sábado, 22 de agosto de 2026

Linchamento em Copacabana é o fundo do poço, por Flávia Oliveira

O Globo

Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos

Não chega a ser novidade a banalização da vida. No Rio de Janeiro. No Brasil. No mundo. Discute-se intensamente quais são os corpos suscetíveis à morte, deixados para morrer, matáveis. Cartão-postal carioca, território do maior réveillon do planeta, cenário de atrações internacionais todo mês de maio, bairro do hotel mais famoso do país, Copacabana agora é também palco da barbárie nua e crua. Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte, em via pública, por quatro assassinos, por supostamente ter subtraído a bicicleta com que saíra para passear na noite de terça-feira, 11 de agosto.

Cláudio Rafael não era ladrão. A bicicleta com que saíra de Botafogo, outro bairro da Zona Sul, para Copacabana pertencia a uma de suas irmãs. Inocente, foi vítima do ódio homicida de quatro criminosos, dois deles disfarçados de seguranças privados — eufemismo Zona Sul para aqueles que, no subúrbio e na favela, são denominados milicianos — e os demais, de entregadores do iFood. Em seis minutos, o quarteto desferiu 57 pauladas, chutes, pisões e socos num homem neurodivergente. Cláudio permaneceu em agonia na calçada por meia hora, até ser resgatado por bombeiros. No hospital, faleceu.

O sangue da vítima ficou no calçamento. Dias atrás, depois que a família denunciou o assassinato, a polícia passou pelo local em busca de vestígios e imagens. Os registros não deixam dúvidas sobre a covardia. O delegado encarregado do caso, Ângelo Lages, titular da 12ª DP, classificou o crime como homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, cometido com crueldade e sem chance de defesa da vítima.

A barbaridade cometida pela gangue é infinitamente mais grave que o pretenso furto ou roubo da bicicleta, fosse Cláudio Rafael um assaltante. Tiraram a vida de um inocente. Mas linchamento, pena capital, execução sumária não são punições previstas no Código Penal para furto simples (um a quatro anos de detenção), qualificado (dois a oito anos), nem para roubo (quatro a dez anos), ainda que com lesão corporal (sete a 18) ou morte (20 a 30 anos).

Uma sociedade que permite linchamento está, ela própria, adoecida; se pactua com o justiçamento, está ferida de morte. No corpo inerte de Cláudio Rafael ficaram as digitais dos quatro homicidas. Mas há sangue nas mãos da gente que contrata e autoriza milícia privada a imputar crime, condenar e punir, à margem do Estado Democrático de Direito. Há sangue nas mãos de quem passou pela rua e nada fez; de quem assistiu da janela e não gritou. Há sangue nas mãos de quem não chamou a polícia; que valoriza patrimônio em detrimento da vida. Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos.

O Brasil anda tomado pela violência desmedida, por dolo ou indiferença. O Rio de Janeiro, em particular, parece entorpecido pelo sequestro longevo do poder público pelo crime. O estado teve seis governadores presos ou investigados. Há cinco meses, é governado e faxinado pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ). O Tribunal Superior Eleitoral condenou à inelegibilidade Cláudio Castro, o governador que se reelegeu em 2022 abusando do poder econômico; renunciou para não ser cassado; e, hoje, é suspeito de envolvimento com Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, maior devedora e sonegadora de impostos do país, e com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, protagonista da maior fraude bancária da História. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, foi retirado da linha sucessória por envolvimento com o Comando Vermelho. Está preso em penitenciária federal. Foi tornado réu pela Primeira Turma do STF nesta semana.

Um dos maiores intelectuais do Brasil, Muniz Sodré, professor emérito da UFRJ, autor de dezenas de livros, em entrevista ao “Angu de Grilo”, podcast que mantenho com a jornalista Isabela Reis, minha filha, disse que a política perdeu o sentido. Por girar em torno dos próprios interesses, esvaziou-se. Ele se referia à morte, em junho, da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, lançada sem amarras da Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis (SP), no que seria um salto de rope jump.

— Eu realmente fiquei estomagado com aquilo. Como é que três pessoas seguram uma moça, ela própria não percebeu também que não tinha cordas, e a lançam? Isso é o Brasil. As pessoas não percebem que é preciso cordas, porque é preciso vínculo. Vínculo é diferente de relação. Temos relações sociais, mas vínculo é diferente. Passa pelo corpo, pela perna, pelo coração, pelo braço. Estamos numa crise da vinculação, que é ao mesmo tempo uma crise da política, da política sem amarras. Então, de repente, se abre o buraco para o pior.

É o fundo do poço.

 

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