidamente. Os três centros de custo do Estado são justamente saúde, educação e segurança, e apenas os dois primeiros têm um piso constitucional de financiamento, enquanto a segurança, quando vem a crise financeira do Estado, não tendo essa proteção, nem mesmo uma definição de tarefas em nível nacional, acaba irremediavelmente afetada.

Míriam Leitão - O crime reduz a democracia

O Globo

Revelações da PF sobre o caso Marielle mostram que houve no Rio uma simbiose entre o crime e a estrutura do próprio Estado

É de democracia que se trata no caso da morte de Marielle Franco. Desde o começo. Os que mataram a vereadora, crime no qual morreu também o motorista Anderson Gomes, estavam atingindo um mandato, uma representante que se dedicava a uma agenda ampla de defesa dos moradores do Rio. A operação contra os suspeitos de serem mandantes joga luz sobre o risco democrático que se vive no Rio, pela promiscuidade entre o crime, a política e a polícia. Marielle era uma vereadora em início de primeiro mandato, sem conexões com o poder local, nascida em área de periferia, e mesmo assim, foi vista como um obstáculo à expropriação de terra pública, que seria grilada para depois, em muitos casos, ser o caminho para explorar os pobres sem casa.

Luiz Carlos Azedo - Aberta a Caixa de Pandora da política fluminense

Correio Braziliense

As conexões criminosas são conhecidas, mas estavam blindadas pela profundidade e extensão do crime organizado e o pacto de silêncio entre as autoridades no Rio de Janeiro

O mito da Caixa de Pandora explica a criação da mulher, suas qualidades e suas fraquezas. Prometeu roubou o fogo de Zeus e o entregou aos mortais, para garantir aos homens a superioridade sobre os animais. O fogo era exclusividade dos deuses, e Zeus, o todo-poderoso do Olimpo, resolveu se vingar. Encarregou Hefesto, deus do fogo e dos metais, e Atena, deusa da justiça e da sabedoria, de criar Pandora.

Pandora foi a primeira mulher na Terra. Recebeu qualidades como graça, beleza, inteligência, paciência, meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Ao ser enviada à Terra, Zeus entregou-lhe uma caixa com a recomendação de que a mesma não deveria ser aberta.

A caixa guardava todas as desgraças: a guerra, a discórdia, o ódio, a inveja, as doenças do corpo e da alma. Mas também continha a esperança. Curiosa, Pandora não resistiu e abriu a caixa. Ao fazê-lo, liberou todos os males, menos a esperança. O caso Marielli Franco, finalmente desvendado pela Polícia Federal, abriu uma caixa de Pandora na política fluminense.

Carlos Andreazza - Ninguém quer Cid

O Globo

O tenente-coronel atualiza a máxima para o destino de quem se associa a Bolsonaro e ao bolsonarismo: entrar e então morrer

O tenente-coronel Mauro Cid atualiza a máxima para o destino de quem se associa a Bolsonaro e ao bolsonarismo: entrar e então morrer. Variadas as formas, as expressões, da morte. Entrar e morrer. Sina. Sempre uma questão de tempo — já condenados também os caiados que se pensam livres da maldição. É inescapável.

Entrar e então morrer. Morrer e continuar morrendo. Úteis, alguns dos mortos. Mortos a serviço. Mortos para sacrifício. Finados em ação. Os defuntos ativos, matando (matando-se) e morrendo.

Os áudios de Cid divulgados pela Veja expõem um morto que se mata — ou se deixa matar:

— Quem mais se fodeu fui eu. Quem mais perdeu coisa fui eu. O único que teve pai, filha, esposa envolvidos. O único que perdeu a carreira, o único que perdeu a vida financeira fui eu.

Isso é desabafo de zumbi.

Maria Cristina Fernandes - Método bolsonarista embaralha cartas para confundir investigadores

Valor Econômico

Percepção entre magistrados é de que vídeos na Embaixada da Hungria são usados pelo bolsonarismo com propósito de forçar prisão

A prisão preventiva hoje interessa mais a Jair Bolsonaro do que à investigação. Se o ex-presidente ainda tem algum poder de mobilização, daqui a um ano ou dois, com as decisões do relator, ministro Alexandre de Moraes, respaldadas em plenário e a provável derrota de seus recursos, a mobilização arrisca esmorecer.

A conveniência da prisão divide os tribunais superiores de Brasília, mas não a percepção de que o vídeo divulgado pelo jornal americano “The New York Times” com a ida do ex-presidente à Embaixada da Hungria na noite da segunda-feira de Carnaval está sendo usado pelo bolsonarismo com o propósito de forçar uma prisão.

Ninguém tem dúvida de que buscou asilo, mas, uma vez lá, pode ter desistido da ideia face à confirmação da ida do governador Tarcísio de Freitas à manifestação na avenida Paulista no dia 25 de fevereiro. A confirmação veio em 14 de fevereiro, mesmo dia em que Bolsonaro deixou a embaixada. Naquele dia também, ficou evidente que o governo perdia a guerra de narrativas sobre a fuga no presídio de Mossoró, ocorrido na véspera. Além de querer ir ao palanque reforçado da Paulista, pode ter calculado que sua prisão, em meio à incompetência para manter chefes do Comando Vermelho presos, daria ao bolsonarismo uma plataforma para deitar e rolar.

Christopher Garman - Fatores locais definem eleição municipal

Valor Econômico

Assim como resultado pífio do PT nas eleições de 2020 não serviu como indicador da vitória de Lula dois anos depois, pleito deste ano não servirá para 2026

A cada ciclo eleitoral, um exército de analistas e algumas lideranças políticas tentam auferir o significado nacional dos resultados das eleições municipais. O mesmo deve ocorrer este ano, quando a disputa na capital paulista será vista como a mais importante no embate entre petismo e bolsonarismo.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva articulou ativamente a volta da ex-prefeita Marta Suplicy ao PT para pleitear, ao lado de Guilherme Boulos (Psol), a prefeitura paulistana, que o Palácio do Planalto vê como estratégica. De outro, o ex-presidente Jair Bolsonaro colocou seu peso político a serviço do prefeito Ricardo Nunes (MDB), após descartar apoio a candidaturas avulsas.

Pedro Cafardo - Uma dica da academia para a retomada industrial

Valor Econômico

Nos anos dourados, a diferença a favor do Brasil em relação a seus vizinhos latino-americanos era um setor agrário forte, com economias regionais diversificadas que já produziam para consumo interno e exportação

É quase consensual a ideia de que o Brasil foi vítima de um longo e penoso processo de desindustrialização, embora alguns trabalhos ainda sustentem a velha tese de que tudo se tratou de uma natural tendência mundial de crescimento do setor de serviços.

Circula nos meios acadêmicos um novo trabalho dos professores Adalmir Antonio Marquetti (PUC-RS) e Pedro Cezar Dutra Fonseca (UFRGS) que joga mais luzes sobre as mudanças estruturais da economia brasileira de 1930 a 2022 e sugere estratégias para a reindustrialização. O “paper” (“Do desenvolvimentismo à desindustrialização: Brasil, 1930-2022”) explica a vigorosa industrialização do país nos 50 anos do chamado “período desenvolvimentista”, de 1930 a 1980. E analisa a veloz desindustrialização dos 40 anos seguintes, “período de neoliberalismo e financeirização”.

São marcantes a velocidade e a intensidade tanto da ascensão quanto do descenso da indústria brasileira. A indústria ganhou impulso expressivo em plena Grande Depressão. A participação da indústria no PIB passou de 10% em 1930 para 17,5% em 1947 e 27,3% em 1986. Observa-se a intensidade desse processo ao comparar o PIB industrial brasileiro com o dos EUA: em cinco décadas, essa relação subiu de 3,4% para 15%.

Eliane Cantanhêde – Xandão: e daí?

O Estado de S. Paulo

Moraes dá de ombros para ‘asilo’ de Bolsonaro e diz ao Exército: nada contra o general Richard

O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso Marielle no Supremo, telefonou para o comandante do Exército, general Tomás Paiva, para dizer que não há absolutamente nada contra o general Richard Nunes no inquérito conduzido pela Polícia Federal. O telefonema veio na hora certa, quando o também general Braga Neto tenta empurrar para Richard a “culpa” por nomear para a direção da Polícia Civil no Rio o delegado Rivaldo Barbosa, que foi preso no domingo, não apenas por obstruir provas como por ter participado diretamente do planejamento do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

João Paulo Charleaux* - Asilo de Bolsonaro, na prática, já aconteceu

Folha de S. Paulo

Ex-presidente ficou dois dias na embaixada da Hungria, em Brasília, logo após ação da Polícia Federal

Quando o STF (Supremo Tribunal Federal) pediu que o ex-presidente Jair Bolsonaro entregasse seu passaporte à Justiça, a intenção era impedir que ele deixasse o país.

Se Bolsonaro passou dois dias dentro da embaixada da Hungria, em Brasília, ele, de alguma forma, burlou essa medida judicial, pois, nos termos da Convenção de Viena de 1961, embaixadas e consulados, assim como seus veículos, são protegidos.

Ou seja, nos dois dias em que esteve abrigado ali, Bolsonaro estava inalcançável pela Justiça de seu próprio país. Se a Justiça foi atrás dele nessas 48 horas ou não, isso é apenas um detalhe. No que diz respeito à oferta de proteção internacional, ela ocorreu na prática.

Quem duvida pode dar uma relembrada no caso de Julian Assange, o fundador do Wikileaks, que passou sete anos vivendo dentro da embaixada do Equador, em Londres, para evitar a captura, ordenada por autoridades inglesas.

Alvaro Costa e Silva - Bolsokele, o clone de Bolsonaro e Bukele

Folha de S. Paulo

Marketing político de Tarcísio de Freitas esbarra na realidade

Como o chefe está com o passaporte retido na PFTarcísio de Freitas deixou a capital sem luz e esteve em Israel para tirar uma foto com Bibi. Este já foi chamado, um dia, de Senhor Segurança. Apelidos e epítetos vão e vêm. Na época em que estava à frente do Ministério da Infraestrutura, Tarcísio foi o Tarcisão do Asfalto. Ao assumir o governo de São Paulo e bater martelos alucinadamente em leilões de privatização, virou o Thorcísio, alusão a Thor, o deus nórdico. Hoje se candidata a ser um produto híbrido de Bolsonaro Bukele, o presidente de El Salvador que se autodefiniu como "o ditador mais cool do mundo".

Hélio Schwartsman - Boas e más notícias

Folha de S. Paulo

Elucidação do caso Marielle deve ser celebrada, mas revela que deterioração da segurança pública é maior do que se temia

aparente elucidação do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é uma excelente notícia. Espero que os investigadores tenham coletado provas robustas o bastante para que o julgamento dos suspeitos de ter encomendado a morte da vereadora se dê de forma técnica, rápida e certeira. O momento é de satisfação e deve ser celebrado. Não há como esconder, porém, que a boa nova chega embrulhada numa série de circunstâncias que pintam um quadro de deterioração da segurança pública muito pior do que se acreditava.

Se é verdade que o próprio chefe da Polícia Civil fluminense participou do planejamento do assassinato, então estamos diante de nada menos do que a falência do Estado. Se aqueles que deveriam zelar pela ordem pública são membros ativos do crime organizado, não há mais distinção entre polícia e bandido, entre lei e barbárie.

Dora Kramer - A síntese do contágio

Folha de S. Paulo

O embate ideológico distrai, mas o combate ao crime é também defesa da democracia

prisão dos suspeitos de mandarem matar Marielle Franco é uma síntese, embora incompleta, da infiltração do crime organizado nas instituições públicas: um deputado federal, um conselheiro de tribunal de contas e um delegado ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

A coisa vai além. A despeito do muito bem-vindo desfecho do caso, não há que se falar em triunfo do Estado. Este segue desorganizado frente à crescente estruturação da criminalidade no país, sendo o Rio o exemplo mais visível. Ali atuam várias famílias que mandam e desmandam na política, algumas com ligações criminosas.

Poesia | Círculo Vicioso, de Machado de Assis

 

Música | Fátima Gaspar - E vamos à luta (Gonzaguinha)

 

segunda-feira, 25 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Prisões no caso Marielle trazem alento e preocupação

O Globo

Alento, porque os suspeitos de ordenar o crime foram presos. Preocupação, pelo envolvimento de autoridades

Seis anos e dez dias depois do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e de seu motorista, Anderson Gomes, a Polícia Federal (PF) prendeu o deputado federal Chiquinho Brazão (ex-União-RJ), o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Domingos Brazão e o delegado Rivaldo Barbosa. Os irmãos Brazão foram apontados como mandantes do crime. Barbosa, segundo a PF, planejou o assassinato. As prisões ocorreram depois da homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da delação do sargento reformado da PM Ronnie Lessa, um dos dois responsáveis pela morte de Marielle e Anderson (o outro é o ex-PM Élcio de Queiroz).

Segundo as investigações, Marielle defendia, contra interesses do clã Brazão, a ocupação social de uma área na Zona Oeste do Rio reivindicada por milicianos para incorporação imobiliária. Os atritos ganharam corpo pela oposição dela a um projeto de lei defendido pelos irmãos. Na delação, Lessa afirmou que a divergência pode ter sido o estopim para o crime.

Maria Cristina Fernandes - Teia pluripartidária entre crime e política resiste

Valor Econômico

Resistência que governo enfrentou até da base para chegar a mandantes aumentará se for adiante

Seis anos depois, a Polícia Federal deu por encerrada a investigação sobre a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes ao apontar os mandantes. A prisão dos suspeitos abre uma oportunidade ímpar para o desbaratamento da infiltração da política, do Judiciário e da economia do Rio pela milícia e pelo crime organizado. A dúvida é se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem gordura no Congresso, onde esta teia se consolidou, se disporá a mais este enfrentamento.

Ao anunciar a conclusão do caso, ao lado do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que o caso pode se desdobrar em outras investigações. Nas suas primeiras páginas, o relatório da PF aponta a reincidência das omissões da Polícia Civil do Rio, do Ministério Público estadual e do Judiciário ao longo da investigação dos assassinatos na favela Nova Brasília, no Rio, que levaram à condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2017. O relatório explicita a determinação deste governo em não incorrer em nova condenação.

Bruno Carazza* - Não basta prender quem mandou matar

Valor Econômico

Trajetórias de Marielle e dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão expõem o melhor e o pior da política brasileira

Eu já me preparava para dormir no dia 14 de março de 2018 quando comecei a ler nos portais da internet informações sobre o assassinato de uma vereadora do Rio de Janeiro e de seu motorista. A notícia logo me chamou a atenção, por representar uma escalada no nível de violência da política brasileira, num momento em que a polarização da sociedade já se encontrava em ebulição.

Confesso que até então eu nunca havia ouvido falar de Marielle Franco. Porém, conforme escrevi no dia seguinte no blog “O E$pírito das Leis”, que eu mantinha na “Folha de S.Paulo” na época, logo percebi que Marielle era mais do que a cara do Brasil - ela era o símbolo de uma nova geração de políticos que surgia no país.

Fernando Gabeira - Brasil e ranking de felicidade mundial

O Globo

Para que se declarem felizes, as pessoas precisam de um sistema público de saúde eficaz

Um ranking da felicidade mundial andou circulando na semana passada. O Brasil aparece no 44º lugar. Os escandinavos figuram, como sempre, na dianteira.

Sou cético diante do conceito de felicidade permanente. Concordo com o poeta Vinícius de Moraes e a vejo como uma gota de orvalho que oscila e cai como uma lágrima de amor.

Trabalho mais com o conceito de segurança, ou mesmo de aversão ao risco. A social-democracia o interpretou bem e ganhou mentes e corações.

Para que se declarem felizes, as pessoas precisam de um sistema público de saúde eficaz. A saúde, para mim, é o fundamento da sensação de felicidade, assim como o bom passe é um fundamento para uma boa partida de futebol.

Miguel de Almeida - A ‘burcarização’ da política

O Globo

Ao criar a França muçulmana, Houellebecq talvez tenha pensado no Brasil

Em “Submissão”, Mohammed Ben Abbes, apoiado por uma frente ampla política, é eleito presidente da França. Até a vitória, mostra-se tipo cordato, democrático, embora desde o início não esconda as garras — sua chapa chama-se Fraternidade Muçulmana. Logo coloca em marcha suas crenças religiosas, explicitadas em políticas de governo, apesar de o Estado ser laico. Por estar ancorado em convicções como liberdade de expressão e opinião, mesmo em defesa de quem tenha laivos ditatoriais, o eleitorado tolerou o santo e agora ajoelha no milho.

É a burcarização da sociedade.

O romance de Michel Houellebecq, de 2015, pode ser visto como distopia, à semelhança de “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Mais fácil entendê-lo como alarme dirigido aos liberais radicais. Defensores contumazes da circulação de ideias, formam uma turma que por vezes morre pela boca. A liberdade irrestrita de manifestação não tem limites? Estão aí as redes sociais como exemplo da terra sem a lei dos homens, onde reinam lunáticos e jagunços, em campanha permanente contra o asseio.

Ricardo Viveiros* - Como são lindos os neoliberais, mas tudo é muito mais

Folha de S. Paulo

Preocupam a alienação e a distância que se toma da emancipação humana

Livros são um prazer. Além do conteúdo, as conexões que provocam com outras obras me gratificam. "A Nova Razão do Mundo: Ensaio sobre a Sociedade Neoliberal", de Pierre Dardot e Christian Laval, surpreendeu pela quantidade de referências que me vieram à mente. Como em um caleidoscópio, convidei para "conversar" Friedrich August von HayekJohn Maynard KeynesFernando Henrique CardosoMichel FoucaultKarl Marx e representantes da Escola de Chicago.

Crítico que sou, a ideia de que há algo sensato em uma sociedade liberal não me convence. O colonialismo foi uma dominação capitalista. Parafraseando Caetano Veloso, cantarolei "como são lindos os neoliberais, mas tudo é muito mais" ("Podres Poderes", 1984). Fique claro que a "nova razão" dos autores está associada ao novo sentido e à pretensão holística do neoliberalismo. A dominação sobre a economia é só o ponto de partida. Dardot e Laval utilizam complexas análises históricas e sociais, além de outras psicanalíticas, para fundamentar a obra. Talvez o pensamento que melhor sintetize o neoliberalismo esteja na frase da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher: "A economia é o método. O objetivo é mudar a alma". A ideia assombra, mas faz sentido.