sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Fernando Gabeira - Bolsonaro contra Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Com todo respeito aos vencedores, é inegável que o presidente é o grande adversário de si mesmo. Cavou sua derrota milimetricamente

Acompanhei, até agora, todas as eleições do período de redemocratização. Cada vez aprendo coisas novas e, sobretudo, fortaleço minha hipótese de que, sob certos aspectos, é um processo incontrolável.

Quero dizer com isso que, além dos candidatos, de seus especialistas em marketing e de todo o aparato analítico profissional na mídia, acontecem coisas imprevistas que acabam reforçando a ideia da complexidade do País. Aliás, essa lição já se configurou na facada em Bolsonaro em Juiz de Fora, criando o fato político mais importante daquela campanha.

Olhando para 2022, parece que o desafio aos planejadores aumentou. O Brasil escapa dos cálculos como um potro bravio.

Eleitores de Bolsonaro mataram dois eleitores de Lula, no Paraná e em Mato Grosso. Os fatos, sobretudo o primeiro, tiveram grande peso na sensação de vivermos um período violento, estimulado de cima pela própria política militarizante do presidente. As tentativas de Bolsonaro de atenuar o desgaste cooptando familiares do petista morto em Foz do Iguaçu mais associaram do que distanciaram sua visão política do crime.

Eliane Cantanhêde - Para onde correr?

O Estado de S. Paulo

Sem se mover, resta a Bolsonaro que ‘segundo turno é outra eleição’. Será?

Mais uma pesquisa atestando a estabilidade favorável ao ex-presidente Lula e capaz de desestabilizar a campanha do presidente Jair Bolsonaro: o Datafolha confirmou ontem que o petista se mantém firme e forte na faixa dos 45% e o presidente não sai do lugar, oscilando não mais para cima, mas para baixo.

A situação continua rigorosamente igual, mostrando, semana a semana, que Bolsonaro não atingiu o alvo de ultrapassar Lula nem reduziu a diferença. A nova pesquisa só não é um total desastre para ele porque a hipótese de segundo turno permanece real. Com a frustração de disparar em junho, julho, agosto, setembro... resta o consolo de que “o segundo turno é uma nova eleição”. Será?

Vera Magalhães - Quando jornalista vira pauta, algo vai mal

O Globo

Assédio deflagrado pelo presidente mostra uma campanha deliberada para minar credibilidade da imprensa

Relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras contou 2,8 milhões de ataques contra jornalistas nas redes sociais no primeiro mês de campanha eleitoral oficial. Dessas investidas, a maioria esmagadora se destina a mulheres e, entre elas, os ataques dirigidos a mim lideram, disparado, o ranking, com a companhia de colegas como Míriam Leitão, Amanda Klein, Andréia Sadi e Mônica Bergamo.

No meu caso, a onda de ataques e agressões, inclusive a mais recente, de assédio presencial do deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia, foi deflagrada a partir da investida de Jair Bolsonaro contra mim a uma pergunta feita a Ciro Gomes, com comentário do presidente, no debate de um pool de veículos de imprensa.

— Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro — disse Bolsonaro.

Foi a mesma frase reproduzida num cartaz com minha fotografia, içado num guindaste durante o 7 de Setembro em Copacabana. Também foi a mesma berrada por Garcia a poucos centímetros do meu rosto na última terça-feira, junto à mentira de que eu ganhava R$ 500 mil por ano para atacar o presidente.

Luiz Carlos Azedo - A violência contra Vera Magalhães espreita todos nós

Correio Braziliense

Na verdade, as grosserias e agressões a jornalistas por parte de Bolsonaro e seus aliados ocorrem desde o começo do governo, tendo como cenário io famoso cercadinho do Palácio da Alvorada

Nossa colega Vera Magalhães, vítima de um ataque direto do presidente Jair Bolsonaro (PL) no debate dos presidenciáveis na Band e, agora, mais recentemente, de uma agressão verbal do deputado paulista Douglas Garcia (Republicanos) — que está sendo investigado pelo Ministério Público por suspeita de crime de stalking e dano emocional àquela profissional —, tornou-se uma espécie de símbolo do relacionamento oficial do atual governo com a imprensa.

Na verdade, as grosserias e agressões a jornalistas por parte de Bolsonaro e seus aliados ocorrem desde o começo do governo, tendo como cenário privilegiado o famoso cercadinho do Palácio da Alvorada, local utilizado pelo presidente para suas conversas com apoiadores e entrevistas quebra-queixo com os jornalistas credenciados na Presidência. E se reproduzem nas redes sociais.

Bela Megale - O dado do Datafolha que mais preocupa a campanha de Bolsonaro

O Globo

Possibilidade de Bolsonaro ficar sem palanque em SP num possível segundo turno contra Lula acende alerta vermelho na campanha

O empate técnico entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Rodrigo Garcia (PSDB) na disputa pelo governo paulista apontada pelo Datafolha foi o maior banho de água fria na campanha de Bolsonaro. Isso porque há o risco de o presidente ficar sem palanque em São Paulo, maior colégio eleitoral do país e estado estratégico, caso Bolsonaro vá para um segundo turno com Lula.

Integrantes da equipe do presidente relataram à coluna que a expectativa era de que o ex-ministro se consolidasse nessa pesquisa como o adversário que iria para o segundo turno com Fernando Haddad (PT). O petista segue na liderança com 36% das intenções de voto, Tarcísio oscilou um ponto para cima, chegando a 22% e Rodrigo quatro pontos, alcançado 19% das intenções de voto.

Bernardo Mello Franco - Ciro e o voto útil

O Globo

Empacado nas pesquisas, pedetista amplia ataques a Lula e tenta evitar derretimento às vésperas da eleição

Ciro Gomes está nervoso. Na reta final da campanha, o candidato do PDT lançou uma cruzada contra o voto útil. Quer evitar que os eleitores o abandonem às vésperas da eleição.

Na quarta-feira, o pedetista acusou o PT de fazer “terrorismo” e “fascismo de esquerda” ao pregar o voto em Lula para encerrar a disputa no primeiro turno. “Sabe qual é uma das maiores fraudes das eleições democráticas? É o falso voto útil. É uma mistura de mentira e manipulação grosseira”, esbravejou, em vídeo divulgado ontem nas redes.

Há quatro anos, ele sustentava outra visão do fenômeno. Citava pesquisas eleitorais para defender o voto útil... em si mesmo. Com base nos números, alegava ter mais chances de vencer Jair Bolsonaro do que o petista Fernando Haddad. O discurso de 2018 fracassou, e o de 2022 parece não ter muita chance de colar.

Thomas Traumann - Estáveis nas pesquisas, Lula e Bolsonaro partem para os ataques na reta final

O Globo

Clima de segundo turno é antecipado enquanto os dois adversários estão no mesmo lugar em intenções de voto desde 16 de agosto

Faltando 15 dias para o primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) não saem do lugar nas pesquisas há quatro semanas e vão usar a mesma tática para tentar alterar a estabilidade: o ataque. No novo Datafolha, Lula tem 45% das intenções de voto há três semanas. Bolsonaro oscilou um ponto percentual para baixo e tem 33%. Na margem de erro, Lula e Bolsonaro estão no mesmo lugar desde 16 de agosto.

Na sua última propaganda de TV, Bolsonaro coloca uma apresentadora para afirmar que “a maior mentira da campanha é dizer que Lula foi inocentado dos processo das Lava-Jato”. Em outro spot de 30 segundos, a campanha edita uma fala do petista para afirmar que Lula “defende ladrões”. Em um terceiro, os filhos de Lula são chamados de corruptos.

No programa do PT, Bolsonaro é “ruim de serviço por ter sido desumano na pandemia e um desastre na economia”. Um comercial do PT diz que “com Bolsonaro a inflação voltou” e que o presidente semeia “ódio”.

Bruno Boghossian - Bolsonaro vê resistências a seu arsenal de campanha

Folha de S. Paulo

Depois de melhorar com evangélicos, classe média e Sudeste, presidente enfrenta limites de recuperação

A flutuação das intenções de voto registrada pelo Datafolha indica que o arsenal usado por Jair Bolsonaro (PL) nos últimos meses encontra uma certa resistência nesta etapa da campanha.

Depois de melhorar seus números em segmentos importantes como evangélicos, classe média e o eleitorado do Sudeste, a reta final do primeiro turno testa os limites de sua recuperação nesses grupos.

As três faixas são consideradas cruciais pelos coordenadores da campanha pela reeleição porque concentram uma grande quantidade de eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018 e, até os primeiros meses do ano, mantinham certa distância de sua candidatura.

As curvas traçadas desde então mostram que o presidente colheu algum retorno de seus investimentos para recuperar esses votos. Os sinais das últimas semanas, no entanto, apontam para uma estagnação em três critérios considerados fundamentais para Bolsonaro: as intenções de voto, a rejeição a Lula (PT) e sua própria rejeição.

Designado como principal campo de batalha pela equipe do presidente, com 4 de cada 10 eleitores do país, o Sudeste é o principal exemplo dessas trajetórias.

Em pouco mais de 100 dias, Bolsonaro ganhou sete pontos percentuais em intenções de voto na região, encontrando Lula numa situação de estabilidade. Mas um recorte mais limitado tem o presidente variando no mesmo patamar há cerca de um mês, agora com 34%.

Hélio Schwartsman – Voto útil é obrigação?

Folha de S. Paulo

O importante é Bolsonaro ser derrotado, tanto faz em qual turno

Lula e aliados vêm aumentando a pressão sobre os eleitores de Ciro e Tebet para que eles abracem o voto útil e assegurem a vitória do petista já no primeiro turno. O que estaria em jogo é a própria democracia.

Eu estou convencido de que Bolsonaro representa não só um risco institucional como também civilizacional e confesso que torço para que sua derrota seja a mais humilhante possível. Não vejo, porém, como afirmar que exista, para os democratas, a obrigação moral de eleger Lula já no próximo dia 2.

A primeira parte de meu argumento é estatística. Bolsonaro receberá dezenas de milhões de votos. Penso que seus eleitores estão equivocados, mas hesitaria em classificá-los todos como antidemocratas. Aliás, se esse fosse o caso, já não haveria no país democracia a defender.

Mariliz Pereira Jorge - Hora de virar voto é agora

Folha de S. Paulo

Petistas não querem perder o protagonismo da luta contra Bolsonaro

A duas semanas da eleição, a hora de mudar o voto é agora. Mas a impressão é que o petista não está preocupado com o resultado do pleito, o petista quer ter razão, quer lavar a roupa suja com antigos críticos do partido.

Diferentemente de Lula, que deixou no passado suas diferenças políticas com Alckmin em nome de uma aliança democrática contra Bolsonaro, a militância, sempre que pode, se dedica a desencavar tuítes e vídeos para mostrar que nem todo mundo é limpinho o suficiente para estar no mesmo lado da trincheira.

Não bastasse ser vítima da covardia bolsonarista, Vera Magalhães virou alvo de eleitores da esquerda que, quando deveriam estar ocupados em virar voto, resolveram cobrar o que eles consideram ser uma dívida dela como profissional. Eu tinha me esquecido que não são só bolsonaristas os que não admitem oposição ao seu político. Mas jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Obrigada, Millôr.

Reinaldo Azevedo - Ciro mira 2026; pobres voltam para Lula

Folha de S. Paulo

Eleitorado de baixa renda poderia garantir novo ciclo longo ao PT

É muito provável que Ciro Gomes (PDT), que se manteve como o terceiro colocado na disputa desde o início da corrida eleitoral, tenha merecido menos atenção de colunistas de qualquer veículo profissional —não trato do espaço noticioso— do que nomes da extinta "terceira via".

Se indagados sobre os motivos, seus partidários, especialmente os engajados das redes, terão a resposta na ponta da língua: também os analistas, a exemplo de toda a imprensa, seriam reféns da "polarização odienta" e não dispensariam "ao único candidato realmente independente dos banqueiros" a devida importância. Será mesmo assim?

Um amigo refletiu: "Por que vou escrever sobre Ciro? Não tem chance de ganhar. E, de quebra, os seus partidários começarão a me ofender nas redes caso não gostem de alguma coisa. Já basta ter de escrever sobre Bolsonaro e tomar porrada de seus fanáticos". É claro que deve haver outras razões, mas a impossibilidade de o analista sair ileso é uma delas.

Vinicius Torres Freire – Maioria do eleitorado decidiu cedo

Folha de S. Paulo

Neste mês, variações de voto e rejeição foram ínfimas, debate do voto útil vai esquentar

Desde o final de agosto, a variação do voto para presidente é mínima ou ninharia mesmo, segundo os números das pesquisas Datafolha. Na prática ou na fria estatística, não há mudança na rejeição a Jair Bolsonaro (PL) e a Lula da Silva (PT), nem em suas votações. A avaliação do governo está na mesma. O petista pode levar no primeiro turno, mas é improvável —depende de pescar 2,5 milhões de votos em outras candidaturas.

conversa sobre o voto útil vai ficar mais intensa e tensa. Abstenções podem fazer diferença na decisão em primeiro turno. Fazendo piada, mas não muito, até a previsão do tempo no domingo de votação pode ser relevante, caso o cenário permaneça inalterado até a véspera do voto. Uma onda de chuva ou de "fake news" e baixarias podem render décimos de porcentagem de votos.

Cerca de 90% dos eleitores decidiram em quem votar faz mais de um mês, pelo que dizem agora ao Datafolha (entre os ora "totalmente decididos"). Apenas 6% desse eleitorado diz ter decidido o voto para presidente neste mês. A parcela de eleitores "totalmente decididos" quanto a seu voto muda um tico a cada semana, para cima, ora em 78%.

Rogério Furquim Werneck - A importância do segundo turno

O Globo / O Estado de S. Paulo

Disputa tem de ir além de um triste torneio de propostas irresponsáveis. Candidatos terão de conquistar eleitores de centro

Já não há mais esperança de que o nível da campanha presidencial ainda possa melhorar. Frustraram-se, mais uma vez, os que se deixaram levar pela fantasia de que, a esta altura, poderíamos estar presenciando amplo e proveitoso debate nacional sobre os graves desafios que o país tem pela frente. Não foi o que se viu. Nem o que se verá nos escassos 15 dias finais da campanha do primeiro turno.

Como não poderia deixar de ser, numa eleição tão polarizada, o tom dominante da campanha vem sendo dado pelos dois candidatos que lideram por larga margem as pesquisas de intenção de voto. Em meio à estridência de acusações mútuas de corrupção, à troca de impropérios e às saraivadas de promessas demagógicas, pouco se salva.

O mais angustiante, para quem entrevê a real extensão das dificuldades de ordem fiscal que terão de ser enfrentadas em 2023, é o triste torneio de propostas irresponsáveis que vem sendo travado pelos dois candidatos.

José de Souza Martins* – Brasil e Inglaterra, encontros

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O país que somos e conhecemos resulta em boa parte da mediação política, econômica e cultural inglesa. Não raro da cópia, mais do que da invenção

Na mesma Abadia de Westminster, em Londres, em que ocorrerá a cerimônia religiosa do funeral da rainha Elizabeth II, está sepultado o marquês do Maranhão, Lord Thomas Cochrane, que, a convite de Dom Pedro I, em 1823, foi o primeiro almirante da Marinha Brasileira. Nessa condição participou da luta pela independência do Brasil na Bahia, em Pernambuco, no Pará e no Maranhão. Era um odiado mercenário escocês.

A essa mera coincidência pode-se agregar outra: o presidente Bolsonaro anunciou que comparecerá ao funeral da rainha, cujo réquiem será celebrado pelo arcebispo da Cantuária naquela abadia.

Essas coincidências expressam o lugar que a Inglaterra tem tido no mundo desde a Revolução Industrial, que lá nasceu. E expressam, também, o lugar decorrente do Brasil desde o nascimento da pátria. Até desde antes do século XVII, quando Portugal celebrou uma aliança com aquele país através do casamento de dona Catarina, filha de Dom João IV, com o rei Charles II, quando da restauração do trono após o intervalo republicano de Cromwell e do Parlamento.

O Brasil Colônia teve sua parte nas mudanças que ocorreram lá e cá. O ouro brasileiro, de Cuiabá, de Goiás, de Minas Gerais e até do Jaraguá, em São Paulo, arrecadado com a cobrança do quinto real, ia para Portugal e acabava na Inglaterra.

César Felício - Um espectro para cada candidato

Valor Econômico

Abstenção assombra Lula e Bolsonaro teme voto envergonhado

Há dois espectros rondando a reta final das eleições: um é o impacto da abstenção eleitoral, ou seja, do não comparecimento às urnas no dia 2 de outubro de parte considerável do eleitorado. Este já é objeto de preocupação explícita do líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O outro é o voto envergonhado. Trata-se do eleitor que, por se sentir intimidado em seu meio social, guarda para si a opção política que traz dentro do peito. Há sinais de que este fator está preocupando o presidente Jair Bolsonaro e seu entorno.

Observe-se por exemplo as reações despertadas pela agressão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos-SP) à jornalista Vera Magalhães no debate de governadores da terça-feira à noite na TV Cultura.

O parlamentar, muito conhecido pela agressividade, abordou a jornalista e replicou as ofensivas dirigidas a ela por Bolsonaro quando houve o debate presidencial na TV Bandeirantes. Celular em punho, Garcia disse que Vera Magalhães era uma vergonha para o jornalismo nacional. O ultraje terminou quando o diretor de jornalismo do canal arremessou para longe o telefone do deputado estadual.

O episódio provocou repulsa pública até mesmo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o filho do presidente que já se envolveu em mais de um lance de misoginia contra jornalistas.

Márcio G. P. Garcia* - Economia e eleições

Valor Econômico

A melhora recente da economia não deve persistir no próximo ano, tanto no Brasil como nos EUA

Paul Krugman escreveu um artigo interessante(1) nesta semana em que analisa o comportamento recente de um indicador de bem-estar econômico bem antigo, o índice de miséria (misery index), e sua potencial influência nas eleições de novembro nos EUA. Nessas eleições, chamada de “midterms” por ocorrerem no meio de mandato do presidente dos EUA, serão renovados os mandatos de todos os deputados e de 1/3 dos senadores. Portanto, será então definida a margem de manobra no Congresso dos EUA com que Biden contará para implementar suas políticas no biênio 2023-24.

O índice de miséria, ou taxa de desconforto, é um indicador bastante simples do (inverso do) bem-estar econômico. É obtido pela simples soma de duas variáveis econômicas que geram desconforto: inflação e desemprego. Portanto, quanto maior o índice da miséria, pior está a economia.

Claudia Safatle - Dívida não terá meta, mas uma referência

Valor Econômico

Para ter responsabilidade fiscal é necessário entendimento da importância que isso tem, ter compromisso político e maturidade para levar adiante medidas, em geral amargas, porém necessárias

Passados seis anos de vigência da lei do teto de gasto, o governo começou a discutir com economistas do setor privado o que poderia ser entendido como novo regime fiscal: arcabouço de regras para garantir a solvência da dívida pública.

Diferentemente do imaginado quando fez o primeiro texto sobre o assunto, em 2019, agora não se pretende mais ter uma meta para a dívida, a ser cumprida a ferro e fogo. Prefere-se estabelecer uma referência e criar incentivos para persegui-la. Nesse sentido, uma dívida bruta do governo geral equivalente a 60% do PIB estaria de bom tamanho. Mas não é seguro, ainda, que se vá escolher a dívida bruta como referência; pode ser a dívida líquida, por exemplo. O texto para discussão é intitulado “Regras fiscais: uma proposta de arcabouço sistêmico para o caso brasileiro”.

Lula diz que não é favorável a inibir candidaturas e que nunca aceitou voto útil

Ele também criticou o corte no orçamento do programa Farmácia Popular. “Tirou dinheiro para poder colocar no orçamento secreto”

Por Mariana Ribeiro, Valor Econômico

SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que não é favorável a inibir candidaturas e que nunca aceitou o argumento do “voto útil”. O candidato havia sido questionado sobre as articulações para atrair apoio do PDT, de Ciro Gomes.

“Eu fui vítima do voto útil muitas vezes. Muitas vezes falaram ‘o Lula não pode ser candidato por causa do voto útil’ e eu nunca aceitei isso. O povo tem que ter liberdade de escolher os seus candidatos”, disse a jornalistas hoje durante agenda em Montes Claros (MG).

Ciro lançou nesta semana uma campanha contra o voto útil para reagir ao movimento iniciado pela campanha do petista e evitar o derretimento da sua candidatura nas últimas semanas antes do primeiro turno.

Lula disse ainda que o presidente Jair Bolsonaro (PL) aumentou o Auxílio Brasil para R$ 600, mas não conseguiu crescer nas pesquisas como esperava. "A rejeição dele é maior que a aceitação”, acrescentou. O petista disse que ainda espera ganhar no primeiro turno e reforçou críticas a Bolsonaro.

“Fui candidato à reeleição e a gente só podia viajar depois do expediente. Ou seja, a gente está percebendo que ele não trabalha mais. Ele nunca governou. Agora não governo e não trabalha”, disse em relação ao presidente.

Ele também criticou o corte no orçamento do programa Farmácia Popular. “Tirou dinheiro para poder colocar no orçamento secreto.”

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Instituições precisam barrar onda de violência política

Valor Econômico

Retórica incendiária do presidente cria ambiente favorável a confrontos

A violência política não é novidade no Brasil, mas com a ascensão à Presidência da República de Jair Bolsonaro deu um salto em escala. Ela está se generalizando, após deixar os rincões dos velhos coronéis para as cidades e, nelas, é abertamente propagada nas redes sociais. Há pouca coisa mais desmoralizante dos valores republicanos e da democracia de que o governo Bolsonaro abrigar no Palácio do Planalto funcionários pagos com dinheiro dos contribuintes em um autodenominado “gabinete do ódio”.

O principal propagador de ideias que tem em seu germe a violência contra adversários políticos é o presidente, que detesta jornalistas que o questionam, é misógino e não tem a democracia como seu regime favorito. O episódio mais recente de agressão e constrangimento à imprensa ocorreu durante um debate entre os candidatos a governador do Estado de São Paulo, na terça-feira. O deputado Douglas Garcia (Republicanos-SP), que apoia o bolsonarista Tarcísio de Freitas, em segundo lugar nas pesquisas, arremeteu, celular em punho, contra a jornalista Vera Magalhães, utilizando contra ela as mesmas palavras que Bolsonaro já dissera em debate na TV Bandeirantes, de que era “uma vergonha para o jornalismo”.

A retórica de Bolsonaro, seus filhos e acólitos é beligerante, incompatível com a que deveria usar alguém que ocupa um cargo cujo dever é representar os brasileiros e não apenas os de sua gangue de maus modos. Na atual campanha, Bolsonaro já pregou “extirpar essa raça”, referindo-se aos petistas, em um eco mais brando do que o de sua conclamação no Acre na campanha de 2018: “Vamos fuzilar a petralhada”.

Poesia | Fernando Pessoa - Sou eu

 

Música | Jorge Aragão - De Sampa a São Luis

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Paulo Fábio Dantas Neto* - Data vênia: o 2 de outubro não será o dia da melhor decisão

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
(...)

Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço
Meu tempo é quando

(Extratos de “Poética I” – Vinicius de Moraes)

Quando o presidente da República, candidato à reeleição, disse, ontem, pela primeira vez, 19 dias antes do pleito, que vencerá a eleição em primeiro turno, a afirmação sinalizou, mais que uma profecia, ou bravata, dita na contramão das pesquisas, que a sua candidatura, afinal, somou-se à do seu principal desafiante numa campanha pelo chamado “voto útil”. Agora tudo indica que o relativo sossego de Simone Tebet como alvo chegou ao fim. Cientes de que ela conquista muitas intenções de voto que, sem ela, iriam para o atual presidente, os capitães da campanha pela reeleição deverão mover sua artilharia para secar a candidatura do MDB/PSDB/Cidadania. Para Simone, um teste de fogo e um belo desafio.

No mesmo dia, pela boca do desafiante principal, que há mais de um ano lidera as pesquisas de intenção de voto, saiu a mesma voz de comando oficial. No caso do líder, sua voz agora apenas formaliza algo que até as pedras já anunciavam, pois sua campanha pelo voto útil começou há várias semanas, por muitas centenas, talvez milhares, de vozes informais espalhadas por redes de militância, mirando eleitores que intencionam votar em Ciro Gomes. Convergem nesse apelo apoiadores em vários setores da sociedade, assim como políticos de outros partidos que se juntaram à frente de esquerda liderada pelo PT.

A pressão, e/ou a convicção, por uma decisão final em primeiro turno tem reunido muito mais gente, além do comitê (ou QG, no jargão bélico da moda) da principal candidatura da oposição. Espalhou-se como fogo no breu pelas redes sociais mobilizadas, penetrou em ambientes onde se faz análises acadêmicas ou jornalísticas e é acolhida com simpatia e mesmo engajamento, por linhas editoriais da grande imprensa (à exceção do “Estadão”), em especial pela mídia televisiva da Globo e da CNN.  

Merval Pereira - Procuram-se votos

O Globo

Campanha de Lula pelo voto útil no primeiro turno mostra incongruência do petista

O ex-presidente Lula está demonstrando, mais uma vez, que é uma metamorfose ambulante. Muda de opinião dependendo de a situação ser favorável a ele ou não. Agora se empenha em pedir o voto útil em seu nome já no primeiro turno da eleição e garante que sempre disputou eleição para vencer direto, o que nunca conseguiu, desde 1989, primeira vez em que concorreu à Presidência.

Mas sua visão sobre voto útil já foi diferente. Em 2020, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o PT se recusou a apoiar Guilherme Boulos, do PSOL, contra o então prefeito Bruno Covas. O candidato petista, Jilmar Tatto, ficou nos 6% dos votos e, mesmo assim, não abriu mão da disputa. Não tinha a menor chance de vencer, como aparentemente não têm hoje Ciro Gomes e Simone Tebet, mas se recusou a retirar seu nome em favor do candidato de esquerda mais bem colocado. Acabou vencendo o então prefeito tucano. O que demonstra que não havia voto suficiente na esquerda para vencer a eleição, no primeiro ou no segundo turno.

Lula justificou-se dizendo que o primeiro turno é para votar no candidato preferido, no segundo faz-se o acordo. Hoje, o PT faz pressão para que eleitores de Ciro e Tebet votem em Lula no primeiro turno, com base em várias presunções: eles não têm chance de vencer; votar neles seria ajudar Bolsonaro a ir para o segundo turno; não votar em Lula é ser bolsonarista.

Conrado Hübner Mendes* - É voto de sobrevivência, não é voto útil

Folha de S. Paulo

Numa eleição incomparável, dar a Bolsonaro chance do segundo turno põe tudo em risco

Política democrática é política do sonho e da frustração. Muita frustração. Impõe escolhas não-ideais e subótimas, mas entrega o que regimes não democráticos sonegam: canais para reivindicação de direitos e controle do poder. Abre portas para reclamar por liberdade e dignidade. Por desenvolvimento econômico e social. Distribui o direito de disputar o passado, o presente e o futuro a partir de regras compartilhadas.

Envolve paixão, mas também requer responsabilidade. Requer disposição de eleitores e candidatos para perderem sem melar o jogo. Requer atenção para reconhecer quando a possibilidade de jogar está em risco evidente, e maturidade para minimizar esse risco.

violação estrutural e contumaz de regras eleitorais sempre foi o modo bolsonarista de competir. Não é apenas traço de caráter, mas projeto orquestrado de mudança regressiva de regime político, também chamado de autocratização. Um projeto tão claro nunca esteve em curso nos 30 anos anteriores.

Míriam Leitão - Bolsonarismo e a violência

O Globo

É um erro tratar como eventos isolados o que é sistêmico. Bolsonaro tem a violência como projeto político e as mulheres e a imprensa são alvos

Nada tem acontecido por acaso. O novo ataque que a jornalista Vera Magalhães sofreu é parte de um contexto muito maior e que põe o próprio país em perigo. O agressor, o deputado do Republicanos Douglas Garcia, usou a mesma expressão jogada contra Vera por Bolsonaro. O presidente da República tem a violência como projeto. Por isso fez o incessante trabalho de ampliar o acesso às armas, vociferar contra pessoas que ele escolhe como alvo e jamais desautorizar ato truculento de seus seguidores. Bolsonaro escolheu a imprensa como um dos alvos, e dentro dela mira pessoas, porque assim é o método. Ao individualizar, ele autoriza o ataque e canaliza a raiva que ele alimenta com fins políticos.

O Repórteres sem Fronteira divulgou relatório do primeiro mês de campanha. Nele ocorreram 2,8 milhões de postagens com ofensas ou agressões a jornalistas, 88% deles contra mulheres. O chavismo fez isso também na Venezuela. Hugo Chávez apontava os jornalistas que ele definia como inimigos. No fim, foram fechados vários jornais e emissoras. O governante autoritário quer eliminar a imprensa e para isso começa intimidando alguns jornalistas.

Bruno Boghossian - A bifurcação do bolsonarismo

Folha de S. Paulo

Aliados de Bolsonaro se dividem diante de ofensa a Vera Magalhães, mas bifurcação leva ao mesmo destino

O bolsonarismo amanheceu partido. "Tarcísio acabou de destruir sua candidatura", sentenciou um fervoroso seguidor do presidente numa publicação nas redes. "Mais um traidor para a lista?", questionou outro apoiador. "O Tarcísio vai negociar tudo. Vai negociar a tua família", afirmou o ex-ministro Abraham Weintraub.

Na disputa pelo governo paulista, Tarcísio de Freitas exibe com gosto as credenciais do ex-chefe Jair Bolsonaro, mas se tornou alvo de eleitores fiéis do presidente. O motivo: Tarcísio decidiu rifar publicamente o deputado estadual bolsonarista que ofendeu a jornalista Vera Magalhães após o debate da última terça-feira (13) entre candidatos ao Palácio dos Bandeirantes.

Vinicius Torres Freire - Uma campanha eleitoral mais podre

Folha de S. Paulo

Discussão sobre eleição é dominada por medo e torpezas do bolsonarismo

Uma das notícias mais comuns desta campanha eleitoral é a violência. Há alguns assassinatos, pancadarias e ataques como esses liderados por Jair Bolsonaro (PL) contra a jornalista Vera Magalhães.

No mais, qual o "debate"? Ganhar eleitores evangélicos; a tentativa do bolsonarismo de apagar décadas de imundícies contra mulheres e a humanidade; a campanha das cartas democráticas, que amorteceu a ofensiva golpista; o efeito do Auxílio Brasil na votação.

Sim, há realidades que determinam resultados, como o voto de classe e fome, a influência dos novos poderes sociais e políticos, uma nova divisão regional do voto, a propensão dos mais velhos e muito jovens a votar em Lula da Silva (PT). Mas o que é tema de conversa?

Maria Hermínia Tavares* - Não à tutela militar das urnas

Folha de S. Paulo

O avanço da farda sobre as urnas significa que a necessária separação entre Forças Armadas e política partidária começa a ruir

Pôr em dúvida o mecanismo eleitoral para desqualificar seus resultados é um dos mais batidos recursos a que apela a extrema direita populista. Netanyahu, em Israel; Fujimori, no Peru; além do notório Trump, usaram e abusaram nas campanhas das quais sairiam derrotados, como talvez temessem.

Bolsonaro, portanto, não inova ao disseminar —dia sim, o outro também— denúncias vazias sobre a votação eletrônica. A sua contribuição original para a corrosão da democracia é outra: a forma como vem tentando envolver as Forças Armadas na contestação antecipada de sua provável derrota.

Já em 8 de agosto de 2021, no mesmo dia em que o Congresso abateu a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) que tornava obrigatório o voto impresso, o ex-capitão fez os blindados da Marinha desfilarem na Esplanada dos Ministérios. Agora há pouco, tratou de confundir a parada militar e as exibições da Força Aérea pelos 200 anos de Independência com a mobilização por sua reeleição. Nos dois episódios, o que ele quis foi sugerir que os militares endossam suas investidas —por enquanto retóricas— contra as instituições democráticas.

Eugênio Bucci* - O macho fascista

O Estado de S. Paulo

Liberdade - Nada apavora mais o macho fascista que uma cidadã que pense por si e não se dobre

Itália, 1938. “O homem fascista é pai, marido e soldado.” Esse slogan publicitário circula como propaganda oficial de Mussolini. A frase estampa pôsteres e outros materiais do regime.

Um desses pequenos cartazes pode ser visto numa cena do filme Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare), de Ettore Scola. A produção de Carlo Ponti, lançada em 1977, narra o encontro improvável de um radialista (Marcello Mastroianni) e de uma dona de casa (Sophia Loren) que, no domingo de 8 de maio de 1938, ficam sozinhos num prédio de apartamentos em Roma. Naquele dia, Hitler e alguns de seus ministros visitam a cidade. Todas as outras pessoas que moram no edifício, vestidas com suas melhores roupas, foram aplaudir o Führer e o Duce, que discursam diante do Monumento Nacional a Victor Manuel II. O radialista não se sente parte dos festejos, uma vez que, além de intelectual, é gay (não é pai, nem marido, nem soldado). A dona de casa tem que lavar roupas e, aos poucos, percebe que o fascismo só lhe reserva um papel subalterno. Ela deseja desejar outra vida.

Brasil, 2022. Aqui não existe fascismo propriamente dito, mas traços do fascismo estão em toda parte. A misoginia autoritária é um desses traços. Falocentrismo armado. O ódio aos intelectuais é outra peculiaridade da mesma doutrina, assim como a repressão às artes, o desprezo pelas universidades e os ataques incessantes contra a imprensa.

Sergio Amaral* - A demolição da política externa brasileira

O Estado de S. Paulo

O que o Brasil ganhou com a série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País?

O Itamaraty é uma das instituições mais respeitadas do serviço público brasileiro. Seus funcionários são, via de regra, competentes. O concurso de ingresso é rigoroso, a formação e o aperfeiçoamento dos diplomatas estendem-se ao longo de toda uma carreira. Seu compromisso com o País é inquestionável.

Não obstante, a política externa foi um dos desastres do governo de Jair Bolsonaro. De início, o presidente seguiu, em suas linhas básicas, a política externa de Donald Trump, que isolou os Estados Unidos do mundo e fez adversários em todas as partes, inclusive na Europa, onde os Estados Unidos sempre mantiveram alianças estreitas e amigos fiéis. Combateu a ordem mundial concebida e implantada por iniciativa dos Estados Unidos nas conferências de São Francisco e de Bretton Woods, logo após o término da Segunda Guerra Mundial.

As confusas e obscuras visões de mundo de Ernesto Araújo, o primeiro chanceler de Bolsonaro, inspiraram-se nas exóticas teses de Steve Bannon, o influente guru e “estrategista” de Trump, que chegou a criar um “movimento” nacional populista na Europa, com sede no mosteiro medieval de Trisulti, na Itália. Seu objetivo era o de abrigar uma escola para a formação dos cruzados do século 21. Ali eles seriam adestrados para defender os valores da cultura judaico-cristã contra as ameaças dos infiéis e do materialismo ateu. Os alunos do Instituto Rio Branco foram convocados para assistir a palestras nas quais ouviram, perplexos, uma doutrinação em defesa dos valores do cristianismo medieval. Não chegaram a realizar o seu treinamento em Trisulti, mas no auditório do Instituto Rio Branco, em Brasília.

William Waack - Lula precisa dizer

O Estado de S. Paulo

Não está claro se o líder nas pesquisas compreendeu as mudanças dos últimos 20 anos

Lula mantém nos debates e entrevistas uma referência central para dizer como governaria em 2023: o que ele pegou em 2003. Ocorre que o Brasil e o mundo mudaram muito e, para pior, do ponto de vista de um presidente da República. Vamos a algumas mudanças decisivas (a lista não é exaustiva).

A questão fiscal se agravou e virou um sério dilema representado pela quebra de um consenso social, que foi o de criar no Brasil um estado de bem-estar sem a capacidade de financiar crescentes gastos sociais. Lula estaria obrigado a combinar política monetária contracionista (para evitar inflação) com uma política fiscal expansionista (para fazer transferência de renda). Ainda não disse como.

No já ruim sistema de governo, o Legislativo avançou sobre o Executivo de maneira inédita e usurpou instrumentos de poder real. Emendas impositivas e do relator mudaram a característica da relação entre Planalto e Congresso, talvez de forma definitiva. O presidente, reconhece Lula, se tornou refém. Para governar, teria de alterar essa relação, mas não disse como.

Malu Gaspar - A guerra das pesquisas

O Globo

Projeções têm sido usadas como 'armas' para o discurso político na corrida pelo Palácio do Planalto

Tirando a onipresente preocupação com o futuro da nossa democracia, há traços bem marcantes por que esta campanha eleitoral será lembrada. É a primeira vez que dois políticos já testados na Presidência, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, disputam o mesmo pleito. Provavelmente por já conhecerem bem os dois personagens, os eleitores manifestam um grau de certeza sobre o voto dos mais altos já registrados, em torno de 80%.

Esse quadro ajuda a explicar outro fenômeno que está se provando tão marcante nesta eleição quanto foi a preponderância das redes sociais em 2018: o uso das pesquisas eleitorais como arma para o discurso político.

Numa disputa polarizada e há meses sem nenhum fato novo que mude substancialmente o cenário geral, estrategistas, analistas políticos e o público têm ido buscar nas pesquisas a fórmula para sair da inércia.

Maria Cristina Fernandes - A combustão bolsonarista

Valor Econômico

Praga do radicalismo, depois de ter sido alimentada pelo presidente, agora se volta contra as campanhas majoritárias do bolsonarismo

Quando duas pesquisas de metodologia reconhecida, como a do Ipec e da Quaest, discrepam para além da margem de erro sobre a distância entre os líderes da disputa presidencial, de 15 pontos para o primeiro e oito para o segundo, nenhuma biruta sinaliza melhor os rumos do que aquela das campanhas. A do bolsonarismo está desgovernada.

O sinal derradeiro disso foi dado pela agressão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) à jornalista Vera Magalhães. Foi a espontaneidade do gesto que o torna mais eloquente. Está claro que o parlamentar não foi instruído pela campanha bolsonarista, mas pela expectativa de alavancar sua reeleição.

E é por isso que a reeleição do presidente está em apuros. Se em 2018 ele foi capaz de tirar os radicais do armário para dar combustão a um sentimento difuso que se denominou de antipetismo, esses mesmos radicais hoje fugiram controle. Até podem alavancar candidaturas proporcionais, mas produzem estragos em candidaturas majoritárias. Se servem de combustível para algo hoje é ao antibolsonarismo que move a campanha de 2022.