segunda-feira, 3 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lei é fraca para impedir campanha eleitoral antecipada

O Globo

Dispositivos vagos e punições leves funcionam como incentivo para que candidatos e partidos ignorem proibições

É patente a deficiência da legislação eleitoral para coibir a propaganda antecipada. Ao estabelecer como início oficial da campanha o dia 16 de agosto, logo depois de esgotado o prazo para registro das candidaturas, a intenção da Justiça Eleitoral é garantir um mínimo de equilíbrio de forças entre quem busca reeleição — e detém controle da máquina administrativa — e os opositores. Infelizmente, os termos da lei são inócuos e as punições, multas entre R$ 5 mil e R$ 25 mil, leves demais. Por isso a campanha antecipada se tornou tão frequente. Os processos para investigar propaganda antes do prazo legal já são mais que o dobro do registrado no último pleito municipal — passaram de 329 para 682, segundo levantamento feito pelo GLOBO em Tribunais Regionais Eleitorais.

Entrevista | Bernie Sanders*: Mundo enfrenta mais crises hoje do que em toda minha vida

Por Fernanda Perrin / Folha de S. Paulo

Em entrevista à Folha, senador e ícone progressista americano afirma que Biden precisa ser mais forte na disputa com Trump para deixar claro que defende trabalhadores

NOVA YORK - Bernie Sanders, 82, nem pensa em deixar a política. "O mundo hoje enfrenta mais crises do que em qualquer momento da minha vida", diz. Senador desde 2007, o americano anunciou que vai concorrer a um novo mandato na eleição deste ano —o que motivou imediatamente comparações com o presidente Joe Biden, 81, no noticiário do país.

"Se alguém é meio velho e fraco e não pode fazer o trabalho, acho que é um fator. Mas, cá entre nós, eu não acho que estou tão fraco assim ainda", diz Bernie à Folha ao ser questionado sobre o porquê de a idade ter se tornado um tema tão central nos EUA neste ano.

Principal voz da ala progressista da política americana, ele é uma das esperanças da campanha de Biden para recuperar o apoio do eleitorado jovem, insatisfeito com a economia e com o apoio do presidente a Israel na guerra em Gaza. Judeu, Sanders aceitou o papel, mas não esconde as críticas à aliança com Tel Aviv. Para ele, a Casa Branca não deveria mais enviar dinheiro ao governo de Binyamin Netanyahu.

"Acho que o presidente terá que ser mais forte do que é para deixar claro que defende os trabalhadores", afirma Sanders, sobre o desafio na disputa contra Donald Trump em novembro. Em sua visão, o maior problema de Biden é de comunicação.

Recentemente, Sanders se encontrou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e com uma delegação de congressistas brasileiros envolvidos na CPI do 8 de Janeiro. O americano elogia a proposta de taxação dos super-ricos defendida pelo país à frente do G20 e, embora afirme que não tem acompanhado o terceiro mandato de Lula, cita o petista como exemplo de líder de esquerda.

Fernando Gabeira - Não vendam nossas praias

O Globo

Com as mudanças climáticas, as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.

Miguel de Almeida - O Brasil visto por Einstein

O Globo

Aos olhos dele, o comportamento dos brasileiros se explica pelo clima

Foram necessários apenas cinco minutos e 13 segundos, o tempo do eclipse em maio de 1919, para que as teorias de Albert Einstein fossem comprovadas. Sobral, no interior do Ceará, e a ciência seriam outras a partir dali. De Londres, Einstein e uma plateia de estudiosos analisavam os dados enviados por cientistas desde um laboratório precariamente instalado na cidadezinha cearense. Diante do eclipse às 9 da manhã, parte da população de Sobral, assustada com o repentino escurecimento, escondeu-se dentro da igreja. Poderia ser o anunciado fim de mundo. Atordoados, os galos da vizinhança voltaram a cantar com a chegada da inesperada noite.

Bruno Carazza - Bem ou mal, as instituições continuam funcionando?

Valor Econômico

Livro de Marcus Melo e Carlos Pereira apresenta explicação para resiliência e ineficiência da democracia brasileira

N a semana passada, o Congresso impôs uma acachapante derrota de 366 a 137 votos na apreciação do veto do presidente Lula ao projeto que proíbe a “saidinha” de presos. Não foi a primeira vez.

“Como seria possível um líder político dos mais experientes e tido como sagaz na arte de negociar estar sofrendo tantos reveses no Legislativo a ponto de se colocar na posição de refém de exigências das principais lideranças do Congresso e dos seus novos (velhos) aliados do Centrão?”

A pergunta é feita pelos cientistas políticos Marcus André Melo e Carlos Pereira no penúltimo capítulo de “Por que a Democracia Brasileira não Morreu?”, que acaba de chegar às livrarias.

Alex Ribeiro - BC precisa repensar sua comunicação sobre o juro

Valor Econômico

Declarações em reuniões fechadas, comunicado só com pontos consensuais são alguns dos problemas

A pior notícia que o Banco Central teve nos últimos meses foi a alta das expectativas de inflação de 2026, de 3,5% para 3,58%, depois de 46 semanas de estabilidade. Este é um horizonte de tempo muito distante para ser afetado pelas decisões que estão sendo tomadas agora sobre a taxa Selic, e até lá se presume que todos os choques que pressionam a inflação podem se dissipar sozinhos ou com a ajuda da política monetária. Trata-se, portanto, de um questionamento frontal dos especialistas de mercado financeiro à credibilidade da política monetária.

A maior parte da responsabilidade se deve ao voto dissidente de todos os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) indicados pelo presidente Lula em favor de uma baixa mais forte de juros. Mas falhas na comunicação de política monetária do colegiado também pioraram as coisas. Algumas delas não são, exatamente, novas. Será preciso debatê-las para corrigi-las.

Marcus André Melo - Populismo econômico

Folha de S. Paulo

Neste governo, a situação é mais complexa porque não quer repetir o estelionato eleitoral de Dilma pelos custos políticos

"Se um governo tentasse um ponto de equilíbrio, procurando ser trabalhista no Ministério do Trabalho, liberal no Ministério da Economia e conservador no Ministério das Finanças, deixaria de ser governo para se transformar num conflito".

O prognóstico do ideólogo do trabalhismo getulista, o senador Alberto Pasqualini, ilumina a dinâmica intragoverno sob Lula 3.

Pasqualini recorre a uma falácia recorrente entre nós sobre a incompatibilidade dinâmica entre equilíbrio fiscal e gasto social: "Reconhecemos como justa a política social, mas praticamos uma política financeira, monetária e fiscal que lhe está em absoluta contradição" (idem).

Deborah Bizarria - Câmeras corporais desligadas

Folha de S. Paulo

Tarcísio desfaz avanços na segurança pública e subverte o que se mostrou efetivo

As câmeras corporais na Polícia Militar de São Paulo foram introduzidas com um objetivo claro: aumentar a transparência e conformidade no trabalho policial, reduzindo a letalidade e os abusos de poder.

No entanto, as recentes alterações propostas pela gestão de Tarcísio de Freitas representam uma mudança de foco que compromete os avanços alcançados até agora.

O programa anterior integrava-se a iniciativas mais amplas da própria PM que visavam aprimorar o treinamento —as imagens eram utilizadas para reforçar os procedimentos nas sessões.

Além disso, diversos estudos, como o de Tricia Bent-Goodley, apontam uma forte relação entre a redução da letalidade policial e o aumento da confiança da população nas forças de segurança, fundamental para o combate ao crime.

Diogo Schelp - Fake news, crime?

O Estado de S. Paulo

Criminalizar a desinformação é uma péssima ideia. Melhor seria aprovar o PL das Fake News

Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 com a ajuda de fake news e governou espraiando fake news – contra vacinas, contra as urnas eletrônicas, contra adversários, contra o que fosse.

Em 2021, vetou a inclusão de um artigo no Código Penal que tipificava “comunicação enganosa em massa” como crime que poderia ser punido com um a cinco anos de reclusão e multa.

Parecia, com razão, que Bolsonaro estava agindo em causa própria.

Na semana passada, o Congresso finalmente analisou esse veto, entre outros. Bolsonaro entrou em cena para convencer parlamentares a mantê-lo. O governo Lula orientou pela derrubada, ou seja, a favor de criminalizar a disseminação de fatos inverídicos que pudessem “comprometer a higidez do processo eleitoral”, como dizia o trecho cortado.

Denis Lerrer Rosenfield - Sentimentos morais

O Estado de S. Paulo

O Rio Grande do Sul expôs sentimentos morais em ato, fazendo predominar a ajuda ao próximo, para além de qualquer tipo de clivagem partidária

Há eventos, na História e em vivências pessoais, que trazem à tona facetas e propriedades da natureza humana que estavam adormecidas, sufocadas ou simplesmente desconsideradas, seja por não serem solicitadas, seja por não serem cultivadas. No entanto, irrompem em momentos em que são necessárias, o que pode ocorrer em situações extremas, como em guerras ou calamidades, a exemplo da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul.

Luiz Carlos Azedo - Para nossos jovens, a elite política fracassou

Correio Braziliense, Publicado em 02/06/2024 - 16:25 

Em grande parte, o desinteresse dos jovens pela escola é resultado da má qualidade do ensino, fenômeno que chegou às universidades federais, com altos índices de evasão

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o segundo país em proporção de jovens entre 18 e 24 anos que não estudam nem trabalham, atrás apenas da África do Sul, num total de 37 países analisados. Os motivos desses jovens estarem sem estudar e sem trabalhar variam conforme a renda familiar, porém, se encontram nessa condição principalmente os mais pobres. Jovens que não estudam, não trabalham e nem procuram emprego majoritariamente moram nas periferias das cidades brasileiras.

A Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, avalia que dos 207 milhões de habitantes do Brasil, 17% são jovens de 14 a 24 anos, dos quais 5,2 milhões estão desempregados. Ou seja, são 55% das pessoas que procuram emprego e não acham, num universo de 9,4 milhões, dos quais 52% são mulheres e 66% são pretos e pardos. Aqueles que nem trabalham nem estudam e nem procuram emprego — os chamados nem-nem — somam 7,1 milhões, sendo que 60% são mulheres, a maioria com filhos pequenos, e 68% são pretos e pardos.

Elimar Pinheiro do Nascimento* - A sustentabilidade já era

Revista Será? Edição de 24/05/2024

As condições atuais são tão desfavoráveis aos humanos que a simples postura em defesa da sustentabilidade não tem mais o efeito que se imaginava há 30 ou 40 anos atrás. Não é mais suficiente. Por isso, Francisco Nilson Moreira está coberto de razão quando diz em seu Ted X ESMPU: “A sustentabilidade já era. Hoje temos que ser regenerativos”.1 E o Rio Grande do Sul está aí para provar.

Por milênios, os homo sapiens têm habitado a terra destruindo-a. Alguns, os menos informados, imaginam que tudo começou com a revolução industrial nas dobras dos séculos XVIII/XIX, como também imaginam que o movimento ambientalista começou com a Conferência de 1972 em Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano). Antes desta conferência, Rachel Carson2 já havia publicado Primavera Silenciosa, com enorme impacto sobre o nascente movimento ambientalista, e o mundo já conhecia a criação de áreas protegidas, o Brasil inclusive3. Antes da revolução industrial, os Sapiens já haviam dizimado os Neandertais, enfraquecidos pelos fortes efeitos da era glacial na Eurásia, como também os megamamíferos, os mamutes, entre 50 e 10 mil anos atrás. Incluindo o Brasil, onde foram extintos os tigres dentes de sabre, as preguiças gigantes e os toxodontes, entre outros.

Claudia Sheinbaum é 1ª mulher eleita presidente do México, diz projeção oficial

Mayara Paixão / Folha de S. Paulo

Analista vê possibilidade de 'governo descafeinado' após seis anos de López Obrador; atraso na divulgação da contagem rápida gera críticas a órgão eleitoral, cansaço e suspeitas

CIDADE DO MÉXICO - Claudia Sheinbaum vai suceder a Andrés Manuel López Obrador, seu padrinho político, e será a primeira mulher na história a governar o México, indica projeção oficial dos resultados.

Às 3h de Brasília (0h local), o Instituto Nacional Eleitoral (INE), órgão autônomo, estimou que a governista teria de 58,3% a 60,7% dos votos. Na sequência, a opositora Xóchitl Gálvez marcaria entre 26,6% e 28,6%.

É a chamada contagem rápida do INE, um procedimento previsto no regramento eleitoral mexicano no qual uma equipe técnica projeta o resultado com base em uma amostra da contagem obtida nas "casillas", como são chamados os centros de votação. A confiança é de 95%.

Se confirmados esses números, Sheinbaum seria a presidente eleita com mais votos na história do país.

Os opositores —Xóchitl e Jorge Álvarez Máynez, azarão do Movimento Cidadão que teria obtido em torno de 10%— reconheceram a derrota.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O sertanejo falando

 

Música | Mastruz Com Leite - São João de Todos os Tempos

 

domingo, 2 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desemprego em queda é reflexo de reforma trabalhista

O Globo

Mudanças de 2017 são principal fator para ampliação de vagas formais. Educação responde por maior renda

No trimestre encerrado em abril, o desemprego ficou em 7,5%, 1 ponto percentual abaixo do registrado há um ano e quase metade do resultado em 2021 (14,7%). É o menor número para o período desde 2014. E tem mais: a melhora no mercado de trabalho acontece enquanto o rendimento médio continua subindo. Em um ano, ele deu um salto de 4,7%, revelam dados do IBGE. No pior momento da pandemia, ninguém previa uma recuperação tão forte.

Os altos e baixos do desemprego são cíclicos, mas algo aparentemente distinto parece acontecer desta vez. Tem crescido também a proporção de empregos formais, que garantem mais direitos aos trabalhadores e paridade na competição entre as empresas. No primeiro trimestre, foram firmados mais contratos com carteira assinada que no mesmo período nos dois anos anteriores. Em abril, o saldo de empregos formais, segundo o Ministério do Trabalho, alcançou 240.033 postos, melhor resultado para o mês desde 2013. O contraste com a recuperação depois da recessão entre os anos 2014 e 2016 é evidente. Na crise anterior, a retomada foi puxada por empregos informais.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Quantas e quais direitas vamos ver em 2026?

O que ocorre, ou ocorrerá, no amplo campo da direita brasileira até as eleições (presidenciais e parlamentares) de 2026 é tema que, gradativamente, ganha espaço no colunismo político e nos blogs especializados em política. É questão de tempo passar a frequentar, também assiduamente, o espaço público mais abrangente do noticiário de imprensa e a contribuir para a algazarra das redes sociais.

A maior e mais intensa circulação do tema não garante que ele será tratado em sua complexidade. Pode ser perfeitamente absorvido como tópico da polarização extrema que predomina no ambiente político. O caminho mais curto para isso é reformular a pergunta e passar-se a discutir o que fará a extrema-direita ou - ainda mais simplificadamente – quem Bolsonaro apoiará na sucessão de Lula. Questões simétricas às que circulam a respeito do outro lado, desde que o atual governo começou: se esse é um governo de coalizão ou se o lulo-petismo é que manda; quem Lula apoiará, em 2026, ou depois.

No mundo simplificado das redes digitais, perguntas tais e quais parecem confirmar o diagnóstico recente, feito pelo presidente, de que a política brasileira se resume hoje à disputa pessoal entre ele e Bolsonaro. Fora desse enquadramento seria ocioso e mesmo bobo falar em esquerda, centro e direita, ou em situação e oposição. Lula é a esquerda, Bolsonaro, a direita. Já o centro, é um ninguém. Quem apoia o governo é lulista, quem faz oposição, bolsonarista e quem não se alinha, oportunista ou ingênuo.

Uma interpretação menos tosca e mais realista do cenário no qual direita, esquerda e centro, o governo e oposições atuam vê o governo presidencialista no Brasil resultando de diversas interações do presidente. De um lado, com os governados (eleitores), relação mediada por um conjunto de formadores de opinião atuantes nas múltiplas e distintas esferas da sociedade civil e por formuladores e operadores de estratégias de comunicação política. De outro lado, com uma complexa teia institucional.

Gaudêncio Torquato - A tecnopolítica e as enchentes de ódio

Folha de S. Paulo

Nas eleições, pouco adiantará o expurgo legal de perfis mentirosos

Um apreciável conjunto de instrumentos se insere na seara da política para influenciar seus rumos, criar perfis para novos protagonistas e recriar imagens de figurantes tradicionais, situação que se apresenta extremamente impactante nos ciclos eleitorais. Basta enxergar seu (mau) uso nos EUA e no Brasil, países que vivenciam o clima de eleições. As ferramentas escolhidas fazem parte das plataformas nas redes sociais e constituem a nova infraestrutura da arte e da técnica de fazer política na era digital.

Os meios ancoram-se na trollagem —comentários racistas, sexistas, homofóbicos, denúncias contra desafetos etc.—, com evidente propósito de gerar aplausos para alguns figurantes e desmontar a identidade de outros. A falsidade é a bússola de fontes e receptores das redes. Seu objetivo é expandir a desinformação. Para tanto, haverá uma imersão na deepfake, com a produção de vídeos bombásticos para difamar perfis. O mergulho profundo no oceano das fraudes sinaliza intensa conflituosidade na política.

Celso Rocha de Barros - Plano fiscal de Tarcísio

Folha de S. Paulo

Editoriais mostram governador fazendo o que Haddad já faz

Nos últimos dias, os três maiores jornais do país, inclusive esta Folha ("Plano de SP prevê o que todos deveriam fazer", dia 24 de maio), O Globo ("São Paulo mostra a Brasília como fazer ajuste de gastos", 27 de maio) e O Estado de S. Paulo ("São Paulo aponta o caminho das pedras", 24 de maio), escreveram editoriais apoiando o plano de ajuste fiscal anunciado pelo governador Tarcísio de Freitas e contrastando-o com um suposto desinteresse do governo Lula pelas contas públicas.

Esse contraste é falso.

Bruno Boghossian - Quanto vale uma boa polícia?

Folha de S. Paulo

Argumento da austeridade fiscal de Tarcísio é verniz para sabotagem de câmeras corporais

Tarcísio de Freitas procurou muitas desculpas para se livrar das câmeras corporais da Polícia Militar. Na campanha, dizia que o equipamento tirava a privacidade dos agentes. Eleito, alegou que as gravações não tinham efetividade na segurança do cidadão. Agora, ele poliu o discurso com um argumento financeiro.

O edital para a contratação de novas câmeras para a PM permite que os policiais deixem o equipamento desligado. Segundo Tarcísio, a gravação contínua "gera muitos custos ao estado pela necessidade de armazenamento". O governador afirmou que o sistema atual gasta dinheiro para guardar um material que, "no final das contas, não serve para nada".

Hélio Schwartsman - O peso da natureza

Folha de S. Paulo

Livro que analisa impacto da mudança climática em nossos cérebros prevê homem mais violento, burro e ansioso

O Brasil experimenta em primeira mão o drama das perdas humanas e econômicas do aquecimento global, fenômeno que deverá intensificar-se. E esse é só um pedaço da conta. Em "The Weight of Nature" (O Peso da Natureza), o neurocientista convertido em jornalista Clayton Page Aldern mostra que a mudança climática também deverá nos deixar mais burros, violentos, ansiosos e paranoicos.

A era liberal em risco

O Estado de S. Paulo

Países líderes estão mais intervencionistas

Alerta Sem um quadro institucional para a cooperação, será mais difícil lidar com os desafios do século 21

Na berlinda Organizações multilaterais estão cada vez mais acuadas e não conseguem responder às atuais demandas mundiais

À primeira vista, a economia mundial parece ser de uma resiliência tranquilizadora. Os Estados Unidos cresceram mesmo com a escalada da guerra comercial com a China. A Alemanha resistiu à perda do fornecimento de gás russo sem sofrer um desastre econômico. A guerra no Oriente Médio não trouxe nenhum choque petrolífero. Os rebeldes Houthi, que disparam mísseis, mal afetaram o fluxo global de mercadorias. Em porcentagem do PIB mundial, o comércio se recuperou da pandemia e se prevê que cresça de forma saudável neste ano.

Mas, olhando mais profundamente, vemos a fragilidade. Durante anos, a ordem que governou a economia global desde a Segunda Guerra Mundial foi corroída. Hoje, está perto do colapso. Um número preocupante de fatores precipitantes poderá desencadear uma descida à anarquia, onde quem pode, manda, e a guerra é mais uma vez o recurso das grandes potências. Mesmo que nunca chegue a haver conflito, o efeito na economia de uma quebra das normas poderá ser rápido e brutal.

Lourival Sant’Anna - O show de Trump

O Estado de S. Paulo

Trump tem uma habilidade única de navegar em uma trama carregada de imprevisibilidade

A condenação de Donald Trump lança os EUA em um cenário de incertezas nas esferas jurídica e política. Obviamente, o ex-presidente e candidato não gostaria de estar nessa situação. Por outro lado, ele tem uma habilidade única de navegar em uma trama inédita e carregada de imprevisibilidade como essa.

Esse é o grande trunfo de Trump: surpreender seus oponentes com lances para os quais eles não estão preparados, e não há um roteiro de como responder. Os autores da Constituição americana não previram um condenado em processos criminais com chances de se eleger presidente.

Depois da Guerra Civil, concluída em 1865, foi acrescentada a 14.ª Emenda, que impede envolvidos em insurreições de exercer cargos federais. Ao julgar se esse caso se aplicava ao envolvimento de Trump na invasão do Capitólio, a Suprema Corte decidiu, por 5 votos a 4, que o Congresso precisaria deliberar se o ex-presidente cometeu esse crime. Os republicanos têm maioria na Câmara.

Luiz Edson Fachin* - O STF e o dever de preservar

O Globo

Ao Poder Judiciário cabe um papel nessa complexidade atrelada à emergência climática

Há razões graves para relembrar em 2024, às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, o dever de restaurar e preservar a Terra. Estão no banco dos réus as intervenções humanas que se tornaram irremediavelmente perigosas ao sistema climático mundial.

Uma especial audiência planetária se dará na Conferência do Clima sobre Mudanças Climáticas (COP30), em novembro de 2025, em Belém. A temática, que foi tratada no Brasil pela primeira vez na conferência Rio 92, está de volta à agenda dos Poderes da República, inclusive o Judiciário. É dela que eclode a questão do século. Não se pode desperdiçar o maior evento global de discussões climáticas, agora dentro da própria Amazônia e dos povos que vivem nela.

Mas a emergência é agora. Refiro-me à catástrofe no Rio Grande do Sul. Trata-se de um desastre climático, extremo, severo, e eventos como esse estão fadados à repetição.

Míriam Leitão - A rendição ao extremismo

O Globo

Nos EUA, Trump segue no jogo político. No Brasil, a direita permanece prisioneira de pautas extremistas e não se afasta de Bolsonaro

Derrotados, os ex-presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro pairam sobre os dois países como sombra, pela incapacidade do sistema político de se afastar dos extremistas. Trump, condenado em 34 acusações, ainda pode ser candidato a presidente. Bolsonaro, mesmo inelegível, é o ponto em torno do qual orbitam os políticos da direita. Nem o Partido Republicano, nem a direita brasileira conseguiram criar alternativas que os afastem do extremismo. Não existem trumpismo nem bolsonarismo moderados.

Bernardo Mello Franco – A busca de Norita

O Globo

Dona de casa virou ativista após desaparecimento do filho, vítima da ditadura argentina

Gustavo saiu cedo de casa, como fazia todos os dias, e não voltou mais. Tinha 24 anos, mulher e filho pequeno. “Ele foi sequestrado em 15 de abril de 1977”, repetia sua mãe, Nora Cortiñas. “Muitos anos depois, ficamos sabendo que o pegaram na estação Castelar, onde esperava o trem para o trabalho.”

Na manhã seguinte, ela começou uma peregrinação por igrejas, delegacias, tribunais. Desesperada, abandonou a vida doméstica e se juntou a outras mulheres que desafiavam a ditadura argentina em busca de seus filhos. Assim nascia o movimento das Mães da Praça de Maio.

Dorrit Hazarim - A conta chegou

O Globo

Ninguém estava realmente preparado para o acachapante veredito da condenação do ex-presidente

A decisão foi histórica, e suas ramificações imediatas. Até porque ninguém estava realmente preparado para o acachapante veredito — nem o país, talvez nem os procuradores ou o juiz, certamente não o réu sentado no Tribunal Criminal de Manhattan. Por 34 vezes seguidas Donald Trump teve de ouvir o martelo monocórdio do tribunal de júri: “guilty”, “guilty”, “guilty”..., que em inglês soa ainda mais gélido e cortante que o “culpado” do nosso vernáculo. Estão postos, portanto, o ineditismo e a rebordosa do caso. Pela primeira vez na História americana, um ex-presidente (e inevitável candidato republicano à Casa Branca) acrescenta “criminoso” a seu currículo. E por um motivo que, de início, parecia apenas mais um dentre tantos escândalos da vida amoral do condenado: falsificação de registros contábeis para encobrir pagamentos à atriz pornô Stormy Daniels, com quem ele é acusado de ter mantido relação sexual. Os pagamentos em troca do silêncio da atriz ocorreram às vésperas da eleição presidencial de 2016 em que ele derrotou a democrata Hillary Clinton.

Poesia | O Pão do Povo, de Bertolt Brecht

 

Música | Mariana Aydar e Mestrinho - Eu Vou

 

sábado, 1 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Julgamento mais importante de Trump será na urna

O Globo

Condenação criminal inédita do ex-presidente lança disputa eleitoral deste ano em território desconhecido

Momentos depois de tornar-se o primeiro ex-presidente americano a ser condenado por um crime, ainda nas dependências de um tribunal em Nova York, Donald Trump declarou que o veredito será dado pelo povo em 5 de novembro, dia da eleição americana. Trump é conhecido por proferir mentiras em série, mas até o mais inflamado de seus críticos será obrigado a concordar que desta vez falou uma verdade: apenas as urnas terão o condão de decidir seu destino — e o de todo o país.

Os Estados Unidos não contam com lei semelhante à da Ficha Limpa, portanto, mesmo condenado, o nome de Trump estará nas cédulas depois de referendado na convenção republicana de julho. A sentença será proferida também em julho, dias antes da convenção. Como Trump não tem antecedentes criminais, é remota a chance de ser preso. O cenário mais provável é uma multa acompanhada de liberdade condicional. Ainda assim, o ineditismo da situação lança desde já a disputa deste ano em território desconhecido.

Oscar Vilhena Vieira -Desenraizamento institucional

Folha de S. Paulo

Nesta semana assistimos a mais um festival de deslealdades com o nosso combalido Estado de Direito

O ambiente institucional brasileiro vem passando por um preocupante processo de degradação na última década, que se reflete numa dificuldade cada vez maior de a lei servir como instrumento de determinação de condutas e estabilização de expectativas. E onde a lei não impera, prevalecem o arbítrio, a violência, o oportunismo, o mandonismo e uma perversa forma de extrativismo institucional.

A fragilidade do direito brutaliza a vida das pessoas, especialmente daquelas que estão mais vulneráveis ao crime, ao arbítrio e à negligencia do Estado ou mesmo à ação predatória de algumas poderosas corporações. A fragilidade da lei deteriora a eficácia das políticas públicas, das instituições democráticas e, por consequência, a confiança na democracia. A fragilidade da lei, por fim, reduz a eficiência dos mecanismos de mercado, inibe investimentos e emperra processos de desenvolvimento econômico e social mais sustentáveis e equitativos.

Dora Kramer - Sem rumo nem prumo

Folha de S. Paulo

Lula deixou o Congresso no vácuo, semeou descaso, natural que colha derrotas


Ainda na campanha, quando indagado sobre seus planos para se relacionar com um Congresso cheio de novos poderes, o então candidato Luiz Inácio da Silva (PT) não demonstrava preocupação. Dizia que resolveria tudo com muita conversa.

Transcorrido praticamente um ano e meio de governo, o presidente muito discursou, mas não resolveu nem conversou na forma e no conteúdo exigidos pela atual configuração do Parlamento.

Hélio Schwartsman - Trump condenado

Folha de S. Paulo

Veredicto do júri não deverá mudar muito as pesquisas eleitorais e mesmo assim poderá mostrar-se decisivo

Como a condenação criminal de Donald Trump afeta a eleição presidencial? A resposta tem algo de paradoxal. Não se esperam grandes movimentações nas pesquisas de intenção de voto. Com a polarização afetiva, eleitores fiéis ao ex-presidente devem tornar-se ainda mais trumpistas. Verão na decisão do júri nova-iorquino um ato de perseguição política, uma nova tentativa de "roubar" a Presidência ao magnata laranja. Já os democratas tenderão a ler o episódio como uma confirmação do que sempre souberam: Trump não passa de um bandido, indigno de ocupar o cargo mais alto do país.

Guga Chacra - Condenado, mas ainda admirado por republicanos

O Globo 

Apesar do sólido apoio entre apoiadores do seu partido, ainda é cedo para saber qual será impacto a condenação do ex-presidente e candidato terá no eleitorado como um todo

“Nada na Constituição (dos EUA) impede um criminoso condenado de ocupar a Casa Branca. E, para a base de Trump, ele não é apenas um homem, mas um movimento. Quantos mais problemas ele enfrenta na Justiça, mais seus apoiadores o reverenciam. Na campanha, a expectativa é de que ele aproveite a imagem de ídolo fora da lei, usando a sua condenação para se retratar como um prisioneiro político e vítima de uma conspiração democrata”, escreveu o New York Times em seu artigo para a posteridade na edição histórica do jornal desta sexta-feira, com a manchete de "GUILTY" ("culpado", em português), em fonte gigantesca, ocupando todo o topo da capa do jornal.

Pablo Ortellado - Chico Bosco tem razão!

O Globo

As universidades são mesmo muito de esquerda. Mas esse problema não foi gerado por uma conspiração

Na semana passada, Francisco Bosco concedeu ao jornal O Estado de S.Paulo uma entrevista sobre seu novo livro, “Meia palavra basta”. A certa altura, observou que nas universidades predominam visões políticas de esquerda e reconheceu que, com respeito a esse ponto específico e sem que tenha dito da melhor maneira, Olavo de Carvalho tinha razão. A menção ao infame ideólogo do bolsonarismo acendeu a fábrica de cancelamentos, e o necessário debate sobre a pluralidade política na universidade foi trocado pela condenação moral do ensaísta.

Carlos Alberto Sardenberg - A destruição das federais

O Globo

Professores e funcionários, no geral, não topam conversa sobre ganhos de produtividade, avaliação de desempenho

A greve dos docentes das universidades federais chega a 60 dias, aproximando-se do movimento de 2015, que deixou as faculdades paradas por mais de cem dias. Há muitas semelhanças: o governo é do PT, e os professores são representados por dois sindicatos que não se entendem, um petista (Proifes), outro mais à esquerda (Andes).

O Ministério da Gestão, petista, acertou um acordo com o Proifes (reajuste salarial e fim da greve), mas o Andes foi à Justiça e derrubou o acerto. Estaca zero.

Reparem: 60 dias de greve em escolas públicas, que vivem do dinheiro do contribuinte, era para ser um desastre nacional. Milhares de alunos sem aulas e tudo bem? Dinheiro público pode ser assim tratado?

Eduardo Affonso - A vingança de Machado

O Globo

Escritor continua moderno depois de os modernistas terem saído de moda. Não para de surpreender velhos leitores

Em 2023, a Fuvest decidiu deixar na geladeira, por três anos, os escritores que portassem (ou tivessem portado) cromossomos Y. O x da questão para estar na lista de autores a ser lidos para o vestibular não era o gênero literário, mas o biológico. Saíram Carlos Drummond e Machado de Assis, entre outros, e entraram, entre outras, Djaimilia Pereira de Almeida e Conceição Evaristo.

Num país onde as escolas tratam a leitura (e a literatura) a pontapé (vide os resultados do Pisa), os livros indicados para o vestibular costumam ser o primeiro contato dos futuros universitários com a obra (ou pelo menos um livro inteiro) de autores fundamentais —caso de Machado e Drummond. (Pausa para um flashback: fui apresentado a Osman Lins e Ivan Ângelo, aos contos de aprendiz de Drummond e ao narrador além-túmulo de Machado nas leituras obrigatórias, em 1976. Obrigado, UFMG!)

Alvaro Costa e Silva - Amor e ódio em Chico Buarque

Folha de S. Paulo

Dois livros abordam a relação do compositor com a censura e a sociedade brasileira

Em 1973, os censores da ditadura escandalizaram-se com a letra de "Flor da Idade", em que Chico Buarque arma uma ciranda amorosa —Dora amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca— inspirada no poema "Quadrilha", de Drummond, àquela altura já clássico.

O regime preparava a "distensão lenta e gradual", mas nada mudara entre Chico e a censura. O jogo de gato e rato se estendeu ao longo de três décadas, com episódios de repressão artística explícita e outros de ridículo universal —a proibição de a escola de samba Canarinhos da Engenhoca exibir um enredo em homenagem ao compositor, em 1974.

Miguel Reale Júnior - Em proteção da verdade

O Estado de S. Paulo.

Exemplos justificam que, no vazio legislativo, o TSE tenha vindo a proibir abusos prováveis comprometedores da legitimidade das eleições

A ministra Cármen Lúcia assume segunda-feira a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e é sua preocupação principal prevenir e reprimir as fake news, mormente com o uso da inteligência artificial (IA). Por ora, há frágil controle de conteúdo na internet, no art. 19 do Marco Civil (Lei n.º 12.965/2014). Dois projetos sobre a matéria esperam votação: o projeto n.º 2.630, aprovado no Senado, está paralisado na Câmara dos Deputados; e o projeto n.º 2.338 do Senado, sobre sistemas de inteligência artificial, encontra-se na Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial no Brasil, sendo relator o senador Eduardo Gomes.

Carlos Alberto Longo - Reinvenção da política no Brasil

O Estado de S. Paulo

Uma democracia representativa com trinta e tantos partidos torna-se prisioneira de manobras de facções, escorrega para o assembleísmo e cai no populismo

A globalização está na raiz da crise que abala não só o comércio e as finanças mundiais, mas também a legitimidade da democracia representativa praticada no Ocidente. Os problemas e o diagnóstico da crise política no Brasil são idênticos aos de quando se olhava para as eleições de 2018. A polarização entre os partidos de esquerda e de direita não arrefeceu, ao contrário, promete se intensificar nos próximos anos. A crise dos partidos, do sistema político e da democracia representativa não é um problema só nacional.

Uma agenda para contornar a nossa crise e reinventar a política já foi exposta com clareza pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas com uma importante restrição: desde que se admita que, no futuro, deverá prevalecer um regime liberal “contemporâneo”, ou seja, formas democráticas menos “verticalizadas”. Isso porque a disseminação de novas tecnologias de informação e comunicação potencializou a voz e a influência dos cidadãos.