domingo, 5 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Conceito de ‘trabalhador’ ficou no passado

O Globo

Fracasso do Primeiro de Maio é sinal de que realidade econômica não é a que Lula e os sindicatos imaginam

O esvaziamento do ato das centrais sindicais em comemoração ao 1º de Maio em São Paulo irritou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pouco mais de 1.600 pessoas compareceram ao evento na quarta-feira, o que fez Lula passar um pito em público nos organizadores. Eles não têm, porém, como reverter as transformações da sociedade brasileira, que tornaram coisa do passado o conceito de “trabalhador” tão caro a Lula e aos sindicatos — e que estão na raiz do esvaziamento.

Um em cada quatro brasileiros hoje trabalha como autônomo ou por “conta própria”, na classificação do IBGE. Não tem patrão, muito menos vínculo com qualquer entidade sindical. Em dez anos, essa parcela da população cresceu de 20,8 milhões para 25,6 milhões. É certo que parte da tendência resulta da falta de opção de emprego, que leva muitos a fazer bicos para sobreviver. Mas é inegável o avanço de ocupações autônomas, como motorista ou entregadores de aplicativo, e da cultura do empreendedorismo. Isso fica evidente na proporção de trabalhadores por conta própria com CNPJ, que saiu de 24% em 2013 para 34% em 2023. São brasileiros que identificaram demandas de consumidores, viram oportunidades e abriram negócios.

Merval Pereira - Regimes abrasileirados

O Globo

Especialistas veem no Presidente da República, eleito pelo voto direto nesse sistema de governo, o garantidor da estabilidade

O presidente da Câmara Arthur Lira não tergiversou. Perguntado como definiria hoje o sistema de governo brasileiro, diante do protagonismo crescente do Legislativo, respondeu: semipresidencialismo. Aliás, há anos que Lira defende a adoção do semipresidencialismo, tendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes como parceiro nessa defesa.

Assim como nossa experiência de parlamentarismo, no entanto, o semipresidencialismo, embora também há anos vigore extraoficialmente, só é lembrado como alternativa a nossas constantes crises institucionais perto das eleições presidenciais, o que o leva a ser taxado como uma solução golpista. Se houver disposição dos políticos de debaterem aprofundadamente o assunto para adotá-lo a longo prazo, se esse for o consenso, pode ser que consigamos alguns avanços.

O cientista político francês Maurice Duverger, grande teórico do tema, definiu o semipresidencialismo como o regime que reúne um presidente da República eleito por sufrágio universal e dotado de notáveis poderes, e um primeiro-ministro e gabinete responsáveis perante o parlamento. Esse aspecto do semipresidencialismo, o do aumento da responsabilidade do Legislativo no governo, parece fundamental aos estudiosos do assunto.

Míriam Leitão - Folhas do tempo e lições a reter

O Globo

O ano de aniversários redondos de eventos históricos é uma oportunidade de o Brasil olhar para si, evitar os erros e lembrar os acertos

No ano dos aniversários redondos, o Brasil deveria olhar mais para si mesmo e escolher caminhos que nos afastem dos erros e nos aproximem dos acertos que algumas dessas datas apontam. São duzentos anos da primeira Constituição do Brasil independente, 60 anos da ditadura militar, 50 anos da revolução democrática de Portugal, 40 anos da memorável campanha das Diretas, 30 anos do Plano Real, 30 anos da morte do Senna, dez anos da Lava-Jato. É como se o passado, bom ou ruim, aparecesse como um calendário antigo em papel em que as folhinhas voam indicando a passagem rápida do tempo.

O caminho constitucional é o único possível, como aprendemos duramente, mas temos tratado a nossa melhor Carta como depósito de questões corporativas ou conjunturais sem relevância. Basta ver a PEC que classifica como crime o porte de qualquer quantidade até de drogas leves, e a PEC que aumenta o salário da elite do judiciário a cada cinco anos. Uma delas vai no caminho contrário do mundo, e a outra bate de frente com o controle das contas públicas.

Bernardo Mello Franco - Notícias da Guanabara

O Globo

Governador prevê calote em servidores, prefeito nomeia aliados de Eduardo Cunha, PF indicia deputada ligada à milícia. E o Rio vibra com a presença de Madonna

O Rio de Janeiro continua lindo. Na segunda-feira, o governador Cláudio Castro anunciou que pode suspender o pagamento de salários dos servidores. O motivo é a crise financeira do estado, que ele escondeu na campanha à reeleição. “Caminha para isso”, informou Castro sobre o possível calote aos funcionários. “Não agora não em 2025. Talvez lá para o final de 2026”, acrescentou. Quem avisa amigo é. Se o dinheiro não pingar na conta, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa.

O Rio de Janeiro continua sendo. O prefeito Eduardo Paes entregou o comando da Secretaria de Habitação e de duas empresas públicas a indicados de Eduardo Cunha. O ex-deputado saiu da cadeia porque a juíza Gabriela Hardt, ela mesma, compadeceu-se de “sua idade e seu frágil estado de saúde”. As condenações caíram, a doença sumiu, e Cunha voltou a praticar sua especialidade. Para adivinhar o que acontecerá na prefeitura, ver o histórico da Telerj e do fundo de pensão da Cedae.

Dorrit Harazim - Soberba humana

O Globo

Depois da tragédia no Rio Grande do Sul, espera-se que o país comece a agir à luz da realidade

Se o teste definitivo de nosso conhecimento (individual e coletivo) está em nossa habilidade de transmitir o que sabemos, das duas uma: ou somos péssimos professores ou alunos impermeáveis. Mudança climática não é propriamente uma novidade — em seus convulsionados 4,5 bilhões de anos (indo para outros 5 bilhões até ser absorvida pelo Sol), a Terra aguentou solavancos ambientais de proporções bíblicas. Ainda assim, ela vai muito bem. O que vai mal são todas as formas de vida da biosfera, que começa 9,5km abaixo do nível do mar e vai até uma altura de 8km acima da superfície terrestre — aquilo que costumamos chamar de “mundo”. Este vai de mal a pior desde que nos apegamos ao conceito de “controle da natureza”, miragem concebida em arrogante suposição: que a natureza existe para conveniência do ser humano.

— Esquecemos como ser bons hóspedes, como pisar sobre o chão da Terra com a delicadeza comum às demais criaturas — resumiu, com melancolia pouco comum, a economista inglesa Barbara Ward, já citada neste espaço.

Eliane Cantanhêde - A economia vai bem, e Haddad?

O Estado de S. Paulo

Saíram os generais de Bolsonaro e entraram os petistas de Lula, mas a guerra continua

Assim como todos os ministros do Planalto no governo Jair Bolsonaro eram militares, até a chegada do líder do Centrão, Ciro Nogueira, na Casa Civil, todos no governo Lula estão nas mãos de um único partido, o PT. O que significa? Uma bolha de pensamento único, sem controvérsias reais e suscetível a briguinhas de poder e a disputas pelas graças do presidente de plantão.

No caso de Bolsonaro, eram todos generais, fazendo reverências ao capitão insubordinado. No de Lula, a velha guerra interna e as idiossincrasias do PT foram transportadas para o centro de poder e miram os dois principais ministros, Fernando Haddad, petista e responsável pelos maiores troféus do governo em 2023, e José Múcio, que vem da direita e é considerado o engenheiro certo, na hora certa, para construir pontes com os militares.

Celso Ming - O mundo gira e os sindicatos rodam

O Estado de S. Paulo

O sindicato à moda antiga não passa de um zumbi. Há muito não representa os trabalhadores e, agora, nem mobilizá-los consegue, como se viu a partir do retumbante fracasso das manifestações de 1° de Maio. Nem o presidente Lula nem seu ministro do Trabalho, Luiz Marinho, estão se dando conta disso.

A estrutura sindical nasceu com grave vício de origem. Foi criada por Getúlio Vargas para dar suporte a seu regime corporativista inspirado em Mussolini, e não para defender o interesse dos trabalhadores. Assim, foi ficando, governo após governo.

Graças às polpudas verbas do imposto sindical e ao comportamento cartorial dos seus dirigentes, os sindicatos prosperaram, garantiram boa vida a muitos e até forjaram líderes políticos, entre os quais se sobressaiu o atual presidente da República.

Luiz Carlos Azedo - Brasil safado de Madonna é negação do conservadorismo

Correio Braziliense

Fãs revelam uma identidade coletiva na qual representam a persona que quiserem. E tudo no bairro, que é o mais cantado do mundo, preferido por Bolsonaro para realizar seus atos golpistas

Mitos e símbolos são semelhantes em todas as culturas ao longo do tempo. O inconsciente individual existe sobre uma camada mais profunda, o inconsciente coletivo. O sucesso de Madonna, no Rio de Janeiro, com um show gratuito, patrocinado com recursos públicos (não existe almoço grátis), merece uma reflexão sobre o outro lado de um país que parece regredir no tempo, quando olhamos para a política. Mas que passou por mudanças de comportamento humano que não têm mais volta.

Podia-se afirmar que é um fenômeno do Rio de Janeiro, que busca no entretenimento e na transgressão cultural uma espécie de redenção de suas mazelas políticas e iniquidades sociais. Mas, não. Foi gente do país inteiro, de todas as classes sociais e gêneros sexuais, que viajou para o ver o show de Madonna no Rio de Janeiro. Poderia ser no sentido inverso, para São Paulo, Salvador ou Belo Horizonte, o sucesso seria o mesmo. Entretanto, que astro pop resiste ao fascínio de Copacabana?

O bairro boêmio preferido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para realizar seus atos golpistas é o mais cantado do mundo. A “princesinha do mar”, como foi chamada no samba de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha, gravado originalmente em 1946, na voz inconfundível de Dick Farney, foi cantada até por Sarah Vaughan.

Celso Rocha de Barros - O que modera é golpista preso

Folha de S. Paulo

Normalização do bolsonarismo precisa ser revertida, não aprofundada

Em sua coluna de 29 de abril, Joel Pinheiro da Fonseca argumentou que a centro-direita está muito fraca e que, por isso, precisa se aliar ao "bolsonarismo moderado". Afinal, argumenta o colunista, não faltam exemplos de movimentos guerrilheiros ou mesmo terroristas que moderaram seu discurso e aceitaram a democracia. Por que não os bolsonaristas?

A discussão pode ser útil para estabelecer alguns limites.

Joel tem razão em dizer que muitos movimentos radicais de esquerda moderaram suas posições, em especial na América Latina dos anos 90. O PT, o Frente Amplio uruguaio, todos estão cheios de ex-guerrilheiros.

Bruno Boghossian - A direita interditada

Folha de S. Paulo

É mais provável que ex-presidente convença outros a se vestirem como ele do que o contrário

De tempos em tempos, um ministro saía do gabinete presidencial e dizia que Jair Bolsonaro estava decidido a segurar a onda. A explicação era quase sempre a mesma: o capitão havia sido convencido de que suas atitudes incendiárias afastavam uma fatia crucial do eleitorado.

Bolsonaro nunca seguiu esse caminho. Confiante de que seria capaz de sustentar sua autoridade na máquina do governo, na fúria antissistema e no combate à esquerda, ele continuou apegado a seus princípios. Perdeu a aposta, mas conseguiu apoio suficiente para manter domínio sobre todo um bloco político.

Muniz Sodré - Fenômenos patéticos

Folha de S. Paulo

Humor encontra dificuldades quando circunstâncias sociais deprimem a inteligência perceptiva

comício do Bozo em Copacabana ofereceu ao menos um episódio marcante para o registro público dos fenômenos patéticos. Sem mais nem menos, em meio à babel de bravatas, um deputado federal passou a falar em inglês. Pretendia estar sendo ouvido por Elon Musk, entronizado no ato como o bilionário que resgatará a liberdade no planeta. Uma escuta improvável: em órbita incerta, ele agora assedia australianos. Mas o episódio pode contribuir para reflexões de humoristas sobre as adversidades de se fazer humor hoje no país.

Vinicius Torres Freire - O clima no Brasil é de morte

Folha de S. Paulo

Estudo lembra como a selvageria parlamentar, administrativa e ambiental mata muito

O governo tem um "Atlas Digital de Desastres", com números de mortes e prejuízos por desastres chamados de "naturais", similares e conexos, de 1991 a 2022.

O pior ano teria sido 2011, quando 957 pessoas perderam a vida, 955 delas por causa de "chuvas intensas", com 553 mil desabrigados e desalojados. A maioria morreu em Nova Friburgo (420), Teresópolis (355) e Petrópolis (71), na serra do Rio de Janeiro. Em 2022, foram-se 397 pessoas, 395 por "chuvas intensas".

Entendidos acham que os dados são subestimados, bidu. A subestimação maior, porém, deve ocorrer porque morre muito mais gente pelo efeito difuso da combinação de ruína climática com a incompetência e a crueldade nacionais.

Hélio Schwartsman - Hegelianos de Ohio

Folha de S. Paulo

Livro mostra como pensadores alemães influenciaram abolicionistas dos EUA

No Reino Unido, os religiosos desempenharam um papel importante na luta contra a escravidão. Nos EUA, não. Ou melhor, houve um primeiro pico de circulação de ideias abolicionistas, ainda no século 18, para o qual grupos religiosos como os quakers contribuíram, mas o movimento não foi para a frente e a religião acabou se tornando no século 19 uma força majoritariamente pró-escravidão. Pior, os donos de escravos religiosos eram, nas palavras do abolicionista Frederick Douglass, ele próprio um ex-escravo, muito piores que os menos religiosos. Por que a diferença?

Poesia | Sete belíssimos poemas sobre a lua

 

Música | Zeca Pagodinho e vários artistas - Camarão que dorme a onda leva

 

sábado, 4 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Protestos nos EUA revelam inépcia das universidades

O Globo

Instituições se mostram incapazes de combater antissemitismo e de proteger direito dos alunos à manifestação

A onda de protestos contra Israel que tomou conta das universidades americanas revela a incapacidade dessas instituições para lidar com o conflito entre dois valores essenciais ao mundo acadêmico: a proteção às minorias e a liberdade de expressão. Manifestações e acampamentos pró-Palestina têm sido alvo de ações policiais que já resultaram em mais de 2 mil prisões. A repressão se espalhou de Nova York a Los Angeles, de Portland a Nova Orleans, a ponto de o presidente Joe Biden, alvo dos manifestantes pelo apoio a Israel depois dos ataques do grupo terrorista Hamas, afirmar que os americanos têm “direito de protestar, mas não a causar o caos”.

É importante lembrar que, nos Estados Unidos, vigoram leis mais elásticas sobre liberdade de expressão que nos países europeus ou no Brasil. Lá, manifestações de racismo, nazismo ou antissemitismo são legais, desde que não representem ameaça imediata de dano físico e que não se dirijam contra alvos específicos. Mas diversas manifestações ultrapassaram até esse limite, com invasão de prédios e acampamentos, em violação das normas universitárias, distúrbios à circulação e à ordem. “Destruir propriedade não é protesto pacífico. É contra a lei”, disse Biden. “Vandalismo, invasão, quebrar janelas, fechar o campus e forçar o cancelamento de aulas e cerimônias de graduação, nada disso é protesto pacífico. Ameaçar, intimidar, instilar medo não é protesto pacífico. É contra a lei. Dissenso é essencial à democracia, mas dissenso não pode levar à desordem.”

Oscar Vilhena Vieira – Muralhas do Supremo

Folha de S. Paulo

Corte demonstrou ser trincheira relevante na defesa da democracia

Recente pesquisa sobre confiança no Judiciário, realizada pela Atlas-Jota, aponta que cerca de 50% dos entrevistados não confiam no trabalho dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O cenário desperta preocupação, mas não surpresa, em face do papel central ocupado pelo tribunal num contexto de forte polarização e turbulência política em que o pais imergiu na última década.

Para que o leitor tenha clareza sobre a clivagem que separa os eleitores brasileiros, basta destacar que 90,4% dos que declaram ter votado em Jair Bolsonaro não confim no Supremo, enquanto 90,5% dos que declararam voto em Lula dizem confiar na corte.

Ao receber a responsabilidade de decidir sobre questões controvertidas de natureza moral, política e mesmo econômica, que os órgãos de representação política não foram capazes de dirimir, tribunais constitucionais assumem os custos políticos dessas decisões, angariando a desconfiança daqueles que se sentiram contrariados pelas suas decisões.

Pablo Orlellado - O caráter golpista do 8 de Janeiro

O Globo

Não foi apenas uma manifestação pacífica de senhorinhas patriotas

Existe uma aparente contradição capturada por uma pesquisa do Datafolha de março deste ano. A maioria dos brasileiros considera que o ex-presidente Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado. Porém também acha que o 8 de Janeiro não foi golpe de Estado, mas apenas vandalismo.

Nos dias 19 e 20 de março, a pesquisa perguntou se os entrevistados consideravam o 8 de Janeiro golpe ou vandalismo. Maioria expressiva de dois terços (65%) acha que se tratou apenas de vandalismo, e apenas o outro terço (30%) que foi golpe. Até entre os eleitores de Lula, 52% consideram que a invasão dos três Poderes foi só vandalismo. Na mesma pesquisa, porém, 55% acreditam que Bolsonaro tentou se manter no poder por meio de um golpe. Como é possível que o Brasil acredite que Bolsonaro é golpista, mas que o 8 de Janeiro não foi golpe ou parte de um golpe?

Dora Kramer - Às favas com a Carta

Folha de S. Paulo

Os Poderes se atritam no Brasil, e os poderosos confraternizam sob sigilo no exterior

Vejam como são as coisas: os Poderes da República se atritam no Brasil de modo transparente enquanto os poderosos confraternizam no exterior em ambiente de obscuridade nada republicana.

Isso sob a égide do sigilo quanto a quem paga, por que paga e a quais propósitos atendem os patrocinadores de convescotes no circuito Londres-Paris-Nova York-Madri-Lisboa.

Alega-se, para tal, a necessidade de estreitar relações entre os setores público e privado, mas não se faz isso por aqui mesmo ou em cenários menos propícios ao deleite dos participantes.

Carlos Alberto Sardenberg - Sobre democracia e mandar

O Globo

Quem manda acha que pode fazer o que criticava quando era oposição. A fala de Lula no Dia do Trabalho cai nessa categoria

Topo com o Millôr. Democracia, diz, é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim. Ainda pergunto:

— Vale para qual época?

— É universal.

Mas, se fosse preciso escolher uma só época, esta nossa cairia bem. Ampliando o sentido da frase: quem manda acha que pode fazer exatamente o que criticava quando era oposição.

Cai nessa categoria a fala de Lula no comício do Dia do Trabalho, quando pediu votos para Boulos, candidato a prefeito de São Paulo. Pela lei eleitoral, só poderia fazer isso — pedir voto — uma vez iniciada oficialmente a campanha, segundo as normas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como ainda não começou, poderia, digamos, aparecer abraçado a Boulos, sem falar nada. A pena por falar é mixaria. No máximo, de R$ 25 mil. Logo, vale a pena. Todo mundo está falando do episódio, inclusive nós aqui.

Hélio Schwartsman - Vontade de punir

Folha de S. Paulo

Esquerda aceita ideia de que menores sejam tratados de modo menos rigoroso desde que delito não integre sua lista de crimes favoritos

A esquerda precisa definir aquilo em que acredita. Quando um bolsonarista fala em reduzir a maioridade penal, a esquerda, com razão, rejeita a proposta. E o faz com base na ideia de que crianças e adolescentes, por serem sujeitos em formação, devem receber da Justiça um tratamento menos rigoroso que o dispensado a adultos. Daí não decorre que jovens não devem responder por ilícitos ou violações éticas que cometam, mas apenas que as sanções tenham caráter mais educativo do que retributivo.

Alvaro Costa e Silva – Quem é vivo sempre aparece

Folha de S. Paulo

Além de usar a filha para influir no Congresso, indica aliados na Prefeitura do Rio

O ditado é antigo, mas infalível: quem é vivo sempre aparece. Ainda mais quando o vivente –que está mais para assombração– se chama Eduardo Cunha.

O ex-deputado presidiário tem longa familiaridade com as altas rodas do poder desde a época em que se tornou o todo-poderoso presidente da Telerj e usou o cargo para mexer os pauzinhos e construir sua carreira. No fim dos anos 1980, ajudou a campanha presidencial de Collor e a fortalecer o inexpressivo PRN no Rio de Janeiro. Acabou envolvido no escândalo das contas fantasmas de PC Farias. Sempre conspirando e fazendo alianças secretas, foi a figura determinante no processo de impeachment de Dilma e na posse do vice, Temer. "Que Deus tenha misericórdia dessa nação" –quem não se lembra da frase?

Eduardo Affonso - Lady Madonna

O Globo

Na contramão do identitarismo, a cantora não vitimizou mulheres, pretos, gays, latinos. Preferiu celebrá-los

Deve ter havido algum fenômeno paranormal entre junho e agosto de 1958. No intervalo de menos de três meses, nasceram Prince, Madonna e Michael Jackson. É difícil que pelo menos um deles não esteja na trilha sonora da vida de qualquer sessentão.

Prince mudou de nome, Michael mudou de cor, e a material girl se tornou mãe de seis filhos (quatro adotados na África). Em algum momento, nesses 65 anos, o Brasil esteve no meio de seu caminho.

Prince abriu show de Alceu Valença no Maracanã (era o Rock in Rio, e ele preferiu não ser a última atração da noite). Cantou que nada se comparava a nós. Michael subiu o Morro Dona Marta (onde há uma estátua horrenda, em homenagem) e desceu o Pelourinho com o Olodum, cantando que eles não ligam para nós. A única sobrevivente da trinca estará hoje, no Rio, diante de 1,5 milhão de pessoas, mostrando que não liga para o peso de 40 anos de carreira — e que poucos artistas se comparam a ela.

Demétrio Magnoli - O ópio dos estudantes

Folha de S. Paulo

Tese 'decolonial' espalhou-se entre professores universitários e salas de aula

"O Ópio dos Intelectuais", obra do filósofo Raymond Aron publicada em 1955, referia-se ao marxismo e brincava com a caracterização da religião, por Karl Marx, como o "ópio do povo". A religião laica dos intelectuais fez seu caminho até os estudantes e, bem diluída nos líquidos do pacifismo e do terceiro-mundismo, deixou uma marca nas manifestações contra a Guerra do Vietnã. De lá para cá, porém, foi substituída por outra doutrina dogmática: a tese "decolonial".

Assim como o marxismo, a nova doutrina espalhou-se entre professores universitários, gotejou para as salas de aula e, finalmente, emergiu no palco das manifestações contra a guerra em Gaza nos campi dos EUA. Sua síntese aparece num cartaz exposto no acampamento de protesto da Universidade George Washington: "Palestina livre. Os estudantes voltarão para casa quando os israelenses voltarem para a Europa, os EUA etc (seus lares verdadeiros)".

Bolívar Lamounier - Reflexões à margem de uma crise anunciada

O Estado de S. Paulo

Não estranha havermos chegado a uma estrutura disfuncional, incompatível com uma boa gestão das contas públicas e irrelevante na função de representar os cidadãos

O Brasil nunca teve, não tem e nada sugere que venha a ter uma estrutura de partidos consistente e confiável. Acrescente-se que, na situação em que nos encontramos, é imperativo contextualizar essa questão no quadro da séria crise com que nos iremos deparar num horizonte de 15 ou 20 anos. Comecemos, então, pelos partidos políticos. Aqui, o que interessa não é o simples número de siglas, mas esse número ponderado pelo número de assentos que cada uma delas detém na Câmara federal. É sabido que nossos maiores partidos nunca ultrapassam 20% do número de assentos. Desse ponto de vista, estamos tratando do grau de fragmentação da estrutura partidária, e ninguém contesta que a nossa é uma das mais fragmentadas do mundo. Daí decorre que o Executivo só consegue o apoio da maioria recorrendo deslavadamente ao clientelismo e ao contorcionismo fiscal para fechar anualmente as contas públicas.

Miguel Reale Júnior - Punitivismo eleitoreiro

O Estado de S. Paulo

O obscurantismo prevalece para alimentar o discurso de palanque visando a contentar a população crédula em soluções fáceis

A guerra contra as drogas foi declarada por Richard Nixon em 1971 e reiterada pelos governos que o sucederam. A ONU, por influência norte-americana, editou a Convenção de Viena de 1988, na qual se consagrou a war on drugs, com exigência de punições graves aos usuários.

Nessa época, eu presidia o Conselho Federal de Entorpecentes, contando com conselheiros do nível de Elisaldo Carlini, Sérgio Paula Ramos e Miguel Jorge. O conselho, ao qual então cabia editar a lista de substâncias estupefacientes, decidiu não incluir como entorpecente o chá do Santo Daime, ou ayahuasca, pois, malgrado fosse um alucinógeno, seu uso era limitado e ligado à prática religiosa. A incriminação apenas criaria o comércio clandestino e a tentação do proibido. Estávamos certos. O uso do chá cumpre, até hoje, seu ritual espiritual, de forma restrita.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Dúvidas do espírito de porco

CartaCapital

Será que não há um pouco de precipitação nas conclusões irrefutáveis dos economistas sobre seus modelos?

Na edição de 29 de abril, em sua Página de Rosto (assim falavam os da antiga), o Estadão estampou a manchete: “Piora fiscal e cenário externo põem em xeque previsão de taxa de juros com um dígito”.

Essa advertência foi precedida, e segue acompanhada, por incisivos editoriais que fincam o pé na condenação dos gastos do governo, apresentados como a origem dos males que afligem a economia brasileira.

Em contundente editorial, a Folha de S.Paulo proclama: “Economia oscila entre o medíocre e o arriscado. Relaxamento de meta fiscal confirma recusa de Lula em rever gastos, o que limita expansão do PIB e torna País vulnerável. O afrouxamento precoce das metas para os resultados das contas do Tesouro Nacional não surpreendeu ninguém. Na verdade, nem mesmo se acredita que as novas metas serão cumpridas”.

Marcus Pestana - Traduzindo o desafio fiscal em miúdos (II)

Na última semana, chamamos a atenção sobre a barreira quase intransponível erguida pela linguagem técnica entre o cidadão leigo e os economistas. A economia faz parte do cotidiano da população. As decisões econômicas repercutem na vida de todos. No fundo, trabalhadoras e trabalhadores, donas de casa e chefes de família, entendem conceitos tais como receita, despesa, déficit, inflação, juros e dívida, pois lidam com o orçamento familiar.

No último artigo, ficou claro que receita é receita, despesa é despesa, independentemente de sua natureza, qualidade ou classificação contábil. As receitas podem ser correntes, como a dos impostos, taxas, contribuições, participações, ou de capital, como a oriunda da venda de uma estatal ou de uma operação de crédito. As despesas podem financiar o custeio (salários, previdência, benefícios, bens de consumo, etc.), investimentos (obras e equipamentos) ou, ainda, o pagamento de parcelas e juros da dívida. Os gastos podem ter boa qualidade como quando bancam a qualidade da educação, o acesso a saúde, o Bolsa Família ou uma estrada necessária. Mas podem ser ruins quando direcionados a sustentar privilégios e obras faraônicas não prioritárias ou vão pelo ralo da corrupção ou do desperdício. Mas bons ou ruins, para custeio ou investimento, gasto é gasto. 

Cláudio Carraly* - Construindo Resiliência: Desafios e Estratégias Diante dos Eventos Climáticos Extremos

A crescente instabilidade climática lança uma sombra cada vez mais ameaçadora sobre o destino da humanidade, eventos climáticos extremos, outrora raros e excepcionais, agora são assustadoramente comuns. Inundações avassaladoras, secas prolongadas, tornados devastadores e ondas de calor insuportáveis assolam comunidades em todo o mundo, inclusive e crescentemente no Brasil. Nossa diversidade climática e a vasta extensão territorial do país não o imunizam contra a fúria da natureza, inundações recorrentes, secas intermináveis e ondas de calor extremo em todo o território nacional servem como um lembrete cruel da vulnerabilidade da nação diante dos caprichos do clima.

O Brasil enfrenta desafios monumentais diante das crescentes mudanças climáticas globais, para responder de forma eficaz a esses desafios, é imperativo adotar uma abordagem abrangente e multifacetada que não apenas mitigue os impactos adversos, mas também promova a resiliência e a sustentabilidade a longo prazo, pois o problema veio para ficar. Uma parte essencial dessa resposta envolve o compromisso com o financiamento adequado e a alocação inteligente de recursos, é fundamental que os governos em todos seus níveis, estabeleçam políticas claras de financiamento sob o prisma climático, garantindo que os recursos necessários estejam disponíveis para implementar medidas de adaptação e mitigação em todas cidades mais vulneráveis do país, além disso a mobilização de financiamento internacional, bem como a exploração de instrumentos financeiros inovadores, como títulos verdes e fundos de resiliência climática.

Poesia | Caso Pluvioso, de Carlos Drummond de Andrade (Por Paulo Autran

 

Música | Paulinho da Viola - Sei Lá, Mangueira

 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Falta planejamento para enfrentar a tragédia das chuvas

O Globo

Dificuldade de prever o impacto de eventos climáticos extremos justifica precaução maior, não o despreparo

Oito meses depois das enchentes que arrasaram cidades do Vale do Taquari, em setembro do ano passado, provocando a morte de pelo menos 50 pessoas, o Rio Grande do Sul se vê novamente às voltas com os efeitos de eventos climáticos extremos. Com cerca de 150 municípios afetados por inundações, o governador Eduardo Leite (PSDB) declarou estado de calamidade pública na última quarta-feira. As imagens de pontes, estradas e casas destruídas pela força das águas não deixam dúvidas sobre a gravidade da tragédia, que já deixou pelo menos 32 mortos e 60 desaparecidos.

Era, como costuma ser em casos assim, impossível prever os efeitos das tempestades. Embora existisse previsão de chuvas fortes para o Sul do país, não havia como saber exatamente as áreas que seriam afetadas nem o impacto sobre a população. Por isso mesmo, era preciso estar preparado. A dificuldade de prever uma tragédia é motivo para adotar precauções maiores, não para o descaso e o despreparo. Eventos dessa natureza têm se tornado — e se tornarão — cada vez mais frequentes e intensos em consequência das mudanças climáticas.

Fernando Abrucio* - Municípios no centro do debate

Valor Econômico

O pleito de outubro deveria ser centrado na discussão da melhoria das condições locais de vida da população

As eleições municipais constituem um momento especial da democracia brasileira porque os governos locais tornaram-se, a partir de 1988, fundamentais para a vida dos cidadãos. As principais políticas de saúde, educação, assistência social e transporte público passam pelos prefeitos e vereadores, bem como as decisões sobre a organização das cidades onde moramos. O país teria, então, de se preparar para discutir exaustivamente essas temáticas até outubro. Só que uma parcela da classe política tem escolhido caminhos que dificultam um debate sólido sobre que tipo de municípios queremos ter depois de 2024.

É possível elencar quatro aspectos que dificultam colocar os municípios e seus desafios no centro do debate das eleições de outubro. O primeiro deles é o crescimento do peso da lógica parlamentar emendista sobre a vida política local. Houve aqui não somente uma elevação das emendas cujo gasto é impositivo, hoje numa faixa próxima dos R$ 50 bilhões. Também ocorreu uma transformação na forma como podem ser transferidos os recursos, especialmente por meio das chamadas “emendas Pix”, que caem direto no caixa das prefeituras.

Aparentemente, tudo isso é muito bom, porque mais recursos chegam aos governos locais. Porém, esse processo é feito de um modo que cria uma dependência dos municípios em relação aos senadores e, principalmente, deputados federais. Muitas das mudanças feitas nos últimos 30 anos no federalismo brasileiro foram na direção do aumento da autonomia municipal, e o emendismo vigente é um retrocesso neste processo. Claro que parlamentares federais (e estaduais, também cada vez mais emendistas) são eleitos tanto quanto os prefeitos e vereadores. Contudo, deveria ser dado um poder maior a quem apresenta um plano de governo para o conjunto da cidade e ganha a legitimidade popular para executá-lo para o conjunto do eleitorado local.

José de Souza Martins* - Incertezas da crise brasileira

Valor Econômico

Um sinal preocupante de nossa ruína é a persistência de um Brasil bipolar, que estreita nossas alternativas sem abrir-nos a possibilidade de superação democrática de nossas limitações

O que nos espera lá adiante na história social e política? Tudo indica que, em comparação com o que fomos e com as certezas que já tivemos do que poderíamos ser, nosso lá adiante será a confirmação de uma opção preferencial pelo atraso. Uma opção acidental, por ação e omissão, aos trancos e barrancos de uma história política sem a nervura própria de partidos doutrinários. Em que mais teve voz a incompetência e o oportunismo do que a consciência política propriamente dita.

Essa anomalia chegou ao auge no governo de 2019 a 2022, em que o Brasil foi capturado por um êmulo do Chacrinha, que iniciava seus programas de TV com a advertência: “Vim para confundir”, por meio do desmonte do nosso modesto patrimônio de conquistas democráticas.

Alguns episódios dramáticos de nossa história revelam todo seu sentido nesta atualidade de incertezas. Quando começou nossa decadência? Quando começou o fim de nossa confiança em nós mesmos? Um sinal preocupante de nossa ruína é a persistência de um Brasil bipolar, que estreita nossas alternativas sem abrir-nos a possibilidade de superação democrática de nossas limitações.

César Felício - Terreno hostil para Lula na galera dos aplicativos

Valor Econômico

É tudo muito novo e a polêmica existe no mundo inteiro; manual de representação sindical antigo não se aplica aqui

Se há uma brecha no eleitor potencialmente bolsonarista em que o lulismo se empenha em tentar entrar é o do universo dos motoristas de aplicativos. Não tem tido muito sucesso: depois de um ano de negociações, o governo conseguiu apresentar uma proposta de regulamentação do trabalho de transporte de passageiros, mas não obteve um mínimo consenso necessário para mandar um projeto em relação aos entregadores.

E o jogo está travado em relação ao que foi enviado ao Congresso. O governo deparou-se com uma oposição parlamentar azeitada e com a constatação que tem muitos grupos organizados de motoristas de Uber que não se sentem representados pelos sindicatos que negociaram a proposta. A urgência regimental na Câmara que o projeto teve que ser retirada.

Vera Magalhães - Lula o risco do 'datapovo' precoce

O Globo
Presidente precipita desnecessariamente competição com Bolsonaro pelo posto de melhor padrinho eleitoral

Lula não conseguiu esconder a irritação por ter sido levado a uma roubada. Se ele próprio advertira, como discursou, que o evento do 1º de Maio seria esvaziado, por que aceitou participar? Se reconhece que havia pouco a anunciar, de novo, por que dar essa sopa ao azar? E, por fim, diante do cenário adverso, a cereja do bolo foi pedir voto para Guilherme Boulos e sair do ato com uma multa por propaganda eleitoral antecipada espetada na conta. Desastre total.

O presidente da República ainda tem dois anos e cinco meses de mandato até a eleição. A pior cilada em que pode cair é começar a disputar público, se lançar no “datapovo” com Jair Bolsonaro. A começar porque o antagonista está inelegível. Ao cair nessa esparrela, Lula prorroga e amplifica o prestígio do adversário como cabo eleitoral e a campanha que o ex-presidente e aliados já empreendem no sentido de causar uma comoção popular pela reabilitação eleitoral.

As aglomerações que Bolsonaro provoca nos aeroportos e eventos que convoca, sabe-se desde 2017, são obtidas à custa de uma diligente mobilização digital, empresarial e logística. Têm, claro, um componente orgânico, como evidenciam as pesquisas de apoio ao ex-presidente, mas também grandes doses de arregimentação minuciosamente cuidada.

Bernardo Mello Franco – A punição que compensa

O Globo

Lula usou o Dia do Trabalho para alavancar a candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo. “Vou fazer um apelo: cada pessoa que votou no Lula em 1989, em 1994, em 1998, em 2002 (...) tem que votar no Boulos para prefeito”, discursou, no palanque das centrais sindicais.

A legislação eleitoral afirma que só é permitido fazer campanha após 15 de agosto. Ao pedir votos para o aliado, o presidente cometeu uma infração à luz do dia. Não é possível absolvê-lo por inexperiência.

Lula poderia encher um álbum com as multas que já recebeu da Justiça por campanha antecipada. Ora para si mesmo, ora para aliados, como Dilma Rousseff e Fernando Haddad. Nada indica que a coleção vá parar por aqui.

A reincidência não o faz muito diferente dos adversários. De Jair Bolsonaro a José Serra, quase todos já foram punidos pelo mesmo motivo. São beneficiados por uma legislação inócua, que serve como incentivo a quem quiser descumpri-la.

Hélio Schwartsman - Lula já esteve em melhor forma

Folha de S. Paulo

Gafe política e infração eleitoral marcaram falas do presidente no 1º de Maio

Lula está fora de forma. Em outros tempos, não teria cometido um 1º de Maio como o da última quarta-feira.

O presidente tem não só o direito como o dever de apoiar Guilherme Boulos na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Isso é parte de um acordo que ele em nome do PT firmou dois anos atrás, e cumprir acordos é importante na política. O problema é que Lula não é só o comandante do PT. Ele também lidera uma coalizão de governo que reúne mais de uma dezena de partidos. Os três principais postulantes à prefeitura, Boulos (PSOL), Ricardo Nunes (MDB) e Tabata Amaral (PSB), pertencem a legendas que integram essa aliança. O MDB tem três ministérios, e o PSB, dois.