domingo, 23 de agosto de 2026

Bolsonarinho, Lulinha e o efeito do prestígio de Lula na eleição, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Cenário eleitoral está quase parado desde março; campanha quente mal começou

Caso de filho de Lula comove mais elites do poder que caso de filho de Bolsonaro

Datafolha frustrou quem esperava aperto da diferença de votação entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Na sexta passada, centrais de boatos e "análises" de gentes dos mercados animavam-se com essa hipótese, baseada em rumores de pesquisas de partidos ("trackings"), de confiabilidade inverificável.

Em eleição apertada, escândalos ou manipulações podem mudar o jogo. A julgar pelas pesquisas, uns 3% do eleitorado tem se movido por causa disso, até agora. Mas há números maiores sendo esquecidos.

Desde maio a votação de Lula e Flávio no segundo turno quase não se moveu; desde março, o movimento foi mínimo. No segundo turno, um antilula continua a ter uns 40% dos votos. Em votos válidos de segundo turno, Lula tem 52%, Flávio 48%.

Também notável, 35% dos eleitores de Flávio votam nele para impedir a vitória de outro (no caso de Lula, 23%). Bolsonaro tem problemas com mulheres, não leva vantagem no Sudeste; Lula tem problema na "classe média" (renda de dois a cinco salários mínimos). Um cenário sem mudança.

popularidade de Lula está no vermelho desde o início de 2025, embora com flutuações relevantes em eleição apertada. Ainda assim, no segundo turno a votação de Lula é entre 10 pontos e 18 pontos maior do que sua nota "ótimo/bom" em grandes categorias de eleitores (sexo, renda, região, religião).

Na virada de 2024 para 2025, algo importante aconteceu com o prestígio de Lula, notícia velha relevante. Naqueles meses, houve pânico financeiro (dólar a R$ 6 etc.), alta forte da inflação da comida e a direita mentiu que Lula cobraria imposto do Pix. Variações do "endividamento" das famílias não parecem relacionadas com variações do prestígio de Lula. Difícil achar outros fatores pontuais de mau humor.

Menos atenção tem sido dada a essa questão: quando a campanha esquentar, Lula vai conseguir vender seu peixe e abater a avaliação negativa?

Gente do dinheiro e de partidos esperava ver efeito do pinga-pinga ácido de inquéritos sobre Fábio Luiz Lula da Silva, aliás Lulinha, ou sobre o dinheiro que Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, levava da lobista amiga de Lulinha. Marcola foi chefe de gabinete de Lula, um secretário-geral de assuntos internos do presidente. O pinga-pinga precário não envolveu Lula.

Gente do dinheiro e do poder pouco liga para escândalos, até porque apoia Bolsonarinho (Flávio). A ficha corrida desse candidato foi oficialmente enterrada nos inquéritos anulados pelos tribunais por irregularidades de procedimento. Furtos do erário, funcionários fantasmas, ganhos fabulosos com imóveis em Copacabana e com a fantástica loja de chocolates eram casos com muito mais dinheiro e fatos, que envolvem o candidato a presidente. Bolsonarinho ainda não explicou o que se fez do dinheiro que pediu a Daniel Vorcaro e é integrante de grupo político golpista, no Rio de Janeiro ligado ao crime no poder.

Enfim, os filhinhos do poder são "business as usual" das elites do sistema político, enfiadas cada vez mais em faturamento com lobbies, nepotismos, familismos e criação de dinastias ou feudos bancados com cargos e dinheiro público no STF, no STJ, nos TJs, no Congresso, no Executivo, em estatais, emendas, onde der. Escândalo nos olhos dos outros é refresco, se rende votos. No mais, dane-se.

Quanto ao grosso do povo, escândalos, ficha corrida, golpismo ou "economia" não parecem definir o grosso do voto.

 

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