Folha de S. Paulo, por Isadora Albernaz , Ricardo Della Coletta , Caio Spechoto e Mônica Bergamo
Presidentes do Brasil e dos Estados Unidos
conversaram por telefone nesta sexta (21)
Americanos impuseram tarifas que chegam a
37,5%
Brasília e São Paulo O presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT) telefonou na manhã desta sexta-feira (21) para o presidente
dos Estados
Unidos, Donald Trump,
e disse que o mais recente tarifaço aplicado contra o Brasil é baseado em
"alegações infundadas" envolvendo o Pix, o etanol brasileiro
e importações com trabalho forçado.
Segundo o comunicado do Planalto, a ligação
durou 1 hora e 20 minutos e ocorreu "em tom amistoso e cordial" entre
Lula e Trump, que teria sugerido que os negociadores dos dois países voltassem
a se reunir "o mais brevemente possível" —sem detalhar uma data.
A conversa se deu em um momento em que autoridades do governo Lula, que é candidato à reeleição, têm repetido que temem interferência estrangeira dos EUA nas eleições brasileiras. A gestão Trump é próxima do principal rival do petista, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro.
Em julho, os EUA impuseram duas tarifas sobre
o Brasil. Uma,
com alíquota, de 12,5%, tem por base acusações de falhas no controle de
importação de produtos feitos com o uso trabalho
forçado. Outras dezenas de países também foram tarifados.
O Brasil já estava sujeito à aplicação
de uma sobretaxa de 25%. A sanção, adotada após uma investigação sobre
práticas comerciais supostamente injustas, atinge milhares de produtos
brasileiros, mas isenta itens estratégicos para a pauta exportadora, como carne
bovina e café.
Essa sobretaxa foi imposta com base numa
apuração do USTR (Escritório do Representante Comercial) dos EUA que acusa o
Banco Central de privilegiar o Pix em detrimento de empresas americanas de
meios de pagamentos. Os americanos também disseram, na investigação, que o
Brasil aplica tarifas injustas para o etanol americano e falha no combate à
corrupção.
Em alguns casos, as tarifas são somadas,
chegando a 37,5% de alíquota.
Na conversa, Lula disse a Trump que as
tarifas afetam negativamente tanto o Brasil quanto os EUA e defendeu que as
negociações entre os países continuem.
"[O petista] Reiterou a importância de
trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais
parceiros comerciais do Brasil", diz outro trecho da nota do governo
brasileiro.
Já o presidente americano, de acordo com o
relato do Planalto, teria concordado "com a necessidade de preservar
vínculos comerciais fortes".
Membros do governo brasileiro avaliam nos
bastidores que, apesar do tom positivo da conversa, é improvável que o tarifaço
seja revisto.
Ainda segundo o Planalto, Lula conversou com
Trump sobre a recente designação do PCC (Primeiro Comando
da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. O
Planalto tentou convencer o governo americano a não adotar a classificação, sem
sucesso.
O presidente brasileiro defendeu ao americano
que as facções não são grupos terroristas, apesar de exercerem "terror
cotidiano sobre as populações mais carentes" e que o Brasil tem
instrumentos para enfrentá-las "sem precisar de classificação
especial". Citou, por exemplo, a Lei Antifacção aprovada no Congresso
Nacional e sancionada
por ele neste ano.
Lula também voltou a propor uma cooperação
com os Estados Unidos no combate ao crime
organizado e, de acordo com a nota, Trump indicou que vai destacar
funcionários de alto escalão do governo dos EUA "para dar seguimento aos
entendimentos nessa área".
O tema do combate à corrupção e ao crime
organizado será central nas eleições deste ano e deve ser usado por adversários
de Lula no pleito para desgastá-lo. Flávio Bolsonaro é a favor de classificar
PCC e CV como terroristas e explorou a situação politicamente, já que o anúncio
da medida foi feito após uma visita do senador à Casa Branca.
Além disso, como mostrou a Folha, as investigações sobre a
relação de Fábio
Luís Lula da Silva, o Lulinha, e de Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente
da República, com a lobista Roberta Luchsinger colocaram o assunto
novamente no caminho de uma campanha eleitoral de Lula, que já foi impactado
por escândalos como o Mensalão e a Operação Lava Jato.
Durante a ligação nesta sexta, Lula e Trump
também concordaram que é urgente encontrar uma solução para acabar
com a Guerra da Ucrânia, que começou em 2022, e falaram da resolução do
conflito contra o Irã.
Defensor de
uma reforma no Conselho de Segurança da ONU (Organização
das Nações Unidas), o petista criticou a "inoperância" do órgão e
sugeriu convocar uma reunião extraordinária para discutir as crises atuais, a
exemplo do que sugeriram os líderes da China, Xi
Jinping, e da Rússia, Vladimir
Putin.

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